Quinta-feira, 22.09.11

Quando se vê as coisas acontecem

 

Aqui é assim mesmo

 

(Texto acerca de Contos de Verdades, de Aldyr Garcia Schlee)

 

Paulo José Miranda

 

Dedico este texto à minha querida amiga e jornalista gaúcha, Paula Russo

 

Permitam-me, por favor, começar na Grécia Antiga, ao falar de Contos de Verdades, de Aldyr Garcia Schlee. Segundo Aristóteles, a diferença entre a história e a poesia é que a primeira debruçava-se sobre o que aconteceu e a última sobre o que poderia ter acontecido. Assim, desde esse tempo Grego, a literatura trata do que poderia ter sido. E a Atenas desse tempo fica tão longe da minha experiência quanto Jaguarão! Em verdade, o que poderia ter sido, muito mais do que o que realmente foi, é aquilo que nos leva à leitura. E parece por demais evidente o entendimento pleno de Aldyr Garcia Schlee acerca do ser da poesia, da essência da literatura.

 

A literatura começa com aquilo que o autor escreve muito bem no início do livro em “As Grandes Onças Brabas”: “(...) cada vez que venho aqui, perco um pouco o coração”. Este aqui a que o autor se refere é uma cidade fronteiriça, um vilarejo, um lugar mítico, como todos os lugares onde crescemos. Quando se cresce, nossa razão e nossa percepção nunca mais vão acertar com o que foi vivido aí, com o que continua subterraneamente a ser vivido alhures dentro de nós. Mas este aqui, que no caso é um cidade e um tempo que parece nunca ter existido, como tudo o que nos fascina, este aqui pode também ser uma aporia, pode também ser um modo de olhar a diferença do mundo e da injustiça. E é por esta injustiça que vamos começar, deixando o fascínio para mais tarde.


Permitam-me, então, por favor, e uma vez mais, uma pequena incursão à Grécia Antiga, desta feita a As Troianas. Porquê? Porque percorre ao longo deste livro de Aldyr Garcia Schlee uma clave humana que o liga ao grande poeta tragediógrafo Eurípides na tragédia As Troianas. Que tema é esse? A injustiça a que a mulher está votada neste mundo. Nesta tragédia, Eurípides mostra-nos algo mais do que mostra em outras poderosas e belas tragédias, mostra-nos que há ainda uma situação pior do que a situação humana: a situação humana da mulher (ao tempo de Eurípides). Contrariamente a outras tragédias que chegaram até nós, em que mulheres protagonizam a acção, como sejam os casos da Antígona, de Sófocles, ou da Medeia, também de Eurípides, a tragédia aqui não está ligada a uma má ou boa escolha na sua conduta (protagonizado por Antígona) ou à afectação de um tremendo pathos que nos leva a agir em direcção ao terror (protagonizado por Medeia). Tanto Medeia quanto Antígona poderiam ser homens, com algumas mudanças nas cenas, mas não Hécuba. Hécuba, protagonista de As Troianas, jamais poderia ser homem e esta tragédia mostra uma diferença essencial em relação às outras tragédias: a situação em que se está, em que Hécuba e as outras troianas se encontram, independentemente de ter sido ditada pela vontade dos deuses, ela não foi criada por nenhuma destas mulheres. Se Antígona traça seu destino ao dar um funeral digno ao seu irmão, contrariando tudo e todos, se Édipo traça seu destino ao matar o viajante que se lhe opôs no caminho e mais tarde a se deitar com a mulher mais velha por quem se apaixona, se Medeia traça seu destino ao se deixar vencer pelo ódio e seu destilado de vingança, Hécuba não teceu nada que a conduza a este seu fim. Para além dos deuses, foram os homens que a conduziram até aqui. Hécuba é vítima dos deuses e dos homens (não dos humanos em geral, mas dos homens em particular). E neste homens em particular, está ainda incluído uma mulher pérfida, Helena. Pois Helena não é aqui uma mulher, mas fraqueza dos homens.

 

Ora, é também isto que acontece nos livros de Aldyr Garcia Schlee. Como aquela expressão que se usa aqui no Brasil, o buraco é mais abaixo, com a apresentação da condição da mulher nos seus livros, a condição humana, o problema da condição humana é mais abaixo. A mulher aparece quase sempre como fraqueza dos homens, propriedade deles ou, no seu esplendor maior, o sofrimento humano para dentro, sofrimento humano calado, sofrimento humano profundo. Leia-se à pagina 18, ainda no primeiro conto do livro “A Flor da Aldeia”: “Inelda, sem surpresa, terá ficado sozinha como sempre, na estância. (...) mas o que quero dizer é que era apenas ela que ficava na casa, que nunca saia dali (ela só se lembrava de ter ido à cidade uma vez, quando o pai morreu) e que, desde a morte da cozinheira, desde que a filha dos caseiros tinha ido embora – desde muito – era apenas ela, sozinha, que se via com todo o serviço: fazia a comida: limpava, varria e espanava tudo; lavava e passava; cozia pão; costurava, cerzia e bordava...” A contraposição da solidão da mulher, deixada sempre em casa, sempre, para sempre, com a solidão do homem sozinho vagando pelas terras do mundo e sentado com ninguém nos bares das vilas e das terriolas mostra bem a miséria maior da mulher nesta vida. Para além da solidão humana, daquele que caminha pelo mundo entregue a si próprio e à incompreensão da vida, acresce ainda a solidão do abandono votado pelo homem, solidão de prisioneira, de mulher casada com um homem, presa na casa dele para sempre. E tem ainda pior, porque nesta vida tudo pode ser sempre pior. Leia-se agora à página 20: “Nunca seria diferente. Desde a primeira vez, desde a primeira noite, Inelda fora usada pelo marido como por obrigação. E era ocupada por ele, ainda, de quando em quando, aos trancos, depressa, sem um sorriso, sem um gesto, sem uma palavra de carinho. Como se tivesse por cima, a cobri-la, um animal.” Sem dúvida, não esperar um sorriso na vida é muito triste e pode atingir homem e mulher, mas ser ocupada é foda! Ser ocupada e nada poder fazer, sem nada sequer pensar que pode ser feito é a solidão máxima a que um humano pode ser votado. E este sentimento, que o autor nos atira à cara sem piedade, surge logo nas primeiras páginas do livro. O livro começa logo a violentar a nossa sensibilidade. Não faço mais citações, porque isso levaria a ler-vos o conto por inteiro.

 

Em “Luíza Vinha de Noite”, a mulher é nos relatada como algo que preenche o vazio da vida. Vazio que é tão somente não se saber o que fazer do tempo, sentir o tempo a sufocar-nos, por dentro, por fora, por todos os lados. Leia-se à página 29: “De cada vez que Luíza não vinha, deixava-me sozinha com o tempo: o tempo imenso que não tínhamos, alargando-se sobre mim a cada instante (...)” Mas Luíza, esta mulher, traz também o único poder que as mulheres deste livro têm: assombração! A mulher assombra a existência do homem, o querer do homem, a vontade dos homens. Luíza é, foi e sempre será um sonho! Quando a mulher não é prisioneira, escrava do homem, exerce sobre ele o seu verdadeiro poder, o poder de nos fazer sonhar. Mas a mulher é também violentada pela mulher, violentada na sua liberdade, nas suas escolhas, não só pelas palavras de outras mulheres acerca das suas decisões, mas até pela mãe, essa primeira mulher. Leia-se em “Amor Amor Amor”: “Ali no carro-motor, voltando para casa e levando a filha de volta como um traste sem préstimo, fazendo força para não chorar junto com a filha, a mãe de Celeste lutava para parecer calma e não discutir com a menina.” Mas uma pergunta irá repercutir em nossos corações, em nossas consciências: quem faz com que Celeste seja aos olhos da mãe um traste sem préstimo? Será que são as outras mulheres? Será que são os homens? Será que é o mundo?

 

E porque uma mãe precisa tanto de forças para não chorar? Porque é que uma mãe precisa, tantas e tantas vezes nesta vida, de ter forças para não chorar? E porque é que uma filha tem de mentir com tamanha veemência a uma mãe, gritando: “– É mentira, mãe! Eu nunca andei com esse homem... Te juro, te juro, te juro!” Porque chegam a Jaguarão, naquele dia, de carro-motor, uma mãe e uma filha abandonadas para sempre? Porque sentem que ao atravessar agora a Ponte, vindo de Pelotas, as vidas acabaram? Pelo desejo que um homem mais velho acalmou com a filha ainda criança de uma mãe? E mesmo que não se tenham tocado, se isso foi possível, a injustiça não foi feita? A injustiça dos homens sobre a decisão das mulheres?


Mas adentremos agora aquilo que me parece ser o núcleo duro da literatura de Schlee: o fascínio. E o fascínio de Schlee é pelo fascínio em si mesmo. O fascínio pelo humano, pela idade de ouro perdida que existe em cada humano, por esse estranho e inexplicável acontecimento que é a mudança de idade do humano, à imagem da mudança de pele das serpentes. O que é mais importante do que a verdade? O fascínio. Sem fascínio não tem poesia, não tem literatura. O fascínio por Jaguarão é a um mesmo tempo o fascínio pela poesia e o fascínio pelo humano que se perde de si mesmo, de cada vez que cresce.

 



Mas o que é propriamente isso a que chamamos “”fascínio”? Recuando uma vez mais no tempo, encontramos que a palavra latina fascinum tem de algum modo a sua origem na palavra grega βάσκανος, baskanos. Ora, baskanos era uma palavra usada pelos gregos no sentido em que alguém é atingido pela malícia ou pelo enganamento de outrem. O termo latino, fascinum, tem esta malícia como base, este ser levado no bico, como se diz em Portugal, ser levado na cantiga do outro, mas traz também uma novidade que a palavra grega não tinha: ficar sem querer ver outra coisa. Por conseguinte, o fascínio é ser levado na cantiga de alguém e ficar num estado de não querer outra coisa. Ficar encantado, ficar sob o efeito de uma qualquer coisa mágica, sob o efeito da cantiga do outro, à imagem do encantamento produzido pela flauta de Pan. Jaguarão e seu passado, o da história e o da poesia, isto é, do que foi e do que poderia ter sido, exerce um fascínio tremendo em Aldyr Garcia Schlee, e ele não quer ver outra coisa, outra cidade, outras paragens. Nenhum lugar do mundo exerce esse fascínio no autor, nenhum lugar o encanta como Jaguarão. E partindo da consciência deste fascínio, ele escreve e nos fascina, como quem se vinga. Literalmente, Schlee nos leva na cantiga dele, prostrando-nos num estado de não querer outra cantiga, pelo menos até que ela se acabe, até que o livro se feche na última página. Mas o fascínio de Jaguarão, com já se disse de passagem no início, não é somente o fascínio pelo lugar, mas pelo tempo. E o tempo, aqui, não é o tempo do lugar, mas o tempo de crescimento, o tempo em que o autor se deixava levar nas cantigas que lia, que via ou que lhe contavam, até mesmo várias vezes ao dia.

