Dois Poemas

Descendência
 
Mariana Ianelli
 
Sou o poema tresmalhado
Que um lobo traz à boca
Como prêmio 
De um passeio ao campo.
 
Vive em mim
O irmão mais velho 
Debruçado sobre o chão
Cavando, cavando com as unhas.
 
Aqui uma cidade se levanta,
Força e música,
Já a prostituta distribui
Os seus encantos.
 
Uma primeira espada
Deslizando
E há o deserto em mim,
Que seca todo pranto.
 
Morre aqui eternamente
O ladrão do fogo,
Morre Abel, a cada verso
A terra faz ouvir seu sangue.
 
O animal que há milênios
Me carrega
Tem a marca
Da educação pela sombra.
 
© Mariana Ianelli - Publicado no Rascunho
 
 
 
Extensão do Mito
 
Mariana Ianelli
 
Contam que ele desceu
Ao vale dos esquecidos
E cantou acima do suplício.
 
Que apaziguou o vento,
Estufou as vinhas,
De olhos fechados
Seduziu a serpente
Como se replantasse
O primeiro jardim.
 
Que foi odiado, despedaçado,
Lançado ao mar,
Para nunca mais
Uma voz se atrever à harmonia.
 
Mas não contam que uma mulher
Reuniu seus fragmentos
E encantou as mulheres da ilha,
Que assim Orfeu amou Eurídice, 
Finalmente em corpo e lira.
 
© Mariana Ianelli - Publicado no Rascunho
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publicado por ardotempo às 00:48 | Adicionar