Entrevista: LAURE LIMONGI





Laure Limongi - Escritora e Editora

A escritora francesa Laure Limongi está no Brasil e fala a ARdoTEmpo sobre o  cenário atual da literatura francesa, enfocando as relações da arte literária com as novas mídias. Poeta, crítica literária, editora, música e cantora, Laure Limongi participa ativamente da atual cena cultural francesa.

Ela tem vários livros publicados e atua como editora de
uma das coleções de literatura contemporânea da
Éditions Léo Scheer, Paris.


ArdoTempo: Laure Limongi, você é bastante atuante e envolvida com a produção literária contemporânea, como autora e como editora. O que você pode dizer sobre o cenário atual francês, sobre os autores e
sobre o público para estes novos livros?

Laure Limongi : Na França, fala-se todo o tempo que a literatura e a edição de livros vão mal. Economicamente, isso não é falso. Mas eu observo sobretudo, sendo como você mesmo disse, atriz nesse cenário e uma trabalhadora no ofício da literatura, que existe a energia e a diversidade das publicações.

De numerosos jovens autores desenvolvendo uma obra audaciosa. Não podendo citar a todos aqui, eu penso em alguns nomes como Céline Minard, Emmanuel Tugny, Emmanuel Rabu, Claro, Daniel Foucard, Nathalie Quintane, Olivia Rosenthal...

Dos editores e das coleções que trabalham duro para defender a divulgação de seus textos, indico: POL, a coleção Fiction & Cie, a Seuil, Quidam Éditeur, Allia, Verticales, L’Olivier, a minha coleção, Laureli, em Éditions Léo Scheer...

O público para essa literatura dita "exigente"  – este é um termo que se emprega para designar uma simples classificação formal – não é, certamente, gigantesco nem crescente mas é um público apaixonado que acompanha rigorosamente a seqüência das publicações. O universo dos blogs literários funciona esplendidamente na comunicação da existência desses novos livros. As livrarias, igualmente, fornecem um apoio fundamental : são essas livrarias independentes, muito particularmente, que lutam com todas as suas forças contra o consumo literário dirigido pelos  "block-busters" (as grandes redes megastores) e organizam numerosos saraus e leituras com a presença de autores para aproximá-los e fazê-los conhecidos aos seus leitores.    

AT : Como se desenvolve a linguagem contemporânea, e se o público reage,
positivamente, a isso?

LL : De múltiplas maneiras ! É como a capa de um Arlequim, com uma infinidade de cores. Seria impossível fazer uma descrição exaustiva…

Poderia falar da poesia contemporânea, muito em particular da poesia sonora e de « ação », quando se escolhe o poema de uma página para se " jogar", fazer a performance frente ao público.
 
Aqui eu penso em Bernard Heidsieck, Anne-James Chaton, Thomas Braichet...
Percebe-se antes de tudo, uma preocupação com a recepção pelo público, a recusa ao elitismo é, sinalizada por essa postura, bastante evidente.

Pelo lado do romance há igualmente numerosas correntes. Céline Minard, a quem já citei, dedica-se a formas longas e épicas que suscitam um verdadeiro prazer de leitura. Isso também acontece através da leitura de Emmanuel Tugny, que mescla ao mesmo tempo cultura erudita, eficácia narrativa e senso de humor onipresente – notadamente em Mademoiselle de Biche, Corbière le crevant...

Emmanuel Rabu, em seu último livro Tryphon Tournesol & Isidore Isou, incrustra referências muito sérias e experimentais (Isidore Isou, o pai do movimento Lettriste) e a cultura popular (os quadrinhos de Hergé). Daniel Foucard em seu livro mais recente, CIVIL, imita a linguagem dos policiais para propor uma reflexão sobre a noção de direito. Não se trata de confrontar e chocar o leitor, bem ao contrário, é situá-lo no plano da consciência. O que significa pesquisa formal e implica evidentemente no desejo de se deixar desestabilizar e enveredar por um universo inédito. É essa, para mim, a definição da leitura. Nós temos bastante indústria agro-alimentar para livrar-nos dos produtos estandartizados.

AT : Seu romance Fonction Elvis, apresenta uma linguagem muito inovadora,
uma seqüência dinâmica e frenética de links, em capítulos muito
curtos, em fade-in e fade-out, que vão construindo uma história
caleidoscópica como num mosaico em progresso, mas algo giratória,
circular em si, que sempre vai rodando sobre um mesmo ponto… O que você pode
falar sobre a construção dessa nova linguagem?

