Tapumes

Praça de guerra
 
Daniel Escobar
 
Na semana passada recebi alguns amigos do Brasil e convidei-os para um passeio a pé por Lisboa. Esta é uma das melhores formas de se conhecer a cidade. Basta ter um pouco de disposição para enfrentar as ladeiras e o calor de mais de 30 graus que faz agora no verão. Atravessamos a zona da Baixa e eu seguia com os dedos cruzados conforme nos aproximávamos do Arco Triunfal da Rua Augusta. Mas de nada adiantou. Não foi desta vez que apresentei aos meus amigos a famosa Praça do Comércio.
 
A Praça, que por aqui é muito mais conhecida pelo seu antigo nome, Terreiro do Paço, está escondida por tapumes há vários meses em função de obras que visam interromper o despejo de poluentes no rio Tejo e revitalizar este espaço que é um verdadeiro símbolo nacional.
 
Ainda me lembro da primeira visita que fiz a Lisboa e da grande sensação de liberdade proporcionada por esta praça - uma das maiores da Europa. Ela abraça o Tejo e abriga gentilmente os imponentes prédios públicos ao seu redor. Do lado oposto ao rio está o grandioso Arco que faz a vez de entrada da cidade. A estátua equestre do rei D. José I, elegante no centro, esforça-se para continuar exibindo-se ao público.
 
A Praça do Comércio de fato não é um lugar qualquer. Antes mesmo de existir, foi para onde o rei D. Manuel I transferiu sua residência, posteriormente destruída pelo terremoto de 1755. A construção da praça coroou o esforço do Marquês de Pombal em reconstruir a cidade devastada. O Terreiro do Paço foi ainda palco de alguns dos principais fatos históricos do país, incluindo o assassinato de parte da última família real reinante em Portugal.
 
A remodelação deste espaço, classificado como Monumento Nacional, que deveria ser algo a ser celebrado, tornou-se uma verdadeira praça de guerra. Um dos principais motivos foi a ausência de um concurso para escolha do arquiteto responsável pela obra, Bruno Soares, nomeado pela Sociedade Frente Tejo.
 
A chuva de críticas avolumou-se quando a Ordem dos Arquitetos rejeitou quase que de forma unânime a proposta de losangos para o piso e a criação de um plano mais elevado em relação ao rio. Some-se a tudo isso a proximidade das eleições locais e temos o caldo político necessário para tornar qualquer obra interminável.
 
O debate tomou conta dos principais jornais do país e enquanto o atual presidente da Câmara de Lisboa (equivalente ao prefeito), António Costa, sofre com os ataques da oposição e da Ordem dos Arquitetos, a cidade perde por não saber ao certo o que fazer com um de seus principais espaços públicos. E perdemos todos nós por sermos privados de poder usufruí-lo.
 
 

Daniel Escobar - Publicado no blog Comboio Lisboa   

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publicado por ardotempo às 15:14 | Adicionar