A caverna

 
A caverna
 
Ela pediu-lhe para ver qualquer coisa numa das reservas técnicas acerca de uma dúvida que surgira sobre um dos quadros. Foram até os depósitos de telas e movimentaram as grandes treliças metálicas que sustentavam as obras. Ele fez as anotações necessárias em sua fichas, saíram das reservas e apagaram as luzes.
 
No regresso, entraram juntos pelo corredor em curva, de iluminação tênue, indireta, proveniente apenas dos vãos das extremidades ocultas das paredes, de baixo para cima, à uma terça parte do teto, num espaço de passagem magistralmente concebido pelo arquiteto, dentro do qual, de um  determinado ponto não mais se via o seu início ou o seu final, vertiginoso igualmente nas curvas dos encontros sem arestas junto ao teto ou ao rés do chão, um estranho espaço sem divisões em unidades matemáticas mensuráveis, aquilo ali parecia um lugar onde o tempo se paralisava ou se fazia infinito. Para Bernardo aquele ponto aparentava ser um lugar ancestral, assemelhava-se a uma caverna e transmitia-lhe uma sensação bizarra, nuclear, emergencial. Ali sentia-se estranhamente uno, um ser absoluto e integral.
 
 
 
 
Segurou Carolina pelo quadril, abraçando-a e puxando-a para si. Juntou-se a ela e beijou-lhe a boca. Ela, surpresa e quase assustada, retribuiu e na seqüência, apertou o seu corpo contra o dele, respondendo ao abraço e alongando o tempo do beijo inesperado. Bernardo curvou-se sobre seu pescoço e sussurrou-lhe algo ao ouvido.
 
Come, então...”, murmurou Carolina, já assustada pela situação pública e perigosa em que se encontravam. Rapidamente, ele desafivelou o cinto dela, abriu sua calça e fez com ela se ajoelhasse no corredor, livrando-a parcialmente de suas roupas, sem despi-la. Bernardo possuiu-a por trás, de maneira selvagem e direta, foi algo lancinante e satisfatório.
 
Pelo inesperado e pelo perigo iminente.
 
Ele a subjugou segurando-lhe pela nuca, puxou-a vigorosamente com o punho pelos cabelos, prendendo-a e abraçando-a com força, sendo correspondido pelos movimentos ritmados e vigorosos que a fêmea natural imprimiu à relação. Bernando estendeu a mão ao longo de rosto, roçando-lhe a boca e dando-lhe o seu antebraço para que ela o mordesse. O que ela fez, com sofreguidão, cravando-lhe os dentes um pouco acima do pulso esquerdo, marcando-o numa fieira elíptica de hematomas púrpuras, até romper-lhe a pele e provocar filetes finos de sangue que escorreram pelo pulso. Os movimentos acentuaram-se, intensificando-se até uma explosão de gozo vulcânico e silencioso, naquela garganta de tempos primevos em que se transformara, para ele, aquele corredor mergulhado em silêncio e luminosidade incerta.
 
Os movimentos, a força empregada por ambos, os puxões, os grunhidos abafados, as dentadas sangrentas, a ferocidade e o domínio poderiam sugerir um quase estupro, mas alguma coisa animal e grandiosa sobrepujou qualquer observação vulgar. Algo incompreensível, de dimensão trágica e solene, como o clarão prolongado de um raio sobre a noção do sentido da vida, acabara de ocorrer. Perigo, instinto, medo, força, sangue, fluídos, prazer e vida: uma seqüência atordoante que os remeteu ao princípio dos tempos, ao tempo dos sobreviventes das cavernas.
 
Carolina ergueu-se, compondo suas roupas e a sua alma, abraçou com ternura e suavidade o homem em pé à sua frente, ele também um tanto surpreendido, e o beijou com ardor durante algum tempo, com os lindos olhos cerrados. Bernardo também a beijou com os olhos fechados, sentindo sob seus pés, o planeta que girava e flutuava sobre o universo infinito.
 
Homens gostam de uma rapidinha...mas não tem importância, eu também gosto”, disparou Carolina sorrindo, enquanto se dirigiam para as salas administrativas, de novo arrumados e já sob o olhar eletrônico das câmeras de vigilância. Bernardo anotou na memória a provocação da moça.
 
Não trabalharam por muito tempo, nada mais seria importante naquele dia e deixaram a Fundação alguns minutos depois. Naquela mesma noite, passada na casa de Carolina, tiveram  o tempo necessário para um amor prolongado, atencioso e delicado.
 
 
(Extraído do conto A Caverna - do livro A Fenda - © Alfredo Aquino, Iluminuras, 2007)
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publicado por ardotempo às 17:02 | Adicionar