Conversa no balcão

Crónica do cálice de bagaço

 
António Lobo Antunes
 
 
 
A mulher levou-lhe o filho para casa dos pais, informou que queria viver a vida dela, meteu a roupa na mala, foi-se embora.
 
- Não lhe vou pedir batatinhas
(diz-me ele)
 
há coisas que um homem não pode aguentar.
 
Não aguenta, de facto, carrega nuns bagaços que o ajudem, insiste
 
- Há coisas que um homem não pode aguentar
 
e os bagaços não ajudam lá muito, já experimentou calmantes, trazer pequenas, ir ao bar de alterne com os amigos e nada disso ajuda muito também.
 
- Quem é que ela pensa que é?
(pergunta-me ele)
explique você que tem estudos quem é que ela pensa que é?
 
Não penso seja o que for, não a conheço, dois miúdos disputam uma bicicleta na rua, um coxo dá à bomba à perna doente, avançando contra a maré do passeio: não anda, marca penaltis a chutar a perna defeituosa, e ao imaginar a trajectória da bola invisível o
 
- Quem é que ela pensa que é?
 
longíssimo. Uma palmada no balcão
trá-lo de volta:
 
- Está-me a ouvir ao menos? Não deixou uma blusa para amostra
 
no momento em que o coxo consegue um pontapé perfeito, não esses tortos, para o céu, como se Deus jogasse. Limpa o balcão com um resto de toalha, a apagar a palmada
 
- Desculpe lá amigo, a gente exalta-se
 
seguido de uma tosse até ficar roxo porque o bagaço se enganou no caminho. Endireita-se a esfregar na manga lágrimas de engasgado, em que aproveita para incluir uma da alma
 
- Não lhe vou pedir batatinhas
 
e engrena na descrição dos fins de semana sozinho, almoço com o jornal, jantar com a televisão, um amigo de vez em quando, músico na filarmónica da polícia, a quem o clarinete anda a tirar o fôlego
 
- Soprar de manhã à noite cansa
 
também partidário do bagaço
(o coxo some-se na esquina num último remate)
que se lhe planta à mesa de cotovelos na toalha, mudo como um gato pingado ou a falar da filha solteira, que o clarinete pensa que engravidou de um padre:
 
- De quem é a barriga?
 
ordena ele e a filha atrás do cotovelo
 
- Não me bata senhor
 
a esposa do músico que se foi embora também
 
- Uma desgraçada
 
acerca da qual aprendo que tinha uma névoa no olho direito que os médicos não foram capazes de consertar e portanto torcia a cabeça, como os periquitos, para dar fé do mundo
 
- Tanto a torceu que se foi embora com um ourives para a Covilhã
 
a dissolver-se nos fundos de uma loja. A garrafa não parou de viajar entre a prateleira e o copo
 
- É servido?
 
demora-se um momento
 
- A Covilhã, amigo
 
no tom em que se fala dos Camarões ou da Tailândia
 
- Cabe na cabeça de alguém morar na Covilhã?
 
e o copo quase até cima porque a Covilhã o assusta, experimenta concebê-la
 
- Será como Aveiro?
 
onde a mãe dele nasceu e os barcos passeiam nas avenidas
 
- A minha mãe contava que os barcos passeavam nas avenidas
e eu a imaginar paquetes em alamedas, becos, ondas de encontro aos prédios, peixes nas árvores:
 
- A minha mãe de Aveiro, o meu pai de Coimbra
não bem Coimbra, uma aldeia perto
- Vinte quilómetros, nunca lá pus os pés
 
e o bagaço de regresso à prateleira com um letreiro colado a adesivo As bebidas expostas são para consumo no estabelecimento, e pelos vistos são. Pelo menos a garrafa a três dedos do fim
 
- Que se lixe o fígado, ouviu?
a apontar o próprio cinto
- Que se lixe o fígado
 
e a mulher a viver a vida dela enquanto ele lixa o fígado. No Centro de Saúde há um cartaz com um fígado são e um fígado doente, lado a lado, e o fígado doente uma esponja esburacada. A enfermeira anunciou-lhe que derivado à esponja esburacada a barriga cresce e ele a esmurrar o tórax, vitorioso
 
- Ainda está lisinha
(quantos golos terá marcado o coxo, desde que nasceu até agora?)
 
ao fim do dia desce uma placa de ferro sobre a porta, tranca-a com um cadeado, vai para casa espiar o guarda--fatos vazio, a cama do filho vazia, um frasco de perfume esquecido na mesa de cabeceira, circula de compartimento em compartimento a farejar ausências. Tenho uma
ideia vaga da mulher, pequena, ruiva, uma ideia do filho
(Nelson)
acocorado num degrau, no Carnaval em que o mascararam de Gato das Botas, com bigodes de carvão nas bochechas e o rapaz triste de não ser Príncipe ou Astronauta. Recordo-me do pai, ultrajado com as pretensões espaciais do filho
 
- Se te apetece um foguetão sai mais barato dar-te uma chapada que vês logo as estrelas
 
de modo que o Gato das Botas resignado aos bigodes de carvão e à cauda feita de um rolo de vedar janelas. A vizinha de fada e o Nelson, de Gato das Botas apenas, deve ter indignado a ruiva, despertado o instinto malévolo de viver sozinha
 
- Na galderice como as outras
 
a prometer-se a si mesma um explorador lunar. Mete a rolha no gargalo com um soco feroz
 
- Até já me informaram que arranjou um carteiro como se fosse emprego tocar campainhas e meter envelopes em buracos
 
confronta-me com a possibilidade tenebrosa
 
- Que raio de mulher se interessa por um camelo que mete envelopes em buracos?
 
e a lembrança do frasco de perfume esquecido a aumentar, de chinelos conjugais no corredor, de outra escova de dentes no copo, e de repente uma vozinha de pavio de círio
 
- Você sabe o que é ter saudades de uma escova de dentes, amigo?
 
Por acaso sei, enfim julgo que sei mas calo-me. Uma escova de dentes cor de rosa, com pêlos brancos um bocadinho desgrenhados, uma escova de dentes linda a iluminar-me uma zona escondida da alma. Procuro trocos na algibeira, peço
 
- Dê-me aí um calicezito de bagaço
 
que não me importa que o meu fígado se torne uma esponja esburacada. A gente tem de morrer de qualquer coisa, não é?
 
António Lobo Antunes
Fotografia de Mauro Holanda
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publicado por ardotempo às 13:46 | Comentar | Adicionar