"Idéias estragam a pintura"


Entrevista com Ángel Gonzalez García – Crítico e Historiador de Arte
Fietta Jarque – El País, Madrid – 05.04.2008


Pintar sin tener ni idea
aparenta ser um título heterodoxo para o livro de um crítico e historiador da arte. Mas se ajusta perfeitamente a postura de Ángel González, um pensador ponderado e apaixonado em partes iguais, lúcido e polêmico. Um amante da arte em estado puro que não confere demasiada
importância às alternativas atuais de uma indústria da arte e de um sistema que lhe parecem inúteis.

Fietta Jarque: Uma pessoa que sente o impulso irrefreável de criar formas com as mãos está fazendo Arte?

Ángel González Garcia: No livro escrevo, pelo menos duas vezes, sobre o maravilhoso espetáculo em que se transformam as “sobremesas” dos almoços ou jantares prolongados entre amigos. Quando invariavelmente alguns começam a manipular com os resquícios da refeição. As cascas refiladas das laranjas, os pedacinhos de pão, as sementes, os arames das rolhas de champanhes. Parece que uma das características do ser humano é não poder manter as mãos quietas. Esse irrefreável desejo de dar forma às coisas.

Salvador Dali publicou nos anos 60 um artigo na revista Minotaure, que intitulou “Esculturas Involuntárias”, no qual reproduziu bilhetes de metrô retorcidos, pedacinhos de sabão, figurinhas feitas com miolo de pão. Que isto seja do espaço artístico? Não sei. Não pretendo reivindicar acerca do que fazem esses presumidos artistas espontâneos, a minha reivindicação é outra; uma apaixonada e até certo ponto insistente e violenta reivindicação pelo trabalho. Pelo fazer. E pelo fazer com as mãos, acima de tudo.
 
No livro reproduzo um detalhe de um maravilhoso vestido de noiva que uma louca francesa fabricou com todo tipo de recorte ou pedaço de tecido, de trama, de tela, de fios ou de trapos, que encontrou. Essa imagem sempre me pareceu algo comovedor e emocionante. Resultou em algo orgânico, que se parece com os ninhos dos pássaros. Num dos ensaios que está dedicado aos artistas videntes, penso nas mulheres que tecem. No trabalho da tapeçaria, de tecer. É muito significativo que a segunda acepção da palavra “labor”, em Maria Moliner, seja o dos labores femininos, o que para mim se constitui no paradigma do trabalho.

Entre outras coisas porque contém o veículo alucinatório, uma vez que essas tarefas repetitivas, muito monótonas, produzem estados de alteração da consciência. É um dos temas sobre os quais falo com freqüência, o da arte associada aos estados alterados da mente.

FJ: Como ponto de partida?

AGG: Eu não tenho dúvidas que a Arte em sua origem esteve associada à alucinação, aos estados de transe. Tudo isso que a arte profissional se esqueceu, que disfarçou, que procurou ocultar por muitas outras coisas: o sistema de aprendizagem do ofício, as ideologias, as estratégias de toda a espécie que mediatizam o trabalho artístico. Digo isso sem nenhuma malícia. Somente nos artistas espontâneos ainda encontro esse estado original do transe.
 
FJ: O sr. escreve: “As idéias sobram em pintura, sempre resultam excessivas.”

AGG: Quando digo digo “Pintar sin tener ni idea”, coloco isso também como uma segunda leitura. E acredito que se deva pintar sem idéias pré-concebidas. As idéias estragam a pintura. Idéias e pinturas não se juntam bem e se o fazem, produzem obras abjetas ou sinistras. Porque, no final do  processo, os pintores de idéias costumam pintar as idéias dos que mandam. A pintura se ocupa de nossas sensações físicas, corporais. Para expressar as idéias já temos os outros meios, um deles, extraordinário, é a filosofia. A Arte recria as sensações de estar fisicamente no mundo. Trata-se de algo da hieraquia fisiológica.

FJ: Expressar sensações, talvez se faça mais claramente com a pintura abstrata?

