Estrelas feitas de letras

A língua única de Schlee e suas múltiplas vozes
 
Joana Bosak de Figueiredo
 
Leio Os limites do impossível – Contos gardelianos, de Aldyr Garcia
Schlee. Com suas doze mulheres, que nos falam ou são faladas, Schlee
converte-se num escritor que entende plenamente o feminino. Sentimos o
que elas sentem e mesmo o que há de mais íntimo aparece na escritura
desse autor múltiplo.
 
Regionalista. Não. É pouco. Fronteiriço. Com certeza. Acima de tudo, universal.
 
Universal porque conversa e converge com o mundo e as vidas pequenas e
a escrita enorme e vigorosa de um registro único, de um autor idem.
Narrativa na fronteira, escritura no mundo. Quiçá a fronteira seja realmente o único lugar possível para estar no limite do impossível do universo que Schlee propõe.
 
Superamos a barreira limite. Superamos mesmo o entre lugar. A
fronteira é o lugar. O lugar onde se pode escrever numa língua única,
a língua de Schlee, que doma, alumbra e alambra aquilo que não pode
ser cerc(e)ado: uma identidade, uma maneira una, porém múltipla de ser
e estar nesse mundo tão homogeneizado por uma cultura de massa, mas ao
mesmo tempo, tão sedento de representações próprias de seu próprio
teto – ainda mais quando o teto são estrelas feitas de letras.
 
Ao ler Schlee se me escorrem as certezas e as tipificações acerca da
literatura regional, pois ela repete as pátrias pequenas de todos os
lugares, e isso a torna muito maior. Schlee bebe num tempo perdido que
parece que ficou pra trás, mas que nunca nos abandona – os Oitocentos,
tão únicos e tão fundadores de nossa cultura -, mas, ao mesmo tempo,
projeta o presente e o futuro numa linguagem que ziguezagueia entre o
ocorrido e o devir, como se o tempo passado continuasse sendo narrado
ad infinitum até virar o agora – e o que resta é o que somos hoje. E
aí somos brindados por “documentos” que atestam a existência “real
dos fatos em questão, como se estivéssemos lendo a correspondência
ativa de alguma personalidade do século XIX cuja voz só apareceu hoje.
Essa é uma narrativa intemporal, coloca-se, parece, no passado, mas
flerta como se fosse hoje, o tempo inteiro.
 
 
Nessa costura narrativa, Schlee não perde o fio da meada e o que
parecem ser contos interligados converte-se em um romance polifônico,
onde cada voz representa uma protagonista feminina que reveste de
significados próprios uma história coletiva com interpretações
pessoais de rara beleza e força marcantes. Todas elas têm razão. Todas
elas têm as suas razões. Todos os contos são delas e de quem mais for
narrando. E o perverso justifica-se; não fosse ele não existiriam doze
mulheres que contam e que são contadas, não haveria Gardel, não
haveria esse livro mágico de Schlee.
 
As múltiplas vozes de Schlee são proferidas por mulheres da vida, no
sentido de que são absolutamente verossímeis: elas estão – ou melhor,
estavam – nas fazendas, nos arrabaldes, no limite do urbano, nas
cidadezinhas de uma enorme fronteira que se alarga cada vez mais em
nosso imaginário: os limites entre o mundo hispânico e o luso no sul
da América do Sul e mais ainda: nos limites de um mundo real e de
outro inventado, onde as barreiras são tão tênues que impossíveis de
serem visualizadas. O que fica é a impressão de que tudo é possível
dentro dessa pretensa impossibilidade porque absolutamente visível nas
imagens e paisagens interiores dessas mulheres. A vida doméstica, a
alcova, os segredos, tudo aquilo que se sabe e que se oculta, tudo
sobre o que se deve calar está lá. Schlee não esconde toda a
devassidão de homens e mulheres, incesto, estupro, gozo, prazer. É nas
margens que tudo acontece. É na fronteira do impossível que vivemos e
escrevemos nossas vidas permanentemente.
 
Há espaço pra tudo na prosa de Schlee: para homens sedentos de sexo,
para mulheres que não abrem mão de seu prazer – por inusitado ou
amoral que seja -, para mucamas que vêem mais do que deveriam, para
chinas que não se contentam em ser chinas, para filhas que não são
apenas filhas, mas cúmplices, amantes, mães.
 
E essa é nossa América profunda. O sul, ao qual volvemos sempre, não
se olvida. E é no cruzamento – e não no entrechoque – dessa língua
particular que Schlee, tradutor, escritor e fronteiriço escreve. É uma
língua toda sua, o teto sob o qual se abriga. Sob o qual abriga as
raízes de sua cultura. Mas se as abriga, não as esconde, porque o trunfo
desses contos gardelianos é justamente uma realidade ficcional
verossímil completamente exposta.
 
Dói. Schlee não alivia. Mas um tango, para ser bem cantado, precisa
dessa dor. E se Gardel precisava de uma pré-história para existir ainda
mais completamente, ela já foi contada. E quem não acreditar que
invente um causo melhor. Depois de Schlee, há que ser muito bagual para
conseguir.
 
©Joana Bosak de Figueiredo

Os limites do impossível – Contos gardelianos. Aldyr Garcia Schlee.
Edições ARdoTEmpo - 2009   -  ISBN nº  978-85-62984-00-6
 
ardotempo@gmail.com
 
Imagem: Leonid Streliaev - "Uma fazenda decadente no meio do pampa"
- Fotografia (Fronteira Sul Rio Grande do Sul RS Brasil)
publicado por ardotempo às 14:11 | Adicionar