O começo e o fim

As balizas: Machado de Assis e Daniel Galera
 
Quando se fala da renovação do português escrito no Brasil, a linha de fronteira é 1922, o ano da Semana de Arte Moderna de São Paulo. À época, a enfática oposição de Mário de Andrade à matriz clássica da linguagem, patente no prefácio de Paulicéia desvairada, trazia consigo o propósito de sabotagem do português solene por interposta transgressão sintáctica. Nada disto é novidade, mas talvez ajude a explicar a progressiva evolução do português literário do outro lado do Atlântico, tendo por balizas Machado de Assis e Daniel Galera, com, de permeio, as peculiares declinações de Érico Verissimo, Clarice Lispector, Rubem Fonseca, Hilda Hilst, Valêncio Xavier, Bernardo Carvalho e outros. Vale o intróito porque Mãos de Cavalo, de Daniel Galera (n. 1979), pode suscitar resistência por parte do leitor menos afeito às mil possibilidades da língua.
 
 
Daniel Galera ainda não tem 30 anos. Nasceu em São Paulo, vive em Santa Catarina, mas passou grande parte da vida em Porto Alegre; foi na capital do Estado do Rio Grande do Sul que fundou a editora Livros do Mal; entretanto, publicou três romances e uma colectânea de contos (alguns destes livros estão traduzidos na Argentina e em Itália); traduziu autores tão diferentes como Irvine Welsh ou Michael Coleman; antes e em simultâneo colaborou com regularidade no COL, o fanzine electrónico, melhor dito, o Mailzine, «sem imagens, sem formatação, sem html: texto puro». Chegou agora a Portugal o penúltimo livro, precisamente Mãos de Cavalo, romance de iniciação, aprendizagem e busca de identidade, com acção centrada em Porto Alegre e momentos deveras conseguidos: «Cada vez que levava um golpe no rosto, simulava o impacto jogando a cabeça com força para o lado, e o sangue espirrava sobre a porta do banheiro ou o vidro do box. [...] A porta estava coberta de respingos vermelhos. Tinta vermelha diluída escorria por seu pescoço e tórax. A pia estava toda vermelha. O chão estava vermelho.» Hermano ficou sozinho com a lembrança de Bonobo, o estojo de lápis Caran d’Ache e o medo, com eles roteirizando a briga falhada. Sem iludir o facto, é da impossibilidade que o autor trata. Por exemplo, querer amar e não ser capaz. O blasé urbano é uma máscara como outra qualquer.
 
Mãos de Cavalo foi escrito a dois tempos: o tempo do rapaz, e o do homem. No lapso de um dia, o cirurgião alpinista escava o passado: tinha 15 anos, a Esplanada estava longe de ser um bairro, Hermano mantinha intacto «um resquício de excitação esperançosa, marcada por superstições e resoluções». Agora é um profissional bem sucedido, com tédio da família: a mulher cita Ballard, ele faz abdominais. No entretanto, conjectura com o Cerro Bonete boliviano (existe outro na Argentina), mítica montanha intocada, ou quase, sem «estrada, cidade, porra nenhuma. O desgraçado fica na borda de uma cratera vulcânica com uns seis ou sete quilômetros de diâmetro.» A fala é de Renan, subir aos picos é a cara dele, mas Hermano assume o transfert.
 
Como quem não quer a coisa, porque a prosa dúctil e pouco adjectivada subtrai ênfase ao discurso, Galera faz um mix perfeito entre memorialismo (na acepção clássica do termo) e deriva pós-modernista. Impressiona o domínio da linguagem, aguentando o tom sem falha rítmica, mesmo nos períodos longos, nos quais disseca a trama com precisão de relojoeiro: da bicicleta Caloi Cross aro 20 às coordenadas do Google Earth nada surge fora de contexto, o que inclui provas de downhill (ciclismo de montanha), cenas de sexo e preocupações ambientais, porque a mulher, artista plástica, fez uma instalação a partir do transplante de uma figueira, coisa que ninguém faz sem um exaustivo protocolo prévio. A todas essas a escrita não derrapa, adequando-se a cenografia a cada nova situação: «Levou ela até o Lami, estacionou sobre a areia num recanto secreto [...] e passaram o resto da madrugada avançando limites na história pessoal e no corpo do outro [...] como se isso pudesse fazer desmoronar aquele estado de felicidade quase eufórica que vibrava no interior do carro e parecia depender de um delicado equilíbrio de fatores.»
 
Após o triunfo da desconstrução e das alegorias dos anos 1980 e 90, as gerações novíssimas (o primeiro livro de Daniel Galera é de 2001) regressam à divisa de Forster: «the novel tells a story». Digamos, sem favor, que o autor de Mãos de Cavalo o faz com brio.
 
Publicado no blog Da Literatura 
publicado por ardotempo às 12:29 | Comentar | Adicionar