Terça-feira, 30.08.11

O que não deseja "fazer literatura"

 

Escrevendo sobre gostos

 

Alberto Manguel

 

  

Los enamoramientos de los otros suelen asombrarnos. Ante el apasionado elogio que alguien pueda hacer de un autor que a nosotros nos parece abominable, tratamos de entender esa emoción con los argumentos que el lector pueda ofrecernos. Casi siempre fallamos. Es que pedir que alguien nos diga por qué lo conmueve una cierta página que a nosotros no nos gusta es como pedir a Don Quijote que nos demuestre que Dulcinea no es, como la vemos, Aldonza Lorenzo.

 

Sin embargo, los lectores persistimos en querer explicarnos, infructuosamente: siglos de crítica literaria han nacido de este incauto impulso. Yo sé que la obra de Michel Houellebecq ha sido alabada por lectores que juzgo inteligentes, y he intentado muchas veces reconocer el supuesto encanto, inteligencia y humor que aducen sus defensores. No lo he logrado. He pedido, a quienes juzgan a Houellebecq "el más importante escritor francés de nuestro tiempo" (Fernando Arrabal, entre otros), que me muestren algún párrafo, alguna línea sin la cual "el mundo sería más pobre". Nunca lo han hecho. Han aducido en cambio razones políticas, sociales, psicológicas; han hablado de provocación, de avasalladora crítica del mundo occidental, de embestida contra la hipocresía de nuestro tiempo, de épater le bourgeois.

 

Dudo, sin embargo, que decir, como lo hace uno de sus protagonistas, que los hombres sólo quieren "una dulce esposa que les lleve la casa y cuide a los niños", o una prostituta ocasional, épaté a nadie en la época de Berlusconi o DSK.

 

Curiosamente, al defender a Houellebecq, pocos hablan de literatura. Quiero decir: pocos hablan de eso que diferencia la invectiva, o la confesión, o el catequismo, o cualquier otro artefacto verbal, de la creación literaria. Digo no saber por qué exactamente un texto me importa, pero sé que cuando leo busco en la escritura algo que me atrape y me conmueva, no a través de argumentos, sí a través de una tensión creada por las palabras mismas. Eso no me ha ocurrido nunca leyendo a Houellebecq. Doy un ejemplo al azar, tomado de la página 315 de la novela Plataforma, muy bien traducida por Encarna Castejón: "Del amor me cuesta hablar. Ahora estoy seguro de que Valérie fue una radiante excepción. Se contaba entre esos seres capaces de dedicar su vida a la felicidad de otra persona, de convertir esa felicidad en su objetivo. Es un fenómeno misterioso. Entraña la dicha, la sencillez y la alegría; pero sigo sin saber por qué o cómo se produce. Y si no he entendido el amor, ¿de qué me serviría entender todo lo demás?". El estilo es chato, monótono, perfectamente adecuado a la banalidad de la idea que propone: "No sé qué cosa es el amor".

 

Alan Pauls, en lo que imagino es un esfuerzo por elogiar a Houellebecq, ha descrito su tono como el de "un burócrata vitalicio atrapado en la peor de las situaciones: no poder evitar ocuparse de un mundo que ya no lo desea". Exactamente, y no sé por qué un lector sensato elegiría leer página tras página de "burocracia vitalicia". Se dirá que es el narrador quien habla, no Houellebecq. De acuerdo, pero algo más buscamos en un texto literario que la repetición de la banalidad cotidiana, el eco fiel de la tontería sentimental. Houellebecq ha dicho que se rehúsa "hacer literatura". Quizás sea esa la razón por la cual él y yo no nos entendemos.

 

Alberto Manguel

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Walmor Bergesch

Walmor Bergesch é sepultado

no Cemitério Evangélico Luterano,

em Porto Alegre 

 

Jornalista, escritor, radialista e empresário morreu vítima de um câncer raro nos rins.

 

 O jornalista, escritor, radialista e empresário Walmor Bergesch, que morreu aos 73 anos no início da madrugada desta segunda-feira, foi sepultado no final da tarde no Cemitério Evangélico Luterano de Porto Alegre RS Brasil. Familiares, amigos e ex-colegas acompanharam a cerimônia, que terminou por volta das 17h.

 

Nelson Sirotsky, presidente do Grupo RBS:

 

"O Walmor foi um dos pioneiros da comunicação no nosso Estado. Participou, direta ou indiretamente, de todos os grandes momentos da comunicação no Rio Grande do Sul, desde a implantação da televisão a cores no país até a televisão a cabo, os canais segmentados. O Walmor trabalhou diretamente conosco na implementação do sistema de televisão paga no país, na implantação do Canal Rural e da TVCOM. São projetos que têm um pouco do nosso Walmor Bergesch. Nós estamos muito tristes, muito emocionados e muito agradecidos à grande contribuição do Walmor Bergesch à comunicação do nosso Estado."

 

Jayme Sirotsky, presidente emérito do Grupo RBS:

 

"Minha relação com o Walmor foi de uma vida inteira. Desde cedo, ele foi um jovem brilhante e empreendedor, que marcou fortemente a sua passagem pelos meios de comunicação aqui no Sul, especialmente a televisão. Foi, com brilho, nosso companheiro aqui na RBS por muitos anos, onde ocupou posições muito importantes até se aposentar. A ele se devem muitas ideias criativas que marcaram e qualificaram a TV Gaúcha, hoje RBS TV, e que são parte do legado de Walmor aos meios de comunicação do Rio Grande do Sul. Sempre tive com ele uma relação pessoal de muito afeto, e por isso me sinto hoje pesaroso. É uma daquelas amizades que muito se lamenta quando se perde."

 

Celso Kaufman, empresário, foi colega de trabalho de Walmor em emissoras de TV:

 

"Desde que começou a carreira, ainda no rádio, era um homem que enxergava à frente. Tinha uma visão que ia além de todos os seus pares. Foi um pioneiro, um líder e um formador de equipes."

 

Alfredo Aquino, editor do livro Os Televisionários (editora adotempo), de Walmor Bergesch: 

 

"Trabalhamos durante três anos no livro. Era um homem de uma grandeza incrível."

 

Personalidade e liderança:

 

Segundo Nestor Bergesch, o irmão, que atuou na instalação e na inauguração das primeiras emissoras de TV de Porto Alegre, era um especialista neste meio de comunicação: — Ele era um entusiasmado, um especialista em televisão. Fazia cursos, comprava livros. O Walmor foi se destacando até em função da personalidade de liderança que ele tinha — relembrou Nestor.

 

Aos 73 anos, Walmor estava internado no Hospital Moinhos de Vento desde o dia 7 de julho lutando contra um câncer raro nos rins. Ele foi um dos profissionais que atuou na instalação e na inauguração das primeiras emissoras de TV de Porto Alegre.

 

Trajetória:

 

Walmor Bergesch nasceu na cidade de Estrela, em 10 de abril de 1938. Em 1955, se transferiu para Porto Alegre e começou a trabalhar na Rádio Farroupilha. O jornalista foi um dos 16 profissionais selecionados a pedido de Assis Chateaubriand, diretor dos Diários e Emissoras Associados, para ir ao Rio de Janeiro realizar um curso sobre televisão. Passou cerca de seis meses na TV Tupi aprendendo sobre a nova mídia, que já operava desde 1950 e 1951 em São Paulo e no Rio. De volta ao Estado, integrou a equipe que instalou e inaugurou a TV Piratini em dezembro de 1959.

 

Uma de suas façanhas foi conseguir trazer, para um programa de Bibi Ferreira, atores americanos famosos nos anos 1960, como Anthony Perkins e Karl Malden, que tinham ficado retidos no aeroporto Salgado Filho, a caminho de Buenos Aires. Em 1962, a convite de Maurício Sirotsky, foi chamado para atuar na inauguração da TV Gaúcha como chefe de programação. Aposentou-se na RBS em 1998, mas continuou exercendo o cargo de vice-presidente da área de TV por assinatura até o ano 2000.

