Isto não é uma pintura

 

 

Retrato de Michael Jackson - Andy Warhol  = US$ 10,000,000

 

Isto é uma aposta numa Bolsa de Valores Futuros

 

Num mundo no qual o valor monetário é a medida de todas as coisas, as obras de arte que de per si  não oferecem um retorno financeiro imediato, que demandam procedimentos demorados e difíceis e que não podem ser definidas mediante etiquetas ou bytes de som, e que não geram benefícios comerciais por meio de complexos meandros estéticos, éticos ou filosóficos, devem ser descartadas ou, ao menos, receber pouquíssima consideração.

 

O fracasso é visto como uma anátema, considerando que a lei econômica exige de qualquer coisa criada trazer consigo sua própria mortalidade, sua "data de validade" que determina até quando a cadeia produtiva pode continuar vendendo seus produtos. (...)

 

Se a lucratividade é a meta, a criatividade deve sofrer. (...)

 

Em nossa época, a arte dos tolos par excellence é a arte da propaganda - comercial, política ou religiosa - a habilidade para despertar o desejo pelo que é efêmero e perecível. A publicidade começa com uma mentira, com a afirmação de que a marca X é mais importante , ou mais necessária, ou simplesmente melhor que as outras marcas, e que sua posse , como os objetos mágicos dos contos de fadas, tornará seu dono mais sábio, mais bonito, mais poderoso que seu vizinho.

 

Não é casual que as agências de publicidade controlem o mercado contemporâneo de arte, no qual a banalidade e a superficialidade voluntárias foram transformadas em qualidades que justificam o valor monetário de uma obra.

 

Alberto Manguel

(À mesa com o Chapeleiro Maluco - Companhia das Letras, 2009)

publicado por ardotempo às 17:41 | Comentar | Adicionar