A loura cabeça de Fonseca

Federico García Lorca

 

 

Som de negros em Cuba

 

Quando chegar a lua cheia

irei a Santiago de Cuba,

irei a Santiago

em um carro de água negra,

irei a Santiago.

Cantarão os tetos de palmeira.

Irei a Santiago.

E quando quiser ser medusa o plátano,

irei a Santiago.

Irei a Santiago

com a loura cabeça de Fonseca.

Irei a Santiago.

E com a cor rosada de Romeu e Julieta

irei a Santiago.

Mar de papel e prata de moedas.

Irei a Santiago.

Oh, Cuba! Oh, ritmo de sementes secas!

Irei a Santiago.

Oh, cintura quente e gota de madeira!

Irei a Santiago.

Harpa de troncos vivos. Caimão. Flor de tabaco.

Irei a Santiago.

Sempre disse que iria a Santiago 

em um carro de água negra.

Irei a Santiago.

Brisa e álcool nas rodas,

irei a Santiago.

Meu coral na treva,

irei a Santiago.

O mar afogado na areia,

irei a Santiago.

Calor branco, fruta morta.

Irei a Santiago.

Oh, bovino frescor de canaviais!

Oh, Cuba! Oh, curva de suspiro e barro!

Irei a Santiago.

 

 

Federico García Lorca - Poeta em Nova York, 1930

Tradução: William Agel de Melo, UnB, 1996

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publicado por ardotempo às 23:05 | Comentar | Adicionar