 

Walmor, junto com Salimen Júnior, foi quem introduziu a cor na televisão brasileira, em 1972, quando dirigia a TV Difusora de Porto Alegre, atual TV Bandeirantes. Ele foi também o criador do Canal Rural, da TVCOM e implantou redes regionais de TV em vários estados brasileiros.

 


 

Publicado no jornal Zero Hora

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A perda

 

 

Ausência do amigo, do autor, do visionário - Walmor Bergesch

 

 

 

Hoje, dia 29 de agosto de 2011, dia tempestuoso, frio e úmido em Porto Alegre RS Brasil, foi o dia da perda do grande amigo, do escritor e do criativo visionário que transformou a televisão contemporânea brasileira. 

 

O visionário que participou ativamente das equipes pioneiras que criaram três grandes emissoras de televisão, que revolucionou suas tecnologias, que introduziu as imagens em cores no Brasil, que imaginou e criou condições objetivas para a implantação de uma rede regional de televisão, que criou canais segmentados e comunitários de tevê, que estruturou a primeira grande rede nacional de televisão a cabo e escreveu o livro OS TELEVISIONÁRIOS contando a saga dos criativos profissionais (nomeando  e identificando a todos eles) e conjugando dessa maneira o seu livro sempre na primeira pessoa do plural.

Saudações e saudades, generoso e leal amigo.

 

Imagem do autor: Tania Meinerz 

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Quinta-feira, 25.08.11

O ângulo da frase

As coisas mais simples

 

João Ventura

 

Dizem que o poeta tem seis sentidos: “os sentidos, com os seus traços lineares,/ são cinco como os quatro elementos mais/ o éter dos alquimistas. À volta deles anda o sexto/ que nasce da ideia do homem/ de que falta sempre qualquer coisa para atingir/ a perfeição”. O poeta habita uma casa na Mexilhoeira Grande. No quintal do poeta há uma figueira onde ele colhe, ao amanhecer, "os figos de S. João, os primeiros, que se colhem/ com um gesto só, ficando inteiros na mão". Na biblioteca do poeta há um livro de D. H. Lawrence onde este aconselha que se parta “um figo/ em quatro pedaços, para o comer, depois de deitar fora/ a casca”.

 

 

 


 

Mas o poeta que conhece “múltiplas formas de comer um figo” vai mais longe do que Lawrence e pensa também na figueira. Primeiro, os figos - mas poderia ser “a mulher da fotografia avançando até ao fim do molhe”, ou um homem encostado "à porta do palheiro", ou ainda, e sempre, a presença obsessiva do mar, do litoral, ou mesmo a visão das "ruas cheias de gente" de uma cidade qualquer - as coisas mais simples, portanto, como matéria impura que o poeta recolhe dos dias que passam.

 

Depois, “a árvore” que lhe “agarra a alma com os seus ramos ásperos” que o poeta afasta, "a mão transformada num prolongamento da figueira”. A mesma mão com que o poeta traça “o ângulo da frase”, que mostra as coisas mais simples, assim como o seu avesso, ou a sua transcendência, porque “o que é simples também pode ser o/ seu contrário”.

 

A mesma matéria impura que se estilhaça em “mil pedaços pelo chão” como um espelho quebrado da realidade que irrompe no poema, literal e figuradamente, inscrevendo um paradigma narrativo através do qual o prosaico invade o poético. Agora a mão do poeta afasta os ramos da figueira e atravessa a “fronteira de vida rasgada pelas coisas”. Dos mil pedaços em que o espelho partido reflecte as coisas mais simples, solta-se “um sopro metafísico” que empurra o poema ao encontro da sua substância mais profunda e o impede de ganhar “a ferrugem do tempo”. Na casa do poeta cresce o deslumbramento diante de coisas tão simples como os figos do quintal ou “a mulher da fotografia” - o quotidiano irrompendo furtivamente no poema para logo ser desfocado, transfigurado, através da alegoria, do devaneio.

 

O tronco da figueira/ [é agora um] corpo de mulher nua; […] e o figo que o poeta tem na mão [fá-lo] sentir os seus seios macios”; há também a intertextualidade que o poeta convoca desde a sua biblioteca numa busca da essencialidade poética – D. H. Lawrence, Shelley, os poetas gregos. Há um trabalho sobre a história; há navegações errantes, partidas e chegadas, regressos, há um “conceito de paisagem” e uma “imagem da cidade por entre as ruas cheias de gente”.

 

Na casa da Mexilhoeira Grande, Nuno Júdice escreve um livro "à luz do apocalipse,/ as primeiras linhas do ocaso": descrições, narrações, personagens, memórias, odes, uma carta. O livro chama-se As coisas mais simples e foi escrito com os cinco sentidos mais um, aquele que só os verdadeiros poetas têm. Na curva da noite, arrumo as páginas do livro que o poeta escreveu. “Limito-me a deixar tudo no seu lugar" - a figueira, a fotografia, a biblioteca do poeta - "como se nunca aqui tivesse entrado, e volto a sair,/ pela abertura redonda, para a grande praia do poema” onde tudo recomeça.

 

 

 

João Ventura - Publicado no blog O leitor sem qualidades

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A esposa de Oscar Wilde

 

"Encantados de saludarla, señora Wilde"

 

Manuel Rodríguez Rivero

 

 

 

 

 

Oscar Wilde nunca fue "un marido ideal" como tampoco lo era sir Robert Chiltern, protagonista de su célebre comedia, pero hubo un tiempo en que lo intentó seriamente. Incluso sus amigos se dieron cuenta. Por ejemplo, el joven Yeats, que, tras una visita a la casa de los Wilde, se refirió a la "perfecta armonía" del matrimonio, bajo la cual percibía, sin embargo, cierta "deliberada composición estética". 

 

Oscar y su mujer, Constance Mary Lloyd, ambos irlandeses, se casaron en 1884, se mudaron al entonces bohemio barrio de Chelsea y vivieron juntos hasta que estalló (1895) el escándalo que llevó al dramaturgo a un juicio ignominioso. En el entretanto hicieron dos hijos (Cyril y Vyvyan) y se convirtieron en la pareja más deslumbrante del Aesthetic Movement, la vanguardia intelectual y artística que agitó a la muy pacata sociedad tardo-victoriana. 


Como pareja se comportaban como su propio anuncio, mostrándose a menudo orgullosos y desafiantes. Él epataba con su talento y su ingenio y ella se mostraba como una mujer independiente que se enfrentaba a los tabúes de su tiempo; abogada de los derechos de las mujeres y partidaria de la libertad de Irlanda, defendió la "vestimenta racional", criticando el opresivo corsé y las inflamables crinolinas entonces utilizadas por las damas, al tiempo que lucía revolucionarios vestidos en los que la elegancia no estaba reñida con la libertad de movimientos.

 

Escribió artículos y cuentos para niños, intervino en tertulias y debates, y apoyó iniciativas empresariales de carácter feminista. Y contribuyó a convertir su casa de Tite Street en uno de los templos de la vanguardia artística londinense. La estupenda biografía Constance: The Tragic and Scandalous Life of Mrs Oscar Wilde, de Franny Moyle (John Murray, 20 libras; 10,99 en e-book) recorre la trayectoria vital de esta mujer, explorando tanto su actividad social como su papel como esposa y madre.

Descrita a menudo como una especie de víctima pasiva de su marido, que se habría casado con ella para acallar a los moralistas y aprovecharse de su dinero, Constance emerge en esta biografía como una mujer valiente y decidida que trató de ayudar a Wilde hasta el final. Tras el escándalo -y la negativa de Oscar a abandonar a Alfred Bosie Douglas- cambió de nombre y se exilió con sus dos hijos.