 

O tempo em que somos levados na conversa do outro e ficamos parados a escutar, como se nada mais importasse, é parte do fascínio que Jaguarão exerce sobre o autor. Não se confunda, contudo, isto, com a recorrente história do retorno à infância, ou a cantiga do fascínio pela infância perdida. O fascínio não é tanto pela infância perdida, mas pela consciência da existência de um tempo fascinante em nós. Leia-se à página 38, no conto “Missa por Rolando Vergara”: “(...) e toca-lhe um beijo na boca. // Foi tão rápido como não se imagina nem se consegue recordar por inteiro, mas até agora ela guarda na boca aquele beijo. Foi como se explodissem mil foguetes, revoassem dúzias de pombas, soassem todos os sinos lá na Praça da Matriz, em tarde de festa. Era como se ela ali tivesse despertado, tivesse acordado como num conto de fadas, porém – em vez de ter-se então quebrado o encantamento – foi então que começou o encantamento. // Quanto mais se precisa do tempo parado mais ele foge ligeiro. (...) Ah, o tempo! Ah o tempo que precisou de passar! Ah, o tempo!” Ao longo deste conto, o tempo surge quase sempre em itálico, em expressões exclamativas, como se se tratasse de um poema à parte, de um poema que acompanha o relato de Anita relembrando Rolando, de Anita perdida no encantamento, perdida no tempo e sua cantiga.

 

Ah, o tempo!  É aqui, nesta exclamação, que o fascínio se revela no seu máximo esplendor, porque o maior dos fascínios é o que nunca foi, que nunca é e que nunca será, como um poema. O tempo, a consciência do tempo será sempre a pele largada da serpente, que agora se olha e tudo faz parar, à excepção do que poderia ter sido, à excepção da poesia, da literatura, do fascínio. Há no humano, como condição ontológica, um lugar desconhecido que é, à falta de melhor expressão, uma vontade de fascínio, um desejo de ficar fascinado, um desejo de ficarmos nas mãos do outro; uma vontade de não nos pertencermos. É este constituinte do ser humano que Aldyr Garcia Schlee nos mostra, na sua tentativa de descobrir ele mesmo o que isso é e o que ele próprio é. Como escreve logo à página 11, acerca das grandes onças brabas, “Conta-se que elas atraíam e seduziam a gente com tal fascínio e encantamento que jamais qualquer um de nós pôde perceber que fora arrastado até ali a ponto de perder o coração.” E as onças brabas, aqui, além de serem o que são, também podem ser tudo o que esperamos que tenha acontecido ou que venha a acontecer.


Tem ainda, neste livro, as questões técnicas. Mais importante que isso: a consciência das questões técnicas. Só acerca disto, fosse eu outro que não eu, dava uma tese.

 

 

De qualquer modo, não quero deixar de salientar o conto “A Moça Dirundina”. Leia-se este conto e, se até aqui ainda não se tinha entendido o que era narrar, entenda-se agora de uma vez por todas, através das seguintes palavras com que o autor inicia cada pequeno parágrafo ou até algumas frases dentro desses parágrafos: “Imagine (...) Admita (...) Considere (...) Presuma (...) Figure (...) Pense no que terá feito o pobre do marido quando (...) Repare (...) Recorde que (...) Note ainda que (...) Se quiser, combinamos, que (...)”.


Mas este livro é, não devemos esquecer, um livro de fronteira: de vidas e lugares de fronteira. A única fronteira que conheci melhor ao longo da minha vida foi a fronteira entre ler e escrever: fronteira traçada por visões, e estas não têm identidade outra para além do que se vê e do que acontece. E foi só agora, com este livro de Aldyr Garcia Schlee, que compreendi por dentro, compreendi de compreender, que a leitura e a escrita são como Jaguarão: “Aqui é como do outro lado: manda quem canta melhor. Aqui, quando se vê as coisas acontecem.

 

Sei que poderia terminar agora a minha apresentação, com a visão que pude, passando para o outro lado com estas palavras últimas de Aldyr Garcia Schlee acerca de Jaguarão, mas que eu leio, e sempre hei-de ler, como sendo palavras acerca do mundo: “Sei que é difícil acreditar, não é mesmo? Parece um mistério. Mas nunca se sabe direito o motivo.” De qualquer modo, prefiro acompanhar o autor, concordar com ele, e terminar precisamente com algumas palavras da última página do livro: “O tempo passou. E tudo que se conta talvez nunca se tenha sabido, assim como nunca se terá contado o que se pôde realmente saber. (...) a ponto de a gente não despertar para os idos, para o que foi, nem acordar para os havidos, para o que terá sido e já não saber o que é, o que poderá ser, o que será... a ponto de apagar-se até a imaginação.

 

© Paulo José Miranda – edições ardotempo

Porto Alegre, 20 de Setembro de 2011

 

 

Paulo José Miranda

 

Nasceu em 1965 na Aldeia de Paio Pires, a 16 km de Lisboa. É poeta, escritor e dramaturgo. Licenciou-se em Filosofia pela Universidade de Letras de Lisboa. É membro do Pen Club desde 1998. Viveu em Istambul entre 1999 e 2003, tendo viajado nesse período pelo Mediterrâneo e Médio Oriente.

 

Publicou três livros de poesia, cinco novelas (a mais recente em Junho deste ano), uma peça de teatro e um livro de aforismos acerca da América (EUA). O seu primeiro livro de poesia venceu o Prémio Teixeira de Pascoaes em 1997 e a sua segunda novela arrebatou o primeiro Prémio José Saramago em 1999. Recebeu uma bolsa de criação literária do Ministério da Cultura para escrever a sua terceira novela e uma outra da Fundação Oriente, para viver três meses em Macau e escrever a sua quarta novela (inserido no mesmo projecto que levou o escritor brasileiro Bernardo Carvalho à Mongólia e a escrever esse livro homónimo). Colaborou em revistas de vários países e há estudos acerca da sua obra em Portugal, Espanha, França e Brasil.

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O tempo no tempo

 

A vida é algo tão intenso que nela se alcançam estados de epifania e a morte
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Quarta-feira, 21.09.11

A viagem das fotografias continua

Os bastidores do futebol em Montenegro (RS Brasil)

 

 

 


 

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Improvável mas bem imaginado...

Un enigma cinematográfico tras el 'Guernica' de Picasso

 

Elsa Fernandez-Santos

 

Pablo Picasso no pasaba por su mejor momento cuando pintó en mayo de 1937 el Guernica. 
La Guerra Civil destruía España y la II Guerra Mundial estaba a las puertas de asolar Europa. La insistencia del Gobierno de Negrín le empujó a aceptar el encargo para el Pabellón Español de la Exposición Internacional de París. "Si tenemos a Picasso en cuerpo y alma, el impacto será mayor que una batalla ganada en el frente a los fascistas", le atribuyen al último presidente de la República. 
No se equivocó, el impacto del lienzo de 349,3 por 776,6 centímetros fue enorme. Aún hoy, cuando se cumplen tres décadas de su llegada a España el 10 de septiembre de 1981, sigue incrustado en la retina de nuestro tiempo. Pero el Guernica y su simbología, sobre la que el pintor jamás quiso pronunciarse, siguen despertando preguntas, elucubraciones e investigaciones. La última, la del director de fotografía español José Luis Alcaine, que el próximo 4 de octubre recibirá la Medalla de Oro de la Academia de Cine precisamente en el Museo Reina Sofía de Madrid, donde el cuadro se expone desde 1992. Alcaine, un maestro de la luz que ha trabajado en películas como La piel que habito, de Pedro Almodóvar, o El sur, de Víctor Erice, cree que la principal inspiración de Picasso fue, precisamente, el cine.
En concreto, una secuencia de poco más de cinco minutos de la película Adiós a las armas, de Frank Borzage, drama antibelicista inspirado en la novela de Ernest Hemingway que se estrenó en París en 1933 y que, fotograma a fotograma, guarda sorprendente paralelismo con los personajes principales del cuadro. Ni Los fusilamientos del 3 de mayo de Goya ni La matanza de los Santos Inocentes de Rubens. Alcaine se lanza a una fuente de inspiración tan popular como el mismo Hollywood en un gesto que, teniendo en cuenta la capacidad de amplificación de todo lo que rodea al Guernica, promete abrir un debate en el arte. En un extenso artículo publicado en la revista especializada Cameraman, Alcaine revela los detalles de un estudio en el que trabaja desde hace meses. La secuencia, en blanco y negro, narra el éxodo nocturno de militares y civiles por una carretera que bombardean unos aviones. 
"Yo había visto Adiós a las armas a finales de los años sesenta, en el cineclub de TV2. Pero fue años después, cuando volví a verla en vídeo en mi casa y salté ante la secuencia de la carretera: ¡era el Guernica!", explica. A primera vista, tres son las imágenes que nos llevan al cuadro: la mano blanca de dedos gruesos moribunda en el barro, los caballos desbocados y la mujer clamando al cielo. "Empecé a darle vueltas entonces, era el año 2006. En 2007 rodé cinco películas y aparqué la idea. No tenía tiempo para nada. Pero desde entonces solo he trabajado en La piel que habito. Así, pude encontrar el momento para sacar la secuencia fotograma a fotograma y estudiarla". A la mano blanca y la mujer clamando al cielo se sumaba el marco vacío de una puerta, un carrito lleno de ocas blancas, las patas de los caballos, una madre agarrada a su hijo como una piedad, un hombre tendido en el barro con el brazo extendido y las llamas, arrinconadas a la izquierda de un fotograma de aire infernal. Ya se había apuntado la influencia de El acorazado Potemkin (1925) en el cubismo de Picasso, pero no la de una película que en Europa fue mal recibida porque su protagonista, Gary Cooper, desertaba por amor y no por honor. 
En la novela, Hemingway dedica 80 páginas a la huida del personaje por carretera, y su deserción final no era por los brazos de una mujer sino por los horrores de la guerra. El escritor detestaba la película. "La secuencia de la carretera es extraña: tiene mucha influencia del cine soviético, con encadenados por todas partes. Es una película de Hollywood con un momento expresionista que nada tiene que ver con el resto del metraje". Una visión fragmentada y violenta que acerca a esa especie de collage de personajes que es el Guernica. "Un collage que tiene mucho de montaje cinematográfico, de planos y primeros planos", apunta Alcaine.  
En 1937, cuando Picasso pintó el mural, Adiós a las armas aún estaba en cartel. "El sistema de distribución de entonces hacía que las películas estuvieran hasta seis años en sala. Evidentemente, Picasso la había visto, no solo por su amistad con Hemingway -les presentó Gertrude Stein- sino porque entonces se iba muchísimo al cine, era el gran entretenimiento y también la manera de documentarse ante la realidad. 
Además, la película fue muy polémica en su día por el final feliz. No se la pudo perder". Alcaine subraya que la secuencia ocurre por la noche, como el cuadro, mientras que el bombardeo de Guernica fue a pleno día. "Pero, además, el cuadro tiene un claro movimiento de derecha a izquierda, igual que los personajes de la película, siempre en el eje de derecha a izquierda". Esa carretera infernal que reproduce la película desprende el mismo infierno y el mismo movimiento. "Pero cuidado", puntualiza, "es en los personajes estáticos donde se ve la coincidencia. Es cuando se para la acción cuando reconocemos a los integrantes del cuadro".  
Otro dato sorprendente es que los animales que aparecen en la secuencia de la carretera sean caballos y ocas. Ambos, presentes en el mural. Para el toro, el director de fotografía tiene su propia interpretación: "Esa figura me hizo saltar una noche de la cama y correr al ordenador, era el último cabo suelto de mi teoría. ¿A quién mira el toro? Nos mira a nosotros. Me desvelé. Puse a su lado Las Meninas y vi la misma mirada de Velázquez. El toro, como han apuntado algunos, jamás podría ser Franco. El toro es un animal noble y el propio Picasso ya se había representado alguna vez a sí mismo como ese animal. Él se pone en el mismo plano que Velázquez en Las Meninas, un cuadro, que como nos ocurre a todos los que estamos obsesionados con las imágenes, también le obsesionaba". 
Alcaine se ríe entonces al escuchar su entusiasmo y resume su descubrimiento con un dicho italiano: "Se non è vero, è ben trovato". Si no es cierto, está bien visto.

