Em busca da direção certa

Austrália
 
António Lobo Antunes
 
Deitava-me na relva dos canteiros e ficava horas a olhar o céu entre as árvores. De início parecia imóvel e depois enchia-se de vida, aproximava-se e afastava-se consoante as folhas tremiam e eu espantado que as folhas tremessem por não existir vento. O coração demasiado rápido dos pássaros assustava-me, impedindo-me de lhes tocar. Insectos incompreensíveis, cheios de patas e antenas, joaninhas que essas sim, entendia, o suspiro de papel de seda das roseiras, eu eterno, a China eterna, o cão invisível que ladrava ao longe eterno, tudo eterno. Ladrava uma espécie de tosse, contra quem? O pombal por fora verde, por dentro poeirento e escuro, a que faltavam tábuas. Sinos às vezes, para além do muro baldios, quintas, um burro a ajoelhar-se. Os comboios eternos também ou então foi o mundo que parou por falta de corda. Estive tuberculoso, lembro-me de não comer, de atirar para o chão os brinquedos que me traziam, não lembro mais nada acerca disso. Sonhos em que queria fugir sem conseguir correr, todos passavam por mim e eu parado. Se não há nem um sopro qual o motivo dos braços da trepadeira oscilarem? A maior parte das coisas não tinha nome nem precisava dele. Porque carga de água temos nome, nós?
 
No outro lado da rua um homem sai de uma porta, some-se noutra. Eu a escrever isto e ele a sair de uma porta e a sumir-se noutra: se calhar a outra engoliu-o dado que não o vejo mais. Agora nuvens muito altas, idênticas àquelas de quando me deitava nos canteiros: não mudaram, as nuvens, julgo que as mesmas de antes de eu nascer, de antes toda a gente nascer. Nos momentos difíceis penso na serra, acalmo: essa acho que nasceu comigo ou existe apenas quando tenho saudades dela. Um duende de gesso acolá, num quintal: olá duende, és tão feio, de barrete pintado de encarnado, de casaco pintado de azul e o encarnado e o azul a empalidecerem, vai-lhe faltando a tinta, uma manhã destas dou por ele outra vez e branco. O duende sorri. De mim?
 
Olá duende que sorris de mim, contentíssimo. Um inverno qualquer, com a chuva, lágrimas de gesso no sorriso, o barrete uma lágrima pelo corpo abaixo, deitam-no fora, compram outro com o mesmo barrete, o mesmo casaco, a mesma alegria, deitam este no balde: só os duendes não são eternos, o resto, a China, o cão, eu, sem fim. Gostava dos bêbados, da sua ternura
 
- Menino, menino 
 
cheia de ameaças, de como tudo se tornava dificultoso para eles, a esbarrarem nos gestos, a escalarem degraus inventados numa concentração demorada, a baralharem as pernas, ora numerosas, ora uma apenas, ora compridas, ora curtas, ora em simultâneo curtas e compridas, como se pode tomar conta de um corpo tão inesperado não mencionando as ideias difíceis e a hostilidade das paredes que fingem lançar-se contra eles e lhes escapam. Olha, afinal o homem que desapareceu na porta voltou com uma camisa diferente, a abotoar-se ainda, a desentender-se com um dos punhos, a subir a manga para examinar melhor, a conseguir. O duende não está sozinho, tem uma rã de loiça a três metros, enorme. Não tarda nada dá um salto e come-o. Passa um sujeito de cabelos brancos, a baloiçar as chaves do automóvel, nem um cabelo fora do sítio, a risca perfeita. Ao contrário do duende não sorri, deve ser casado, a amiga da mulher que protesta
 
