A segunda chance

Outro Brasil
 
Luis Fernando Verissimo
 
"E na noite seguinte à segunda-feira, se perdeu da frota Vasco de Ataíde, sem haver vento forte ou contrário que o pudesse explicar; para o encontrar fez suas diligências o capitão, mas não mais apareceu", escreveu Pero Vaz de Caminha a D.Manuel de Portugal.
 
Tresmalhou-se a nau capitaneada por Vasco de Ataíde, e na manhã da segunda-feira, março 23, viu-se posta em solidão, a léguas de cada horizonte e outras tantas do chão. Fez seu caminho para o Sul e guinou para a banda do Sudoeste, seguindo um cheiro silvestre de canela e picuã. E a 21 de abril, descobriu outro Brasil.
 
Desde então, existe o Brasil das 12 naus, esse que está aí, e existe o Brasil da nau perdida, da nau que chegou só. O Brasil imaginário. O Brasil que poderia ter sido.
 
 
Vez que outra o vislumbramos, como um vulto no mato, esse Brasil alternativo. Nenhuma notícia chegou à corte da segunda descoberta. Não está nos arquivos reais, não consta de nenhum relato de escriba, não ficou na História. E, portando, foi poupado pela História. Tudo que lhe aconteceu foi apenas imaginado.
 
É um Brasil clandestino. Pedro Álvares Cabral plantou sua cruz, perguntou se tinha ouro e foi matar seus mouros. Vasco de Ataíde ficou. Despiu-se da lataria de capitão, casou-se com sete índias e estabeleceu-se. E toda a história do Brasil desde Cabral tem sua contrapartida, a história do Brasil desde Vasco de Ataíde. Tudo o que foi feito tem seu oposto: tudo o que não foi feito. Tudo que não foi feito tem seu oposto: o que precisava ser feito, e foi.
 
O Brasil de Vasco de Ataíde está na espreita do Brasil de Cabral e Dom Manuel. Algum dia ele tomará conta e começará tudo do começo, começará tudo da primeira praia. Certo, desta vez.
 
Mas segundo outra versão imaginada, depois de perder-se da frota Vasco de Ataíde fez caminho para Calicute com vento à popa e as latinas bochechadas até ter o Cabo da Boa Esperança em Oeste franco, rumando para os potentados, onde abarrotou-se, e se faria de novo ao mar se uma febre oriental não o tivesse tirado dos pés. E assim estava, sem prumo ou cuidado cristão, quando chegou Cabral. E perguntou Cabral por onde andara Vasco de Ataíde, e se não sabia que era para a frota andar a Sudoeste como quem não queria nada e descobrir mais Portugal, por ordem de Dom Manuel. E disse Vasco:
 
- Acho que essa reunião eu perdi...
 
 
© Luis Fernando Verissimo

 

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publicado por ardotempo às 22:07 | Comentar | Adicionar