Elsa Fernandez-Santos - Publicado em El País

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Terça-feira, 20.09.11

Doces de Pelotas têm origem certificada

Doçuras pelotenses agora são certificadas

 

Dias Lopes - O Estado de S.Paulo

 

Alguns doces de Pelotas, cidade a 250 quilômetros de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, não têm mais a delicadeza do passado. Hoje são grandes demais ou incorporam leite condensado, produto industrial que está padronizando o sabor da doçaria tradicional brasileira e desfigurando receitas centenárias. O pudim de leite do século 17 foi uma delas. Só um pequeno grupo de confeitarias ainda prepara os doces de Pelotas com as tipicidades do passado. Mas, pela expressão cultural ou econômica, eles acabam de receber o selo de Indicação de Procedência do Inpi - Instituto Nacional de Propriedade Intelectual. A autarquia federal avaliza com essa chancela o processo de elaboração, a identidade e a qualidade de 15 receitas que remontam ao século 19. Além de protegê-las de falsificações, o selo representa uma distinção para 16 confeitarias autorizadas e aumenta a competitividade dos seus produtos.

 

Os doces de Pelotas estão em boa companhia. Já receberam o selo de Indicação de Procedência outros 13 produtos nacionais, entre os quais o café da Serra da Mantiqueira (Minas Gerais) e a cachaça de Paraty (Rio de Janeiro).

 

O acervo pelotense tem história rica. Há quase dois séculos, dezenas de confeitarias e padarias da cidade fazem pessegadas, marmeladas, figadas, bananadas, passas de frutas, bolos, tortas, pudins e os que mereceram agora o selo do Inpi: o pastel de santa clara, quindim, papo de anjo, fatia de braga, amanteigado, olho de sogra, panelinha de coco, camafeu, queijadinha, beijinho de coco, broinha de coco, bem-casado, ninho, trouxinha de amêndoa e doces cristalizados.

 

Curiosamente, a cidade fica distante das regiões açucareiras. Mesmo assim, projetou-se pela elaboração de doces que impressionam forasteiros de bom gosto, informação e cultura. O mais lembrado é o pernambucano Gilberto Freyre. Ele escreveu assim no prefácio da terceira edição do livro Açúcar (Global Editora, São Paulo 2007): "Não nos esqueçamos (...) de outras subáreas brasileiras que têm, também, seus doces requintados: uma delas, a que tem Pelotas, no Rio Grande do Sul, por centro. Que aí a arte do doce rivaliza com a do Nordeste".

 

Por que a cidade gaúcha se voltou para a doçaria? Pelo fato de ter sido, antes de tudo, capital da indústria nacional do charque. Em 1780, o português José Pinto Martins instalou em Pelotas uma charqueada. Ele se dedicava à atividade em Aracati, no Ceará. Açoitado pela "seca dos três setes", que durou de 1777 a 1779 e dizimou o gado, mudou para o Sul. Outros empreendedores o imitaram. O botânico e naturalista francês Auguste Saint-Hilaire, no livro Viagem ao Rio Grande do Sul - 1820-1821 (Martins Livreiro, Porto Alegre, 1987), testemunhou o progresso alcançado pela cidade. Em 1873, Pelotas contabilizava 38 charqueadas, que chegaram a abater 400 mil reses por ano. Os navios transportadores do charque para o Nordeste, principal mercado pelotense, não retornavam vazios. Traziam artigos nacionais e importados: louças, pratarias, quadros, móveis, livros, figurinos, tecidos, mantimentos e, obviamente, açúcar.

 

Pelotas contrariou a geografia do doce, que privilegiava as áreas produtoras de açúcar. A prosperidade vinda do charque criou uma aristocracia de hábitos europeus, que promovia festas, saraus, banquetes, ia ao teatro e comia doces. Inicialmente, as receitas de Pelotas eram portuguesas, como atestam várias delas, algumas aculturadas. O seu pastel de santa clara, por exemplo, que se diz originário do convento das clarissas de Coimbra, tem nome equivocado.

 

O livro A Doçaria Tradicional de Pelotas, de Arthur Bosisio e outros (Editora Senac Nacional, Rio de Janeiro, 2003), manda esticar a massa e deixá-la muito fina, quase transparente como um papel de seda. O formato é de pacotinho, não de meia-lua, como o verdadeiro santa clara. Portanto, trata-se de outro pastel, ou seja, o de Tentúgal. Hoje, os doces de Pelotas, como alguns dos nomes indicam, são cosmopolitas. O selo do Inpi foi merecido? É evidente que sim.

 

 

 

Dias Lopes - Publicado em O Estado de São Paulo

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Sábado, 17.09.11

A cultura da queda

Retóricas do 11-S

 

João Ventura

 

 

 

Foi há dez anos que a queda das Torres Gémeas, em Nova Iorque, inaugurou de forma tragicamente espectacular o novo milénio, trazendo consigo o regresso da História depois do seu «fim» proclamado por Francis Fukuyama e de um período em que se assistiu a uma espécie de «greve dos acontecimentos», segundo a fórmula de Baudrillard.

 

O espectáculo de fogo mortal, visível em tempo real em todo o planeta, superaria todas as ficções, tornando-se na grande metáfora de um mundo com anemia moral e alimentado pela hipocrisia e pela felicidade engarrafada, mas irremediavelmente ferido a partir do 11de Setembro de 2001. A vida nova depois do 11-S, simultaneamente maculada e redentora, tem dado origem a uma repetição dos discursos sobre o acontecimento, visando a sua «legibilidade», à luz de interesses variados e, muitas vezes, antagónicos, legitimadores da resposta ocidental à «barbárie» de um Islão desfigurado, perseguida pelo «profeta electrónico» Bin Laden, cujas aparições foram acontecendo na única realidade do nosso tempo, a televisão.

 

Que caminhamos agora entre os vestígios de uma catástrofe cuja onda de choque continua a repercutir-se no mundo já o sabemos. Só não sabemos é se a catástrofe ficará por ali, sepultada junto ao ground zero nova-iorquino, agora irremediavelmente ameaçado pelo novo skiline mercantil em construção no mesmo lugar ou se continuará, como uma onda de choque imparável, a desmoronar cidades e vidas longe daquele epicentro. Haverá, ainda, redenção possível depois de tanta ruína?

 

Se, num estado próximo do sonambulismo, W. G. Sebald caminhasse depois do 11-S sobre os mesmos tijolos calcinados, talvez voltasse a dizer: «Demasiados edifícios ruíram, amontoou-se demasiado entulho, são intransponíveis os sedimentos e as moreias» [Os Anéis de Saturno, Teorema, p. 172]. Mas será que o 11-S, nas suas causas e efeitos, constituiu uma cesura radical na narrativa moderna? Ou não terá sido antes mais um episódio de esbanjamento trágico do potencial redentor da humanidade?

 

Foi, seguramente, um regresso ao fundamentalismo religioso incentivado pelo «choque das civilizações» (Samuel Huntington, O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial, Gradiva, 1999) ou «choque dos preconceitos» - como corrigiu Edward Said (Orientalismo, Cotovia, 2004] -, marcado pela tendência para a «teologização do político» e para a «instrumentalização política da religião» [Alain Badiou, Circunstances, Éditions Léo Scheer, 2004] tão presente nos discursos maniqueístas dos protagonistas desta tragédia global. Seja como for, cesura ou continuidade histórica, neste tempo de ebulição catastrófica, ganham adeptos as teorias salvícas que vão hipostasiando um «nós» ocidental contra um Islão desfigurado pela violência fundamentalista, fazendo-nos, assim, roçar um abismo cujo fundo negro desconhecemos.

 

Multiplicam-se, por isso, os discursos que visam a «legibilidade» do 11-S à luz dessas mesmas teorias que conduzem a um perigoso resvalar para territórios de liberdade condicionada no mundo ocidental, refém, sempre, da maldição moderna do petróleo. Eis a retórica dominante na efeméride negra do 11-S, como se o acontecimento apenas pudesse ter «legibilidade» através de um discurso legitimador da resposta americana enviesada, não tanto contra o terrorismo, mas contra um «inimigo providencial» (Carl Schmidt, Théologie politique, Gallimard, 1969), em cujas fileiras se contam já milhares de vítimas inocentes, iraquianas sobretudo, mas também soldados das forças internacionais, enquanto deixa os sequazes de Bin Laden à solta no Afeganistão e no Paquistão. Ou, num sentido oposto, nos discursos negacionistas de uma certa esquerda, anacrónica, e também ela maniqueísta, só que invertendo os pólos do bem e do mal.

 

E qual retórica da literatura sobre o 11-S? Tem sido ela capaz de retraçar o acontecimento dando conta da consternação do «mundo ocidental» pós 11-S? No epicentro da catástrofe, vários escritores americanos publicaram romances sobre a vida depois do 11-S. «Ela falou da torre […] claustrofobicamente, o fumo, os corpos desmembrados, e compreendeu que podiam falar daquelas coisas somente entre eles» - escreve Don DeLillo em Falling Man, um romance circular a várias vozes : a de um sobrevivente do atentado, a de sua mulher e de um terrorista. E Claire Messud, em The Emperor’s Children: «aquele imenso buraco parecia una extensão da sua própria dor». E Jay McInerney, em Good Life. E Jonathan Safran Foer, em Extremely Loud & Incredibly Close/Extremamente alto & incrivelmente perto (Quetzal, 2007).

