Carta de Marselha

Carta do enforcado
 
 
Marselha (lugar para se viver desesperadamente em tristezas e injustiças) - 25 de dezembro   
 
 
A história acabou, foi boa enquanto durou. Lutei para voltar com você ao longo de 5 anos, lutei para sobreviver com arte nesses anos, com dignidade. 

Essa é a minha última carta, inútil e estéril por que estará condenada desde sempre a não ter resposta, assim como as anteriores, a mim que já não estarei mais aqui e que tanto esperei, ao longo desses anos tristes, uma carta reparadora, talvez curta, mas com as palavras certas e aguardadas, da pessoa adorada e reverenciada em gestos, em textos (poucos), em desenhos e pinturas (a totalidade) e que essa mensagem, coerente em sua essência, recolocasse, ao final, as coisas em seus devidos lugares, resgatando as esperanças e reinventando a idéia da felicidade, que já fôra um dia vivida com tanta intensidade, baseada num conceito de amor instintivo, leal e construtivo.

Foi ingenuidade e perda de tempo, pois a carta tão esperada nunca chegou . Para mim, um final infeliz, solitário e silencioso. E tudo poderia ter sido bem simples e maravilhosamente luminoso. Bastava uma palavra e um chamamento; um carinho e uma sensibilidade mais atenta.

Lutei pelo que acreditei e perdi, esplêndida e completamente.

Ocorreu um erro brutal e hoje já irreparável, a separação, trágica, abrupta e inexplicável, que tanto nos infelicitou (e a mim continou a infelicitar para sempre, como uma maldição perpétua). A tempestade chegou, inesperada, com suas tragédias épicas e nunca mais permitiu a serenidade - perenizou-se em seus transtornos, desconfortos e em fealdade. Para você, poderá até ter sido aceitável pois sua vida melhorou, aparentemente, mas ainda assim, não creio, porque estou convicto que, juntos, teríamos sido mais felizes que sós, criaríamos com menos sobressaltos os nossos filhos, porquanto as nossas vidas teriam sido mais estáveis e produtivas, criativas, um conjunto de intensidades e de sonhos; e saberíamos ser, talvez, mais felizes que outros, porque possuíamos nossos próprios segredos, construídos na delicadeza de nossas curiosidades.
  
Está sendo horrível constatar isso porque poderia ter sido bem diferente, se tivesse conquistado os extraordinários sonhos de forma concreta e duradoura, mas não foi possível, uma vez que as circunstâncias não o permitiram. Agora, nada mais existe, ficou apenas na minha memória de desejos e, conseqüentemente, será de existência breve.

Por outro lado, fui honesto com meus sentimentos, com minhas ações e métodos. Fui sincero e leal com as pessoas e teria agido sempre da mesma maneira, portanto, as coisas teriam resultado no final idêntico ao de agora. 

Não posso lamentar - todas essas escolhas foram minhas e eu delas estive convicto, mesmo que uma delas tenha sido o erro fatal de vir morar neste túmulo distante (conservador, feudal, plutocrata e preconceituoso) da cultura (ou seria da descultura - que indicaria a destruição da cultura e da arte como um fim deliberadamente almejado?), que resulta do comportamento do povo de uma província mesquinha, essa desditada, e, que seja para sempre amaldiçoada, cidade de Marselha.

Sair dessa vida infeliz e sem perspectivas é mais uma escolha minha. Não farei falta a ninguém; fizesse e alguém ter-se-ia manifestado a tempo e agido de outra forma, mais rápida e solidária, ao revés do silêncio glacial, do descaso e do esquecimento.

Tentei imaginar o possível para reverter uma situação tão desfavorável, procurei inventar e fazer, sem molestar ou prejudicar a ninguém. Procurei realizar com intensidade, com profissionalismo, com decência, com retidão, às claras, com projetos, idéias, proposições, com ações (até desmesuradas) em esforços quase heróicos porque me exigi ao máximo, em vezes além do que me sentia capaz. 

As pressões, as mentiras e as acusações, que doeram algo naquela noite já distante mas não esquecida, paradoxalmente, hoje doem bastante mais, de forma crescente, pela injustiça e pela impertinência de que se revestiram nessa memória infame, porque não já doem na superfície da pele ou dos ossos e sim noutros círculos, bem mais profundos, o dos sentimentos humilhados, o das ações fraturadas e o das reflexões esfaceladas.

Saio dessa vida (que me foi desmerecida, ingrata, injusta e desigual) com o orgulho de quem nunca tirou nada de ninguém ou de qualquer instituição, que não cometeu crimes reais, morais e éticos. Como quem procurou sinceramente ajudar a outros e em especial, aos artistas. Saio altivo, sabendo que muito me foi tirado e que, pouquissimo ou nenhum reconhecimento, me foi atribuído pelos esforços realizados.

Consciente que, em alguns casos, conseguiu-se  efetivamente fazer algo grandioso, mesmo que o silêncio e a ingratidão tenham sido as contrapartidas recebidas na totalidade dos casos. Quase nunca resultaram bons e generosos, os que foram, de fato, bastante beneficiados.

Não há ressentimentos, o que existe é a constatatação de que foi assim porque não seria diferente e que todas essas pessoas, como as outras, não agiram de maneira diversa, não porque não soubessem fazê-lo, apenas porque isso não lhes teria sido útil, rentável ou conveniente. 

