Conto inédito de Jean-Michel Lartigue

Equívoco
 
Jean-Michel Lartigue
 
Começou na hora do jantar. Estava segurando o garfo quando sentiu um leve formigamento nos dedos. Aos poucos foi intensificando, até ficar tão forte que teve de deixar o talher. Passou. Ficou na cabeça.
 
Na hora da novela, voltou. Uma vibração desagradável deslizava pela espinha, dos ombros até os rins.  Lembrou das sessões de fisioterapia que tivera no ano anterior, ele nunca havia gostado das ondas curtas. Passou também. Mas a estranha sensação fincou uma bandeira escura na sua mente. Pressentia alguma coisa e a coisa tinha uma cor sombria, verde escuro precisamente. Estremeceu. Nem conseguiu assistir o beijo apaixonadamente estúpido no final do capítulo, deu vontade de escovar os dentes e deitar.
 
Foi na frente do espelho que a percepção tomou forma e adquiriu sentido e palavra: metamorfose. A compreensão súbita de que estava se transformando em algo o deixou mais perplexo do que apavorado. Algo. Era uma palavra sem sentido, indefinida, vazia. “Algo” não era nada, não era ninguém. Em que “algo” estaria se tornando? Sentiu a pele do rosto mais esticada, a boca ligeiramente mais curta, as sobrancelhas mais finas, o olhar mais suave. Notou a ausência absoluta de barba de final de dia, afecção exclusivamente masculina.
 
Estava perfeitamente liso. Imberbe. Como uma mulher. Reprimiu um sorriso. Era melhor ser uma mulher do que um inseto kafkiano. Verificou os membros, quatro, que bom, pensou, aparentemente tudo estava normal por esse lado, as pernas apenas um pouco dobradas para fora, coisa a toa, não tinha motivo para agachar-se, tentou ficar reto e não conseguiu.
 
Estranhou e esqueceu em seguida, havia notado uma, duas, três espinhas verdes no rosto, mais pareciam escamas. Ao passar a mão no queixo e na bochecha voltou a sensação ruim que tivera assistindo a novela. A pele estava fria. Lisa, fria e esverdeada. Um sapo! Estava se transformando em sapo! Pensamentos oblíquos colidiam desordenadamente nas paredes parietais do crânio: tinha que ligar imediatamente o chuveiro ou encher a banheira, água era necessária, urgente, coisa de vida ou morte, se via pulando o tempo todo no recinto do seu quarto sala até morrer de cansaço ou de tédio ou de solidão, a solidão do sapo era terrível e nunca tinha sido objeto de pesquisa zoológica, não se podia aliviar a angústia dos batráquios, no final uma moça caipira iria surgir do nada e de um beijo na boca transformá-lo de volta em humano encantado. Foi para a cama sem mais olhar no espelho, pensando se valeria a pena voltar a condição de homem, voltar a enfrentar a inutilidade de sua vida, se não seria melhor ficar pulando mesmo atrás das moscas de verão que entravam pela varanda.
 
Quando acordou avistou a cama a uma distância de uns dois metros, bem abaixo. Virou a cabeça e deu de cara com um ângulo reto e metálico prolongado por uma borda do mesmo metal azulado. Seguiu-a até o ângulo seguinte. Deu a volta do quadro - reconheceu a gravura de Peticov pendurada no seu quarto - e subiu até o teto. Sentia-se seguro, perfeitamente grudado às paredes. Olhou para baixo e leu as horas no despertador digital: três horas.
 
Estava escuro no quarto, mas na sala entrava o luar; correu pelas paredes e parou em cima da porta que dava para a sacada. Voltavam lembranças de acrobacias infantis, quando escalava as macieiras do jardim de sua avó. Curtiu, percorrendo o apartamento inteiro numa velocidade incrível, sem jamais precisar ficar no chão. Na luz tênue que banhava a sala acabou enxergando a sua cauda e as patas. Assim, tinha se metamorfoseado em lagarto.
 
Por que não? Era um destino talvez inusitado para um ser humano, mas quem falou que havia algum mérito em ser um ser humano, ter mãos e pés simiescos, uma coluna fraca e uma cabeça mais ainda? Rememorou a semana anterior, a crise aguda de depressão, a televisão ligada - a televisão era melhor amigo que um cachorro, falava sozinha sem se incomodar do silêncio dele e até chegava a emitir sinais de inteligência em algumas ocasiões - lembrou do programa do National Geografic Channel e da morte de um lagarto pelo bote certeiro de uma víbora. Coisa terrível a de nascer lagarto, havia pensado. A idéia de que ele poderia ter vindo ao mundo na pele lisa e verde de um lagarto o deixara paralisado por longos minutos, num bloqueio mental introspectivo salutarmente interrompido pelo interfone, a pizza havia chegado. Lagarto não come pizza e comedor de pizza não é mordido por víbora em apartamento com carpete. Esquecera do acontecimento, até a metamorfose.
 
Por que não um lagarto afinal. De toda evidência, era um lagarto urbano, com riscos remotos de cair na cadeia alimentar de cobras ou águias. Ele, por sua vez, podia caçar a vontade os pernilongos que antes o atormentavam. Ia se vingar de todas as picadas sofridas na vida.
 
Ouvira dizer que apenas pernilongos fêmeos sugavam o sangue dos adormecidos indefesos. Mulheres. Não tinha por que se vingar delas - entre as que o fizeram sofrer e as que ele fizera sofrer a conta devia estar empatada - tampouco tinha por que não se vingar. De qualquer modo, iria nada mais do que obedecer ao instinto do lagarto. Ia rastejar em silêncio, sem deslocar sequer uma molécula de ar, ficar na espreita, dar o bote de língua afiada nas asas e comê-las sem pudor nem remorso. Seria um ato de sexualidade antropofágica. Uma pura delícia. Decretou que a vida de lagarto urbano valia a pena. Iniciou a caça.  
 
Aventurou-se na varanda, atrás de um pernilongo particularmente apetitoso. Imobilizado do lado de fora da sacada, virou lentamente a cabeça, acompanhando o vôo despreocupado do inseto. Enxergou o seu próprio reflexo no vidro da porta, mas não durou mais que um décimo de segundo. Estava pelado. Viu os olhos estarrecidos e só. O pavor tomou conta de oito andares imediatos.  
 
Encontraram o corpo de madrugada. Ao lado acharam uma pequena cauda de lagarto quebrada. A polícia concluiu em suicídio. 
 
 
 
 
© Jean-Michel Lartigue
publicado por ardotempo às 13:47 | Adicionar