Diamba

Quando dois mais dois são cinco
 
Ferreira Gullar
 
Costumo dizer que, como não tenho memória, não posso ser um homem culto. Restam coisas que, a troco mais de refletir que lembrar, tenho-as como certezas ou suposições. Por exemplo, acho que muitas das opções que fazemos têm causa em nossa constituição genética, e a cada dia vejo isso confirmado pelos cientistas.
 
Agora mesmo, leio no jornal que a tendência a encarar os problemas com otimismo está na combinação de determinados genes. Li, faz alguns anos, sobre uma experiência científica feita com cem pessoas para saber como reagiriam em face da ordem de matar alguém.
 
Dessas, 94 se negaram a aceitar a ordem e as seis que a aceitaram tinham determinada área do cérebro - onde as decisões são tomadas - menor.
 
Sei que não é simples assim, pois outros fatores também atuam, mas é impossível ignorar tais constatações, mesmo porque os fatos com frequência as confirmam. Por exemplo, como explicar que uma pessoa rica se empenhe em roubar? Se, por necessidade não é, só pode ser por vocação: nasceu ladrão.
 
Posso estar simplificando, mas essas observações não são de todo descabidas. Não é, porém, precisamente disso que quero falar, mas da legalização da maconha, questão que de vez em quando volta à baila.
 
Fui levado a essas reflexões por um fato que se deu comigo. Aos 13 anos, viciado em bilhar, fui levado a experimentar a diamba, nome da maconha no Maranhão. Comigo estavam Esmagado e Maninho, pivetes como eu. Ao puxar a fumaça, senti um gosto horrível de mato velho e cuspi; Esmagado tampouco gostou; já Maninho ficou puxando fumo com os outros, gostou, viciou-se, passou para a cocaína e terminou internado num hospital psiquiátrico, onde morreria prematuramente. Já contei essa história aqui e alguém me escreveu alegando que o caso de Maninho era uma exceção.
 
Cito outros. Muitos jovens da geração dos anos 60 e 70 entregaram-se à maconha, depois à cocaína e ao LSD. Foi uma onda, que se apoiou no charme dos Beatles e dos Rolling Stones. Muitos se deixaram levar por ela, mas a maioria saltou fora em seguida. Alguns, não. É que, no caso destes, as drogas atendiam a uma necessidade psicológica, que as tornavam imprescindíveis. Herança genética, talvez.
 
Hoje, como naquela época, há os que se drogam por necessidade e os que o fazem para entrar na onda, sendo estes - o público consumidor flutuante - possivelmente a maioria. A verdade é que, juntos, por motivações diferentes, mantêm o mercado das drogas funcionando. E esse mercado, por ilegal que é, tem como regra básica a violência armada e como sentença frequente a pena de morte. Quem mais sofre as consequências da guerra entre traficantes são os moradores das favelas e dos bairros pobres.
 
Essa talvez seja a principal razão que leva muita gente a defender as legalização das drogas, na expectativa de que, com isso, terminaria o tráfico e a consequente violência. Tenho minhas dúvidas. Não imagino os Fernandinhos Beira-Mar pagando ICMS, ISS e imposto de renda sobre o ganho anual de milhões de reais, que o mercado clandestino lhes possibilita. Outra questão: se o comércio de cigarros e pedras preciosas é legal, por que então há tráfico de cigarros e pedras preciosas no Brasil? Enfim, duvido que a legalização das drogas vá por termo ao tráfico que hoje tem amplitude mundial, envolvendo o comércio ilegal de armas e a estrutura operacional de um verdadeiro Estado paralelo.
 
Há quem defenda a discriminação apenas da maconha, considerada droga leve. Mas com que propósito, se for verdade que a legalização não acabará com o tráfico? Faz sentido se for para preservar de punição os dependentes patológicos que, de fato, têm que ter tratamento médico. E os outros, que entram nisso por simples prazer, muitos deles arrastando os próprios filhos menores que, às vezes, são seduzidos pela marginalidade? Não faz um mês, a polícia carioca prendeu um jovem de classe média alta, morador de uma cobertura na Lagoa Rodrigo de Freitas, que se tornara traficante de drogas e armas. Ele confessou que, desde garoto, fumava maconha com os pais, em casa, numa boa.
 
Sua alma, sua palma. Não pretendo dar conselhos a marmanjos que já escolheram o seu lado na sociedade. Maconha, como se sabe, não faz bem a ninguém. Fora os graves problemas que pode causar, mantém a pessoa entorpecida, apática, pouco apta ao trabalho. O certo seria dar assistência aos dependentes e tentar, na medida do possível, manter as novas gerações a salvo das drogas. 
 
 
© Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo / UOL
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publicado por ardotempo às 12:22 | Comentar | Adicionar