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A morte do leitor
 
João Paulo Sousa
 
 
 
 
 
A Bertrand (Portugal) fez chegar às livrarias um volume com a cinta que acima reproduzo.
 
É uma verdadeira fonte de ensinamentos, se formos capazes de retirar deste pedaço de papel todas as lições aí contidas. Em primeiro lugar, descobrimos que o respeitável Andrea Camilleri é o "maior autor da literatura italiana"; eis um exemplo de informação concentrada, ainda por cima capaz de revolucionar todas as noções habitualmente difundidas sobre a história da literatura italiana. Esqueçam Dante, Petrarca, Leopardi, Svevo, Pavese, Tabucchi, entre tantos outros, pois a Bertrand já nos elucidou sobre quem é "o maior", como quem anuncia o vencedor de um concurso televisivo.
 
O mais interessante, porém, é a citação supostamente proveniente do Daily Telegraph: "Um autor a ler antes de morrer". Partindo do princípio de que não houve deslize do tradutor, deveremos começar por colocar a questão de saber a que morte se refere a frase; como é pouco provável que seja a do autor, insistentemente negada que ela tem sido nos últimos tempos (e que, mesmo assumida em sentido literal, não parece muito relevante para o caso, pois não se vê muito bem por que motivo seria importante ler um livro antes que o autor morresse, a menos que, na obra, ele solicitasse um comentário escrito a quem dela tivesse tirado proveito), ficamos confinados a esse conceito pós-foucauldiano da morte do leitor.
 
Assim sendo, a existência de livros que devem ser lidos antes da morte do leitor tem obrigatoriamente de nos sugerir (até por um certo sentido de equilíbrio) a existência de livros que devem ser lidos depois ou mesmo durante a morte do leitor. Explorando um pouco essa radical renovação conceptual que a Bertrand, com subtileza, através de uma discreta cinta, quer introduzir nos nossos hábitos de leitura, imagino que Malone Meurt, de Beckett, se poderia enquadrar no último género referido, ao mesmo tempo que Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, ou Cuando Fui Mortal, de Javier Marías, pertençam aos livros que devem ser lidos depois de morrer.
 
Por outro lado, se a morte nos aparecer como um limite, fácil será de constatar que o nascimento também deve ser chamado à discussão, abrindo espaço para os livros que devem ser lidos depois de nascer e para os que devem ser lidos antes de nascer, sem esquecer aqueles com que o leitor há de contactar enquanto está a nascer.
 
Eis, em suma, uma verdadeira mudança de paradigma, que é, ao mesmo tempo, um autêntico plano mundial de leitura.
 
João Paulo Sousa - Publicado no blog Da Literatura
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publicado por ardotempo às 13:43 | Comentar | Adicionar