"Nojo...até quando mamãe vai agir assim?"

O vulto da T-shirt laranja
 
Ana Helena estava parada ao lado do carro, em frente à praia, pelo lado da orla. A brisa marítima era intermitente e fria, roçando-lhe as pernas e aguçando os sentidos. A saia curta esvoaçava loucamente entre suas coxas e ela se divertia com aquilo, enquanto olhava para o mar e terminava o seu sorvete. Fazia um calor intenso, amenizado pelo vento do mar, mas ela percebia o perigo do sol como um maçarico sobre seus ombros, dourados e brilhantes de suor. A cabeleira cheia, dançarina, completava a coregrafia alucinante da saia florida. Ainda se estava fora de temporada e a praia continuava deserta.
 
Era engraçado morar num lugar tão lindo e tão frágil como aquele, que só tinha vida efervescente e desesperada durante uns três meses por ano, contando-se em fieira os feriados emendados. Ali não havia futuro para ninguém, um lugar onde se vivia com o que se comia, daí o sucesso de tempo finito para os restaurantes de peixes e mariscos. Um local de férias paralisante, terminal, para se morrer aos poucos, de tédio. Os barões do balneário - e na política local, cheia das pequenas negociatas que todos ficavam sabendo, cedo ou tarde, porque resultavam visíveis, tridimensionais - eram apenas os donos dos empórios de materiais de construção e os das próprias construtoras. essas mesmas que iam arrasando paulatinamente as belezas naturais da praia, em nome de um progresso impossível e derrisório.
 
Ana Helena nem pensava nisso, apenas sentia o frescor agradável da brisa em contraste com o calor extasiante do sol chapado como uma frigideira, enchendo os pulmões com o ar limpo, saboroso de maresia.
 
Distraída com o mar e a brisa agradável, não percebeu o vulto com a t-shirt laranja que se aproximara sorrateiramente pelo eixo de suas costas, antes que fosse demasiado tarde.
 
– “Merda... que azar...” pensou, enquanto tentava entrar com rapidez no automóvel, nervosa, procurando acertar a chave e dar a partida no carro, para fugir. Não deu certo, o sujeito entrou pela outra porta, quase ao mesmo tempo que ela e disse-lhe:
 
– “Vamos lá para o bosque da lagoa”.
– “Não, não vou”. 
– “Vai, sim, vamos agora, sai com o carro”. O rapaz mostrou-lhe a arma e tocou-lhe brutalmente com o cano nos seios. – “Vai rápido, você vai me dar tudo!
 
Ana Helena sentiu um gelado correr por dentro, uma solidão de abandono a invadi-la, apesar do calor do dia e do sol escaldante.
Saiu com o carro e foi contornando a avenida deserta à beira-mar, devagar, buscando ganhar tempo e vendo se encontrava algum conhecido para pedir socorro, mas o horário de sol pleno era desfavorável a ela e o rapaz ia indicando com firmeza os caminhos para os desvios mais ermos do balneário, afastando-se da praia, desse jeito logo estariam na parte rural da cidadezinha. Os que os viram passar ao longe, não desconfiaram de nada.
 
– “Me deixa sair, fica com o carro...
– “Vai dirigindo, não fala nada, vai pra lá, do lado daquela árvore...” falava o vulto da t-shirt laranja, enquanto apertava a pistola contra seu corpo, aumentando o medo de Ana Helena.
– “Pára com isso, me deixa em paz...
– “ Fica quieta, você vai fazer tudo o que eu quiser, não fala, não grita, vou te comer todinha, tira a calcinha, quero ver tudo...” o cara se debruçava sobre ela, a arma apertada em seu peito, machucando-a, Ana estava aterrorizada, quase perdera o controle do carro e saíra da estradinha de terra, por sobre a relva, no local onde ele indicara,  isolado e escondido.
– “Filho da puta...
– “Fica quieta, olha aqui...” ela viu aquele volume horrível e repulsivo à sua frente. Ele a obrigou a abrir a boca e engoli-lo todo, brandindo negligentemente com a arma perigosa e embalada, apontada diretamente para seus olhos, enquanto a segurava pelos cabelos com força exagerada, sacudindo sua cabeça com violência para todos os lados. Os safanões dolorosos não lhe permitiam qualquer reação ou pensamento encadeado Ela somente sentia a dor insuportável dos repuxões nos cabelos.
 
Ele fez o que quis com ela. Possuí-a pela frente e por trás, com violência, ameaçando-a com a arma, ela nem sabia dizer onde nem como ele se satisfizera. Fôra um desatino e evidentemente, um horror, o que acontecera de pior em toda a sua vida. Ela permanecera travada, seca. Num determinado momento, sentiu-se como morta, quis morrer ali mesmo, houve um silêncio longo e então o rapaz, bem mais jovem do que ela, falara:
 
– “Sai do carro e vai caminhando sem olhar para trás, não pára, não olha, daqui a quinze minutos você pode voltar, não volta antes... Sai, sai agora e caminha...
 
Ela estava semi-desmaiada mas saiu arrastando-se como uma zumbi, sem norte. Mas não caminhou muito tempo, deixou-se cair no chão, na areia granulada, na sombra de uma árvore e chorou, de olhos fechados, comprimida numa escuridão ensangüentada de luz, que criara para si naquele instante, olhos apertados, rosto contra a terra, fugindo do acontecido.
 
Depois de um tempo que parecera interminável, sabia lá Ana Helena quanto se passara, de olhos fechados, abismada e humilhada, ela se levantou, abriu os olhos devagar e mirou, aterrorizada por todos os medos, em todas as direções. 
Viu o carro ao longe, bem mais distante do que lhe parecera possível e não viu mais ninguém, nenhuma movimentação ao redor. Nem sombra do vulto da camiseta de surfista, cor de laranja. Retornou com cautela, cambaleante, não tinha as chaves do carro e percebeu, com horror, que estava sem a calcinha. “Que filho da puta...desgraçado, sem pai nem mãe, corno, veado, desgraçado, filhoooo da puuuuta...” ela pensava e rosnava e gritava...
 
