Iluminar a vida

Aldyr Schlee - Os limites do impossível
 
Luis Antonio de Assis Brasil
 
As provas são inequívocas e devastadoras: Carlos Gardel nasceu em Tacuarembó, no Uruguai, resultado da relação adulterina de um coronel estancieiro. El Morocho silenciava acerca desse fato, o que é compreensível. Mais tarde surgiu a história de que teria nascido em Toulouse, na França. História forte, mas que não impediu Aldyr Garcia Schlee de dar como certo o polêmico nascimento no vizinho país e de escrever um dos mais curiosos e bons livros de nossa ficção literária: Os Limites do Impossível Contos Gardelianos, saído em 2009.
 
Schlee é escritor de longa estrada, com vários livros de contos e inúmeros prêmios nacionais, para além da distinção de haver desenhado o uniforme da seleção canarinho. Esse autor de tão variadas habilidades – também é professor universitário –, transita entre duas pátrias: o Brasil e o Uruguai. Publica no país vizinho e aqui mesmo. Possui tantos amigos uruguaios como brasileiros.
 
Tudo isso pode explicar que se tenha dedicado às raízes orientales de Gardel. A ideia de seu livro é de luxo: são 12 contos em que as protagonistas são 12 mulheres, reais ou imaginárias, que têm algo a ver com o nascimento do menino Carlos. E nessa tarefa Schlee saiu-se muitíssimo bem, compondo um quadro magnífico do Uruguai campestre, com suas contrastantes modalidades existenciais.
 
Clara, Felícia, Juana, Cisa, Blanca, Rosaura, La Niña, Manuela, Mulata-Flor, Cosntantina, Berta, La Madorelli... São mulheres das mais diversas condições e psicologias. Gardel é o Leitmotiv, mas mesmo que não o fosse, os contos sustentam-se em sua literalidade intrínseca, com suas frases de encanto e emoção: “Ela foi só e sempre apenas uma pobre moça desgraçada e desventurada que nossos bisavós conheceram de longe em San Fructuoso como La Niña; uma pobre moça morrendo de padecimentos e atribulações, uma pobre moça que morria de sentimento; aquela pobre moça morrendo-se de mágoa, morrendo de dor...”.
 
Schlee pratica o conto com estrutura que se desenvolve no tempo, e nos quais as personagens sempre terminam diferentes do que começaram. Tem-se a sensação, ao chegar à última linha, de que se leu um romance inteiro, um belo romance, capaz despertar em nós as maiores emoções que a autêntica literatura pode produzir. Estamos de parabéns e agradecidos a Schlee por nos iluminar a vida com esse livro.
 
 
Luis Antonio de Assis Brasil - Publicado no jornal Zero Hora
publicado por ardotempo às 00:59 | Adicionar