Anônimo Noturno

Anônimo Noturno

 
 
 
 
As unhas rasparam a porta no meio da noite. Um som incomum, inesperado. 
 
RRRRRRR. RRRrrrrrrrrrrrrr. RRRRRRRR.
 
Flávio Aurélio esperou, no escuro, no outro lado da porta, no interior do apartamento, para ver, ou melhor, para ouvir se a coisa se repetiria. Coisa de filme de suspense, porque não soaram  a campainha? Bem, isso seria impossível, a campainha estava estragada mesmo ou nunca fôra ligada naquele apartamento. Não existindo essa possibilidade, tinha que ser assim, com batidas convencionais na porta ou esse surpreendente e novo rascar de unhas, no meio da madrugada.
 
O cara, Flávio, no escuro absoluto, esperou em silêncio até que o som se repetisse. 
 
RRRRRRRR. RRRrrrrrrrrrrr. RRRRRRRRR. 
 
Flávio girou a chave, na escuridão da noite e na loucura do seu espírito. O som das linguetas metálicas ressoou  com  ecos nos corredores do edificio, às escuras na madrugada. O interruptor temporizado da iluminação de segurança do andar não tinha sido acionado.
 
Ele entreabriu a porta na escuridão, sem acender a lâmpada da sala. A  silhueta, o calor do vulto, o perfume de bom gosto, sutil mas suficientemente insinuante, passaram por ele, roçando-lhe de leve a tangência da pele, entrando e dominando o espaço da sala. 
 
Flávio não tivera temor e sim uma excitação instantânea. Compreensível. O perfume da moça causara um efeito promissor e ele deixara-se levar.
 
Ele conseguiu distinguir no escuro acomodado de cinzas e negros de veludo, o contorno definido do corpo da mulher, aspirou com prazer seu perfume, percebeu o seu hálito rescendendo a hortelâ. Tentou mas não reconheceu no primeiro instante a figura da memória, a da moradora vizinha que vira várias vezes no imenso estacionamento do conjunro de prédios onde morava, manobrando o chamativo carro preto, com  quem ele nunca tinha conversado ou trocado qualquer frase mais longa, além de uns miseráveis cumprimentos rápidos e formais. Não a conhecia nem sabia seu nome. Nunca viria a sabê-lo.
 
Ela nada falou. Não precisava, qual seria a justificativa para entrar assim  no meio da madrugada, no apartamento de um cara desconhecido, que vinha observando a algum tempo, nas entradas e saídas do estacionamento, algumas vezes subindo juntos no elevador, cumprimentos superficiais, olhares nem tanto?  Ela sabia o nome dele, Flávio Aurélio, descobrira de algum jeito, com os porteiros, com a síndica, com algum outro vizinho, sabia alguma coisa dele, inclusive o que ele fazia. Mulheres são metódicas e costumam ir mais fundo nas suas investigações  e, principalmente, nos alvos de sua curiosidade.
 
Ele a enlaçou com firmeza, segurando pela cintura e beijou-a. Ela correspondeu prontamente e Flávio começou imediatamente a tirar-lhe a roupa, surpreendedo-a pela rapidez da segunda iniciativa, essa agora dele, enquanto giravam lentamente no meio da sala, beijando-se com os olhos fechados na escuridão, olhos que poderiam até estar abertos mas que nada veriam, valiam-se naquele instante da visão do tato, esparramando-se em queda lenda sobre o sofá e pelo chão, no tapete persa, de nós apertados.
 
Ele percebeu que ela bebera um tanto de algum álcool espirituoso, talvez um licor, pelo fundo de sua alma no momento do beijo, enquanto ele, a sua vez, estava completamente sóbrio.
 
Essa seria uma característica comum a todos os encontros futuros, não muitos, jamais marcados previamente mas de lembrança irremovível. Daí em frente, ele manteria uma garrafa de vinho tinto de boa marca sempre ao alcance do braço, uma garrafa de uísque escondida e um champagne prestes a mergulhar na geladeira. Ele não poderia saber nunca o momento em que ela arranharia a sua porta.
 
 
Extraído do conto Anônimo Noturno, de A Fenda (contos)
© Alfredo Aquino - A Fenda - Iluminuras, 2007

 

publicado por ardotempo às 11:54 | Adicionar