De volta ao paraíso

Mariana Ianelli

 

De volta ao paraiso
 
 
…Basta um livro, apenas um, para desencadear a interminável trama de encontros que ao longo do tempo vai desenhando a frondosa genealogia desta nossa outra família, que, se de nosso não tem o mesmo sobrenome, tem todos os nomes possíveis, todas as variantes de um mais profundo parentesco de espírito.
 
Bem pode ser esta a nossa mítica árvore da imortalidade, bem guardada por uma espada de fogo. E basta um fruto, apenas um, para cairmos na perdição do encantamento. Não por acaso Borges imaginava que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca, nem por acaso Saramago reúne seus autores diletos no que ele chama de sua “família de espírito”. É assim que nos rebatizamos, que elegemos parentes de coração, com quem nos reunimos por vontade própria, num silencioso (e nem sempre pacífico) convívio. E cada autor que amamos chama para a roda os seus amigos. Rilke chama Marina Tsvetáieva, Marina chama Anna Akhmátova, Anna nos leva a Ossip Mandelstam. E ainda há vínculos menos evidentes, subjacentes aos enredos da palavra, que, se nos vale descobrir, mais ainda vale imaginar, por exemplo, a gênese do Ensaio sobre a cegueira de Saramago latente no Sermão da Quinta Quarta-Feira da Quaresma, de Antonio Vieira. Um livro dentro de outro, um mundo se desdobrando em outro.
 
Entramos na mágica Jesusalém de Mia Couto e ali encontramos Hilda Hilst, Adélia Prado, Alejandra Pizarnik, Sophia de Mello Andresen. Entramos no lirismo de Hilda e somos transportados à poesia de Catulo. Assim vamos e voltamos no tempo, varamos os séculos, ignoramos as empedernidas fronteiras do espaço e traçamos nós mesmos a extensão da nossa terra natal, conforme o nosso mapa de afinidades e a bússola das nossas intuições. E tão generosa pode ser a paixão da leitura que por ela também experimentamos a delícia dos amores casuais.
 
Um livro que nos chega sem saber de onde, quem sabe do topo de uma pilha sem sentido, num balcão da livraria, como me aconteceu uma vez encontrar, em edição portuguesa, Uma mulher e Um lugar ao sol, de Annie Ernaux, cuja leitura, antes de me dirigir aonde quer que fosse, plantou-me na própria vida, num momento de luto. E, no meio dessa cartografia fantástica, vamos também de um livro a outras artes, como me aconteceu com a memorável descoberta de O direito de sonhar, de Bachelard, que me fez viajar pelas oníricas telas de Marc Chagall inspiradas na Bíblia. Eis que, lançando pontes, campeando distâncias, cruzando caminhos, aí chegamos ao livro dos livros, ao jardim primeiro, ao fruto dos frutos…
 
© Mariana Ianelli

Publicado no blog Tabacaria - Seção Ler faz crescer 

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publicado por ardotempo às 21:01 | Comentar | Adicionar