 

Murió (1898) a los 39 años en Génova, en cuyo cementerio está enterrada. Hasta los años sesenta del siglo pasado no se inscribió en su lápida que había sido la esposa de Oscar Wilde.

 

Manuel Rodríguez Rivero

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Os mortos nunca faltam

Uma crónica ou lá o que é

 

António Lobo Antunes

 

Em Almeirim, no almoço anual com os meus camaradas.

 

Ouvir falar de África o tempo inteiro. Tratam-me sempre tão bem! Às vezes tenho dificuldade em distinguir, nos homens de hoje, os rapazinhos de então. Depois um sorriso, um trejeito, qualquer coisa para além das feições e reconheço-os.

 

Trazem as mulheres, os filhos, mostram a fotografia dos netos. Há quem venha do estrangeiro, de propósito. Há quem ainda ponha a boina na cabeça. Quase todos continuam lá, pelo menos uma parte deles continua lá. Os mortos connosco. Falo pouco, como sempre, oiço-os. Vivi tudo aquilo que eles continuam a viver e que, para mim, é uma espécie de sonho.

 

Farrapos de lembranças, coisas que me dizem que fiz e mal recordo. Ao lembrarem-mas avivam-se um bocadinho, desbotam-se de novo. Publicaram um livro com as cartas que escrevi durante aquilo: não o li nunca. Não sou capaz. Não é que queira esquecer, é que foi outro que por lá andou. Foi outro e fui eu, que difícil explicar isto. Não escrevi nenhum livro sobre a guerra, limitei-me a intercalar episódios laterais nos primeiros textos publicados, para estruturar melhor os capítulos e, talvez também, para, em certo sentido, me libertar de episódios que me embaciavam a memória, libertando-me deles como de um vómito.

 

Uma vez liberto deles pensei. Agora posso começar e, então, comecei.

 

Tanto tempo até encontrar o meu tom, o meu modo, uma forma que não devesse nada a ninguém, e em que as vozes alheias não entrassem na minha. Em Almeirim longos abraços enternecidos, saudades, quem sou eu? Sei e não sei, fujo de mim, regresso, persigo-me desisto. Sou muitos. Deixei muitos pelo caminho e continuo a ser muitos. Um dia tudo isto pára. E metem um só no caixão. Fiz o que pude, com a força que tinha, e dói-me que imensos erros, patetices, asneiras. Sofri que me fartei.

 

Algumas alegrias no meio disto, claro, alguns momentos quase perfeitos na eterna guerra civil dos meus dias. É isso que me confunde mais: porquê esta violência interior, estes excessos, esta permanente, desesperada busca? Trocava-me por qualquer um, preferia ser um bicho. Lembro-me de uma senhora alentejana na consulta, com uma doença horrível, ao perguntar-lhe como se sentia. Só fezes, só fezes, bebendo até às fezes, o cálice da amargura.

 

Trazia-me miminhos, ovos, figos, prendas de nada que eram imenso.

 

Há semanas fui ao Porto assinar na Feira, e a ternura e a delicadeza dos leitores comoveu-me. Uma fila de gente que não acabava, pessoas com sacos cheios de livros. Mereço isto, a atenção, o carinho para com um sujeito que lhes dá palavras em páginas coladas no interior de uma capa? Tenho dúzias de defeitos de que me envergonho mas, ao escrever, sou inteiramente honesto. Valha-me isso. Greene dizia que um escritor é um fulano sentado a uma mesa, cercado de criaturas que não existem. Não acho assim: sou um fulano sentado a uma mesa recebendo frases que não entende de onde lhe vêm e se colocam mais ou menos por ordem, apesar dele.

 

A seguir vem o trabalho pesado das correcções sucessivas, cortes, ofício de costura, achar outro modo, horas numa vírgula. Uma sina difícil e esquisita, que me acompanha desde que o início, e me condiciona a vida.

 


 

Em Almeirim com a tropa, emboscadas, flagelações, minas, álbuns e álbuns de fotografias daquilo. Não tenho nenhuma, não quero ter nenhuma. Bastam-me as mangueiras de Marimba que me perseguirão para sempre, cheias de morcegos. Uma longa fila de mangueiras enormes, os crocodilos do rio Cambo, um leão que, no Leste, passou rente à viatura: demasiada tralha já, de que me tento livrar sacudindo o lombo da alma. Em parte sou capaz, em parte não sou. E as mangueiras persistem.

 

Até ao fim hão-de morar comigo? Almeirim uma terra bonita. Não me importava de morar lá, conhecer as pessoas. Não me importava de morar fosse onde fosse, como não me importo de morar aqui, é me indiferente o lugar, desde que haja esferográfica, papel, uma cadeira e uma mesa. O almoço dos camaradas num restaurante enorme, com um casamento ao lado. Acho que um casamento, não sei. Vinha-se cá fora fumar, com o sol a pisar-nos. Assinei um livro ao dono do restaurante, antes de me vir embora. Eles continuaram lá. Gente de quem eu gosto, com quem vivi muitos meses. Nem os mortos faltaram: estávamos todos, os mortos nunca faltam. São os primeiros a chegar e os últimos a deixarem-nos. E aqui estão eles comigo, apesar de eu sozinho.

 

António Lobo Antunes

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Quarta-feira, 24.08.11

Toucinho do céu

Quem saberá a receita?

 

 

 

 

Imagem: Fotografia de Mauro Holanda (São Paulo SP Brasil)

publicado por ardotempo às 23:52 | Comentar | Ler Comentários (2) | Adicionar

Mensagem ao pai

Carta ao prefeito de Jaguarão, Sr. Claudio Martins

 

"Caro amigo,

 

A data de hoje reveste-se de especial significado para todos nós. Jaguarenses ou não, familiares do homenageado ou não, estamos sinceramente agradecidos por tudo. No meu caso particular, convivo com Jaguarão e com Schlee há 48 anos.

 

Cresci guri nas casas dessa cidade, despertei para o patrimônio nas ruas de Jaguarão. Em Pelotas, me formei e acompanhei e feitura dos livros de meu pai.

 

Saiba que eles não são escritos, mas exaustivamente pensados, detalhadamente construídos, cuidadosamente desenhados e, finalmente, registrados.

 

Contos que nascem de um universo literário particular, com limites culturais e espaciais definidos, e que abrange os homens que viveram ou que vivem por aqui. Deste lado, ou do lado de lá da ponte. Personagens de histórias reais, travestidas da mais pura e humana ficção. Histórias que, por isso mesmo, são universais. De Jaguarão para o resto do mundo!

 

A Jaguarão que sempre viveu em minha memória e no meu coração, agora é patrimônio de todo o povo brasileiro. Representa, portanto, parte do legado que o Brasil de hoje deixara para as gerações futuras. E é nesta mesma cidade histórica que, a partir de hoje, existirá uma rua denominada Uma terra só. Na nossa Jaguarão e na de meu pai. Preservada como Aldyr Garcia Schlee sempre desejou.

 

Não deixa de ser significativo tratar-se de uma simples via, que nasce em Jaguarão, que mergulha no rio, que emerge em Rio Branco e que tem como horizonte o Uruguai. Sendo ela mesma infinita e uma bela peça de ficção! Uma terra só é uma rua, curiosamente, sem portas! Como que sugerindo um mundo sem fronteiras e sem propriedades. Também como Aldyr Garcia Schlee sempre sonhou e lutou.

 

Caro Prefeito, parabéns pelo conjunto de iniciativas! (dê um forte abraço em meu pai!)

 

Andrey Rosenthal Schlee

Diretor do Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)

Brasília, 20 de agosto de 2011."