- Nunca mais sais de casa
 
tem ar de estar metido num molho de brócolos, como é que eu resolvo o assunto agora, vou aguentando isto, mando as duas à fava, ainda por cima as prestações da casa, ainda por cima uma colega da minha filha e eu a deixar-me ir, vontade de largar tudo e ir caçar morsas para o Pólo Norte, a gente mete-se em cada uma, porra, tu que és meu amigo o que achas e o amigo não acha ou acha que tens de fazer como os fulanos do circo, com uma mesa comprida cheia de paus com pratos a rodarem em cima e o fulano de um lado para o outro a esforçar-se para manter a loiça a girar, mas o das chaves não se imagina a manter a loiça a girar muitos meses, não tarda um prato escapa-me e depois, o amigo e depois o melhor é fazeres como eu, fugires dos cacos, se largares uma delas a gaja assanha-se, arrebanha as outras, juntam-se todas contra ti, emigra para a Austrália a contar cangurus, o sujeito de cabelos brancos começa a suar, com as chaves do automóvel amolecidas na mão, quem me manda ser parvo, nunca mais aprendo, a ver se tiro os pratos a pouco e pouco e no entanto, dentro dele, a certeza agora é tarde, agora é tarde e eu na relva dos canteiros a olhar o céu entre as árvores, insectos incompreensíveis, cheios de patas e antenas, oiço o suspiro de papel de seda das roseiras, um sino, o cão que ladrava uma espécie de tosse contra quem, o senhor José a consertar o pombal à martelada, um comboio eterno, sempre no mesmo sítio e sempre a ir, na estação vazia uma balança e um relógio enorme, horários que se descolam, o cartaz de uma tourada ainda, às vezes o meu pai cantava a fazer a barba, punha o creme de um boião no cabelo e o pente dele pegajoso, de uma das três janelas da casa de banho via-se a mesa de tampo de pedra junto ao muro, o sujeito que baloiça as chaves do automóvel sobe a rua agora, cruza-se com uma mulata, volta-se, mais um prato para manter a girar no seu pau, torna a subir a rua, torna a voltar-se, desiste do prato e do pau, some-se, o céu enchia-se de vida, aproximava-se e afastava-se consoante as folhas tremiam e eu espantado que as folhas tremessem por não existir vento, o meu coração mais rápido que o dos pássaros, joaninhas que essas sim, entendia, um burro a ajoelhar-se, um burro ajoelhado fitando-me, quer dizer não fita ninguém, o sujeito entrou no automóvel
 
(escuto-lhe o motor)
 
à procura, em cada esquina, de uma seta que lhe indique a Austrália: talvez o resto de gasolina no depósito chegue.
 
muitos meses, não tarda um prato escapa-me e depois, o amigo e depois o melhor é fazeres como eu, fugires dos cacos, se largares uma delas a gaja assanha-se, arrebanha as outras, juntam-se todas contra ti, emigra para a Austrália a contar cangurus, o sujeito de cabelos brancos começa a suar, com as chaves do automóvel amolecidas na mão, quem me manda ser parvo, nunca mais aprendo, a ver se tiro os pratos a pouco e pouco e no entanto, dentro dele, a certeza agora é tarde, agora é tarde e eu na relva dos canteiros a olhar o céu entre as árvores, insectos incompreensíveis, cheios de patas e antenas, oiço o suspiro de papel de seda das roseiras, um sino, o cão que ladrava uma espécie de tosse contra quem, o senhor José a consertar o pombal à martelada, um comboio eterno, sempre no mesmo sítio e sempre a ir, na estação vazia uma balança e um relógio enorme, horários que se descolam, o cartaz de uma tourada ainda, às vezes o meu pai cantava a fazer a barba, punha o creme de um boião no cabelo e o pente dele pegajoso, de uma das três janelas da casa de banho via-se a mesa de tampo de pedra junto ao muro, o sujeito que baloiça as chaves do automóvel sobe a rua agora, cruza-se com uma mulata, volta-se, mais um prato para manter a girar no seu pau, torna a subir a rua, torna a voltar-se, desiste do prato e do pau, some-se, o céu enchia-se de vida, aproximava-se e afastava-se consoante as folhas tremiam e eu espantado que as folhas tremessem por não existir vento, o meu coração mais rápido que o dos pássaros, joaninhas que essas sim, entendia, um burro a ajoelhar-se, um burro ajoelhado fitando-me, quer dizer não fita ninguém, o sujeito entrou no automóvel
 
(escuto-lhe o motor)
 
à procura, em cada esquina, de uma seta que lhe indique a Austrália: talvez o resto de gasolina no depósito chegue.
 
 
 
 
© António Lobo Antunes

tags:
publicado por ardotempo às 15:10 | Comentar | Adicionar