Soburdinadas

Orações soburdinadas
 
António Lobo Antunes
 
 
Curioso como as pessoas que conheci de toda a vida não mudam nem por fora nem por dentro: para quê perguntar-te a idade se a sei perfeitamente, dez anos, onze no máximo
 
        - António
 
        e volto à infância. A minha prima Ana Maria, de braços abertos na rua
 
        - faço anos hoje não me perguntes quantos
 
        e não te pergunto quantos, foste tão importante para mim em pequeno. Eras mais velha que eu, levavas-me a correr de mão dada. O avô sentava-se numa cadeira de lona à entrada do jardim, fechava os olhos e tu coçavas-lhe a cabeça. Isto ao fim da tarde, ele de casaco de linho, depois do escritório. Tantos insectos naquele tempo, tantos canteiros, tantas flores. O teu irmão Quim Zé passeava-me na Vespa por baixo da janela de uma menina de oito anos por quem eu estava apaixonado. Tinha paciência para mim e foi morrer na guerra em Angola. Lembro--me da chegada do caixão à Estrela, com a bandeira por cima. Gostava do Quim Zé e da Ana e gostava do pai deles também, que tocava guitarra de Coimbra. Dava-se bem com o meu pai, eram casados com duas primas direitas. Falei à Ana na chegada do caixão do Quim Zé à Estrela, vai ela
 
        - Dizem que o teu pai era distante mas não era
 
        e pôs-se a contar que o meu pai abraçou o pai dela e depois lhe pegou na mão, a encostou à sua bochecha e lhe deu um beijo. Fiquei a olhá-la de cara à banda, nunca vi o meu pai ter manifestações dessas.
 
        - Juro-te que é verdade
 
        e eu parvo. Deve ser, a Ana Maria nunca me mentiu. O meu pai nasceu daqui a oito dias, este é um mês amargo: demasiadas dores. Eu cá me entendo.
 
        Curioso como as pessoas que conheci de toda a vida não mudam por fora nem por dentro: para quê perguntar-te a idade se a sei perfeitamente, dez anos, onze no máximo. Maravilhado a ver-te tocar piano eu que sempre tive dedos piores que salsichas, gordos, inúteis. O corpo magro e os dedos gordos: das duas uma, ou o corpo ou os dedos são postiços. Ou então é tudo postiço e sou outro que não sei onde pára. No caso de ser outro que corpo tem o outro, que dedos? Sinto-me bem nesta casa: livros, quadros, pouco mais. Devo ter herdado esta nudez do meu pai, este desinteresse pelas coisas, morar entre objectos imediatamente úteis. E preciso que o mundo esteja ordenado porque a minha cabeça é um cafarnaum, um sótão cheio de tralha inútil. Com essa tralha inútil faço os livros, vou alinhando o que os outros não querem páginas fora. Na época em que me levavas a correr de mão dada, Ana Maria, não escrevia ainda. Ficava a pensar na morte da bezerra. Mesmo hoje, nos intervalos dos livros, penso na morte da bezerra ou seja não penso em nada, espero. A Vespa do Quim Zé despenteava-me e eu com medo que a menina ficasse mal impressionada comigo. Nunca a vi na janela. O Quim Zé
 
        - Queres que pare?
 
        e não valia a pena parar porque não reparava em mim. O que lhe terá acontecido?
 
Casou? Teve filhos? Ou continua no mesmo prédio, de tranças, sem me ligar nenhuma? Deve continuar no mesmo prédio, de tranças, sem me ligar nenhuma, porque carga de água havia de me ligar? Ligava o professor
 
        - Escreve aí no quadro uma oração subordinada
 
        e deu-me um estalo porque escrevi soburdinada. Até hoje acho soburdinada mais bonito.
 
O professor era uma besta de violência, distribuía chapadas pela aula e eu queria ficar grande num instante para lhe aplicar uma sova. Quando fiquei grande procurei-o na lista telefónica para lhe devolver os estalos: nunca o encontrei e ninguém sabia dele. Nos intervalos de bater tirava pêlos do nariz ou mandava-nos comprar-lhe cigarros. Oxalá tenha tido uma morte macaca. O apagador de giz voava, direitinho à gente, chamava-se senhor André e o cão dele, um infeliz como nós, Pirata. O cão não escrevia no quadro orações subordinadas mas, tal como nós, comia pela medida grande, pontapés atirados com alma. Uma tarde o pai de um aluno foi à escola e enfiou um murro no senhor André, não tenho presente agora se no nariz de onde ele tirava os pêlos. Era careca e com patilhas, disso recordo-me. Recordo-me igualmente do ar sofrido da mulher. A escola ficava ao pé de um caneiro de que saíam vapores nauseabundos e, no inverno, ratos a trotarem lá em baixo, nas pedras, enormes.
 
        - Estás a pensar na morte da bezerra, tu?
 
        - Não, senhor André
 
        - Então vem aqui ao quadro escrever uma oração subordinada.
 
        Tudo isto me regressou, num vómito instantâneo de imagens, mal a minha prima Ana Maria
 
        - António
 
        de braços abertos na rua, mais baixa que eu, que esquisito. Os olhos dela iguaizinhos, redondos, uma festa que me soube tão bem na cara. Depois acenámos adeus e fui-me embora. Entrei no carro, vim para aqui fazer isto. Acabei o livro, estou vazio. No meio da prosa chegam traduções minhas em grego que a agência mandou por esses correios especiais em que a gente tem de assinar um papel. Assino sempre na linha errada e o empregado diz sempre
 
        - Não faz mal.
 
        Desta foi em grego, da última em macedónio ou polaco. E aparece logo o senhor André a anunciar aos gregos, aos macedónios, aos polacos
 
        - Escreve soburdinada, o camelo
 
        num desprezo sem fim, e os gregos, os macedónios e os polacos a concordarem, escandalizados. Devem achar os estalos merecidos:
 
        - Soburdinada, que horror, anda a gente a publicar este artolas
 
e o artolas, distraído deles, a pensar na morte da bezerra. Não: o artolas, distraído deles, a respirar o vapor do caneiro, espantado com os ratos. Não: o artolas a hesitar como se acaba esta crónica. Não a acabes, artolas: fica assim. 
 
 
 
© António Lobo Antunes

 

publicado por ardotempo às 20:56 | Comentar | Adicionar