 

 

 

 

 


 

Imagem: Fotografia de Fabio Galli (MALG / UFPel)

publicado por ardotempo às 23:34 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 23.08.11

A poesia é a palavra

O mágico desconhecimento da vida

 

Paulo José Miranda

 

Contrariamente ao que tenho lido do que se tem escrito acerca de Mariana Ianelli, julgo que o mais importante na sua poesia não é Deus, nem o homem na sua imperfeição, o humano na sua natureza, a Bíblia ou outros tantos textos referenciais. O mais importante na poesia de Mariana é a palavra.

 

Pela boca morre o peixe, pela palavra morre a vida. Pela palavra morre a miséria da vida e nasce a flor viçosa do esplendor humano. A palavra aponta a miséria para superá-la, para sará-la, curá-la. Só a palavra cura a vida, só a poesia cura a realidade. Esta é a poesia, o sentido primeiro da poesia de Mariana Ianelli.

 

Mariana acredita na palavra redentora, contrariamente ao pensador alemão Walter Benjamin. A palavra redentora é a palavra poética. A palavra que começa sem começo. Que acaba sem fim. A palavra que magicamente desconhece a vida. A palavra que está fora da vida e, só por isso, pode fazer a vida apaixonar-se por ela. Pois a vida não se apaixona pelo que ela é, a vida apaixona-se pelo que ela não é, pelo que ela não tem.

 

Mariana faz uma das coisas mais difíceis de serem feitas em poesia: com os materiais da miséria, com os materiais da história humana repleta de atrocidades, constrói um arranha-céus de otimismo. Mas não se pense que otimismo se identifica com lirismo caduco ou com pieguice de polichinelo. Melhor seria dizermos que, para além da beleza dos seus versos, há ainda a desgraça do otimismo. Desgraça bem maior do que o pessimismo é o otimismo. Acreditar na palavra apesar de tudo, contra tudo e contra todos, acreditar na palavra como transformação, como advento, como o que pode e vai salvar o mundo é mais miserável do que não acreditar. Quem acredita na palavra poética como redentora do humano e do mundo sofre mais do que um pessimista.

 

O que dói é acreditar e carregar essa crença nas costas. Não acreditar em nada não dói sequer uma unha. O otimismo, e isso aprende-se nos poemas de Mariana Ianelli, é a maturidade da miséria. Ao invés de acusar a miséria, de lhe pôr as culpas em cima, estes poemas ordenam as misérias com palavras e, neste movimento, acontece o inesperado. Este inesperado é o poema que nos faz ver o que já julgávamos ter visto. O pessimismo é a adolescência da miséria e o otimismo a maturidade da mesma. E quando digo aqui miséria, não falo apenas da miséria humana, mas a miséria de todas as coisas, a miséria do tempo com tudo o que engole. Embora tenha dito atrás que Mariana usa os materiais da miséria e os transforma, não estou com isso a dizer que se trate de uma poética da reciclagem. Uma coisa é fazer uma estátua com o lixo da rua, outra bem diferente é ordenar o lixo da rua e seguir em frente.

 

Assim são os poemas de Mariana. Nem descreve a realidade, nem a recicla. Os poemas de Mariana ordenam a realidade, de modo a caminharmos melhor e seguirmos em frente. Não temos de ter vergonha do lixo, das nossas misérias, as palavras sabem delas melhor do que nós e ao seguirmos as palavras, seguimos em frente, seguimos acima da vida.

 

Há na poética contemporânea muito de reciclagem, mas não é o caso dos poemas de Mariana Ianelli. Aliás, seus poemas destacam-se radicalmente daquilo a que se usa chamar de poesia contemporânea, tanto na forma quanto no conteúdo, como se verá em seguida ao analisarmos de perto um dos seus livros. A poesia de Mariana é uma poesia apocalíptica, uma poesia da revelação, uma poesia ainda por vir.

 

Ora, aquilo que está por vir não é contemporâneo, mas apocalíptico. Há poetas que nos fazem ver que nunca tínhamos visto o que julgávamos saber. É assim com os poemas de Mariana Ianelli. A poesia desta jovem poeta tem a grandiloquência dos mitos, da autoridade do passado e o tom severo e encantatório da elegia.

 

Não é por acaso que seus versos começam todos em maiúsculas, quer sucedam a um ponto final, a uma virgula ou a nada. A poesia de Mariana é feita de versos, é feita verso a verso, como os bichos da seda cerzindo seus casulos. Não fico cego para a existência de uma narrativa nos seus poemas, não. Mas a narrativa é feita verso a verso, e não é com facilidade que saltamos de um verso para outro. Mariana escreve seus versos de modo a que cada um deles seja uma identidade precisa, que nos façam ver a gramática e a semântica que não víamos antes desses versos. Depois, se morre-se ou se continua a viver-se no final do poema importa menos do que os versos que percorremos. E não é assim também na vida?

 

Quem contrariar-me-á aqui que o que menos importa na vida é o seu final, mas os versos que vamos fazendo, que vamos lendo. Quem contrariar-me-á que a vida é verso a verso e não uma correria até ao fim? Assim são os poemas da Mariana.

 

Os poemas de Mariana não falam da vida, não imitam a vida, não a descrevem. Mas a vida não pode deixar de rever-se nos poemas dela. Vejam-se exemplos.

 

No seu livro Passagens, à página 31, escreve: “Eu persisti, Neste início de poema, ainda antes de começarmos, paramos. Paramos por duas razões: pela forma e pelo conteúdo. Paramos porque pela primeira vez estamos a ver o sentido pleno e contraditório deste verbo, persistir, nesta primeira pessoa a dizer o verbo: Eu persisti, ... a virgula obriga-nos, aqui, a parar mais do que qualquer ponto final usualmente nos pára. Eu persisti só poderia ter ou vírgula ou nada, nunca um ponto final, isto compreende-se pelo que falta, pelo que parece faltar à transitividade do verbo. Este verso faz-nos ver que persistir é parar. Persistir, que sempre tomamos por uma ação violenta de continuidade, aqui explode na nossa atenção como sendo o oposto. Eu persisti quer dizer “eu parei”, “eu fiquei”, “eu mantenho-me” “eu estou presente”, “eu sou”, ou como diriam os gregos antigos, “egw andreios eimi”, isto é, “eu sou corajoso”, eu mantenho-me no lugar onde sempre estive.

 

Ou ainda, como ela escreve à página 23 do mesmo livro: “Caiam todos sobre mim: eu subsisto.” Trata-se em poucos versos de um projeto que depois é sustentado verso a verso ao longo do livro. De quem se mantém só repleta de história. Porque sua poesia não rejeita o conhecimento do passado, não rejeita mostrar-se como parte da miséria que assola o mundo desde o início dos tempos.

 

Esta poesia está muito pouco preocupada com inovações formais, isso é assumido de imediato pelos versos iniciados sempre por maiúsculas, mas também há versos que no seu conteúdo nos dizem que é assim que esta poeta pensa, que esta poeta assume seu lugar no corpus poeticus, leia-se o verso à página 79: “Os falsos poetas contemporâneos,”. E, nesse mesmo poema, o primeiro verso diz: “Retorna para o Tártaro,” e, adiante: “E, depois, as Fúrias aprontarão”.

