As sombras da memória

Uma experiência radical
 
Ferreira Gullar
 
Naquela noite de abril de 1959, no apartamento de Lygia Clark, ali, na Prado Júnior, esquina com avenida Atlântica, quando li o manifesto neoconcreto para os companheiros que deveriam assiná-lo, nem eu nem nenhum deles imaginaria o que de fato começava naquele momento. Na verdade, começava um movimento que marcaria a história da arte brasileira e seria reconhecido como efetiva contribuição à vanguarda artística internacional.
 
Até algumas semanas antes, não me passava pela cabeça escrever um manifesto que assinalasse um rumo novo para a arte construtiva no Brasil. A proposta inicial, de Lygia Clark, era fazermos uma exposição coletiva para mostrar os trabalhos que os integrantes do grupo haviam realizado nos dois últimos anos.
 
Fiquei encarregado de escrever o texto de apresentação dessa mostra, mas, ao começar a tomar notas para escrevê-lo, dei-me conta de que os nossos trabalhos - tanto dos artistas plásticos como dos poetas - diferiam muito do que se entendia por arte concreta.
 
Por que, então, me perguntei, continuar a nos chamar de "grupo concreto do Rio", em contraposição ao grupo concreto de São Paulo? Ocorreu-me o nome "neoconcreto" porque, ao mesmo tempo que indicava a nossa origem (o concretismo), afirmava que já não seguíamos a mesma trilha. Algo novo nascera.
 
Essa é a razão por que, diferentemente dos demais manifestos, o nosso não anunciava a arte do futuro: apenas mostrava que os trabalhos mais recentes do grupo diferiam do concretismo de Max Bill, dos concretos argentinos, dos paulistas e, mais que isso, que nossa visão teórica da arte era radicalmente outra.
 
Em que consistia a diferença? Vou tentar explicá-lo sucintamente: a arte concreta, herdeira que era das vanguardas construtivas do começo do século 20, transformara a pintura numa espécie de exploração das energias do campo visual, o que a tornara uma experiência estritamente retiniana, ótica, destituída de qualquer subjetividade.
 
Essa concepção estética era o reflexo, no plano da arte, da visão racionalista e cientificista, que pretendia eliminar da expressão artística toda e qualquer emoção e fantasia. Dentro dessa concepção, o que não fosse objetivo e "científico" não passava de resíduo romântico, que a modernidade superara.
 
Contrapondo-se a isso, nosso manifesto, apoiado na fenomenologia de Merleau-Ponty, afirmava que a experiência afetiva do homem no mundo era um modo de conhecimento tão verdadeiro quanto o conhecimento científico. E, do ponto de vista da criação artística, mais rico. Isso implicava um retorno à subjetividade e a substituição da expressão ótica instantânea pela duração e pela participação manual, tátil do espectador na obra de arte.
 
Essa nova relação obra-espectador -que começou com os "livros-poema", os "poemas espaciais" e desenvolveu-se com os "bichos" de Lygia Clark- teria desdobramentos inesperados, nas obras futuras da própria Lygia e de Hélio Oiticica.
 
A visão neoconcreta, ampliada na teoria do não-objeto, pôs em questão a natureza contemplativa da experiência estética e abriu caminho para que a ação substituísse a contemplação. Daí os "objetos relacionais" de Lygia e os "parangolés" de Hélio, antecipadores do que hoje se chama de arte contemporânea, mas que não devem nada a Duchamp.
 
Encerrei minha participação no movimento neoconcreto, depois de inventar o "poema enterrado", construído na casa de Oiticica, mas que, no dia de sua inauguração, estava inundado pela chuva da noite anterior. Fui então trabalhar em Brasília, donde voltei para atuar no CPC da UNE, desligando-me das experiências de vanguarda para escrever poemas políticos e trabalhar pela reforma agrária. O resto se sabe: golpe militar de 1964, intimação para responder a inquérito policial-militar. O CPC virou o Grupo Opinião, um dos centros de resistência à ditadura militar. As consequências foram prisão, clandestinidade e exílio.
 
Não obstante, meu afastamento não significou o fim do neoconcretismo. Pelo contrário. Especialmente Lygia e Hélio, com sua audácia, estenderam a desdobramentos extremos as propostas implícitas na teoria neoconcreta, hoje considerada uma contribuição brasileira ao pensamento estético contemporâneo.
 
Esses dois artistas ganharam reconhecimento internacional, tendo levado para além dos limites do que se chama arte as inquietações nascidas daquele convívio e intercâmbio que nos uniam e incendiavam. Isso foi há 50 anos.
 
 
© Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo / UOL
Fotografia de Mário Castello - A sombra de Duchamp (São Paulo), 2004
publicado por ardotempo às 22:25 | Comentar | Adicionar