O silêncio é fácil

 
Um rectângulo de papel rugoso
 
José Mário Silva
 
 
Tens a fotografia nas mãos. A velha fotografia. À esquerda, o contorno das dunas, o brilho fosco da areia, o mar apenas sugerido, três gaivotas de asas abertas, nuvens imensas a encher o céu. Ao centro, numa espécie de penumbra, a casa: alvenaria batida pelos ventos, janelas rasgadas diante do furor oceânico, vigas de madeira carcomidas pela humidade salina, restos de cal e de um esplendor antigo. 
 
À direita, a imensa sombra da lagoa, o pinhal estendendo-se terra adentro – voraz – e com ele o princípio da estrada de todos os regressos, de todas as despedidas.
 
Olhas para o pequeno rectângulo de papel rugoso, agora cheio de riscos, amarelado nas pontas. Quem captou aquela imagem morreu há muitos anos. A casa já não existe; é só areia, corrosão, ruínas. E aquele que tu foste, dentro da casa, também desaparece aos poucos, devorado pela máquina ferrugenta da memória, perdido nesse passado que se vai tornando difuso, frágil e inútil.
 
Sabes muito bem o que o tempo faz às coisas. Monta o cerco. Expande o deserto. Seca por fora e por dentro. Transforma tudo em pó. Nada lhe resiste. Nada. Nem sequer a imagem de uma casa frente ao mar que alguém, um dia, com paciência e nitrato de prata, fixou. Nem sequer esta velha fotografia que se desfaz, aos poucos, nas tuas mãos demasiado gastas.
 
Segues agora, com o olhar, cada uma das linhas da imagem que se desvanece, as gradações de um preto e branco cada vez mais submerso na irrealidade das coisas extintas. Percorres, às cegas, as fronteiras de um mapa imaginário: o mar escondido, as paredes onde a cal nunca se demorava, o crepúsculo violento atravessando as salas, as tábuas de madeira que rangiam nas noites de ventania, a bruma sobre a lagoa, vozes saindo da escuridão com a forma do teu nome.
 
Acendes, uma última vez, a memória. Ficas à espera. Mas a memória calou-se. As vozes não regressam, não há ninguém que te chame neste agora que veio depois de tudo o que se apagou, não há variações dentro da brancura espessa do esquecimento. A névoa engoliu tudo. Já não há azul, já não há verde, já não há ouro, já não há prata.
 
Ainda assim, a fotografia continua entre os teus dedos. Intacta. Olhar para ela tornou-se uma violência. O que foi belo, magoa. O silêncio devora-te. O vazio é uma faca apontada ao coração. Sabes que nunca ninguém virá, nunca mais. Por isso aproximas do lume o rectângulo de papel rugoso. E vês arder tudo aquilo: a casa, o mar, as nuvens imensas, a tua infância.
 
 
© José Mário Silva - Efeito Borboleta 
publicado por ardotempo às 13:36 | Comentar | Adicionar