 

Assim Mariana Ianelli assume a temporalidade, assume o mundo como seu objeto poético, e não apenas seu lugar claustrofóbico aqui e agora: “Nós temos em comum este corpo que nos trai.” O corpo é uma prisão, viver no corpo e pelo corpo é recusar a totalidade do mundo, da história, da temporalidade. Viver para além da prisão do corpo é, para Mariana, a única possibilidade de fazer poesia. E, a tudo isto, se liga ainda um artifício muito bem conseguido: a voz desta jovem mulher, desta poeta antiga construindo seu passado, é voz de um homem, a voz masculina. Por que faz ela isto? Veja-se como ela termina um dos seus poemas, à página 55: “De um homem frente ao signo da morte, / Homem que eu jamais seria.” Não se trata de uma imitação da heteronímia de Fernando Pessoa, mas sim de uma impossibilidade de nos aceitarmos, de aceitarmos que “passamos”, que estamos aqui de passagem, que “temos em comum este corpo que nos trai.” E com ele, com esta traição que nos habita, nesta traição que transportamos temos de defender as palavras. Rejeitar a sua própria voz, a voz com a qual responde pela manhã a seu marido ou à tarde à moça da loja, é reconhecer que a vida não tem nada que entrar no poema. A vida não é p’r’aqui chamada. E, neste particular, sim, neste particular tem a ver com Fernando Pessoa. Não enquanto imitação, mas como profundo enraizamento numa estética que recusa que a vida entre poema adentro.

 

Os poemas de Mariana Ianelli têm seus pés fortemente acentos aquém e para além da vida, como podemos ver neste verso: “Com meus dedos engordurados de vida.” É assim que a poeta se vê ao chegar ao poema, ao debruçar-se sobre si mesma, sobre a página, sobre o poema: com os dedos engordurados de vida. Lembramos de imediato o verso final de um grande poema de Álvaro de Campos: “Raios parta a vida e quem lá ande.”

 

Nos poemas de Mariana, há a claridade quase ofuscante da vida não valer nada, da vida não valer senão o que se faz dela, o que se faz com ela. A vida existe para ser ultrapassada. Conhecer a vida é também fazer pouco mais que nada, saber pouco mais que nada, encantar nada. Leia-se outro verso de Mariana: “Com teu mágico desconhecimento da vida”. Desconheça-se a vida para conhecer a magia, a palavra, o mistério. Desconhecer a vida é existir sem engordurar os dedos de vida; é encantar, é ter o poder da magia, o poder das palavras que abrem clareiras, que fazem ver, como se a cegueira fosse antes do poema a nossa única morada.

 

Desconhecer a vida não é desconhecer a palavra. Desconhecer a vida não é desconhecer o que mais importa. Desconhecer a vida é a magia que ainda nos é possível realizar. Mariana sabe que nossa vida vale menos que um poema, menos que um verso. Esta é a sua guerra: contra a ausência de poesia que nos habita. A poesia dela não é pessimista, embora não nos faça rir, nem sequer ficar contentes. A poesia é de outra ordem. Da ordem da beleza, isto é, da ordem do que nos mostra a vida morrendo diante de uma palavra. E isto só pode fazer nós, humanos que vivemos nas palavras, termos um esgar de esperança de que há Deus, o outro ou o nada para nos ouvir e compreender.

 


 

Paulo José Miranda – Escritor e poeta

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Segunda-feira, 22.08.11

A memória de um fato

O dia da rua

 

No dia da inauguração da placa da rua, o escritor, comovido, estava na cidade entre os seus familiares e muitos de seus amigos. Escutou o texto de uma carta, ouviu os discursos, concedeu autógrafos e falou de improviso. Como sempre falou de maneira original e de forma emocionalmente potente. Intelectual e corajosamente potente. Falou de liberdade e da importância dos negros e do legado dos negros na construção daquela magnífica cidade, preservada e tombada pelo patrimônio histórico. Falou do resgate de uma honra ainda a ser realizado e de sua necessária urgência.

 

O escritor caminhou, feliz e reconhecido, com seus familiares e amigos e autoridades e conterrâneos daquela cidade até o local da rua, enfrentando o vento gelado que surrupiava mantas, boinas, bonés e chapéus. Estava muito frio mas havia algum sol desenhando duramente os volumes do casario e da esquina. Emoldurando o sol brilhante, estavam também as volumosas nuvens escuras, que eram carregadas pelo vento na direção do norte, ao centro do país. Na esquina, além da mureta branca e do cais estava o rio, caudaloso, arisco e cinzento. Do outro lado da ponte, a outra cidade, o outro país.

 

Disseram e o escritor estivera lá no outro lado do rio veloz, alguns minutos antes e fora a testemunha invonluntária do fato narrado. Disseram que caíra uma chuva levissima, dançarina, de pequenos flocos de gelo. Naquela tarde inesquecível, gelada, ensolarada e de ventania imprudente, nevou por alguns instantes em Río Branco.

 

Naquele final de tarde tão frio foram lançados dois livros do escritor, Contos de Verdades e Uma terra só. Tudo isso foi verdade e porque a terra é uma só, o escritor anotou que, precisamente naquele dia da rua e dos livros, nevara em Jaguarão.

 

 

 


 


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O sobrado

Desde a Casa do Barão

(ou A ruazinha Uma terra só)

 

João Félix Soares Neto

 

 

 

Nós nos sentimos lá dentro, no andar de cima da Casa do Barão. Com o risco de incorrer num critério meramente saudosista, consideramos que as duas ou três lojas do térreo – onde realmente estivemos – representam uma afrontosa ocupação.

 

Então é de se inventar, também, que nos abrira a porta um encarregado, homem encarquilhado, baixo e extrovertido. Tão falante que, já ao pé da escadaria de cedro, gesticulando com as chaves na mão, enaltecia os antigos fidalgos que, por mais de meio século, habitaram o casarão; e que, quando lhes convinha, em vez daquela escada, subiam pelo elevador – uma engenhoca (talvez de pau e ferro), com roldanas e cordas puxadas por escravos.

 

É de se supor, ainda, que lá dentro do sobrado restara um penumbroso vazio em que o bodum úmido do tempo tresandava das tábuas do assoalho e do teto; da escaiola, surpreendentemente conservada; e dos lustres de bronze que, por sorte, ninguém ousara desmontar.

 

A Casa das Sete Torres e a Casa do Barão. Ocorre-nos assim, por cotejo, a decadência da nobreza rural – que Hawthorne, em seus escritos de Boston, tão comovidamente descreveu e que, com bastantes coincidências, representa um fato universal: o loteamento costumeiro das antigas e aristocráticas mansões. A cidade é romântica, por si mesma E, no momento, nossa alma é suscetível desta síntese: a beleza triste e melancólica do sobrado. A observação distraída dessas ruas e dessas casas – algumas do século XIX –, a par do encantamento e da compreensão história, atiça a curiosidade.

 

Quem foi o Barão? Seus traços provavelmente quedaram nas sombras. Aquele ali, o da ponte histórica, chamava-se Mauá.

 

Quando objetivo, o interesse poderá ser contentado pela sondagem perseverante de um historiador. Mas cabe suspeitar que a expectativa muitas vezes se arrefeça com a correção da pesquisa. Além do que, o tom adequado para simbolizar a história desses casarões descuidados é justamente o mistério de seus personagens. O declínio da era rural. Cabe admitir que suas peculiaridades se tornem propulsoras de tantas e assombrosas conjeturas. Que o destino mudara o sítio de transcendência dos senhores que viveram nessas casas. Que muitos de seus descendentes estejam aqui. Que outros cruzaram a ponte velha e escultural, motivados por consórcios, partições, ou novos confortos. Pois há mais, há sempre mais.

 

Existe este horizonte raso, que parece sublinhar a similitude geográfica e definir linearmente entre os viventes dos dois lados uma afinidade anímica quase segredosa – como a afinidade dos que se gostam e que a distinção dos idiomas só consegue sublimar. Ocorre-nos, lembrando o relato histórico e romanceado de Aldyr Garcia Schlee, que o castelhano Fructuoso Rivera – o Don Frutos – nos meados do século dezenove, sentiu-se em casa aqui em Jaguarão, enquanto se revigorava para reassumir o poder na banda oriental desta terra sem limites.

 

Pois lá dentro do sobrado – onde pensamos estar –, ao escancarar-se na imaginação do abandono, a vetusta janela emoldura a vista desta solene ruazinha de pedras, deste antigo mercado, deste posto de saúde e deste céu fraternal que açambarca ainda um trecho do rio – que percorre o tempo celebrando a unicidade do pampa – e acaba naquela tira de campo arborizado que já é do Uruguai.

