Bordalo Pinheiro precisa ser visto pelo mundo todo

Os animais gigantes de Bordalo lutam pela vida
 
Centenas de moldes centenários das peças de cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro estão guardados numa cave da Fábrica de Faiança das Caldas da Rainha, em Portugal. Com a fábrica em risco de fechar, o que irá acontecer à vespa, às rãs, aos golfinhos mitológicos e a toda a fauna e flora criados por Bordalo? Há quem apele ao Estado para que ajude a manter vivo este património. A artista plástica Joana Vasconcelos, que tem vendido muitas peças feitas a partir de Bordalo, garante que esta produção tem toda a viabilidade económica.
 
Na sexta-feira, a vespa gigante ainda estava no forno. Só dois dias depois é que se saberia se o animal, criado há mais de um século por Rafael Bordalo Pinheiro e recriado agora a partir do molde original, sairia bem. "É a primeira que se fabrica desde 1900. Isto é histórico", diz a técnica de cerâmica Elsa Rebelo. Só há uma vespa igual a esta, é centenária, e está ali mesmo ao lado, num muro da fábrica de cerâmica das Caldas da Rainha. 
 
Quem passar para lá da loja, atravessar o jardim, com o laguinho em redor do qual ainda estão alguns dos animais do tempo de Bordalo Pinheiro, passar pelo lobo, pelo golfinho mitológico, pela abelha gigante, e seguir até às oficinas da fábrica, vai encontrar alguns operários (trabalham aqui cerca de 12 ou 13 pessoas) agarrados às peças que fazem à mão há anos.
 
Uma delas está a decorar uma concha enorme com limos e musgo, molhando o barro com uma esponja, corrigindo os defeitos com uma faca pequena, e adicionando os detalhes. Na bancada em frente, outro operário faz folhinhas a partir de um molde de gesso. Encostados a uma parede estão duas cabeças de cavalo gigantes, um banco em forma de cogumelo e uma réplica do lobo e a cegonha.
 
"Esta" - Elsa aponta para a peça dos dois animais - "esteve três ou quatro meses para secar, está à espera de ser pintada a pincel com vidrados cerâmicos, e depois ainda terá nova cozedura." Quem encomendar uma peça desta dimensão terá, por isso, que se preparar para esperar alguns meses, sobretudo se o tempo estiver húmido, o que atrasa o processo de secagem. 
 
São, todas elas, peças que só voltaram à vida há poucos anos, depois do lento e complexo processo de recuperação dos moldes centenários de Bordalo. "O cavalo foi feito há menos de um ano. O caracol é muito recente, ainda só fizemos dois ou três." Desmembrada ainda está uma enorme lagosta, porque os animais gigantes são feitos em vários bocados e depois de saírem do forno têm ainda de ser montados.
 
A montagem tem a dificuldade acrescida de os animais serem curvos, sem uma base estável, porque foram, em muitos casos, concebidos para decorar beirais de telhados. "Bordalo tinha uma equipa de técnicos que, como nós hoje, estudavam em conjunto a melhor maneira de fazer as coisas", diz Elsa, que é, ela própria, filha de ceramistas. "Por vezes chegamos a estar três, quatro ou cinco pessoas à volta de uma peça a pensar 'como é que vamos fazer isto?"
 
"Se se perder esta dinâmica é muito difícil voltar a encontrá-la", avisa Raquel Henriques da Silva, defendendo "um apoio especial do Governo para garantir que este núcleo histórico possa continuar". É preciso, diz, "reactivar a produção destas peças gigantescas, que são um deslumbre, são de uma beleza perturbante". 
 

 
Joana Vasconcelos confirma. "Estamos a falar de um grande artista português. Aquilo devia ser património do Estado, e estimado como tal. Além disso, tem valor comercial. Podia ser vendido como objecto de luxo, topo de gama, da nossa cultura. Eu própria vendo estas peças e apercebi-me do poder comercial que elas têm." Uma das suas sugestões é a de que se convidem designers para fazer novas obras a partir daqueles moldes, reinventando o trabalho de Bordalo com uma visão contemporânea. "Cada vez que lá vou arrepio-me a pensar nas peças fantásticas que estão naqueles moldes."
 
Para explicar o que está em causa, Raquel Henriques da Silva usa uma comparação: "É como se o vinho do Porto estivesse em risco de acabar submerso em vinho a martelo."
 

Elsa Rebelo não desanima e continua a fazer planos. Olha para um par de rãs debaixo de uma bananeira, uma delas com um pequeno leque na mão, numa peça já danificada. "O molde das rãs está a desfazer-se completamente. Se não for impossível, será pelo menos muito difícil recuperar este par de rãs. Mas eu ainda não desisti de o pôr em pé." 

 

Alexandra Prado Coelho - Publicado no Ipsilon

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publicado por ardotempo às 12:10 | Comentar | Adicionar