 

Claro que mesmo nesta literatura estamos, ainda, diante de visões hipostasiadas de um «nós» que exclui os outros, enraizadas na experiência ocidental do acontecimento, visões parciais, portanto, mas que nem por isso deixam de constituir outras formas de retraçar o acontecimento, preferindo a ficção à interpretação, a experiência individual do acontecimento à sua explicação alegórica, a sua subjectivação discursiva à sua «legibilidade» compulsiva, sem cair na tentação didáctica, mas, como cabe à literatura, expondo-nos destinos tiritantes que poderiam ser os nossos, num mundo caminhando alegremente para um «pôr-do-mundo» cada vez mais desvanecido e alheado (Peter Sloterdijk, Alheamento do mundo)

 

João Ventura - Publicado no blog O leitor sem qualidades

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A realidade, bem falsa e perversa

Algo por lo que recordarme (Saul Bellow)

 

Enrique Vila-Matas


Cada día convivimos más con el ruido de fondo de crisis económicas, invasiones de países árabes, sorpresas de grandes gigantes farmacéuticos, reclamos de la industria del automóvil, tortugas Ninja, crímenes horrendos, pavorosos terremotos devastadores, Bolsas europeas que caen y caen y vuelven a caer, episodios de estupidez humana transmitidos día tras día como si fueran una serie televisiva sin guionista. En semejante ambiente nuestra agitada vida de víctimas de lo mediático nos recuerda a un fragmento irónico de El caballero inexistente de Italo Calvino: "Debéis disculpar: somos muchachas del campo (...) fuera de funciones religiosas, triduos, novenas, trabajos en el campo, trillas, vendimias, fustigaciones de siervos, incestos, incendios, ahorcamientos, invasiones de ejércitos, saqueos, violaciones, pestilencias, no hemos visto nada".

 

Es difícil en estas circunstancias de información masiva reparar en algo tan antiguo como una buena historia de ficción. Nos da la impresión de que no tenemos tiempo para atender a ella. No en vano hay un escaparate infinito en las nubes con todos los grandes libros olvidados. Pero aun así, a pesar de situación tan difícil para los buenos libros, ¿hay que empujar a los escritores a que emparenten sus ficciones con los mil y un asuntos que baraja el gran espectáculo mediático?

 

No es una pregunta extravagante. Entre tantas incertezas, una certitud parece que está arraigando peligrosamente entre nosotros: no se concibe una novela recién publicada que no permita un titular de prensa ligado a la más rabiosa actualidad periodística. Para entendernos: hoy en día los movimientos de la conciencia de un anodino ciudadano portugués de la época del dictador Salazar no tendrían cabida como noticia relacionada con la aparición de un libro, salvo que se la pudiera relacionar con el último rescate económico de Portugal, o algo por el estilo. Por eso quizá hay tantos periodistas que, en su búsqueda desesperada del titular, no quieren admitir que una novela pueda estar estricta y únicamente vinculada al mundo de la ficción, lo que, dicho sea de paso, en realidad no deja de ser lo más normal del mundo, puesto que ficción y vida se repelen, esa al menos es mi experiencia.

 

John Banville (en una divertida entrevista con Mauricio Montiel que no desentonaría en Dublineses, de Joyce) dice haber descubierto que jamás se puede mezclar ficción y realidad, pues cuando uno trata de insertar en la ficción nociones directas, nociones científicas, no encajan por ningún motivo: "Aún no comprendo cuál es el proceso, pero es como someterse a un trasplante de hígado: el cuerpo lo rechaza. La ficción, al menos la mía, repudia las ideas tomadas directamente del mundo". Todo esto me recuerda que cuando uno comienza a escribir cree que es posible expresar la realidad. Si ha nacido en territorio español, todavía lo cree más, porque aquí en literatura todo el mundo es realista. Sin embargo, creo que lleva un cierto tiempo aprender, descubrir que lo único que se puede hacer es fabricar una realidad alterna y esperar que de alguna forma reproduzca, o parezca reproducir, la vida tal como la vivimos.

 

Esta infantil frase de Banville la suscribo con entusiasmo: "El arte no es para nada la vida, sólo se le parece". Aunque nos encontremos ante la novela más realista de la historia, esa realidad nunca puede ser la famosa realidad. Es algo tan simple como discutido hoy en día por algo más de la mitad de las mejores mentes de mi generación. Qué se le va a hacer. Lo mismo digo sobre la cuestión de los millones de novelas y el escaparate infinito de los grandes libros olvidados. ¿Qué hacer ante semejante drama? Queda, de entrada, el consuelo de saber que nuestra conciencia es inmensamente más grande que todo el espacio mental que creen abarcar los responsables del gran lavado de cerebro colectivo. Porque en realidad el gigantesco espacio del Gran Lavado jamás podrá competir con todo aquello que es capaz de percibir, en su espacio natural de libertad, una conciencia humana. Todavía nos quedan, creo, focos de libertad en nuestras mentes, los suficientes para tratar de escapar de la banal representación sin tregua del gran teatro de Oklahoma.

 

Y sirva esto, de paso, para decir que sospecho que ese secreto éxodo trágico, esa gran huida del terror mediático, se está convirtiendo en la verdadera odisea moderna y que alguien debería novelarla, porque a fin de cuentas es tan sigilosa como apasionante. Ayer, por cierto, releí la odisea tan singular que narra Bellow en Algo por lo que recordarme, relato perfecto, incluido en la gran antología de sus cuentos. El argumento es algo complejo pero, a grandes rasgos, trata de un narrador, ya viejo, que recuerda un solo día de su adolescencia, en el Chicago de la Depresión.

 

En el día que recuerda y que sabe que no olvidará nunca, una mujer le atrajo hasta su dormitorio, y una vez allí huyó dejándole desnudo, pues para robarle tiró toda su ropa (incluso el libro religioso que él estaba leyendo tan religiosamente) por la ventana. Le tocó entonces volver a su casa, a una hora de distancia, atravesando el helado Chicago. Su odisea, cuando hubo conseguido que le prestaran unos harapos para el regreso, incluyó la idea de volver a comprar el libro - sagrado para él - que le habían robado. Pero, eso sí, para volver a comprarlo tenía que robar a su madre, que escondía su dinero en otro libro sagrado. Según el crítico Robin Seymour, esta historia que no pierde de vista el carácter sagrado de las escrituras que meditan sobre el mundo sitúa en primer plano preguntas que deberíamos hacernos más a menudo; preguntas tan profanas como religiosas, preguntas a nuestra conciencia. ¿Cuáles son los días de nuestra vida que no olvidamos y por qué los recordamos siempre? ¿Cuáles fueron nuestros días de conmoción y reflexión? ¿Cuántas veces recordamos que la actividad de la lectura puede tener un carácter profano o religioso, pero en cualquier caso sagrado?

 

Llevo escritas 981 palabras y me temo que no conseguiré el efecto de brevedad que pretendía ofrecer en esta divagación literaria que seguramente, por falta de espacio (menuda contrariedad, incluso para el escritor de brevedades), se dirige hacia el final. Pero da igual, voy a terminar, no importa que me sienta como un fardo que tuviera toda una eternidad para arrepentirse de su escasa capacidad para la rapidez. Ahora recuerdo que Bellow, en el divertido epílogo que escribió para su antología de cuentos, sugiere combatir la invisibilidad de los libros incorporando la brevedad a ellos. Cita a Chéjov, por supuesto, y aquella frase maravillosa en su diario: "Es extraño, ahora me ha entrado la manía de la brevedad. De todo lo que leo -obras mías y de otras personas- nada me parece lo suficientemente breve". Y luego se acuerda Bellow de un sabio japonés que recomendaba a sus alumnos la mayor brevedad posible y que me ha hecho pensar en un sabio chino que solía decir que hay que hacer rápido lo que no nos corre ninguna prisa y así poder hacer lentamente lo que urge. Se acuerda también Bellow de un clérigo inglés del XIX, un tal Smith, que sólo sabía decir: "¡Opiniones cortas, por Dios, opiniones cortas!".

 

En efecto, la brevedad puede ser una solución para, con sentido del humor, resistir los embates de lo extraliterario. En lo último que hay que caer, por otra parte, es en aquello en lo que cayera una destacada dama de las letras inglesas el día en que la vimos hojear enojada en Segovia el periódico en la mesa de un café y quejarse de pronto: "No hay más que deportes, corrupción y disparos. ¡Y nada sobre mi novela!". Ese es el gran error, ¿no? Creer que un libro tiene que competir con el asesino en serie o el último emperador mundial de los helados. O lo que es lo mismo: creer que se pueden mezclar las ficciones con ese gran reino del extrañamiento que inventan -una realidad, por cierto, bien falsa y perversa- en el gran teatro de Oklahoma.

 

Enrique Vila-Matas

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Televisão, jogo, notebook? Não? Um livro a ser lido...será?




As comunidades de leitores

 

Isabel Coutinho

 

O filósofo Pierre Lévy acredita que, no futuro, a grande maioria dos livros será lida em “tablets” ou em aparelhos como o Kindle da Amazon, por causa da “possibilidade de interactividade”. Bob Stein, o director do Institute for the Future of the Book, acredita que a verdadeira transformação está a chegar fora do mercado editorial, principalmente do mundo dos jogos electrónicos.

 

“As editoras terão de seguir este exemplo para aprender como integrar diferentes formas de média -não apenas adicionar fotos, vídeos e áudios aos textos -, e como lidar com comunidades de leitores. A indústria dos jogos já sabe muito bem como fazer isso”, disse ao jornal “O Globo”. Deu como exemplo o jogo on-line “World of Warcraft”, que conseguiu ter mais de 12 milhões de assinaturas por mês. “Talvez o futuro da literatura esteja em autores que criam um mundo a ser habitado pelos leitores, que dentro deste universo escrevem suas próprias histórias”, acrescentou, dizendo que não ficará surpreendido se uma empresa de jogos comprar uma grande editora nos próximos dez anos.

 

Bob Stein tem agora uma nova empresa, a SocialBook Inc, que está a trabalhar na melhor maneira de juntar o mundo dos livros com as comunidades de leitores. Na sua opinião, serão as discussões à volta dos livros que passarão a ter valor e será para ter acesso a isso que os leitores pagarão no futuro. O conteúdo poderá passar a valer muito pouco; as pessoas vão pagar é pelo contexto e pela comunidade à volta desse conteúdo, defende. O Institute for the Future of the Book, de que é director, criou, em 2008, o Golden Notebook Project.

 

Um grupo de sete mulheres (escritoras e jornalistas britânicas e norte-americanas) leu na Internet o livro “The Golden Notebook”, da Nobel da Literatura Doris Lessing; ao mesmo tempo que o lia, colocava notas nas margens. Tudo se passava em ambiente “web”. Quem se ligava ao “site” conseguia ler o que estava nas margens do livro, ter acesso a um blogue e a um fórum de discussão. Bob Stein está agora a preparar novos destes exemplos.

 

A dar importância às comunidades de leitores está também a Amazon, que acaba de abrir a sua loja on-line em Itália (depois de aberturas nos EUA, Reino Unido, Canadá, Alemanha, China, Japão, França) e terá outra no Brasil. Há dias, lançou uma rede social associada ao Kindle, o seu aparelho para leitura de livros electrónicos. Para aceder basta entrar no “site”, fazer uma inscrição e passamos a ter acesso aos nossos livros, às partes sublinhadas e às notas que fomos fazendo durante a leitura. É possível classificar (até cinco estrelas) e fazer recensões, bloqueando ou tornando públicos estes conteúdos. Podemos seguir outros leitores tal como acontece no Twitter e ser seguidos. Os nossos perfis no Twitter e no Facebook podem ser integrados na rede social do Kindle e assim sabemos o que os nossos “amigos” leram, andam a ler ou esperam ler no Kindle.

