A vida idealizada

Gol com a mão não vale
 
Ferreira Gullar
 
O futebol poderia ser definido assim: "A vida como ela não é".
 
Explico-me. Já se disse que as partidas de futebol são como batalhas em que os contendores não têm por objetivo liquidar fisicamente uns aos outros mas apenas vencer a disputa. Essa comparação com a batalha pode nos ajudar a expor nosso ponto de vista: numa batalha, todo recurso é válido, desde truques e dissimulações até a violência mais cruel e homicida. Quanto mais inimigos mortos, melhor, já que com isso se reduz a capacidade ofensiva do adversário.
 
Na batalha, portanto, não há regras, não se pode imaginar, em meio à luta, um árbitro de apito na boca a invalidar determinada ação de um exército ou de outro. Piuiiii! Apitaria o árbitro da batalha. "Parem a guerra, que esse golpe não vale!" E aí os soldados deteriam o próximo tiro de bazuca para reclamar do árbitro, erguendo os dois braços para demonstrar que não fizeram nada errado, como os jogadores de futebol. Para os guerreiros mais afoitos, o cartão vermelho, que os poria fora de combate.
 
Nada disso acontece nas batalhas de verdade. Acontece no futebol, que não é a vida mesma e, sim, uma idealização da vida. Melhor dizendo, um modo de lutar e derrotar o adversário, sem liquidá-lo fisicamente e dentro de normas pré-estabelecidas. Pode alguém achar que a vida deveria ser assim, ou seja, quando alguém violasse a norma (pisasse na bola), o juiz anularia a jogada. Por exemplo, se você é casado e começa a flertar com a colega de trabalho, poderia no começo levar uma advertência, digamos, um cartão amarelo, e, se insistisse a ponto de levá-la a um motel, seria caso de expulsão de campo, ou de cama.
 
De todos os modos, essa marcação homem a homem, na vida, é impraticável, já que não se passa numa área delimitada, às vistas da torcida e transmitido pela televisão. Além do mais, na vida a desigualdade é maior, uma vez que, além de o juiz estar ausente, quem pode mais manda mais e até mesmo anula as normas do convívio social. Sim, porque a vida também tem regras, tem leis, só que mais difíceis de aplicar do que numa disputa esportiva.
 
Em suma, o futebol nos permite viver numa disputa justa, uma vez que o número de contendores é o mesmo de cada lado e as regras valem para todos. Se um time é melhor que outro, isso se deve às qualidades dos jogadores e do treinador.
 
Aqui também, como na vida, quem pode mais manda mais, isto é, contrata mais e melhor, o que nos levará, fatalmente, a concluir que a igualdade total, que não existe na vida, tampouco no futebol se consegue alcançar. Mas, nele, se chega muito mais perto e, às vezes mesmo, se alcança, pois há partidas entre times igualmente bons, cujo resultado é impossível prever.
 
Todo este precário filosofar veio a propósito dos frequentes erros que os juízes cometem, às vezes tão graves que comprometem o resultado da partida e até a conquista de um título de campeão. E isso não é tão raro assim.
 
Os comentaristas esportivos são unânimes em reconhecer que é praticamente impossível o árbitro não errar, uma vez que ele não tem a capacidade de perceber certos detalhes de um lance decisivo. Já a câmera da TV mostra se foi pênalti ou se não foi.
 
E a pergunta que se impõe é sempre esta: por que não dotar a arbitragem de recursos tecnológicos que evitariam os erros? Mas a gente ouve sempre, como resposta, que o uso desses recursos faria o futebol "perder a graça". Quer dizer, então, que a graça do futebol estaria no erro do juiz, na vitória injusta, na derrota injusta, na revolta do torcedor que se sente garfado? A graça do futebol não está no drible habilidoso, na jogada inteligente, no gol de letra, enfim, na beleza e mestria do próprio futebol? Pelo contrário, além de alterarem lamentavelmente o resultado da partida, os erros irritam os torcedores e criam condições para que os mais violentos imponham sua vontade, levando a agressões e às vezes à morte.
 
A resistência dos responsáveis em adotar os recursos da tecnologia como meio auxiliar da arbitragem é resultado de uma visão, que contraria a essência mesma do esporte.
 
O jogo não é igual à vida precisamente porque possibilita uma disputa justa, em que todos estão submetidos às mesmas exigências. Vence o melhor. A obediência às regras é a essência do jogo, porque são elas que permitem a disputa de igual para igual. O árbitro existe para impedir a violação das regras. Ampliar sua capacidade de seguir os lances e apitar sem erros é preservar a essência mesma do jogo. Vitória injusta - por roubo ou erro - é que não tem graça.
 
 
 

 

© Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo / UOL 

Foto de Philippe Petit, o funâmbulo poeta que estendeu clandestinamente um cabo de aço entre as Duas Torres do World Trade Center em Nova York, em 1974 e passeou os 43 metros de distância entre os edificios, durante 45 minutos a 417 metros do solo, sobre o abismo.

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publicado por ardotempo às 19:26 | Comentar | Adicionar