 

E então, um de nós três visitantes, que somos cúmplices dessas esparsas especulações da realidade e de tantas fantasias – que são razoáveis, considerando-se o pertinente desfecho de certas tradições – imaginou o parecer de outro forasteiro, que estaria perto de nós:

 

O escritor jaguarense tem sortidas razões.

 

Essas fronteiras demarcadas por alambrados e rios são convenções carentes de sentido. E a paisagem que ora se descortina é realmente – na nitidez dos sentimentos – a paisagem de uma terra só. Uma terra só. O livro denomina, agora, esta rua curta que pode ser plenamente avistada pelos fantasmas do casarão. Não se trata de mera homenagem de reconhecimento, senão que um anelante propósito de alcançar todos os significados que transcendem este nome: Uma terra só. Nada mais caberia dizer.

 

Mas a curiosidade é impaciente e teimosa: que será da Casa do Barão? Admite-se, por hora, prescindir da resposta, porque o foco é o batismo da rua. Mas, amanhã ou depois – como se deu hoje com o fim do anonimato deste estreito e solene caminho de pedras –, aquele sobrado gris haverá de celebrar algo também importante: o desfecho de seu abandono.

 

João Félix Soares Neto

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Sexta-feira, 19.08.11

O dia da rua e do livro

 

Dia 20 de agosto - Rua Uma terra só

 

 

 

Imagem: Marcelo Freda Soares

 

 

 

Lançamento do livro Uma terra só 

 

 

 

Imagem de capa: fotografia de Marcelo Freda Soares

 

Lançamento do livro Contos de Verdades

 

 

 

Imagem de capa: fotografia de Gilberto Perin

 

Livraria Contexto - Jaguarão - 17horas, (sábado) na Casa de Cultura de Jaguarão.

 

 

 

 

Em breve, durante o mês de setembro:

 

 

Lançamento da reedição do premiado livro Contos de futebol

 

 

 

 

 

 

 Imagem de capa: fotografia de Gilberto Perin

 

 

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Apoteose

 

Museu, arte fotográfica, literatura, teatro, suor e champagne

 

 

 

 

A abertura no MALG Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, da mostra fotográfica CAMISA BRASILEIRA organizada pelo SESC RS, de fotografias de GILBERTO PERIN e com textos do escritor Aldyr Garcia Schlee, resultou em algo verdadeiramente apoteótico. Salas lotadas de visitantes interessados na qualidade artística das imagens apresentadas, o lançamento de um luxuoso livro de arte, uma performance extraordinária de parte do grupo THOLL, fantasiado em vermelho e preto, ao som da artilharia pesada de surdos, bumbos e metais da charanga xavante (do Grêmio Esportivo Brasil) fizeram a notícia no dia 17 de agosto de 2011, em Pelotas. 

 

Foi a noite em que o povo entrou dançando no Museu, para confraternizar com a Arte contemporânea a sua mais legítima essência de alma popular. Com champagne, em taças de cristal...

(Imagem: Carlos Insaurriaga)

 

http://www.gebrasil.com.br/noticias/noticias-detalhe.php?id=1095

 

CAMISA BRASILEIRA

MALG - Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo

Fotografias de GILBERTO PERIN

Textos de Aldyr Garcia Schlee

 

Organização SESC RS  

De 18 de agosto a 14 de setembro de 2011

Rua General Osório, 725

Centro - Pelotas RS Brasil

 

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Noção imprecisa

Barafunda

 

Um magnífico samba e poema de Chico Burque sobre uma certa imprecisão, algo sobre a perda da memória, a dificuldade das lembranças, dos fatos e dos nomes.

 

 

 

" ... antes que oesqui...

o esquecimento baixe o seu o manto,

seu manto cinzento..."

 

 

 

 

Fotografia de Mauro Holanda

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Domingo, 14.08.11

Um manto para Deus

Arthur Bispo e a arte contemporânea

 

Ferreira Gullar

 

Ele jamais pretendeu fazer carreira de artista nem revolucionar as linguagens artísticas consagradas.

 

A exposição de Arthur Bispo do Rosário na Caixa Cultural - Unidade Chile, no Rio, oferece a oportunidade de apreciarmos um número considerável de seus trabalhos realizados com fio e, também, de refletirmos sobre sua personalidade e sua obra. E isso se torna tanto mais oportuno quando alguns estudiosos dessa obra, ou apenas curadores, o associam ao que se convencionou chamar de arte contemporânea. Essa associação inapropriada dá margem a uma série de equívocos, tanto no que se refere a esse gênero de arte quanto ao que aquele artista criou.


Mas não é só isso. Um pequeno texto na entrada da exposição afirma que Arthur Bispo do Rosário se rebelou não apenas contra o tratamento psiquiátrico como também contra a terapia ocupacional. A referência à terapia ocupacional é surpreendente, primeiro porque, na Colônia Juliano Moreira, hospital psiquiátrico em que estava internado, não havia esse tipo de terapia, criado por Nise da Silveira no Centro Psiquiátrico Nacional. Tampouco era pretensão dela formar artistas, ali, mas apenas oferecer aos pacientes a possibilidade de se expressarem.

 

Aquela afirmação, porém, não é gratuita, uma vez que o texto procura apresentar Arthur Bispo do Rosário como um artista revolucionário, consciente da necessidade de romper com as formas artísticas existentes. Essa tese alia-se a outra, que pretende mostrá-lo como uma espécie de precursor da chamada arte contemporânea, uma vez que não se utiliza das linguagens artísticas consagradas, como a pintura, a escultura ou a gravura. Sua obra consiste em objetos recobertos por fio, além de mantos e estandartes bordados a mão. Trata-se, em ambos os casos, de teorias equivocadas.


Associar a obra desse artista à chamada arte contemporânea é ignorar a origem e a natureza de ambas as manifestações. Todo mundo sabe que o que se chama de arte conceitual ou contemporânea tem sua origem nos "ready-mades" de Marcel Duchamp e nos desdobramentos decorrentes da ruptura com as linguagens artísticas. Já Bispo do Rosário --que não tinha nenhum conhecimento daquelas experiências-- jamais pretendeu fazer carreira de artista nem muito menos revolucionar as linguagens artísticas consagradas. Sua obra é, na verdade, resultado de dois fatores que se juntaram: um talento artístico excepcional e uma visão mística, alimentada por seu desligamento da realidade objetiva, dita normal.

 

Sabe-se que Arthur Bispo do Rosário, nascido em Sergipe em 1911, mudou-se para o Rio em 1926, onde entrou para a Marinha, passando depois a trabalhar na Light. Em 1938, experimentou o primeiro delírio místico, que o levou a um mosteiro, donde o encaminharam a um hospital psiquiátrico. Depois de algum tempo alternando períodos de internação com atividades profissionais, passou a fazer miniaturas de navios, automóveis e bordados.

 

Em 1964, internado na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, teria ouvido a voz de Deus dizer-lhe que sua missão era salvar os objetos do mundo. Preso que estava numa solitária, por ter agredido outros internados, decidiu que a maneira de salvar os objetos seria recobri-los com fio. E passou a fazê-lo, desfiando o tecido de seu próprio uniforme para, com o fio assim obtido, envolvê-los. E prosseguiu nessa tarefa, que incluiria tudo o que lhe chegava às mãos, fossem facas, garfos, funis, algemas etc. Curioso é que, para salvá-los, decidiu ocultá-los, envolvendo-os com fio, e assim protegê-los do olhar humano.

 

Deve-se atentar para o fato de que não pretendia ser consagrado artista, como se deduz do que disse quando falaram em expor seus trabalhos: "Não faço essas coisas para as pessoas, mas para Deus". Não por acaso, sua obra-prima é um manto que bordou para com ele apresentar-se diante de Deus.

