Devoção

A Virgem dos Matadores
 
Eduardo Pitta
 
Quem tenha lido La Virgen de los Sicarios (1993), de Fernando Vallejo, ou, não o tendo feito, tenha visto o filme que Barbet Schroeder fez a partir da obra, não esqueceu Medellín, a cidade de Botero, antigo feudo do cartel de Pablo Escobar, importante centro industrial e cultural da Colômbia, país do qual se pode dizer que vive em conflito aberto: as lutas independentistas começaram em 1810; a guerra dos mil dias (1899-1903) opôs para sempre liberais e conservadores; as FARC mantêm o terror em extensas zonas territoriais na zona de fronteira com o Equador; o número de “desaparecidos” excede a imaginação mais vertiginosa. A tudo isso, o romance de Vallejo e o filme de Schroeder acrescentaram um halo de perversão em cenário pouco menos que apocalíptico, com vista para os Andes.
 
Foi portanto com surpresa e alguma apreensão que, faz agora um ano, recebi o convite para participar no Festival Internacional de Poesia de Medellín, feito por Fernando Rendón, director da revista Prometeo, responsável pelo evento. Inimigo jurado da direita colombiana, Fernando Rendón é uma lenda no milieu da “literatura de causas”, alguém capaz de tirar do sério gente conspícua como Harold Alvarado Tenorio e Eduardo Escobar, dois poetas não convidados que acusaram a organização do festival, em artigos publicados nos jornais de Bogotá, de manter conluio com a izquierda asesina, sabendo ambos (e deplorando) que o festival recebe apoio do governo, e que Álvaro Uribe, o presidente, com o ser um homem da direita tradicional, faz parte da oligarquia dominante.
 
Mas a poesia tem razões que a razão desconhece e, em Julho, parti para a Colômbia, onde me juntei a outros 73 poetas, sendo colombianos 14. A chegada ao aeroporto internacional (existe outro para voos domésticos) provoca ansiedade no europeu habituado ao Espaço Schengen: um polícia armado a cada 10 metros, um cão por cada dois polícias, retratos de terroristas nas paredes, etc. Deveras inquietante. Mas a logística do festival apanha-nos ao fim de vinte passos fora do avião. A partir dali andamos literalmente ao colo. Tendo em conta que esta décima oitava edição reuniu 74 poetas oriundos de 54 países, expressando-se em 28 idiomas diferentes, contando cada poeta com uma equipa de recepção própria, e dispondo os de expressão não-castelhana, que eram 40, de tradutor particular (o meu foi John Viana, um actor que trabalha actualmente numa dramaturgia do Livro do Desassossego, inexcedível de zelo e afabilidade), é fácil avaliar a dimensão da empresa.
 
O Festival de Medellín é considerado, até pela New Yorker, o mais importante em todo o mundo. Ao longo dos oito dias que dura, promove para cima de cem sessões. Em 2008 realizaram-se 96 em Medellín e 14 noutras cidades de Antioquia. Houve ainda um seminário de poesia. Verdade que existem mais festivais de poesia com idêntico prestígio, casos de Roterdão, Berlim e, para não sair da Europa, o da União Latina, este com carácter bienal e itinerante (o de 2007 foi em Roma). Mas quem os conheça sabe que estamos a falar de coisas diferentes. Numa capital europeia, como provavelmente nas grandes cidades americanas, uma leitura de poesia mobiliza, quando mobiliza, 60 a 80 pessoas (não estou a falar de Auden ou Neruda no pico das carreiras respectivas). Em Medellín, os espectadores são às centenas em cada uma das 12 ou 14 sessões que se realizam em simultâneo, chegando aos milhares nas colectivas de abertura e fecho. Sim, custa a acreditar. O holandês Bas Kwakman, o especialista em Fernando Pessoa que dirige o Festival de Roterdão, convidado como observador, ficou boquiaberto.
 
À margem do festival, fui espreitar a mítica Catedral Metropolitana, templo dedicado a Nossa Senhora dos Sicários, ou seja, à virgem dos matadores. Cheguei lá depois de atravessar a Passaje Junín, coração do centro histórico da cidade, espécie de Calcutá dos trópicos, que estabelece um violento contraste com a modernidade e limpeza da rede de metro, servindo com eficiência uma área com perto de seis milhões de habitantes.
 

Eduardo Pitta - Publicado no blog Da Literatura

Vênus - Fernando Botero - Escultura em mármore de Carrara (Medellin - Colômbia) 

publicado por ardotempo às 17:20 | Comentar | Adicionar