Conto-Carta, de Ignácio de Loyola Brandão

Ignácio de Loyola Brandão

 

 

 

A foto no meio do atlas
 
Querida Tatiana,
 
Ao olhar a fotografia que encontrei no meio do atlas compreendi o que aconteceu. 
 
Uma coisa me intrigou. Como ela foi parar no meio de um atlas dos anos, 30, usado pelos alunos do ginásio, se você nos anos 30 não era nascida e seus pais ainda não tinham se casado? A quem pertenceu esse atlas? Por que estava em minha estante? Empoeirado, páginas faltando (imagine, não tem a Alemanha, nem parte da Rússia), estava jogado no alto, naquela parte onde atiramos livros que não queremos mais e não temos coragem de jogar fora.
 
Por que nos apegamos às coisas?  Que apego teria eu a um atlas que não sei de onde veio, de quem era?  Como a sua fotografia, de um tempo em que nos gostamos tanto, fomos tão felizes, foi aparecer no meio dele, junto aos mapas da China? Logo a China, o país de O Último Imperador, o filme que você tanto curtiu. Foi naquela tarde em que, entrando no cine Marabá, porque sabia que você estaria lá, te flagrei junto com ele. Você se assustou e chorou. Inutilmente, porque fiquei feliz, foi uma tarde feliz, eu estava à sua procura para dizer que estava tudo terminado e quando te encontrei vi que estava mesmo, mas preferi te deixar levar a culpa, porque imaginou que eu ainda gostasse de você e estaria sofrendo e nunca me recuperaria. Você adorava me ver aos teus pés, mas olhei teu rosto e percebi como foi difícil aquele encontro furtivo no escuro do cinema. 
 
Era uma traição – e o que é traição?  Você estava me traindo, ainda que há muito tempo eu te enganasse. Saí dali, você veio atrás, segurou a manga do meu paletó (por que eu estava de paletó numa tarde de terça-feira, no centro da cidade?) e pediu: "Vamos conversar, me desculpe, você vai entender tudo". Respondi: "Entendi, acabo de entender o amor, as mulheres, os homens, a vida, o mundo, a política, o buraco negro da atmosfera!" E você: "Quero te explicar". Mas explicar o que? Eu não queria explicações.
 
Tive medo que explicando você pudesse querer ficar comigo, quisesse estar bem, sem remorsos, amarguras. Era uma coisa que eu não podia suportar. Empurrei, você caiu na poltrona de couro vermelho do hall, uma poltrona anacrônica, toda estourada. Por que foi naquele cinema que cheirava a mofo? Para se esconder? Nunca vai saber como soube que você estava lá e espero que tenha passado esses anos todos remoendo, cheia de ansiedade. Nunca saberá que gostei de te castigar, ainda que eu merecesse o castigo, traí antes, há muito não gostava de você. 
 
Nunca saberá como descobri o seu endereço nesse spa que na verdade é um asilo. Sei que está nele, passo todos os dias pela frente, te vejo ao sol, com o mesmo jeito altaneiro (usei essa palavra no primeiro dia que nos encontramos e você gostou, lembra-se?). Você sempre foi mulher determinada, brava às vezes, risonha outras, cheia de altos e baixos, cheia de surpresas, carinhosa hoje, raivosa amanhã. Esse teu jeito me encantava, me deixava siderado (usei essa palavra no momento em que te recebi do teu pai  no altar, na hora do casamento, e você riu: “Cada palavra que você usa”, disse). 
 
Não achou engraçado: te recebi do teu pai? Estou escrevendo às pressas, escrevendo mal, repetindo muito você, você, logo eu, que tinha estilo para escrever. A bic está se acabando, não tenho dinheiro para comprar outra e o papel  é o saquinho da padaria. Percebeu? Mas quem se importa com estilo, se aquela tarde em que te vi no cinema me marcou, me acompanhou, não sai de dentro de mim?
 
Nunca reparou, no seu banco ao sol, em um homem que pelo lado de fora se agarra às grades do jardim, esperando que você olhe para ele, lembre-se de quem tirou a foto que estava dentro do atlas? Nessa foto você sorri, bebendo Frascati, uma garrafa que fui buscar correndo, porque fazia calor, você suava na têmpora, tinha a pele úmida, o vestido se colava ao seu corpo. Bati a foto e nela você está quase nua. Você roubou a cópia, disse que não era conveniente que eu ficasse com ela, podia mostrar aos meus amigos, ao pessoal da escola. Foi no recreio, antes da aula de química que a foto passou para você e nunca mais a vi. 
 
Agora, reencontrei nesse atlas em que há mapas de países que não existem mais. Quando essa foto saiu de suas mãos e como foi parar em um atlas em minha estante? Se eu conseguisse entender isso entenderia também o que aconteceu entre nós. De que adianta entender?  Quando entendimento melhorou o mundo? Quero que saiba que ninguém é mais bonita do que você, dentro desse asilo. Quer sair dele? 
 
Beijo do
 
Amoroso
 
 
© Ignácio de Loyola Brandão - Cartas / Lettres - Iluminuras, 2005

 

publicado por ardotempo às 23:56 | Adicionar