AGG: Acredito que a pintura abstrata aponte mais ao espírito e ao ideal. De fato, as circunstâncias do surgimento da pintura abstrata na Europa são inequívocas: ela aparece dentro de um conceito espiritual (os Nabis, Kandinsky...). O Museu Guggenheim de Nova York, que foi o grande templo da pintura abstrata, foi fundado e financiado com o objetivo de apoiar, defender e demonstrar a espiritualidade da arte. Aquele espaço tem mais de igreja do que de qualquer outra coisa. E aqui nos encontramos com outro problema: a arte e a religião não tem absolutamente nada a ver uma com a outra. Não é que não devam ter nada a ver ou que a mim me pareça desse modo, é que é assim que é! 

FJ: Mas parte da pintura ocidental nasceu sob a proteção da Igreja…

AGG: Sim, não há dúvidas sobre isso, mas a arte que passa por religiosa não parece que satisfaça de fato os interesses da religião.
Se pensarmos um pouco nisso, veremos que as grande obras religiosas não resultaram nem um pouco eficazes. Não se sabe de nenhum grande quadro que tenha produzido algum milagre, por exemplo. As virgens de Rafael jamais devolveram a visão aos cegos ou fizeram andar os paralíticos.
Você viu alguma vez alguém ajoelhado diante de uma tela, dentro de um Museu?
 
FJ: O sr. se refere a “esse artifício chamado História da Arte”. Em que sentido diz isso?

AGG: Talvez o tenha dito num sentido mais inocente do que aparenta. Acredito que a arte transcende, afortunadamente, à História. A Arte nos permite nos afastarmos um pouco da História. Sánchez Ferlosio disse sempre que a História nada mais ee que o cenário de todos os crimes. Nessa medida. Penso que a experiência artística é ahistórica, transistórica. Seguramente os homens que tiveram as primeiras sensações artísticas eram iguais a nós.

FJ: A crítica de arte desempenha hoje algum papel relevante?

AGG: Devemos ter sempre em conta que a crítica de arte aparece na França, no século XVIII, com a pretensão de proteger o público dos artistas.  Críticos como o próprio Diderot diziam que era necessário baixar as aspirações dos artistas, que se colocavam como os árbitros definitivos em matéria de arte e que o público também tinha o direito de opinar. Com o passar do tempo a coisa inverteu-se e os críticos tiveram que começar a defender os artistas. Agora não sei muito bem o que os críticos fazem no cenário das artes.

FJ: O sr. se diz tão indignado com o que vê quanto uma pessoa que não tem um maior conhecimento sobre a arte contemporânea?

AGG: As pessoas normais, o público está verdadeiramente derrotado. Foram silenciadas porque lhes foi imposto que rir-se de certas obras contemporâneas é um delito. Que há uma obrigação, um imperativo moral, político e social de ser uma pessoa de seu tempo. Porque alguém deveria obrigatoriamente gostar da arte do seu tempo?

As pessoas, simples e normais, a quem estava destinada a arte – porque se a arte é algo, ela é de todos, é a casa dos pobres – foram anuladas. Já não se escutam risadas nas exposições.  As últimas risadas que escutei numa exposição aconteceram numa mostra de Bruce Nauman no Museu Reina Sofia, em Madrid, onde havia um vídeo que repassava as desventuras de um palhaço num banheiro. O mediador fez calar com severidade um casal que estava rindo de algo evidentemente cômico! A arte converteu-se numa palhaçada monumental. Uma palhaçada para a qual não deveríamos contribuir.

Não sei se nao deveríamos reivindicar uma espécie de greve contra os museus contemporâneos ou contra os museus em geral. Porque não?

Isso tudo nada tem a ver com a Arte e sim com uma indústria de imagens.

É uma pena que a arte, que foi imaginada para tornar mais gratificante a passagem do ser humano sobre o planeta, tenha se convertido em algo que é simplesmente uma fonte de obsessões, de preocupações e de manias.

Ángel Gonzalez García – Historiador de Arte
Entrevista a Fietta Jarque – El País, Madrid – 05.04.2008


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