O imitador de vozes

Literatura além da morte
 
Mariana Ianelli
 
Em conversa com o jornalista Kurt Hoffman pouco antes de sua morte, Thomas Bernhard comentava que “a vida é um sucessão de disparates, coisas com pouco sentido, mas quase só disparates”. Essa constatação do absurdo, que a nenhum destino conduz senão ao fim, marcou tanto a linguagem como a existência deste escritor considerado um dos mais polêmicos e inovadores da literatura austríaca moderna. 
 
Convém lembrar a epígrafe de Pascal que o autor escolheu para encabeçar seu relato “A respiração”, publicado em 1978: “Incapazes de superar a morte, a miséria e a ignorância, os homens, para serem felizes, concordam em não pensar no assunto”. O texto, autobiográfico, narra a experiência assombrosa de Bernhard aos 18 anos, hospitalizado por conta de uma doença grave nos pulmões que o levou a receber a extrema-unção. Tendo, portanto, sobrevivido à própria morte, Bernhard pôde, desde muito jovem, enfrentar o assunto em sua obra literária com legítima intimidade e ironia.
 
Datam da mesma época de “A respiração” as histórias do livro “O imitador de vozes”, lançado apenas agora no Brasil. Ali se concentram alguns dos temas mais caros a Thomas Bernhard, como suicídios e catástrofes, em cenários igualmente familiares ao escritor, como manicômios e asilos. Conhecido por sua linguagem copiosa e estilo musical, Bernhard, neste livro, de fase anterior aos seus romances mais célebres, investe em relatos breves, num tom de impessoalidade jornalística, exibindo a miséria e a loucura que, para além do ramerrão dos acontecimentos, fazem do absurdo o melhor sinônimo da vida. 
 
Os personagens dessas histórias são filósofos, professores, atores, funcionários públicos, camponeses, lenhadores, todos náufragos de um organismo político e social que os asfixia a ponto de um colapso repentino. A reincidência temática de eventos trágicos encontra seu paralelo sintático na repetição de frases tão peculiar à escrita de Thomas Bernhard. Os relatos têm quase sempre como paisagem de fundo a neve dos Alpes, e a Áustria, que viria a ser o alvo das arremetidas do escritor em “Extinção”, já se mostra ali seu foco predileto de denúncia ao desprezo das instituições por intelectuais e artistas.
 
Nascido na Holanda mas criado na Áustria, especialmente pelo avô materno, escritor, que o iniciou no “grande gosto pelo pensamento anarquista” e que o “salvou do embotamento”, como diz sobre sua infância, no livro “Origem”, Thomas Bernhard aprendeu desde cedo a odiar o Estado, a Igreja Católica, a escola, a burguesia, tudo o que, segundo os ensinamentos do avô, colabora para a aniquilação do ser humano. Filho ilegítimo, educado em um internato nacional-socialista, doente dos pulmões, Bernhard parece sempre ter se havido com sua condição de deslocado, inclusive do próprio meio literário, cujas rivalidades e oportunismos o horrorizavam. Uma espécie de compensação, o suicídio era uma possibilidade permanentemente disponível de se livrar do mundo caso necessário, e esse pensamento, tão natural ao escritor, entre outras lições incutidas pelo avô, jamais o abandonou.
 
Na galeria de personagens de “O imitador de vozes” sobejam, pois, os suicidas, dos bem-sucedidos aos fracassados, aqueles que desistem de si mesmos e continuam vivendo como fantasmas. Em “Alheamento”, um marceneiro que escreve poemas afoga-se “motivado pelo desespero com a falta de reconhecimento”; em “Dois bilhetes”, um bibliotecário da Universidade de Salzburgo enforca-se deixando em um bilhete a explicação de que “não aguentava mais ordenar e emprestar livros que só haviam sido escritos para causar desgraça”. Isso apenas para citar dois dentre vários relatos do livro que abordam o tema, cada um com requinte próprio. 
 
Vale destacar ainda o relato “O príncipe”, em que Bernhard conta a história do tio suicida de uma princesa, morto no dia de seu quinquagésimo primeiro aniversário, por “ser da opinião de que precisar viver cinquenta anos neste mundo, sem, em última instância, ter sido consultado, era mais que suficiente para um ser pensante. Quem seguia vivendo além disso demonstrava deficiência ou da mente ou do caráter”. O escritor retomará adiante sua “teoria dos cinquenta” no romance “O Náufrago”, na voz do personagem Wertheimer. Curiosamente, embora tenha escapado ao suicídio, Thomas Bernhard morreu três dias após completar 58 anos de idade.
 
Outro aspecto interessante em “O imitador de vozes” é a tênue linha entre o absurdo e o fantástico, como na história da ossada de um homem de dois metros e setenta e quatro centímetros de altura, encontrada em um cemitério de Elixhausen, ou de gritos que se ouvem em um desfiladeiro, de escolares que ali despencaram há quinze anos. Desolação e morbidez se condensam neste livro, e toda ruína ou sentimento de abandono assume aqui proporções descomunais, à semelhança do gigante de Elixhausen. É o caso do relato intitulado “O agricultor aposentado”, em que o personagem, um velho solitário e inválido, em pleno inverno na Alta Áustria, queima sua perna de pau na lareira para tentar esquentar-se.
 
Como dizia Bernhard a Kurt Hoffman, podem-se fazer “dúzias de Bernhards. Pode-se fazer um dramático, um trágico, um mentiroso, um asqueroso, um divertido, como se quiser”, a partir de uma só entrevista. O mesmo acontece a partir de um texto crítico. Exemplo disso é que, embora exista um Bernhard sem dúvida sombrio e corrosivo em “O imitador de vozes”, também ali há um Bernhard sensível aos talentos massacrados de sua época, cúmplice da grande arte e zeloso da amizade, igual àquele que homenageou seu amigo Paul em “O sobrinho de Wittgenstein”. Este é o Bernhard que aparece em um dos últimos relatos do livro, “Em Roma”, um elogio do escritor à poeta austríaca Ingeborg Bachmann, que, como ele, “encontrou muito cedo a entrada para o inferno e nele penetrou sob pena de, nesse inferno, perecer cedo demais”. 
 
Se, entre a vida e a morte, o jovem Bernhard escolheu a vida, diante da possibilidade de silêncio em resposta ao desprezo alheio, sua opção foi pela escrita. Hoje, sua obra literária revida à indiferença e ao abandono exatamente como canta a poesia de Ingeborg Bachmann: “Com o soluço impuro, / com o desespero / (e eu desespero ainda com o desespero) / por tanta miséria, / pelo estado do doente, pelo custo de vida, / sobreviverei”.
 
 
 © Mariana Ianelli  (São Paulo) 2009
publicado por ardotempo às 10:25 | Adicionar