 

Certamente, isso não retira de seus trabalhos o valor estético e a criatividade que definem as obras de arte, mas, sem dúvida, torna inapropriado atribuir-lhe intenções vanguardistas. Aliás, a natureza artesanal do que realizou --que lhe exigiu não só talento como mestria e dedicação-- nada tem a ver com a arte contemporânea, que nasceu da negação do trabalho artesanal do artista, o que está evidente no nome "ready-made" --que significa "já feito".

 

Ferreira Gullar - Publicado no UOL / Folha de São Paulo

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As promessas para a Copa

Em Porto Alegre, três anos para fazer tudo...

 

Veja o vídeo Legado da Copa  

 

 

   

 

 

 

 

Muita coisa está prometida, assista o vídeo que mostra como tudo estará em 2014- dois estádios novos, um aeroporto ampliado e reformado, novas estradas duplicadas, novas avenidas, novos viadutos, corredores expressos para ônibus articulados de três corpos, uma nova ponte sobre o Rio Guaíba, um complexo turístico no cais do porto, novas moradias sociais erradicando favelas miseráveis, a limpeza ecológica de um grande rio, um novo mundo, uma nova estrutura viária e urbana - um conjunto de façanhas  a ser realizado em apenas três anos... Isso na cidade que em um ano não se conseguiu juntar e disponibilizar cerca de 3.390 euros para pagar uma taxa legal de transmissão de doação, ao próprio Governo (Tesouro Nacional) em tributação da Receita Federal, para receber sem custos 15 obras do maior artista brasileiro de todos os tempos para o seu melhor Museu público, o MARGS Museu de Arte do Rio Grande do Sul (generosamente doadas pelo artista em testamento), obras de arte magníficas num  valor estimado em cerca  de 435.000 euros.

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publicado por ardotempo às 15:52 | Comentar | Adicionar

Os mínimos obstáculos, intransponíveis

Legados de Ianelli

 

Paulo Amaral

 

Contemplar a obra de Arcangelo Ianelli equivale a passear pelos melhores caminhos da arte brasileira guiado por quem sempre ocupará privilegiado assento entre os grandes mestres da pintura e da escultura. Ianelli trilhou uma carreira visivelmente gradativa, construiu uma obra Suo tempore, sobretudo coerente e plasmada no profundo conhecimento das cores que soube distribuir sobre telas de rara plasticidade. É, em resumo, um artista digno de ser exposto nos maiores museus do mundo.

 

Estes, muitas vezes, apresentam espaços exíguos, o que os obriga a formar acervos limitados, e de forma geral dispõem de verbas minguadas, que os impedem de adquirir novas obras. Mas estas circunstâncias, considerando Arcangelo Ianelli, não justificam que se refutem obras-primas de artistas de sua densidade. Ainda neste ano, o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), do qual Ianelli foi estreito colaborador durante sua vida, e de cujo Conselho participou intensamente, rejeitou 14 das 16 obras deixadas em testamento pelo artista, falecido em 2009. A alegação do MAM foi de que eram redundantes em relação a outras do mesmo Ianelli já existentes no acervo da entidade.

 

À polêmica, amplamente discutida pela imprensa do centro do país, estarrecidos com a decisão do MAM, juntaram-se vozes respeitáveis como as de Ferreira Gullar, Fábio Magalhães e Emanoel Araújo. Também ao MARGS, que não possui nenhum exemplar de sua obra, Ianelli legou 15 expressivos trabalhos, dentre os quais duas primorosas marinhas pintadas a óleo, datadas de 1958, quando o artista encontra o esplendor de sua preciosa fase figurativa. Estes quadros estão catalogados no livro IANELLI – Os Caminhos da Figuração, editado pela FAAP por ocasião de uma retrospectiva do artista, ocorrida no Museu da Arte Brasileira, da FAAP em 2004.

 

Outra tela doada ao MARGS (óleo nas dimensões 2,00mx2,50m), pertence à fase mais conhecida por Vibrações, na qual o artista coroa sua extensa carreira, esbanjando absoluto domínio da luz e dos efeitos de transparência. As demais obras são sete pastéis sobre papel, quatro gravuras e uma escultura, todas elas igualmente importantes. Trata-se, em poucas palavras, de uma seleção ampla e expressiva da trajetória de Ianelli, capaz de sozinha sustentar uma exposição gloriosa. Entretanto, estas doações, ofertadas há mais de um ano e meio, ainda não participam do acervo do MARGS pela falta de recursos da entidade para o pagamento de um imposto de transmissão de valor pouco inferior a R$ 8.000,00!

 

Este caso, paradoxal por sua natureza, suscita uma reflexão sobre o descaso dos governos para com a Cultura em geral. Num Estado como o nosso, em que o orçamento destinado à área mal alcança meio por cento do geral, torna-se difícil chancelar a seriedade da gestão pública que não valoriza uma generosa doação de bens avaliados em torno de meio milhão de reais e que não é acolhida por ser indisponível irrisória cifra para o pagamento de uma simples taxa. O fato reproduz um pouco a história da administração pública do Brasil, onde é comum acontecer que se percam projetos e oportunidades por “decorrência de prazo”, isto é, um eufemismo para exprimir inépcia.


As obras de Ianelli foram indiscutivelmente aceitas pelo núcleo de acervo do MARGS, ao contrário do que se passou no MAM de São Paulo. Mas remanesce, fruto de uma política equivocada do governo em relação à história de um museu com mais de meio século de existência, uma pendência tão prosaica quanto inaceitável. Alguma solução poderia vir da Associação de Amigos do MARGS, suporte financeiro do museu, entidade que há alguns anos, através de um organizado trabalho junto a mecenatos, logrou adquirir um pequeno acervo em número de peças, mas rico em conteúdo, no qual pontificava uma estupenda tela de Guignard. Cabe à Associação de Amigos procurar recursos para cumprir metas do cotidiano - e ressaltemos que esta não é uma meta do cotidiano, mas uma ação que, a um custo simbólico, pode significar a aquisição da década para o acervo do maior e mais importante museu de arte do Rio Grande do Sul.

 

O risco que corre o MARGS em acabar não recebendo as obras de Ianelli é maior do que se possa imaginar, porquanto a família do artista aguarda o pagamento do imposto de transmissão para o efetivo encerramento do inventário. Até quando poderão os doadores, por interesse próprio ou por imposições legais, manter em aberto este processo ? A decorrer algum prazo retardatário além do admissível, estas obras poderiam ser oferecidas a outros museus nacionais e estrangeiros que as receberiam com festas de foguetório, como o fizeram o MASP, a Pinacoteca e o Museu da Arte Brasileira, todos de São Paulo.

 

Raramente ocorre a oportunidade de um artista do quilate de Arcangelo Ianelli legar grupos de obras a entidades, e menos ainda seus testamenteiros insistirem em levar tal missão ao cabo.

 

Estas considerações terminam por evocar outra, de caráter institucional.

 

Museus no mundo inteiro cobram ingressos para a visitação, muitas vezes estabelecendo diferentes classes de tarifas de acordo com a importância e o número de exposições exibidas. A França, onde os museus nacionais são congregados por uma só entidade, a Réunion des Musées Nationaux, isso é tratado assim na integralidade. No Reino Unido, excepcionalmente, há algumas políticas de gratuidade, mesmo em casas importantes como a Tate Britain. Mas a opção do Estado inglês em subsidiar estas visitas é compatível com a devida contrapartida financeira por ele alcançada aos museus que não cobram ingressos.