Ana Helena circundou o carro, examinando o seu interior, reconhecendo o terreno e o matagal nas imediações. Tudo estava calmo, um tempo paralisado em calor, sem tensões, apesar da sua taquicardia, do seu medo, da sua raiva e de seu nervosismo. A chave ainda estava no contato, por sorte e a sua calcinha, por azar, toda melada e úmida, abandonada sobre o banco traseiro. 
 
– “Onde esse desgraçado tinha gozado? ... dentro dela ou na sua calcinha? ... filho da puta, desgraçado... vou te matar, seu desgraçado sem mãe...punheteiro, filho de padre”.
 
Ela dirigiu de volta para a cidade em alta velocidade, como se estivesse fugindo de seu próprio temor, da sua história futura, olhando com atenção, assustada, para ver se ainda descobria o vulto, a sombra alaranjada temida, na tarde que se fazia deslumbrante sem hiatos de nuvens no céu, aquela brisa revigorante a afagar os vestígios de seus sentimentos destroçados. 
 
Foi direto para sua casa, o mais direto possível, passando pelo centro e fazendo os atalhos que conhecia, os olhos em tempestade no meio do dia renascentista. Ela joga-ra com ódio a calcinha ainda molhada, pela janela do carro, na direção de uma lata de lixo cheia de entulho, na esquina da avenida central do balneário. Ninguém testemunhou o seu gesto de repulsa nem ela se preocupou em ver se acertara o alvo, queria desfazer-se do objeto nojento.
 
Entrara em casa silenciosamente, descalça, correndo e refugiara-se, sem ruídos no banheiro onde se lavara frenéticamente, esfregando-se toda enquanto chorava copiosamente. A água do chuveiro, inundando-lhe o corpo fizera-lhe bem, o sabonete cheiroso consolou-a com a sensação da limpeza e da renovação.  Foi para seu quarto, trancou a porta, ligou o ar condicionado, fechou as janelas, deitou-se nua, ainda molhada e escondeu-se num sono sem sons e sem culpa.
– “Filhoooo da...” ainda pensara enquanto adormecera como uma âncora de navio que se desprende em queda livre, em direção ao fundo da baía protegida das intempéries.
 
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Demorara-se para o jantar, via de longe a família reunida à mesa, seu pai, sua mãe, quase todos os seus irmãos e a sua irmã bem mais novinha. Todos conversando alegremente, fazendo alguma bagunça, o alarido natural que conhecia tão bem. Chamavam por ela. Nunca conseguiria contar nada a eles, muito menos a seus pais. “O que devia fazer, esquecer tudo, lavou, tá novo?
 
– “Oi Ana, dormiu heim? Boa noite, bom dia... Olha essas olheiras...” 
– “Olha, hoje tem o linguado com camarões grandes, que você tanto gosta... sua mãe só pensa em você, só faz essas coisas especiais, quando você volta e vem passar essas temporadas por aqui...” 
– “É, mas todos comem também...venha sempre Ana, que assim todos passamos bem...
– “Ihhh, olha como está silenciosa, nem parece a Ana dos camarões gigantes, parece a bela adormecida mesmo, hipnotizada...
 
Ana Helena comia automaticamente, em silêncio e sem vontade, fingindo interesse para não chamar demasiadamente a atenção de ninguém para um drama que nenhum deles podia sequer suspeitar, enquanto todos jantavam e brincavam uns com os outros.
 
De repente, um ruído na porta e o rapaz entrou com estardalhaço, fazendo ruídos arrastados. Ana viu, com o canto dos olhos, quando a mancha laranja do vulto passou rapidamente às suas costas e refugiou-se no banheiro, como ela fizera à tarde.
 
– “Onde esse filho da puta se mete, nunca respeita ninguém, onde ele esconde aquela arma medonha...?” pensou Ana enquanto parava, definitivamente, de comer...
– “Estuprador desgraçado, covarde, não merece os pais que tem...” pensava com ódio, em silêncio, quase gritando.
 
– “Ehhh, chegou o surfista revoltado...” 
 
– “Vem comer, aproveita, hoje está demais, vem comer os camarões da Ana... esses tesouros maravilhosas que ela abandona...
 
– “Ninguém sabe por onde esse anda, só pensa naquela prancha...acho que passa o dia inteiro no mar...
 
Ana Helena deixou passar um tempo, levantou-se da mesa e saiu silenciosamente procurando não despertar muita atenção, deslizando de volta para seu quarto. Parou em frente a porta cerrada do banheiro, escutou o barulho da água do chuveiro, chutou a porta com violência, enquanto pensava:
 
– “Nojo... até quando mamãe vai agir assim?...nessa proteção, sempre, sempre...
 
Na sala de jantar, em meio ao alarido, aparentemente ninguém se importara com nada, nem com a saída de Ana Helena da mesa, nem o estrondo do chute na porta. Do banheiro, não viera nenhum ruído humano, nenhuma resposta, fora o barulho da água caindo.
 
Ana refugiou-se no seu quarto, trancou cuidadosamente a porta com duas voltas da chave, ligou o ar condicionado, tirou a roupa e deitou-se, olhos abertos na escuridão. Naquela noite demorou a adormecer, talvez porque tivesse dormido excessivamente durante a tarde.
 
 
© Alfredo Aquino - A Fenda, Iluminuras- 2007
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publicado por ardotempo às 15:15 | Adicionar