 

E falta a melhor parte: encontrar novos amigos com base nas obras que fazem parte da nossa biblioteca e das deles.

 

Isabel Coutinho - Publicado no blog Ciberescritas

 

isabel.coutinho@publico.pt

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Quarta-feira, 14.09.11

Cultura ainda vale algo para alguns...?

La cultura... ¿salvavidas de Europa?

 

J. M. Martí Font

 

 

 

"El futuro de Europa depende de la cultura", aseguró el pensador polaco Zygmunt Bauman en la inauguración en Wroclaw del Congreso Europeo de Cultura que Polonia organiza con motivo de ostentar, por primera vez, la presidencia de turno de la Unión Europea. "El mundo", añadió, "se está transformando en un mosaico de diásporas, en un archipiélago de culturas".

 

Un archipiélago que, según él, al tiempo que aportan riqueza pueden crear una incomunicación babélica; por eso el escritor y pensador polaco abogó por invertir en sistemas de traducción que permitan confeccionar lo que llamó una "nueva biblioteca de Alejandría". Hay que empezar a dejar de pensar en la cultura como en "una isla autónoma dentro del marco social", señalaba ayer en el mismo sentido el abogado y lobbista cultural Philippe Kern. "En estos momentos hay que situarla en el centro del discurso social y económico de la nueva sociedad", añadía, "y no solo porque actualmente la industria cultural proporciona millones de empleos y supone una parte importante del PIB, ni tampoco porque cuando China quiere desarrollar una economía creativa viene a Europa en busca de talento, sino porque aunque no nos demos cuenta, es nuestro principal recurso económico, como lo sería el petróleo para otros".

 

"Cuando hablamos de innovación", añadió, "pensamos que solo procede del campo de la tecnología, cuando en realidad es el campo de la tecnología el que bebe de las ideas y tendencias que surgen del campo de la cultura". "Hay que atraer artistas a las empresas, para que con su mirada ofrezcan alternativas", añadía.

 

La cultura, además, tiene una dimensión añadida: crea solidaridad entre la gente y esto es lo que ahora necesita Europa. Hubo ayer, en Wroclaw, quien insistió en separar o al menos delimitar los conceptos de cultura y arte, aunque tampoco faltaron quienes lo querían difuminar. Para el profesor de Economía de la Cultura de la Universidad de Venecia, Pier Luigi Sacco, las nuevas tecnologías nos permiten llevar encima un entero estudio cinematográfico en un ordenador portátil que no sólo nos ofrece la posibilidad de crear, sino de saltarnos la figura del intermediario y -más importante- producir arte sin necesidad de retornos económicos para financiarlo. No pensaba lo mismo el director de la Kunsthalle de Viena, Gerald Matt, para quien una cosa es la cultura y otra muy distina el arte que realiza a título individual una persona. Matt apuntó una interesante paradoja para estos tiempos de crisis y deuda, cuando la fiscalidad está sobre el tapete y las grandes fortunas apuntan a un reforzamiento de los mecenazgos en el modelo de Estados Unidos.

 

"El dinero que llega a las instituciones", dijo, "es igualmente público, tanto si llega del Estado a través de los impuestos como si procede de donaciones privadas que, finalmente, son deducciones fiscales y por consiguiente impuestos. En este último caso sucede que es el individuo en cuestión quien decide a qué dedicar los fondos y cómo gastarlos, con criterios personales y en ocasiones muy banales o volubles. Personalmente prefiero que sea el Estado que lo reparta porque tiene una mayor continuidad y neutralidad".

 

El fotógrafo Oliviero Toscani, maestro de la provocación, no comulgó con nadie: "el Estado es un estorbo", dijo, "una máquina de mediocridad gestionada por burócratas a quienes la creación artística, que por definición es subversiva, les parece un anatema". Zygmunt Bauman, que ha escrito especialmente para este congreso el ensayo Cultura en el líquido mundo moderno, en el que Polonia se reivindica como la potencia cultural de la Europa del Este, adoptó la figura del viejo sabio que reivindica. Ante el presidente polaco Bronislaw Komorowski y otras autoridades, en el Centennial Hall, un edificio emblemático en la historia de la arquitectura construido a principios del siglo XX por el arquitecto Max Berg, Bauman pidió a los asistentes que dejaran de ver la televisión durante los cuatro días del congreso para no contagiarse del pesimismo. También reclamó la herencia cultural europea como la mejor arma para salir de la crisis.

 

Enlazando con el eje sobre el que Polonia ha articulado su presidencia, el de la diversidad, Bauman ció a Gadamer recordando que la diversidad es el mayor tesoro que Europa puede dar al mundo y a Steiner cuando asegura que el viejo continente morirá cuando deje de prestar atención a los detalles. En una ciudad emblemática como Wroclaw, que ha sido bohemia, polaca, alemana, parte del Imperio Austrohúngaro, prusiana, alemana y de nuevo polaca, y donde las cicatrices de la última guerra todavía son visibles, Bauman reclamó el viejo espíritu del Imperio Austrohúngaro, al que la ciudad, que entonces se llamaba Breslau, capital de Silesia, perteneció. De cómo los tiempos han cambiado desde la última guerra que supuso la expulsión de los ciudadanos alemanes y la llegada de polacos procedentes de la parte oriental del país que ganó Bielorrusia, da fe esta anécdota relatada por el alcalde de Wroclaw. A mediados del siglo XIII, los invasores mongoles llegaron a la ciudad, la destruyeron y la saquearon, aunque no pudieron ocupar el castillo. Recientemente, explicó, el embajador de Mongolia en Polonia visitó Wroclaw y en un acto oficial escuchó el relato de aquel bárbaro episodio. Cuando tomó la palabra, en lugar de ofenderse, dijo: "¿Qué importa quién ganó y quién perdió? Lo importante es que fue entonces cuando nos conocimos por primera vez".

 

J. M. Martí Font - Publicado em El País

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Terça-feira, 13.09.11

Melo era uma festa

O dia em que o Papa foi a Melo

 

Iuri Müller

 

Foi uma pena, porque Melo era uma festa, antes da chegada do Papa. A gente notava nas caras das pessoas – nos gestos, nas atitudes – uma alegria sem necessidade de explicação, alguma coisa muito rica e muito viva que alguém chamaria equivocadamente de orgulho municipal ou de vaidade ufana, mas que era muito mais ou muito menos do que isso: era o júbilo dos deserdados, o regozijo dos esquecidos despertados repentinamente para um momento de confiança, para uma possibilidade de certeza.

 

Aldyr Garcia Schlee, Melo era uma festa

 

No dia oito de maio de 1988, um domingo de tempo feio, neblina e vento frio, a Negra Martiana, que não tinha nada, viu entrar pelo buraco do fogão duas galinhas e um galo, acontecimento estranho para quem vivia em um casebre, perto de terrenos baldios e de um arroio e muito longe de qualquer galinheiro. No dia oito de maio de 1988, o Papa João Paulo II esteve em Melo, na cidade do interior uruguaio onde vivia a Negra Martiana, mas ela não se lembra de ter pedido qualquer coisa ao Santo Padre. Ainda mais depois que os seus enteados percorreram meia cidade com bandeirolas e faixas brancas nos bolsos, todas elas com mensagens de boas-vindas ao Papa, e voltaram para casa sem ter vendido absolutamente nada. Mas ali estavam as duas galinhas e o galo, justamente na cozinha de quem não tinha nada, e logo no dia em que o Papa foi a Melo – dessa história, que pode ter acontecido em qualquer canto da capital do departamento de Cerro Largo, o escritor Aldyr Garcia Schlee fez um conto e o chamou, mesmo perguntando no rodapé da página se não seria muito, de “Milagre”.

 

Aldyr, nascido em 1934 na cidade de Jaguarão, na fronteira com o Uruguai, não esteve em Melo naquele dia; o Papa, sim. A ausência não impediu que três anos após a visita papal o escritor se fizesse presente, quase que magicamente, em todos os lados da cidadezinha que se preparou até como não podia para receber João Paulo II – em 1991, Schlee publicou “El día en que el Papa fue a Melo” nas Ediciones de La Banda Oriental. Oito anos mais tarde, o livro formado por dez contos cujo pano de fundo é sempre a presença – ou a enorme ausência – do Papa no interior uruguaio aparece no Brasil publicado pela editora Mercado Aberto com o título “O dia em que o Papa foi a Melo”.

 

O Milagre” que viveu a Negra Martiana, portanto, é só um dos causos de um dia que, por curioso ou trágico, não deve nunca escapar da memória de quem esteve em Melo naquele domingo.

 

Tudo porque os uruguaios esperavam um público de ao menos cinquenta mil pessoas e a chegada de gigantescas caravanas de católicos brasileiros – e há quem diga que não mais do que oito mil pessoas, a maioria de Melo, de fato foram ver o Papa.

 

Entre os personagens de Aldyr, no conto “Espelho partido” está o avô que completava 98 anos no dia em que a cidade estava impactada pela chegada do maior visitante que já havia recebido – e que, apesar das centenas de parentes e conhecidos que se aglomeravam na “grande casa alta de dezoito peças”, prefere não sair da cama de onde contemplava há horas a rachadura de um velho espelho.

 

Talvez relembrasse, em meio ao cansaço dos últimos anos de vida, as conquistas de “uma pobre e obscura republiquinha” que há tempos havia “suprimido o ensino religioso nas escolas públicas e logo se pôde diminuir para oito horas a jornada diária de trabalho, implantar as jubilaciones, criar as pensões de velhice, garantir a assistência pública e laica aos enfermos e assegurar a gratuidade da educação nos três níveis”. E que secularizou “os juramentos oficiais, deixando de mencionar Deus e os santos evangelhos”; que garantiu “a total liberdade de culto, separando a igreja do Estado – embora não tenhamos conseguido a aprovação da semana renga, com um dia de descanso a cada seis, para acabar com o feriado de domingo por sua significação religiosa”. E lá fora estava o Papa, orando para uma multidão que não chegou.

 


 

É no conto “Melo era uma festa”, narrado por um jornalista credenciado no evento, que se encontra uma descrição do desastre que foi a preparação dos habitantes de Melo para o grandioso acontecimento; embora ficcional, o texto de Aldyr não destoa de outros relatos sobre aquele domingo que, apenas para uns poucos, ainda é lembrado com alegria: “a verdade é que nada deu certo no dia em que o Papa foi a Melo – pelo menos para a pobre gente que mais esperava de sua visita. Foi tudo tão rápido e inesperado como um milagre, mas um milagre às avessas: quando se viu, o que se queria que acontecesse, o que tinha que acontecer, o que era certo que ia acontecer, não aconteceu; e em seguida não dava mais para acontecer. O Papa veio se foi; e pronto!

