Entrevista: Pierre Yves Refalo

Fotografia...alguém ainda está fazendo
 
 
 
 
 
 
 
Pierre Yves Refalo é fotógrafo profissional, autor de livros de arte de fotografia, fotógrafo oficial do Programa Sr. Brasil - Rolando Boldrin, na TV Cultura - São Paulo, e fotógrafo-autor das Séries Olivério Girondo, Deserto e Carandirú (fotografias) 
 
 
 
ARdoTEmpo: Pierre Yves Refalo, fala-se que este é o século da imagem, o século XXI - como você vê o papel do fotógrafo hoje? 
 
Pierre Yves Refalo: Para começar , eu não acho que o século XXI seja o século da imagem, o século XX foi o século da imagem, o século XXI é o século da morte da imagem...é o século da manipulação, da imagem fabricada, acabou o espontâneo, o real, é tudo fake...
 
ARdoTEmpo: Mas a fotografia é o motor das mídias mais contemporâneas, a internet, a TV digital, o cinema, a própria fotografia como linguagem,... a arte atual, a arte contemporânea, é a fotografia e o artista, contemporâneo, é o fotografo?
 
Pierre Yves Refalo: Não, sobraram poucos fotógrafos de verdade, entre os quais nem creio que eu posso estar relacionado - a fotografia hoje é a apenas a matéria-prima, a partir da qual se faz todo tipo de manipulação para qualquer finalidade, porisso eu acho que a fotografia morreu, ela se tornou uma espécie de commoditie, uma matéria-prima para ser manipulada posteriormente...
 
ARdoTEmpo: Mas o que você quer dizer com “manipulação posterior”? A manipulação técnica faz parte da proposta da nova fotografia ...por exemplo, do universo da fotografia digital...
 
Pierre Yves Refalo: É que com as novas tecnologias contemporâneas disponíveis, com os novos programas de computador e com um pouco de conhecimento dos programas, você pode salvar a pior fotografia, ela pode ser transformada, pode ser embelezada, é uma mudança do métier, do saber como fazer, eu não me sinto mais fotógrafo, eu me sinto agora um técnico em informática...
 
ARdoTEmpo: É, mas isso não é necessariamente verdadeiro quando se observa as fotos de autoria feitas por você, as fotos do inverno em Paris, as fotos na Toscana, a foto dos ciclistas em Florença, ali sempre existe uma escolha de momento e isso passa por um componente de sensibilidade pessoal.
 
Pierre Yves Refalo: Sempre há uma manipulação. Mesmo quando eu faço uma foto dessas que você chama de fotos de autor, e eu faço pouco essas fotos, faço essas fotografias quando viajo... eu não vivo com uma câmera na mão, quando eu tenho uma câmera eu sinto a necessidade de fotografar alguma coisa, mas eu não vivo com a câmera na mão como certos fotógrafos...mas depois sempre há uma passagem obrigatória pelo computador, atualmente eu trabalho apenas com câmeras digitais... têm-se que revelar a foto como antigamente revelava-se o filme, mas quando se revelava o filme, antes, estava-se ali sem poder nenhum frente ao negativo...só se podia passar ao papel fotográfico, com os artifícios do laboratório também, mas isso era super limitado com relação ao que se pode fazer  hoje na frente de um computador.
 
ARdoTEmpo: Então a situação hoje é mais favorável ao fotógrafo...
 
Pierre Yves Refalo: Não, a situação hoje resulta mais favorável a manipular a foto... mas se a foto é definida por um clique, que passa depois por um computador que a transforma completamente, então... sei lá o que se pode chamar isso hoje...
 
ARdoTEmpo: Mas é a mesma coisa... Man Ray, por exemplo, fazia interferências sobre as imagens...
 
Pierre Yves Refalo: Sim, sempre existiu a interferência nas imagens pelo fotógrafo, a fotografia sempre teve interferências. Mas hoje a base da criação fotográfica não é mais o olho, atualmente a base da criação fotográfica é o computador.
 
ARdoTEmpo: Num determinado momento nos anos 80, na Série Olivério Girondo (ensaio fotográfico artístico de 50 imagens em película, em gelatina, ampliadas em grande formato sobre papel, num minucioso trabalho de interferências em laboratório, de grande sucesso em exposições em museus) de sua autoria, um trabalho de características super contemporâneas que antecedeu ao trabalho de manipulação digitalizada...
 
Pierre Yves Refalo: Sim, sem dúvida, mas era numa época romântica, do século XX, em que o fotógrafo era obrigado a encontrar soluções para chegar aos resultados vislumbrados, aos projetos que imaginava...para chegar, por acaso, a um resultado satisfatório... mas hoje em dia, não há mais essa pesquisa porque na medida em que alguém domina o programa de computador, ele pode fazer absolutamente tudo com as imagens...
 
ARdoTEmpo: O que significaria que os limites da fotografia foram expandidos, como linguagem?
 
Pierre Yves Refalo: Não, ao contrário, significa que agora tudo está mais limitado... porque todo mundo pode ser fotógrafo ou acha que pode ser fotógrafo. O que não é verdade.
 
ARdoTEmpo: Sim, não é verdade.
 
Pierre Yves Refalo: ... ainda há um fotógrafo atrás da máquina, mas um fotógrafo atrás de uma máquina fotográfica digital não é nada, porque não há nenhuma fotografia, nenhuma, afirmo, que saia de uma digital que possa ser utilizável (sem o trabalho de refinamento no programa de computador). Não existe.
 
ARdoTEmpo: Quais são seus planos futuros para sua fotografia de autoria?
 
Pierre Yves Refalo: Não tenho nenhum plano, continuarei a fotografar o que vir à minha frente quando tiver uma câmera na mão, o que não é muito freqüente, para ter uma matéria-prima que eu possa manipular depois.
 
ARdoTEmpo: Mas você tem uma série de imagens, ou de conjuntos de fotografias que podem ser vistos como séries, como a Série Olivério Girondo, a Série do Deserto, a Série Carandiru, séries impressionantes que são inéditas, que ainda não foram vistas em sua essência...
 
Pierre Yves Refalo: Sim, sempre haverá possibilidade de mostras de fotografias feitas antes da explosão da informática...
 
ARdoTEmpo: E depois da explosão da informática também, porque você continua fotografando...
 
Pierre Yves Refalo: Sim, mas você me perguntou da fotografia atual, eu falei que a fotografia real, concreta, era a do século passado e que estamos no século da imagem pelo computador... eu nem tenho saudades daquele tempo, eu nunca mais comprei um filme, essa situação do digital e do computador me convém, até por preguiça, mas a fotografia real era aquela dos filmes, da gelatina, da química, das ampliações em laboratório... alguém ainda está fazendo.

 

Entrevista concedida por Pierre Yves Refalo ao ARdoTEmpo - Janeiro 2009

publicado por ardotempo às 15:46 | Adicionar