Transparente

António Lobo Antunes
 
 
Não importam as horas agora, hoje são sempre onze da noite e chove. Na janela fronteira, num quarto iluminado, vejo uma rapariga a ler na cama. Lençóis encarnados, édredon encarnado. De vez em quando muda de posição com o livro, apercebe-se, pelo meu candeeiro, que estou aqui e inicia atitudes que lhe devem parecer voluptuosas: espreguiça-se, deixa escorregar uma das alças, o joelho direito surge devagar do édredon, demora um instante, some-se. Mal lhe distingo a cara mas distingo-lhe os óculos. Tira-os, lambe uma das hastes, volta a colocá-los. Não tem muita habilidade, coitada. Torno a escrever e desce o estore, furiosa, embora pelos intervalos do estore distinga a sua silhueta a espreitar-me antes de se desinteressar de mim: deve achar-me maricas.
 
 
 
 
Não importam as horas agora, são onze da noite e é no halo das árvores que me apercebo da chuva. Uma porção de livros à espera de serem lidos, uma porção de páginas para corrigir: quantos meses até acabar isto? E, ao acabar isto, que forma terá? O Júlio Pomar ao telefone: às vezes tem voz de peluche. Combinamos jantar. Gosto de comer na cozinha da Teresa, eu que não gosto de comer. Da conversa lenta. O desenho de Matisse que eles têm, uma cara de rapariga, a lápis, feita com meia dúzia de traços, mine de rien como diz o Júlio. Como se traduz mine de rien? Como quem não quer a coisa, talvez? Que simplicidade aparente, que fácil. Onde aquele sujeito metia a mão saía luz. E, por pintores franceses, veio-me à cabeça uma passagem do diário de Delacroix, artista muito da minha estima: o homem é uma criatura sociável que não gosta dos seus semelhantes. A rapariga que lê na cama sobre o estore e chega-se às vidraças, nua. Que raio de jogo, o dela. O marido
 
(suponho que marido)
 
entra no quarto e fica a olhar para mim, ao seu lado. Não me admirava que se despisse também. Não despe: some-se. Na janela de baixo uma senhora de idade em frente da televisão, a comer sopa. Tudo é irreal neste mundo. O Júlio começa sempre os telefonemas da mesma maneira
 
- Como estás tu?
 
ou seja a pergunta mais difícil de responder que conheço. Nunca sei como estou. Estou hexagonal. Estou cor de laranja. Estou chato como a potassa para mim mesmo. Faz-me uma pergunta menos complicada, Júlio. Quantos são dois e dois, por exemplo. Não, essa não. Bertrand Russel levou cem páginas a explicar a razão de um mais um serem dois e não ficou lá muito certo disso. Estou cheio de citações, que gaita. Pareço um cigano a mostrar o oiro falso dos anéis. E, por cima disto tudo, uma ambulância aos gritos. Que noite. Tudo treme com o vento e eu a juntar palavrinhas. Vi retratos meus num jornal francês: tão feio. Não me habituo à minha cara, ao meu aspecto. Vontade de usar uma máscara, tapar a cara com as mãos. A minha filha Joana, que ainda agora nasceu, teve um filho, uma coisa pequena com os dedos todos. Daqui a nada está a fazer a barba. Quem me arranja uma ideia feliz para esta crónica? Flores numa jarra acolá. E o relógio da secretária do meu avô em cima de uma estante. Avôzinho. Ontem fez anos que morreu: novembro é um mês do caraças. Saudades do Zé Cardoso Pires, saudades do Ernesto Melo Antunes: passou que tempos e não me habituo. Por que razão não falam comigo, vocês? E um grande silêncio no meio da gente, um vazio que dói. O filho da Joana tem uma unha em cada dedo, veio completo. Devíamos nascer aos poucos, acho eu, ou então com coisas a mais, pernas por exemplo, que se perderiam uma a uma. Outra ambulância a riscar o escuro. Aqui há uns tempos fui atrás da ambulância que levava o meu irmão Pedro ao hospital. Ainda conservo o gosto amargo da aflição.
 
A propósito dos retratos do jornal francês: que diferença me fazia que aquele tipo morresse? A senhora da televisão acabou a sopa, desapareceu com o tabuleiro, voltou com um iogurte e uma colher. Não mete a colher no iogurte, fascinada com um episódio no ecrã. Também usa óculos, como a rapariga das leituras na cama, só que não se despe. Adivinha-se um brochezito a fechar a gola. Cheira a vento, a outono, a frio. A minha vida inteira sobe-me à boca como um vómito. Apetecia-me estar em Nelas em setembro. Esta semana almocei com dois camaradas da guerra e, como sempre, a cabeça a escapar para Angola:
 
- Lembras-te de?
 
- Daquela vez que?
 
memórias horríveis que o tempo adoçou. E a gente a cortar o passado com a faca. Agora vou acabar isto e continuar a corrigir as páginas. Que esquisito o mundo. Que esquisitos nós. No móvel dos retratos a minha tia Madalena sorri, a perder cor na película. Não perdeu cor dentro de mim. A rapariga deitou-se e apagou a luz, a senhora da televisão começa o iogurte, rapa a embalagem com a colher, limpa a boca no lencinho. Sorrio-lhe e não me vê. Claro que não me vê: tornei-me transparente. Digo
 
- Boa noite
 
o mais baixinho que posso, a fim de que consiga escutar-me.
 
© António Lobo Antunes
publicado por ardotempo às 02:26 | Adicionar