O ambientalista

Os defensores do sepultamento ecológico questionam por que, depois que entoamos palavras sagradas sobre o pó voltando ao pó, colocamos corpos na terra de forma ambivalente, indo extraordinariamente longe para evitar esse contato.

Essa prática começou – mas apenas começou – com os esquifes. Caixões de pinho se transformaram em modernos sarcófagos de bronze, cobre puro, aço inoxidável ou caixões que utilizam aproximadamente 60 milhões de pés por ano de madeiras nobres de florestas tropicais temperadas – derrubadas apenas para serem colocadas sob a terra. Na verdade, não realmente sob a terra, porque a caixa em que somos enfiados para sempre é posta dentro de outra caixa, um invólucro usualmente feito de concreto cinzento liso. (…)

O pessoal do sepultamento verde prefere caixões feitos de materiais passíveis de biodegradação rápida, como papelão e vime – ou mesmo nenhum material, corpos não embalsamados, enrolados em mortalhas e colocados diretamente no chão para começar a devolver à terra o que restou de seus nutrientes. Embora a maioria das pessoas através da história tenha sido enterrada dessa forma, no mundo ocidental só alguns cemitérios permitem isso – e menos ainda, a lápide verde substituta: uma árvore plantada para colher imediatamente os nutrientes do corpo humano.















Extraído de O mundo sem nós, de Alan Weisman, Editora Planeta – 2007
Foto de Mario Castello

    Acontecera uma única exceção. Um ambientalista de renome de sua cidade certa feita o escutara com curiosidade e algum interesse, fizera várias perguntas e permanecera silencioso, observando-o e refletindo sobre os dados que Albumina expunha, prolixo, reforçando as afirmações com ansiosos gestos de mãos. Porém o cientista, que o incentivara a continuar as pesquisas, já estava bem idoso, com a sua saúde comprometida, e viria a falecer alguns meses depois desse encontro.

    O sr. Albumina acompanharia o velório e o enterro do ambientalista, que expressara o seu desejo de ser enterrado no campo, sob algumas árvores num pequeno bosque, envolto apenas em tecidos brancos de algodão e sem caixão, diretamente em contato com a terra. Naquele dia e no exato momento desse seu enterro tão singular ocorrera uma tempestade impressionante de ventanias e chuvas horizontais, como se a natureza estivesse celebrando um rito de sacralização em meio a muita água, caudalosa, puríssima. Sem a menor possibilidade da presença de baratas.

    O sr. Albumina ficara encharcado como todos os presentes ao enterro, lembrara-se com ironia que uma das características da albumina era a de ser solúvel em água. Mas ele continuava ali, sólido, consistente e molhado até a alma. Aquilo lhe parecera extremamente coerente, permaneceria pensando sobre o assunto. No campo, jamais vira baratas, nas praias, longe das cidades, também não, apenas umas tais baratas d’água nas rochas junto ao mar, meio transparentes, sem cheiro, sem asas, que nem baratas de verdade pareciam ser.

Extraído do conto Baratas voam dos cemitérios, de A. Aquino,
A Fenda, Editora Iluminuras – 2007















    O mundo sem nós

    Autor: Alan Weisman
    Editora Planeta - 382 páginas, 2007
    Comunicação e Natureza
    ISBN Nº 978-85-7665-302-8


publicado por ardotempo às 13:57 | Comentar | Adicionar