Será melhor compreender-se (os que aqui ficam) que, num universo treinado para se ser apenas hedonista, individualista e bem provisionado, é isso o que vale e o que será  reconhecido como um valor concreto, não uma boa intenção; quem melhor aproveitar será o eleito. 
 
Os mais  hábeis, portanto, os mais bem aceitos, buscarão tirar as vantagens possíveis e amealhar predatoriamente todos os benefícios (em detrimento dos idealistas, dos incautos ou dos ingênuos) e será dessa maneira, esperta e sagaz, à qual se exigirá como comportamentos, a resignação e a cumplicidade do silêncio. Um ou outro que transitem fora desse padrão, com idéias diferentes não passarão de estorvo e deverão ser necessariamente eliminados ou afastados, por sangria econômica e por esquecimento induzido. Não há mérito, vale mais apenas aquele que melhor negocia.

Vivi minha vida e dela nada restou. Só um escombro de empoeiradas caliças cercado de obras de arte e de livros. Um espantoso fracasso finamente intelectualizado, soçobrado entre tantos sucessos dourados, enrijecidos por ruidosas ignorâncias (mas todas essas lastreadas e po-lidas em assombroso volume de dinheiro, que é o que realmente importa no final da história dos desejos mais secretos das pessoas e nos relacionamentos aparentemente estáveis - só o dinheiro é o que conta, no final - para as crianças, para os adolescentes e, principalmente, para os adultos - essa é a verdadeira cultura que acaba vingando no final). 

Uns desenhos e umas pinturas que ninguém mais quer. As soluções estavam ali nas paredes: uma quantidade de trabalhos amadurecidos e sofridos, solidamente elaborados, que não foram  reconhecidos e valorizados adequadamente e uns poucos de outros artistas, escolhidos e adoráveis, estes tão extraordinariamente valiosos para mim  em sua memória afetiva e que nada valem para quem quer que seja (até porque, de minhas paredes nunca saíram e tampouco serão oferecidos a ninguém, portanto, sem serem vistos, sequer existem). 

O trabalho árduo e experiente (percebi dolorosamente numa certa etapa de minha vida), feito com profissionalismo e cuidados esmerados; este também pouco ou nada vale, pois é desmerecido brutalmente, na sua delicada precisão e envilecido na qualidade, desonrado maliciosamente na versão que objetiva apenas o afastamento físico e a economia imediata. Se não existe o mérito, fica um sofrimento intenso que se prolonga e se adensa.

Acabaram-se os sonhos de engendrar as façanhas grandiosas e heróicas, acabou-se o ciclo das viagens, não há mais dinheiro para nada, nem vontade para se fazer qualquer coisa, de ter idéias que aparentem ser fabulosas, mas que sabem ao sublime e ao inalcançável toque da divindade cultural; que parecem ser sofisticadas demais à frivolidade de quem gravita veloz e superficialmente em torno de coisas banais. 

Essas outras idéias, que são as ditas normais, as mais comuns, carregadas de tanta simplicidade até comovente, de redundância açucarada, as que todos aceitam com o encantamento do previsível, que nelas se reconhecem de imediato e que tornam a todos, capazes de serem classificados como gênios singulares (ah, como tudo passou a se tão fácil). Aí não estou, porque estendi sombra em outro sonho e sobre outras ambições.

O sonho acabou e as ambições não existem mais. A vida vale muito e deve ser honrada com inteligência, com a busca da cultura e da beleza suprema da arte, sem concessões. Saio dessa vida, sem Deus (idéia estéril, demencial e vingativa; devastador, cruel e mortífero câncer do intelecto; invenção maliciosa, oportunista, trágica e maligna de pessoas mal-intencionadas, deliberamente decididas a tirar proveito de poder sobre a credulidade e o terror de todos os outros), ausência que se prova pela dimensão da injustiça e pelo volume de infelicidade que nos rodeia, nos desencontros do afeto e na crueldade das doenças, nas carências, na omissão da solidariedade cultural; e principalmente, na solidão resultante contra cada um dos indivíduos.

Como se pode justificar ou aceitar a solidão? Essa é a síntese de nossa submissão e de nossa condenação à infelicidade intensa - a solidão a que todos estamos destinados, uns pelos outros, apesar de pensarmos e da originalidade que possamos produzir em arte.
 
A solidão, imposta à nossa revelia pelas circunstâncias da vida, é a prova irremediável da ausência da divindade.

Autorização para suicidar somente é concedida ao que é perfeitamente feliz” - Paul Valéry. 
O elegante aforisma do filósofo aponta sem amargura à decisão que é a questão fundamental da liberdade - porque ficar e conviver com o que não se concorda, porque aceitar a feiúra das atitudes e das conspirações, sem ética e sem honradez, se o mundo imaginado é bem melhor do que o que existe na realidade? Nada devo a ninguém, os outros me devem muito, sou credor de apoios e de afetos, de gestos criativos e de idéias produtivas, de belezas protegidas e inventadas. Não sou melhor do que alguém e não mereço viver pior do que ninguém. Não me permitirei a vulgarização dos conceitos existenciais e a renúncia da idéia da beleza, em razão da pieguice, da banalização, da corrupção da ignorância, como formas de desintensificar a arte e a vida.

Já estou fora. Meu beijo e minha despedida suave.

B.
 
 
Carta de Marselha” - Extraído do conto Carta do Enforcado  - A Fenda, Iluminuras, 2007
publicado por ardotempo às 13:43 | Comentar | Adicionar