 

Quando recém o leitãozinho de estimação começava a pingar graxa no braseiro, quando os primeiros chouriços caseiros pegaram a dourar e a estalar, o homem já tinha ido embora e todo mundo se foi – se foi sem almoçar nem nada –, e ficou só a terra vermelha e pisoteada da esplanada coberta de lixo barato”.

 

Iuri Müller - Publicado em SUL 21

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Artistas são mais importantes que museus

O Caso  IANELLI

 

A polêmica em torno da recusa do MAM-SP em receber 14 obras em doação

 

Olívio Tavares de Araújo

 

 

 

Disse Goethe que a História deve ser reescrita a cada 20 anos, em virtude do progresso do espírito crítico da humanidade. Exceto pelo excesso de iluminismo da segunda metade da frase - típico da época e do pensamento de Goethe -, a ideia continua verdadeira. A história se reescreve todo o tempo, voluntariamente, por indivíduos e/ou grupos, e/ou acidentalmente, por fatos espontâneos.

 

Não é de outra natureza o problema surgido com os quadros deixados em testamento pelo pintor Arcangelo Ianelli (1922-2009), que se tornaram notícia em virtude de um quiproquó talvez inédito. Há alguns meses, o Museu de Arte Moderna de São Paulo recusou uma doação de 14. Na direção oposta, o Museu de Arte Brasileira da Faap abriu, há pouco, uma exposição-homenagem para apresentar publicamente a também doação que acolheu. Mas não é o caso de lavrar-se um simples protesto emocional pró-Ianelli e reclamar da "injustiça" cometida - já que alguma houve.

 

É o caso de refletir sobre um fenômeno importante, que poucas vezes temos a oportunidade de surpreender de maneira tão exemplar. Costuma-se pensar apenas na grande História, cujos golpes mudam o destino de países e povos, decidindo da vida e morte de milhões. Esquecem-se as sub-histórias específicas (a da arte é uma delas), e que todas se fazem no dia a dia, aqui e agora, de grandes atos e/ou miudezas que se imbricam, como o famoso nariz de Cleópatra: se fosse menor - ou maior -, não teriam sido outros os destinos do Império Romano e, provavelmente, de todo o Ocidente?

 

Nos últimos 30 anos, Ianelli se tornou um dos mais respeitados pintores do Brasil, mestre numa abstração de fundamento geométrico porém expressiva, que nunca se deixou limitar por regras e ortodoxias. Contemporâneo e parente estilístico de Tomie Ohtake, partilhava com ela idêntico prestígio e sucesso de mercado. Fez uma carreira cheia de prêmios e honrarias, estabeleceu bom trânsito internacional (o que acontece com poucos brasileiros) e suas obras estão em museus de Porto Alegre a Toronto, Cidade do México a Roma, Skopje a Kyoto. Não importam os argumentos usados, não nos iludamos.

 

Sabendo ou não do significado pleno de seu ato, o Museu de Arte Moderna não errou por inépcia, desinformação, má fé, deficiência de gosto. Talvez nem lhe caiba o termo erro. Como uma das instâncias que conformam e definem a história da arte (os museus, a crítica, os livros, a imprensa, o mercado), seu recado implícito foi que a atenção até agora reservada a Ianelli (e outros com perfil semelhante) chegou ao apogeu - e basta. Isto, na visão dos que atualmente controlam o museu, é evidente.

 

O espaço físico do acervo metaforiza, aqui, o espaço simbólico e o histórico, que se devem reservar de ora em diante para novos eleitos. Ao longo dos anos, à medida que forem sendo revelados, poderemos concordar ou discordar quanto a suas qualidades, mas eles virão, inflexivelmente. Acrescente-se que a autoridade de instância definidora conferida aos museus fará com que tendamos a concordar. Não deveria ser, por força, assim, porém as demais instâncias - exceto o mercado, todo-poderoso - carecem de vontade política, energia e instrumentos de ação. Junto com Ianelli, puniu-se também uma linguagem.

 

 

 

No Brasil, as duas matrizes abstracionistas, a geométrica e a lírica, bem distintas em seus propósitos estéticos, emergem ambas na década de 1950. Graças ao febril ativismo dos membros do movimento concretista, a primeira adquire um invejável e excludente prestígio, bafejado ainda pelo brilho intelectual dos poetas concretos. A certa altura Waldemar Cordeiro, o líder dos pintores, ortodoxo, radical e aguerrido, decide declarar que a abstração lírica é "hedonista" - querendo significar, entendo eu, que seria menos séria, menos profunda, fácil de agradar, decorativa. (Como se um quadro geométrico não pudesse servir tanto quanto qualquer outro para enfeitar ambientes.)

 

O busílis residia, realmente, na questão da expressividade. Para os concretistas e análogos, filiados ao polo da razão, a obra de arte era apenas "produto", no sentido industrial da palavra. Admiti-la como manifestação subjetiva do autor, contendo e despertando emoções, representava uma contaminação romântica decididamente inaceitável. Seguindo a regra brasileira, ao invés de se observar judiciosamente a realidade, erigiu-se em verdade a provocação de Cordeiro, pelo que desde então o abstracionismo lírico vem sendo desqualificado, às vezes com gentileza, às vezes sem. É possível que em alguns casos - por exemplo, em Antonio Bandeira, que o mercado, talvez por isso mesmo, escolheu como um de seus objetos do desejo, pagando milhões por suas telas -, haja efetivamente algum hedonismo: o prazer de uma arte sedutora, não encucada, que se frui sem qualquer dificuldade. No entanto, basta conhecer direito a gravura de Fayga Ostrower para se dar conta de que não contém o mais remoto traço de hedonismo, e sim a discussão talentosíssima e séria dos problemas da arte em seu momento. Sem falar de Iberê Camargo, cuja produção abstrata lírica da década de 1970 é intensa, vital, dramática, exigente, difícil, e de uma qualidade contundente.

 

Simetricamente, a obra do neoconcretista Hércules Barsotti, rigorosamente geométrica ao longo de toda sua trajetória, é bela sem rebuços, até agradável - sem com isso se tornar menos boa. Apesar de filho dos anos 50/60, Ianelli não foi um abstracionista lírico em sentido estrito; roçou de leve pelo tachismo (uma das subdivisões da matriz), mais de leve ainda pelo gestualismo (outra), para optar, afinal, por estruturas geométricas simples que apareciam ou subjaziam em seus trabalhos. Nada tinha de cerebral e buscava, sem a menor sombra de dúvida, uma beleza feita de harmonia, equilíbrio, apolínea, sem conflito (daí o substrato geométrico), lavrada na ordem do sensível, sutil mas evidente, capaz de estabelecer comunicação imediata. Daí o risco do "hedonismo", punido pela recusa do MAM. Se se tratasse de um geométrico estrito, acredito que as obras teriam sido aceitas. Como são eles, atualmente, os darlings do sistema das artes, não creio que o museu recusasse nenhum concretista nem neoconcretista, ou mesmo geométricos posteriores e epígonos, com os quais acreditaria estar enriquecendo, inclusive materialmente, sua coleção. Há 20 anos nem se cogitaria de recusar Ianelli. Reescrever a história não é negar os fatos. É alterar-lhes o peso relativo, vê-los de ângulos distintos, propor novas leituras, como aí acontece.

 

Felizmente, nem a memória nem a obra de Ianelli precisam de 14 trabalhos a mais aqui ou acolá. Mesmo porque a doação não era portentosa, incluindo oito bonitos mas nada essenciais pequenos estudos em papel. O golpe foi mais o choque, no início. De resto, Ianelli nunca tentou posar de gênio (o que fez Cordeiro, um pouco), e bastava-lhe cumprir com precisão seu bem delineado projeto, dentro da originalidade possível num país de terceiro mundo. É verdade que sua melhor produção se parece com a de um grande mestre estrangeiro, Mark Rothko. Mas, visivelmente, ele chega lá por seus próprios caminhos, não por imitação. E se a parecença bastasse para relegá-lo, dificilmente sobrariam no Brasil artistas não relegados. Até na vanguarda, exceto por Lygia Clark e, em menor grau, Hélio Oiticica, nossa originalidade permanece caudatária.

 

Além de que a exigência de originalidade à outrance é uma invenção do Romantismo. Bach e Mozart não se preocupavam em ser originais nem modernos, Cuidavam de codificar e aperfeiçoar a linguagem a que chegava a música em seu tempo. Não procuraram "o novo", mas sim fazer de novo e melhor, sempre melhor, até o limite da perfeição de cada um. Sem embargo de quantos quadros tenha em museus, é um mérito que não se poderá tirar, também, de Arcangelo Ianelli.

 

 

 

Olivio Tavares de Araújo - Publicado em O Estado de São Paulo

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Domingo, 11.09.11

Ler não é ler. Ler é viver.

Erros capitais da leitura

 

Paulo José Miranda

 

Julgamos que pelo fato de aprendermos a ler desde muito cedo, a juntar as letras, a formar palavras que juntamos a outras e a entender palavras e frases, que sabemos ler qualquer coisa. Pois nada mais errado. Para tudo é necessário uma preparação específica e a leitura não é menos do que tudo o resto.

 

Sempre fico fascinado quando qualquer pessoa julga que pode apreciar uma peça de teatro, um poema como qualquer outro, mas sabe que não pode correr a maratona e, ainda que a consiga correr, sabe que não a consegue correr com os melhores. Ou seja, quando se trata do corpo, aceitamos facilmente que outros podem ser melhores do que nós, porque se prepararam para isso, mas quando se trata de ler um texto, de apreciar uma obra de arte, não.

 

Há textos que oferecem ao leitor a mesma resistência que a maratona.

 

Por exemplo, a Crítica da Razão Pura, de Kant, a Fenomenologia do Espírito, de Hegel, o Ser e Tempo, de Heidegger. O leitor aqui chegado a estas páginas, ou já fez muito treino, e treino específico, ou não vai conseguir ultrapassar a primeira página, quanto mais os 42 km de livro que tem pela frente. Mas não se julgue que é pelo fato de se tratar de textos filosóficos, de textos de filosofia, que o leitor encontra essa resistência e assume a sua incapacidade. Nem sequer de ser de filosofia alemã, pois o leitor assim que chega às páginas de Nietzsche, mesmo que nunca tenha corrido uma página de filosofia sequer, julga-se apto a lançar-se estrada a fora até ao fim do texto. O mesmo se passa com Platão, por exemplo. E também com o chamado segundo Wittgenstein.

 

Se isto é assim com os filósofos, por maioria de razão será com poetas e escritores. Esses, então, não oferecem resistência (com exceção de alguns casos raros). Assim, o leitor diante da maratona do poema ou do romance lança-se estrada fora e não admite que haja algum outro leitor mais preparado do que ele. Nem pensar! Aliás, é porque ele pensa, que não admite que outro pense melhor do que ele.

 

Depois abundam essas teorias de trazer pelos cafés e pelos bares: não há interpretações melhores, há interpretações. Lá está o iniciado na arte de pôr o pé na estrada a não admitir que alguém que já fez milhares de quilômetros possa correr melhor do que ele. Nem pensar! Evidentemente, o tempo de vôo não é garante de melhor leitura. Mas a falta de tempo de vôo deveria conferir mais humildade.

