António Lobo Antunes vem ao Brasil

António Lobo Antunes
 
Escritor português cotado para o Nobel deve participar da Flip, em Paraty, e da Jornada de Passo Fundo
 
 
 
Embora seu site não deixe claro se visitará o Brasil duas vezes em pouco mais de dois meses, o escritor António Lobo Antunes é aguardado para a 7ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece entre 1 e 5 de julho, no litoral fluminense, e para a 13ª Jornada Nacional de Literatura, agendada de 24 a 28 de agosto, no Campus da UPF, em Passo Fundo.
 
Grande nome da literatura contemporânea em língua portuguesa, o autor nascido em Lisboa em 1942 tem uma bibliografia constituída por mais de duas dezenas de publicações, das quais podem ser citadas Memória de Elefante (1979), Os Cus de Judas (1979), Conhecimento do Inferno (1981), Fado Alexandrino (1983), Auto dos Danados (1985), A Ordem Natural das Coisas (1992), O Esplendor de Portugal (1997), Eu Hei-de Amar Uma Pedra (2004) e Ontem Não Te Vi Em Babilónia (2006). Os livros de Lobo Antunes têm sido lançados no País pela Alfaguara, que deu guarida, há dois meses, a Ontem Não Te Vi Em Babilónia.
 
Arredio à vida social e polêmico pelas declarações que dá, o romancista e memorialista havia sido confirmado para a Flip do ano passado, mas teria desistido de participar do encontro por conta da formatura de sua filha. O diretor de programação da festa, Flávio Moura, disse que pretende deixá-lo sozinho em uma das mesas, que deveria ter o formato de entrevista. “Ele é provavelmente o maior estilista da língua portuguesa e um homem de opiniões fortes”, afirmou Moura. Lobo Antunes - que passou temporadas no Norte, no Pará, ele que é neto de brasileiro e teve membros da família residentes lá - não vem ao Brasil desde 1983. Em entrevista à Folha de S. Paulo, alfinetou seu desafeto José Saramago, de quem não consegue terminar nenhum livro, segundo contou, por considerá-los “chatos”. Com seu humor peculiar, ele já disse que “sou um homem generoso. Resolvi deixar o Brasil para Saramago, coitado, e ficar com o resto do mundo. Mas acho que vou começar a querer o Brasil para mim”.
 
Saramago recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1998, quando a aposta mais certa era que Lobo Antunes ganharia a honraria, dado o número de traduções que tinha e o quanto era apreciado em países como a Alemanha e a Suécia. Vencedor do Prêmio Camões em 2007, o ficcionista é formado em Medicina, com especialização em Psiquiatria, e foi destacado para Angola entre 1970 e 1973, durante a fase final da guerra colonial portuguesa - experiência que utilizou em vários de seus livros. Inquieto, para Lobo Antunes a perfeição está longe de ser alcançada, daí sua escrita estar sob constante evolução, notadamente subversiva e de radical originalidade. O fim da guerra colonial, a derrocada de um mundo burguês marcado por valores conservadores e retrógrados e a instabilidade política vivida em Portugal são temas que aparecem em seus romances. Uma curiosidade para o público brasileiro é que o autor tem intimidade com os clássicos nacionais, como José de Alencar, Aluísio Azevedo, Machado de Assis e Monteiro Lobato, que leu desde pequeno, em Belém.
 
Criador denso, Lobo Antunes pede algum esforço de leitura, em razão das mudanças de narrador que opera ao longo da narrativa. Dedicado à literatura desde que abandonou o exercício da psiquiatria, transformou-se em um dos autores mais lidos e debatidos das últimas décadas, em Portugal e internacionalmente, a partir de meados dos anos 1980. Mesmo sem ter levado o Nobel, o número de outros galardões que conquistou ao redor do globo ajudam a dimensionar a importância que tem - duas vezes o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa, o Prêmio Europeu de Literatura (Áustria), o Prêmio Ovídio (Romênia), o Prêmio Internacional de Literatura da União Latina (Roma), o Prêmio Rosalía de Castro (Galiza), o Prêmio Jerusalém de Literatura, o Prêmio Iberoamericano das Letras José Donoso e o Camões. Sobre o sempre lembrado Nobel, já revelou que “não torna os livros melhores ou piores. Claro que me dava prazer. Dá prazer a qualquer pessoa. Mas depois posso defender-me pensando: Tolstói nunca o ganhou.

 

Publicado no Jornal do Comércio - Porto Alegre RS Brasil

 

Agradecimentos a Salimen Jr., Pedro Maciel, Maria Wagner e Eduardo Lanius.

Fotografia: Paulo Amorim AE/ Jornal do Comércio

publicado por ardotempo às 19:58 | Comentar | Adicionar