Faz-te à vida, miúdo

O que vêem os olhos quando já não podem ver
 
António Lobo Antunes
 
 
Para a Rita, que sabe enxotar papões.
 
Isto que escrevo é o quê? Uma pessoa a bater à porta sem que lhe respondam e continua a insistir numa monotonia aflita? A mão que imita no papel a chuva da janela? O silêncio do outro lado das vozes quando as nossas lembranças, uma a uma, se calam? Um velho a morrer sozinho num terceiro andar sem elevador e na cabeça dele, não alcançando a boca, o chamamento que só eu oiço
 
- Elisa
 
e o relógio de parede que só ele ouve, com todas as horas da sua vida dentro, as insignificantes, as grandes, um barco a afastar-se? Será isso acabar, um barco que se afasta, uma senhora a dizer adeus com o lenço, por trás do lenço um sorriso e por trás do sorriso ninguém, nem o que pensamos ser a nossa sombra? O lugar onde o Mondego nasce, num fiozinho, entre pedras e o sol no fiozinho e a tua sombra dentro? Isto que escreves é o quê? O teu pobre corpo no hospital, há dois anos, um corpo que não é teu, és tu, um trapo que tenta resistir, desiste, continua e tu, sem orgulho nele, a vê-lo desobedecer-te, diluir-se? Qual o teu nome verdadeiro sob o nome que te chamam e nem a tua mãe conhece? Escreves para quem se estão mudos, se não podem ler-te, se lendo-te se distraem de ti e te abandonam? Que sentido fazes e a quem esse sentido importa? Haverá alguém mais sem companhia do que aquele que fala? Depois de não seres virão escutar-te ou são os móveis da casa que escutam, as cruzetas baloiçando sem descanso nos varões, seja o que for parecido com o mar, a sétima onda que sempre procuraste e nunca veio, vem um enfermeiro medir-te a temperatura na orelha e queres dizer-lhe e não consegues, ao não conseguires perdes o que querias dizer e em ti
 
- Elisa
 
e o relógio de parede com todas as horas da tua vida dentro, sobretudo as que não viveste e te gastaram, mínimas horas entre as quatro e as seis quando era possível, ainda, encontrar um buraquinho onde coubesses neste muro? Não te lamentes, não te tornes amargo, não esperes: ocuparam o teu lugar, não tens espaço, fica o pó de algumas frases que um sopro distraído varrerá, um lugar nas selectas, títulos que penduraste à entrada dos teus gritos, nada porque nada te atinge ou te perturba, é tarde. Isto que escrevo é o quê? A empregada continuará a vir, a tomar conta da casa, a deixar-te bilhetes, a surpreender-se com a ausência de roupa no cesto, a ausência de correio, a ausência de ordens, a camisa azul precisa de, lave melhor o plástico do chuveiro, não encontro a faca do queijo na gaveta? Tão quotidiana foi a tua vida, pequeninos gestos, pequeninas maçadas, pequeninos projectos, pequeninos desejos e tanta luz em volta que te não pertence. És uma estátua entre estátuas, cegaste?
 
Quem passeia o cão que não tens, quem examina o que te resta de intestinos, quem morrerá contigo se morreres? Fotografias de outro, cartas de outro, o teu prato não na mesa, vazio, limpo? Mais perguntas ainda ou nenhuma pergunta, vais-te embora e ficas, durarás para sempre a esta mesa, nesta rua, neste quarteirão, a lembrares-te do homem que vivia com o gato e passava fome para comprar fiambre ao bicho, peixe caro, miminhos, enquanto ele se alimentava de cerveja, resmungos e cigarros? Ou o sujeito enorme que ao deixares o automóvel no passeio te tranquilizou, olhando o fulano das multas com desprezo
 
- Vá sossegado, doutor, que por cima de mim só os aviões?
 
Ou aqueles que não te deixavam pagar a torrada, o Julinho, o Carlos, os outros que, ainda estás para saber porquê, te estimavam? O paquistanês que se despediu de ti a apertar-te a mão, comovido
 
- Tenho de me ir embora, desculpe, não ganho um tostão com a loja
 
sentindo-se culpado de ser pobre? O senhor Varela, digno, delicadíssimo, de cabelos brancos, a quem o cancro levou a esposa e se injectava derivado aos diabetes, iluminando a esquina ao cumprimentar-te
 
- Ontem à noite senti-me mal, rezei dois Padre-Nossos, melhorei
 
a solidão que morava nesta conversa, rezei dois Padre-Nossos, melhorei? Senhor Varela, senhor Miguel que te oferecia do bolo que a mãe fez no Alentejo, João Paulo, Vítor, Senhor Cardoso, dona Irene, senhor Jorge, sempre tão atentos contigo, generosos? Senhor Leonel, senhor Paulo, um rosário protector à tua volta e tu a pensares
 
- Não mereço a vossa estima?
 
Formaram a matéria dos teus livros, ensinaram-te tanto, e tu é que eras o doutor, tu é que eras importante, que patetice, que asneira, ficarás aqui ao ires-te embora? Ficarás aqui ao ires-te embora, é aqui que pertences, reencontraste a Benfica perdida neste lugar de Lisboa, nestas pessoas que não sonham o que lhes deves nem acreditam em ti por mais que o repitas
 
- O senhor doutor está a brincar
 
convencidos que estás a brincar e não estás a brincar, é no meio desta gente que te sentes bem, deste canto que ninguém a não ser nós sabe onde fica, é para eles, que te não lêem, que escreves. O senhor Ribeiro, que ainda não saiu da guerra na Guiné, a dona Fernanda que te enrolava salsichas em couve lombarda, a esplanadazinha com as empregadas brasileiras do cabeleireiro?
 
O teu avô nasceu em Belém do Pará, o teu bisavô nasceu em Belém do Pará, ao teu trisavô, filho de camponeses da Póvoa do Lanhoso, meteram-no num veleiro faz-te à vida, e ele fez-se à vida, que remédio, e lá andou na borracha, aguentou-se. Chamava-se Bernardo António Antunes e aguentou-se. Aguenta-te tu. Isto que escrevo é o quê? O trineto do senhor Antunes a aguentar-se, a nobreza dele um casinhoto que deixou de existir há séculos, na Póvoa do Lanhoso. Todo o Minho do sangue do senhor Antunes está no teu, é uma criança num veleiro, a fazer-se à vida. Faz-te à vida, miúdo. António Antunes, mais o Lobo da nora do senhor Antunes, Leopoldina claro, como a imperatriz. O teu pai tinha retratos dela, morreu nova. Isto que escreves é Belém do Pará a tremer ao longe nas histórias que te contavam em pequeno, mamãe diz ao papai que eu quero ir para a guerra do Paraguai. E vou. Pensando bem já lá cheguei há que tempos.
 
© António Lobo Antunes
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publicado por ardotempo às 03:58 | Adicionar