LL : A forma se impôs por ela mesma. Eu queria "dissecar" a figura excessiva e pegajosa de Elvis Presley. Dediquei-me a esse colosso de todas as maneiras, investigando sua vida em todas as minúcias. Daí a concisão do texto. Também pensei numa escritura musical pelo ritmo e pela repetição dos motivos. Este é um elemento essencial de minha maneira de escrever, a aproximação da musicalidade à linguagem. Eu já procedido assim, com uma forma diferente, em outro livro : Je ne sais rien d’un homme quand je sais qu’il s’appelle Jacques.

AT: E sobre o tema (ELVIS), como e porque você o escolheu?

LL : É preciso salientar que nunca fui uma fã de Elvis e que conhecia muito pouco as suas canções, apenas aquilo que tocava de vez em quando nas rádios. O que realmente me interessou foi o que Elvis representa como herói trágico, um herói trágico literário ideal. Foi por esse motivo que eu evoquei Jessie Garon Presley, o irmão gêmeo nati-morto de Elvis, a sua parte sombria. O seu duplo. E depois a sua aparência warholiana, o fato que ele encarna a inauguração do rock e a reprodutibilidade da imagem. A redução do indivíduo à imagem.

Eu ressalto ainda que o projeto se iniciou num formato de díptico literário : Fonction Elvis/Dimension Gould. Duas figuras aparentemente opostas, vistas assim, o rei do rock e um pianista clássico, Glenn Gould, que revolucionou totalmente a interpretação e as técnicas de registro das gravações. Uma estrela de espontânea simplicidade finalmente bastante melancólica e um pianista de gala extremamente burlesco e extravagante. Resultará num díptico um pouco tardio – Dimension Gould ainda está sendo escrito.
 
AT : Além de editora e escritora você também é música e cantora,
participando de um grupo de rock contemporâneo francês, o que você tem
a contar sobre isso?

LL : Tive a sorte, de fato, de tornar-me participante da banda Molypop ,

que conta também com Emmanuel Tugny, Jacques El, Yann Linaar, Christophe Boissière, Otavio Moura e outros músicos, de acordo com cada um de seus projetos. Graças a esse convite por parte dos integrantes da banda, eu pude me recolocar no universo musical – eu tinha sido pianista clássica e cantora, quando ainda bastante jovem – o que me fazia imensa falta.

Escrever é um exercício solitário. Com a banda e a música acontecem coisas extraordinárias, do ponto de vista da criação, pois se trata de um trabalho em grupo. A dimensão do prazer e da parceria é intensa. Além disso, o formato musical permite tocar diferentemente o público. As emoções despertadas pela música são um dos componentes essenciais da vida, no meu ponto de vista.

Molypop vai lançar o seu primeiro álbum, Sous la barque (quand on creuse) muito em breve. Inclusive já estamos trabalhando atualmente no segundo CD. Eu posso informar que no próximo dia 05 de maio será lançado em Paris, um livro / disco CD, chamado RALBUM por Éditions Laureli / Léo Scheer, com a participação dos integrantes da banda Molypop .
 
AT : No cenário histórico e cultural de seu país, que sempre influenciou com intensidade a cultura ocidental há mais de 250 anos, aparentemente pela primeira vez está ali colocado um presidente que não se importa tanto com isso, que faz questão de não falar de cultura e de passar ao largo dos assuntos culturais, muito mais voltado a um imediatismo mediático, a uma frivolidade de modelo mais "norte-americano"; como você analisa essa novidade junto ao cenário cultural no qual você está imersa, em suas múltiplas atividades?

LL : Analiso essa situação como uma catástrofe total para a cultura e isso me deixa muito entristecida, até mesmo ferida. Com uma nuance de revolta, inclusive. Um sentimento de desconforto pelo fato das forças da esquerda francesa não terem demonstrado ânimo e unidade para defender os valores de nosso país.

A política atual articula uma simplificação demolidora da cultura com potentes discursos demagógicos. É necessário não deixar subsistir que ações impostas ao público venham a resultar no desaparecimento da diversidade da criação. Mas estou convencida que a França ainda possui um povo obstinado, exaltado, que terminará por confrontar e fazer cessar essa inclinação deletéria. Eu tenho confiança na esquerda, nos franceses, em respeitar a nossa herança cultural e reverter essa situação, por uma revalorização. Jamais deixaremos de resistir.


Entrevista concedida por Laure Limongi a ARdoTEmpo – abril 2008
publicado por ardotempo às 11:54 | Adicionar