A consciência de existir

Morrer não dói
 
Ferreira Gullar
 
Todo mundo respirou aliviado com a notícia de que Felipe Massa, ao contrário do que se temia, estava fora de perigo e, sobretudo, sem sequelas. Mal acreditei quando o vi na televisão, com o olho esquerdo ainda arroxeado, falando sobre o acidente. Bem, estou dizendo o óbvio. Não obstante, ao ouvir suas declarações, um detalhe me chamou a atenção, quando afirmou que não se lembrava de ter sido atingido por algo nem de nada do acidente. Ou seja, o baque que sofrera na cabeça, ao sofrer o impacto de uma mola, de quase um quilo de peso, voando a mais de 200 quilômetros por hora, não aconteceu. Para ele, Felipe Massa, não aconteceu.
 
Muito bem. Então, vamos agora admitir, por mera hipótese (bata na mesa), que ele tivesse morrido, que o capacete não fosse tão resistente e, mesmo, que a tal mola tivesse vindo alguns centímetros abaixo etc. etc. etc... Imaginou o que teria acontecido naquele domingo?
 
A expectativa que se criou logo após o acidente e que já foi suficiente para deixar todo mundo assustado, teria tido outro desfecho, como no caso de Ayrton Senna.
 
 
Assim que, na ambulância, os médicos constatassem o estrago que o impacto teria provocado na cabeça dele, imediatamente, pela reserva mesma que certamente adotariam, a apreensão ganharia peso e sem muita demora a notícia terrível se espalharia pelo mundo. Felizmente, não aconteceu, mas, se tivesse acontecido, em que pese o impacto brutal da notícia, ele, Felipe, como se sabe agora, não teria sabido de nada. Ou seja, ele teria vivido apenas até uma fração de segundo antes de apagar-se para sempre, de deixar de existir.
 
Espero que o leitor não fique chocado com o tipo de especulação que estou fazendo aqui. De qualquer modo, é impossível ignorar este fato: Felipe Massa não soube de nada que lhe aconteceu, mesmo tendo sofrido uma pancada de incalculável violência que poderia tê-lo matado.
 
Milhões de pessoas no mundo todo teriam sentido a sua morte, que tomaria conta do noticiário em todos os veículos de comunicação, mas, ele, o personagem central do drama, saíra de cena antes, uma fração de segundo antes.
 
É isso aí, a gente não morre a nossa morte; morre a dos outros.
 
No que se refere a nós, os que continuaram vivos, a morte do jovem piloto nos teria atingido de maneira brutal. Enquanto isso, lá na Hungria restaria apenas um corpo morto dentro de um macacão de piloto da Fórmula 1. Para ele, Felipe, nada tinha acontecido, nem o acidente nem nada antes. É que, ao morrer, ao apagar-se o que somos - a consciência de existir - apaga-se o presente, o passado, tudo. Quem morre é como se nunca houvesse existido, a não ser para os outros.
 
Desculpem se insisto nesta conversa aparentemente macabra. Mas lembrem do que aconteceu com os passageiros daquele avião da Continental Airlines, que se dirigia para Houston e, na altura das Antilhas, entrou numa zona de turbulência. Os sacolejos violentos jogaram gente para cima, para os lados, houve quem desse com a cabeça no teto do avião, outros quebraram o nariz, o braço, soltaram gritos aterradores. Mas não morreu ninguém. Uma passageira, falando mais tarde aos jornalistas, mal continha o pânico que ainda a tomava. "Foi um desespero, estava certa de que ia morrer!"
 
Veja bem: enquanto Felipe Massa, atingido na cabeça por um objeto que, por um triz, o teria matado, de nada se lembra, essa senhora, que não sofreu um arranhão durante a turbulência, fala dela como de um momento aterrador. Espera jamais passar por experiência semelhante.
 
Tendo a concluir que morrer não dói: o que dói é o medo de morrer, pois isso ainda é vida. Claro, só sofre quem vive, consciente, e daí concluímos que a morte é problema dos vivos. E o morto também. O que fazer com ele? Isso é ocupação dos que ficam, não dele, agora livre de tudo.
 
Na verdade, o pior da morte, como vimos, é temê-la. Por isso mesmo, desisti de andar de avião. Melhor é não pensar nela e, quando pensar, aceitá-la. Ruim mesmo é a doença que põe o sujeito cara a cara com ela por muito tempo.
 
Já se, por exemplo, o cidadão adormece e não acorda mais, ótimo. Isso, levando-se em conta que, cedo ou tarde, tanto os mais velhos quanto os mais jovens, irão todos dormir para sempre. Não há exceção, nem mesmo para os políticos, habituados a privilégios: terão de deixar a cena também, o que é certamente auspicioso para o futuro do país.
 
 
A candidatura de Marina Silva à Presidência da República, se confirmada, como espero que seja, pode assinalar o início da grande mudança, a que a nação brasileira aspira. 
 
Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo / UOL 
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publicado por ardotempo às 20:27 | Comentar | Adicionar