Jogo de espelhos e de simulacros

Dom Carlos, verdades e mentiras de Gardel

 
 
Jogo de espelhos e de simulacros, narrativa que se declara ficção quando se quer realidade, conjunto de contos que na sua essência compõe um romance, polifonia de desgarradas vozes femininas – todas prisioneiras da obsessão de confessar o que em suas vidas são desejos proibidos, transgressões ilimitadas e sombras –, universo monstruoso e, paradoxalmente, lírico, de onde emerge a figura impenitente do fazendeiro Dom Carlos que, como um demônio do pampa, atrai, seduz e desgraça para sempre os corpos e as almas de suas vítimas. Ele, o que recebeu a maldição do sexo sem peias. Ele, o pai de Carlos Gardel.
 
Nesta realidade movediça, próxima da alucinação e da impostura, em que tudo é e não é, neste mundo movente transcorrem os acontecimentos do romance Os Limites do Impossível, de Aldyr Garcia Schlee, cujo subtítulo – Contos Gardelianos – já aponta para a natureza aberta da obra. Falsos contos, como falso talvez seja o Gardel que se origina dos amores interditos?
 
Além de renovar as possibilidades do relato histórico, tanto na estrutura quanto na linguagem, o texto de Aldyr (que vive isolado numa fazenda decadente em Capão do Leão), com seu toque de irrealidade, suas lacunas intencionais, sua atmosfera opressiva, suas paixões loucas, produz no leitor uma experiência de arrebatamento. Não lembro de ter lido na ficção brasileira da última década algo que me causasse tão fortemente a impressão de beleza pungente e de inventividade.

Sergius Gonzaga -  Professor de Literatura e Secretário Municipal da Cultura de Porto Alegre - RS Brasil
Publicado em Zero Hora (23.12.2009)
publicado por ardotempo às 12:16 | Comentar | Adicionar