 

Para além do tempo de vôo, do tempo de preparação, dos muitos quilômetros percorridos, há ainda um outro fator que os leitores esquecem com freqüência: o talento. O talento, sim. Pois ninguém duvida que o Cristiano Ronaldo tem mais talento do que ele, sentado no sofá a assistir ao jogo. Aliás, mesmo 90% dos jogadores de futebol, que treinam tanto quanto Cristiano Ronaldo não têm o mesmo talento e nós admitimos “fácil”. Ora, cá estamos de novo diante do corpo. Desta feita do talento do corpo (e não só, mas é através do corpo). Mas quem é que aceita que o leitor ao seu lado ou à sua frente tenha mais talento para ler do que ele?

 

Quem é que diz: “cara, você é show de bola a interpretar um texto! Você é mesmo bom, gostava de ler como você.”

 

Esta fala nunca deve ter sequer existido e, se existiu, soou tão estranho que não deve ter sido repetida.

 

Que leva o humano a não aceitar que alguém leia melhor do que ele, quando facilmente aceita que alguém seja melhor do que ele a correr a maratona ou a jogar futebol? De onde vem esta idéia pré-concebida de que somos todos iguais na leitura?

 

Outro erro capital da leitura é julgar que, sendo capaz de ler bem uns determinados autores, somos capazes de ler bem todos os autores. Errado.

 

É como se num jogo de futebol Cristiano Ronaldo fosse igualmente fera defendendo as redes do gol (baliza) ou comandado a zaga (defesa).

 

Vocês julgam que um excelente leitor de Gabriel García Márquez será um bom leitor de Fernando Pessoa, por exemplo, e vice versa? A resposta só pode ser um redondo e verdadeiro não. Imaginemos um leitor de Cem Anos de Solidão e um leitor de Livro do Desassossego. Ambos lêem muito bem cada um dos seus livros, jogam muito bem a cada uma das suas posições no gramado, seriam igualmente feras se trocassem de livro, de posição?

 

Poderia até acontecer, mas seria tão improvável quanto encontrarmos um goleiro que jogasse na frente tão bem quanto o Cristiano Ronaldo. Porquê? Pela simples razão que se trata de galáxias distantes. Um e outro livros não são planetas diferentes, são galáxias diferentes. Não está aqui em causa a qualidade literária de cada um deles, que não discuto sequer. O que está em causa é a qualidade extra-literária, a qualidade para além da escrita (partindo do princípio que são ambos textos excelsos do ponto de vista literário). O humano que acede a uma exemplar leitura do livro de Fernando Pessoa muito dificilmente fará uma leitura igualmente exemplar do livro do escritor colombiano; e o contrário ainda será mais difícil.

 

A dificuldade está no universo que se abre diante do leitor. O texto implica a vida, num e noutro caso. Mas as vidas implicadas são diferentes. Eu não consigo imaginar um homem casado, com filhos, de bem com sua vida, chegando em casa depois de um dia de trabalho, ajudar os filhos, no jantar, falar com a mulher, eventualmente fazer amor com ela e, depois, pôr-se a ler Livro do Desassossego.

 

Desculpem, mas não consigo.

 

Não consigo imaginar este homem a entrar no texto do Pessoa e conseguir respirar, com tanta solidão, tanto solipsismo, tanto cinismo. Não é que não possa ler, mas não vai ler bem, seguramente; é pôr o Cristiano Ronaldo no centro da zaga, marcando o centro-avante.

 

Pelo contrário, já imagino esse mesmo homem a ler bem Cem Anos de Solidão. Não há aqui um diferencial de qualidade literária, repito, insisto, mas de mundividência. Quem é que já não sentiu, aos 18, 19, 20 anos, um medo inexplicável pela coluna acima ao ler esse livro do Pessoa? E porquê?

 

Porque usualmente nessas idades o humano ainda não está casado e com filhos, tem ainda as possibilidades todas em aberto, e ao confrontar-se com aquele texto sente dentro de si a possibilidade de isso vir a ser a sua vida. Isso assusta-o e fascina-o. Mas o homem, que vimos atrás, que chega a casa depois do trabalho para a mulher e filhos, não sente mais isso. Mas pode muito bem sentir e compreender o livro de Gabriel García Márquez, pois este livro, independentemente da sua qualidade literária, não choca de frente com a sua vida. Por outro lado, o homem que não está mais casado ou que nunca esteve, sente isso como aquilo em que foi parar a sua vida.

 

Ler não é ler. Ler é viver.

 

 

 

Paulo José Miranda

publicado por ardotempo às 18:18 | Comentar | Adicionar

Duas torres


Vermelho, azuis

 

O tempo não se diz história,

simplesmente se faz

nos gestos, nos fatos,

na memória.

 

Um dia amanhece a nuvem

e a notícia no mundo

inverossímil.

 

O jato chocou-se

com o prédio mais alto,

na rota impossível.

 

Vermelho, azuis.

 

No segundo jato,

a história antes do tempo.

 

Numa noite,

a palavra desviou a razão,

confundiu o gesto,

o desejo.

 

Vermelho, azuis.


No prédio mais alto

das caixas nomeadas

a munição de 35,

não são de 22,

nem de 38

tampouco de 45.

 

Reservado arsenal

para mudar

o desfecho da guerra

sem armistício.

 

Vermelho, azuis.

 

A espera da palavra,

sem pressa,

que transforma o tempo,

as vidas,

redesenha a carta

da história.

 

Vermelho, azuis.



publicado por ardotempo às 18:16 | Comentar | Adicionar

Feiras, gastronomia e incêndio

Literatura vai de menos 1 a 40 graus

 

Ignácio de Loyola Brandão

 

Bem interessante. Enquanto a Flip foi dominada pelo escritor português walter hugo mãe, conquistando homens e mulheres, a Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, que continua sendo o maior evento do Brasil e da América Latina, girou em torno do talento e do carisma de outro português, Gonçalo Tavares.

 

Tranquilo, simples, ele foi "comendo" todo mundo pelas beiradas, como se diz por aqui. Na mesa sobre identidade, literatura e cultura na globalização, foi o único a fazer um depoimento atual, consciente, lúcido, ao contrário do celebrado (e decepcionante) Luiz Costa Lima, que se julga em altíssima conta e desprezou a Jornada e os participantes dormindo no palco, diante de 6 mil pessoas, e dando um depoimento pífio. Ao acordar, atrapalhou-se com suas anotações, disse que as tinha esquecido no hotel. Não tinha nada a dizer. Ensaísta à antiga que fala em linguagem hermética, vazia.

 

Plateia monumental, professoras e estudantes, 18 mil crianças na Jornadinha, ouvindo e conversando com autores infantis. Ninguém bate Passo Fundo. Mauricio de Sousa dominou a cena, crianças de todo o Brasil o conhecem, adoram. Neste momento há pelo Brasil dezenas de feiras (acaba uma, começa outra) e bienais e encontros. Saí de São Joaquim da Barra, interior de São Paulo, onde a prefeita Maria Helena Borges Vannuchi, obstinada e interessada em cultura, insiste em manter uma feira de livros com gente de primeira linha, e parti para Passo Fundo (-1°C na abertura da festa e vento minuano varrendo), norte do Rio Grande do Sul.

 

Segui para o Piauí, para o terceiro Salipa, Salão Literário de Parnaíba (40°C à sombra), na boca do maravilhoso delta que separa aquele Estado do Maranhão. Hoje estou na 2.ª Filmar, Feira Literária de Marechal Deodoro, ao lado de Maceió. O sol come. Livros e literatura por toda a parte.

 

Segunda-feira desço ao interior do Paraná para falar nos Sescs de Cascavel, Pato Branco, Fernando Beltrão e Foz do Iguaçu. Em São Joaquim da Barra, a pamonha deliciosa e delicada, vendida num duas portas em frente da Feira, me provoca água na boca. Duas equivalem a um jantar. No Piauí, doce Estado, há o arroz Maria Isabel, o Capote, o queijo de coalho, a caranguejada.

 

Em Passo Fundo, há a gastronomia dos Biazis, Alcir e Lisete, secundados pelo Serafim Lutz, com saladas inventivas, pernis, massas, filés e picanhas, costelas, matambres, num estilo sulino afetuoso. Alimentar com qualidade mil pessoas é tarefa de competentes. Sentar-se à mesa servida pelo garçom Otavio é privilégio. Com seus cabelos brancos e sabendo tudo, faz você parecer o mais VIP dos clientes, seja VIP ou não. E o que é VIP, afinal? As refeições no Clube Comercial eram no fim de noite, com conversas, papos cabeça, fofocas, informações, vinhos, todos juntos.

 

Esse é o diferencial da Jornada, aglutina pessoas, momentos em que todos se juntam. Os irmãos Caruso, Chico e Paulo, cartunistas e músicos, estão na mesa com Gonçalo Tavares e Affonso Romano de Sant"Anna. Edney Silvestre, um dos mais procurados pelos leitores, juntava-se a Tatiana Salem Levy e à professora Maria Esther Maciel. Marcia Tiburi, filósofa, conversava com Peter Hunt, enquanto Eliane Brum juntava-se a Rinaldo Gama, que foi o único que se preparou convenientemente com uma bela fala para a mesa da comunicação do impresso ao digital. O comer é o momento em que todos se juntam, em lugar de se espalharem em busca de restaurantes espalhados pela noite afora.

 

 

 

A mesa final de Passo Fundo, formação do leitor contemporâneo, provocou incêndio. Alberto Manguel irritou-se com a inglesa Kate Wilson, amável mulher, que levou um projeto de livros em computador, em tablets, ainda em fase de implantação e discussão. Manguel se acha o dono da verdade do livro em forma de livro. Tablets, e-books, iPads são dignos da excomunhão. Arrogante, destratou aos gritos o americano Nick Montfort: "Não tenho e-mail, não uso computador". Para ele significam a deformação do leitor, não uma das formas para se conseguir sua formação. Crente de que é uma grande pessoa, guardião do livro em papel, Manguel partiu com patadas para cima da inglesa que, todavia, sabe espanhol, e respondeu à altura.

 

Manguel, que vem escrevendo e reescrevendo os mesmos livros, tem de encontrar, urgentemente, as portas do século 21, desembarcar neste milênio, e ser mais gentil, admitir que a informática veio para ficar. Uma anedota circulou pela Jornada. Dizem que Manguel foi leitor de Borges. Ao fim de cada leitura, Borges acentuava: "Leu, pode ir embora, não me dê nenhuma opinião".

 

Ao menos, a argentina Beatriz Sarlo, figura exponencial, estava na mesa, deu o tom de grandeza, ao lado de Affonso Romano. O que importa é que literatura, misturada a música, informática e teatro, está sendo discutida em todo o País. Nunca, como hoje, houve tantas feiras e eventos em torno do livro, leitura, formação de leitores. Discussões, debates e buscas de caminhos. A Jornada de Passo Fundo chegou aos 30 anos, milhares de professores passaram por ela, milhares de crianças.

