Alô... telefone para você

O que Watson disse
 
Luis Fernando Verissimo
 
A primeira conversa telefônica foi entre Alexander Graham Bell e seu assistente Thomas Watson. Em Filadélfia. 1876. Bell fazia uma demonstração do telefone recém-inventado para diversos convidados, inclusive Dom Pedro II, imperador do Brasil. Watson estava numa sala ao lado. Bell o chamou:
 
- Watson, venha cá.
 
Nada aconteceu. Bell falou mais alto:
 
- Watson, venha cá imediatamente!
 
Silêncio. Bell gritou:
 
- Watson, eu preciso de você! 
 
Nada. E então Bell disse aos convidados, sorrindo, “Agora vamos tentar com a minha invenção”, pegou o telefone, discou 1 e, quando atenderam do outro lado, falou com sua voz normal:
 
- Sr.Watson, venha até aqui. Eu preciso do senhor.
 
Esta é uma versão algo fantasiosa do que aconteceu. Mas o que realmente ninguém ficou sabendo, pois ninguém ouviu, foi como Watson atendeu o primeiro telefonem na outra sala.
 
Ele pode ter sido apenas solícito:
 
- Sim senhor.
 
Pode ter sido distraído:
 
- Quem está falando, por favor?
 
Pode ter sido brincalhão:
 
- Desculpe, o sr. Watson está em reunião.
 
Ou pode ter sido vidente e filosófico e dito:
 
- Já vou, Mr. Bell. Mas o senhor tem consciência do que acaba de inventar? Já se deu conta do que começou? Está certo, isto vai facilitar a comunicação entre as pessoas. Vai ser ótimo para chamar a ambulância ou os bombeiros, marcar encontros, avisar que vai-se chegar tarde, avisar que a tia Djalmira morreu, namorar, ligar para o açougueiro e fazer “muuuu”, pedir pizza, tudo isto. Mas o senhor também acaba de inventar o despertador, a ligação no meio da noite que quase mata do coração, o engano, a pesquisa telefônica... E o celular, Mr. Bell. O senhor não sabe, mas acaba de inventar o celular. Vai demorar um pouco, mas um dia esta sua caixa vai caber na palma da mão e vai ter câmera fotográfica, calculadora, TV, raio X, bote salva-vidas inflável, e vai acabar com a vida privada como nós a conhecemos, Mr.Bell. As pessoas vão andar na rua espalhando suas intimidades e não teremos como nos proteger. Ficaremos sabendo de tudo sobre todos, inclusive os detalhes da doença da tia Djalmira, e...
 
- Sr. Watson...
 
- Já estou indo, já estou indo.
 
 
© Luis Fernando Verissimo
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publicado por ardotempo às 15:22 | Comentar | Adicionar