 

A Jornada é a única que não se esgota assim que termina. Aí é que ela começa, com a multiplicação de ideias, conversas, aprendizados, vindos das oficinas, seminários, cursos, aulas paralelas, infinitas, atualizadoras. Recomeça quando acaba. Para culminar, premiou-se João Almino, grande autor com o seu Cidade Livre. O Bourbon Zaffari é o maior prêmio literário privado da América latina. Diplomata de carreira, autor por paixão, Almino levou um susto com o tamanho da Jornada e voltou à Espanha apaixonado.

 

Ignácio de Loyola Brandão

publicado por ardotempo às 15:29 | Comentar | Adicionar

A bandeira do Brasil

Um 7 de setembro vermelho e preto

 

Taciane Corrêa

 

Enquanto todos relembrarem 11 de setembro, eu vou ficar em 7

Dia em que Pelotas se coloriu e festejou

O verde/amarelo da Independência se confundiu com o vermelho/preto da paixão

Os nossos brasis entrecortaram as ruas como uma tonalidade sinfônica

Brasil, Brasil, Brasil,

As tuas cores são nosso sangue, a nossa raça

Fundado em 7 de setembro de 1911

somos campeões do bem querer

Agora o Grêmio Esportivo Brasil faz parte do time dos centenários

Sou rubro-negro!!!.... Com muito orgulho!!!

A invasão dos xavantes deu nome à torcida mais fiel do interior do Estado

Tua escada vermelha e preta faz vibrar nossa energia

Tua charanga é o coração pulsante da arquibancada

Considerada a mais antiga e tradicional do país, dá o tom e o movimento

Entre tambores, tamboris, saxofones e frigideiras

O ritmo conduz a musicalidade da torcida no Estádio Bento Freitas

Em 17 de agosto ultrapassou os limites do futebol e entrou dançando no museu

Ao som da charanga acompanhada da beleza do Grupo Tholl de vermelho e preto

entra em cena a mostra fotográfica Camisa brasileira no Malg

Pelas palavras, Gilberto Perin faz-se a fotografia

Por sua câmera mágica revelam-se segredos, dramas, fantasmas e esperança

Até o dia 14 é possível flanar pela artística alma popular

do primeiro grupo campeão gaúcho em 1919

O caldeirão do diabo vira arte contemporânea

São chuteiras, havaianas, rolo de fita crepe, camisa rubro-negra e Bíblia que ecoam do vestiário

É altar, velas e santos que materializam o intangível

É Iemanjá, São Jorge e Nossa Senhora

à espera da sua prece

São chuveiros, toalha e sabonete que imprimem aroma a cada clique

São mais de 50 imagens que eternizam nossa paixão de sempre

No reflexo trincado está o entusiasmo da torcida intacto

Na bandeira, o grito de gol e o sentimento arrebatador

que pinta a cidade de vermelho e preto.

 

 

 

 

Taciane Corrêa - Publicado no Diário Popular (Pelotas RS Brasil)

Imagem: Fotografia de Gilberto Perin

 

publicado por ardotempo às 14:50 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 06.09.11

11 de setembro, efeito borboleta

Incidente en París

 

Enrique Vila-Matas

 

El próximo 11 de septiembre se cumplirán 100 años exactos de un choque que tuvo lugar entre un triciclo y un automóvil en uno de los bulevares de París. A consecuencia del golpe, el triciclo se quedó con la rueda delantera deformada. El empleado de panadería, que hasta aquel momento había pedaleado con total despreocupación, se apeó y se dirigió hacia el automovilista, que se apeó igualmente. Enseguida comenzaron a recriminarse sus respectivas formas de conducir y se creó el clásico corro de gente que deseaba saber quién llevaba la razón.

 

En cierta forma, dos culturas entraron en conflicto: el automovilista era alguien instruido que, encima, tenía el don de la palabra, mientras que el panadero se defendía solo gesticulando y, para colmo, haciendo siempre el mismo gesto.

 

Cuando la pelea comenzó a estancarse, se llamó a un policía para que reanimara el espectáculo. Uno de los testigos del choque en aquel bulevar de París fue el peatón Franz Kafka que, de paso por la ciudad aquel 11 de septiembre de 1911, registró en su diario el incidente, anotando todo tipo de detalles, como, por ejemplo, la gran cantidad de espectadores nuevos que se añadieron al corro inicial en cuanto apareció aquel policía, de quien todo el mundo parecía esperar que resolviera el asunto de inmediato con toda imparcialidad y, además, les permitiera el gran goce de poder presenciar en directo la redacción de un atestado. Como tantas veces en estos casos, el policía se hizo un lío.

 

El policía, escribió Kafka en su diario, se equivocó un poco en el orden de sus anotaciones, y en algunos momentos, en su esfuerzo por poner las cosas de nuevo en su sitio, no oyó ni vio ninguna otra cosa.

 

Algo por el estilo me ocurrió hace 10 años cuando quise poner orden en mis anotaciones sobre el atentado de las Torres Gemelas y escribir sobre el asunto. Me hice tal lío que terminé viéndolo todo de forma kafkiana y de pronto me encontré buceando en el mundo del propio Kafka, tratando de saber qué había hecho él en algún 11 de septiembre del pasado. Fue así cómo descubrí que en 1901 no llevaba todavía ningún diario, pero sí el 11 de septiembre de 1911, que fue cuando presenció en París aquel choque de bulevar.

 

Si algo no fue nunca Kafka fue profeta, pero sí tenía algo de espejo; él mismo le dijo a Gustav Janouch que se veía a veces como un espejo que se avanzaba: un espejo que tenía la capacidad, como algunos relojes, de adelantarse. No estoy hablando pues de virtudes proféticas, sino de un agudo sentido de la percepción, que es algo distinto y suele ser más habitual en los escritores que las profecías. Kafka fue seguramente el más perceptivo de los escritores del siglo pasado.

 

Hace 10 años, cuando hallé aquella meticulosa descripción del choque en París entre un panadero y un automovilista, sentí el impulso misterioso de seguir buceando en sus diarios, como si aquel incidente fuera solo el punto de arranque de un relato y pudiera encontrar en otras páginas de su diario la continuación de la historia. Y así fue como salí en busca de lo que había anotado Kafka un año después, el 11 de septiembre de 1912.

 

Para mi sorpresa, ese día el escritor soñó que estaba en una lengua de tierra construida con piedras de sillería que se adentraba en el mar. Al principio, no sabía dónde estaba, hasta que descubría muchos navíos de guerra alineados y firmemente anclados: "A la derecha se veía Nueva York, estábamos en el puerto de Nueva York".

 

Tras la sorpresa, seguí leyendo hasta el final, cuando el soñador acababa sentándose, recogía los pies contra su cuerpo, se estremecía de placer, se hundía realmente de gusto en el suelo y decía: ¡Pero si esto es aún más interesante que el tráfico de los bulevares de París!


 

 

Enrique Vila-Matas

Imagem : Robert Doisneau - O beijo (Paris)

publicado por ardotempo às 05:31 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar

São Paulo: os apaches de Oruro e Potosí

 

Música na rua

 

 

 

Mauro Holanda - São Paulo, Forte Apache - Fotografia (São Paulo SP Brasil), 2011

publicado por ardotempo às 05:26 | Comentar | Adicionar
Sábado, 03.09.11

Um dia, a beleza

 

Cidade séria

 

Paulo José Miranda

 

 

 

 

Demorei muito a chegar à idade que tenho. Demorei 41 anos e mais alguma coisa. Vivo em São Paulo e agrada-me muito viver aqui.

 

São Paulo é um cidade séria. Como quase todas as prostitutas, está disponível o tempo todo e longe de ser perfeita. A qualquer hora lhe peço o jornal, uma revista, um livro, uma cerveja, um sandwich, uma costela de boi ou que me aconchegue de amor, e nunca vi sombra de má vontade na mão que me estende.

 

E isto tudo num raio de cinquenta metros da porta de onde moro. Não vivo em Manhattan, nem em Beyoglu, não, vivo junto à Paulista. A morte acontece muito por aqui, é verdade, mas a morte acontece muito a quem anda na vida. São Paulo é profunda como os mistérios de Nietzsche. São Paulo está quase sempre a começar de novo. Arrasa tudo e dá de novo. São Paulo não preserva deuses antigos, constrói novos edifícios.

 

Tem muita poluição, dizem, e que isso prejudica a saúde como uma bomba ou uma guerra civil. A poluição mata em massa. Pode ser, não digo que não seja assim. Mas, ainda que possa não ter razão nenhuma, prefiro sentir no ar um inimigo do que não saber onde ir. Prefiro lutar contra o ar, lembrando o Dom Quixote delirando por terras de Castilha, do que morrer dia a dia de tédio, de cada vez que sair de mim e for até à rua. Em São Paulo, uma avenida vai até nunca mais.

 

Nunca vamos a nunca mais, isso também é verdade, mas a possibilidade de poder ir, ali, concreta diante dos olhos e dos passos, é uma sensação de futuro, uma sensação muito melhor do que passear no ar puro de uma montanha. A grandiosidade de um autor que, para além da excelência da sua escrita também escreveu muito, como Heidegger, por exemplo, não reside numa pretensa necessidade ou obrigatoriedade de nos fazer ler tudo, mas no facto concreto de sabermos que há muito mais do mesmo para ler. Este “muito mais” conforta-nos, ainda que não passemos da próxima esquina.

 

Mas confrontamo-nos constantemente com a miséria, dizem-me, só para me contrariar.

 

Melhor assim, respondo, lembra-nos duas coisas que não devemos esquecer ao longo da vida: humildade e convicção. Humildade para reconhecer naquele que está caído na rua o seu próprio corpo, o seu próprio rosto coberto; e convicção em não deixar que isso atrapalhe o que temos de fazer. São Paulo é profunda, filosófica, cresce alargando a noção de humanidade.

 

Em que cidade, logo pela manhã, me confrontaria eu com as perguntas que deve ter corroído Karl Marx, quando da sua tese de doutoramento acerca dos jardins de Epicuro, até aos Pirinéus da sua preocupação: será possível conciliar o prazer com a ética? Será possível ser justo e esteta? Será possível ter necessidades básicas e praticar a justiça? Será possível o deslumbramento e a igualdade?

 

Todo o mundo sabe que, em São Paulo, a realidade tem um caso com a verdade. E em mais nenhuma outra cidade do mundo isto acontece. Em mais nenhum outro lugar a realidade seduziu a verdade. Os paulistas, quando desencantados com a sua cidade, tão nietzschiana, sempre em construção, dizem: quando estiver pronta, São Paulo será bonita. E ter a beleza no futuro, caminhar na direcção de ser bela não é já uma das ideias contemporâneas mais belas da humanidade? São Paulo é séria como só uma puta séria consegue sê-lo, e eu demorei 41 anos para aqui chegar. Mas em que cidade faria mais sentido esta expressão da língua portuguesa: “mais vale tarde do que nunca”? Em São Paulo, tem sempre um lugar pra se chegar.

 

Paulo José Miranda

publicado por ardotempo às 23:04 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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