 

Aqui, diferentemente, o Estado não se interessa por dotar museus de verbas compatíveis com um funcionamento digno. Não é difícil compreender este tabu da não cobrança. Ele está preso a um antigo conceito de Estado paternalista em que prevalece a noção de que a arte é ainda-e-para-sempre incipiente, e que cobrar ingressos de um público específico significaria uma afronta a toda uma sociedade. Uma grande falácia. No caso da doação Ianelli, por exemplo, o imposto de transmissão já há muito tempo teria sido pago com recursos diretos de ingressos. A cobrança, mesmo que simbólica, e excetuados alguns casos como os de estudantes e idosos, por exemplo, valoriza os museus ao mesmo tempo em que move a economia da cultura: para os museus, mais acervo, mais publicações, melhores condições disponíveis ao usuário e, por consequência, maior visitação; para os artistas, maior reconhecimento de seu fazer; para os marchands, melhores vendas e mais compras aos que produzem arte.

 

É um ciclo saudável e compatível com a realidade de um país como o nosso, cujo governo se jacta de enfrentar crises econômicas com galhardia e incentiva o consumo a rodo. Que consumamos cultura, pois, e que possamos perceber o baixo custo para o enriquecimento da alma. Ars longa, vita brevis

 

Paulo Amaral - Publicado no jornal Zero Hora

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Sábado, 13.08.11

A vida como ela é

O Baloiço

 

António Lobo Antunes

 

Abriu o gás do fogão e sentou-se no sofá, à espera. Não sentia cheiro nenhum: ter-se-ia esquecido de fechar alguma janela? Foi ao quarto, ao escritório, à sala, verificou os trincos e voltou a sentar-se no sofá, muito direita, de mãos nos joelhos, na atitude de quem aguarda a sua vez para ser atendida num consultório qualquer. Não pensava em nada de especial, pensava no vazio.

 

Chegavam lhe barulhos da rua: automóveis, claro, uma camioneta, junto ao minimercado, e um sujeito a retirar caixotes, amontoando-os, uns sobre os outros, no chão. A sereia dos bombeiros a marcar o meio dia. Passos no andar de cima, de mulher, porque o som agudo dos saltos. Conhecia-a de se cumprimentarem no elevador, onde a outra entrava com um estojo de violino: tocava numa orquestra e morava sozinha. Às vezes um homem acompanhava-a, nem sempre o mesmo, muito mais velhos do que ela, de cabelo comprido de artista, com um estojo de instrumento também.

 

Olhou para o relógio: abrira o gás há cinco minutos, não, seis, e não fazia ideia do tempo que demorava a espalhar-se pela casa. Coçou o cotovelo a lembrar-se da mãe, que se movia devagar por causa do coração. O pai morrera há anos, à hora do jantar: o garfo caiu de repente da mão, fitou-a espantado, deixou de espantar-se e o queixo desceu na direcção do prato. Pareceu-lhe que ia dizer qualquer coisa mas não disse nada.

 

Recordava-se do garfo na toalha e da mudez da mãe, de pedir auxílio pelo telefone, de um fulano de bata a estendê-lo no tapete, a aplicar-lhe uma máscara na cara, a retirar-lhe a máscara da cara, a puxar uma seringa de uma maleta, de joelhos sobre o pai, a informar, do tapete, que não. No dia seguinte a autópsia, no dia seguinte o velório, no dia seguinte o enterro. Colegas de emprego, cumprimentos, o taxi da volta, com a mãe de lenço amarrotado no punho. Tudo tão simples, tão rápido, tão poucas palavras.

 

A marca do corpo do pai na poltrona, onde resolvia as palavras cruzadas do jornal, desvaneceu-se lentamente. A única diferença consistiu na fotografia emoldurada na sala, com uma jarra de flores ao lado. E logo a seguir o inverno, logo a seguir chuva, uma tristeza mansa nas coisas. Menos despesa em comida, claro. O pincel da barba junto ao lavatório.

 

Mudou de prédio no fim desse inverno por nenhuma razão especial. Mas trouxe o pincel da barba e colocou-o junto ao lavatório novo, de mistura a sua escova, os seus cremes. Comprou uns móveis, quase sem escolher, um quadrozinho com barcos. Trabalhava como jornalista numa rádio, lia as notícias da manhã. Tal como a mulher do estojo do violino às vezes um homem, nem sempre o mesmo, acompanhava-a. Não ficavam a noite inteira, iam-se embora antes.

 

Companheiros da rádio, o do desporto, o especialista em assuntos económicos. Tirando pedir-lhes que não fumassem não havia conversas. Acerca de quê? Via-os vestirem-se sem sair da cama, escutava a porta bater. Então levantava-se, comia uma ou duas bolachas do armário e sentava-se no sofá, à espera. Como agora, em que principiava a dar conta de um aromazinho enjoativo mas ainda não sono. Perguntou-se quando viria o sono. O aroma enjoativo não chegava ao patamar dado que tapou a frincha sob a porta com um cobertor.

 

A mãe surgiu-lhe um instante na cabeça e desapareceu, substituída pela imagem de um baloiço num jardim, em que a empurravam em pequena. Vozes perdidas da infância, uma semana nas termas, a ver as pessoas crescidas beberem copos de água, a passear entre pinheiros, a aborrecer-se. Quem leria as notícias por ela, a partir de hoje? A impressão que entrava no quadrozinho com barcos, que se tornava um barco como os restantes. Nas termas um lago de cisnes e começou a deslizar como eles, em silêncio. Isso conhecia bem, o silêncio. Achava-se rodeada de silêncio, vestida de silêncio, cheia de silêncio por dentro. O garfo caiu da mão do pai sem som nenhum. Estendeu-se no sofá, de olhos abertos, enquanto o baloiço ia e vinha. Achou estranho que o baloiço vazio. Não achou estranho que o baloiço vazio; no fim de contas já não sobrava ninguém para se alegrar nele.

 

 

 

António Lobo Antunes  

Imagem: Cezar Almeida - Pintura (Efeito borboleta)

 

 

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O uso das palavras

Una criatura hecha de palabras

 

Alberto Manguel

 

Narrativa: A. S. Byatt 

 

Hay autores que imaginan el mundo en unas pocas líneas; otros requieren el espacio de varios volúmenes para explorar ampliamente la geografía elegida. A. S. Byatt es sin duda uno de estos últimos. A lo largo de cuatro fornidos tomos (dos de los cuales tienen más de 800 páginas cada uno), la saga de Federica Potter retrata con asombrosa lucidez la segunda mitad del siglo XX en Inglaterra. Pero decir que esta tetralogía (de la cual La Torre de Babel es el tercer volumen) es un estudio sociológico o psicológico a la manera de uno de aquellos grandes verborágicos, Romain Rolland o Anthony Trollope, sería una injusticia en el caso de Byatt. La saga entera, y sobre todo este tercer volumen, es una meditación literaria sobre el amor, las relaciones sexuales, la familia, la literatura, la amistad, la fidelidad (y la falta de fidelidad), el sentido de la historia y, más que otra cosa, sobre el lenguaje.

 

La Torre de Babel es el valiente intento de demostrar hasta qué punto somos el lenguaje que usamos y que recreamos. Federica Potter es muchas cosas, pero es, sobre todo, una criatura de palabras. Los lectores que conocieron a Federica en los dos primeros volúmenes (pero no es necesario haberlos leído para disfrutar de La Torre de Babel) se encontrarán aquí con la misma mujer inteligente y animada, quien, después de la atroz muerte de su hermana, piensa encontrar refugio del mundo casándose con un millonario conservador, el apuesto Nigel Reiver. Pero Reiver cree que tiene derecho a dominar todo, incluida su mujer, y cuando trata de imponer su voluntad por la violencia, Federica huye de su casa, llevándose consigo a su hijo de cuatro años, y se instala en Londres.

 

Estamos en los años sesenta: los Beatles, la liberación sexual, la política contestataria. Dos complejas narraciones paralelas dan su estructura a la novela: por un lado, los pormenores de dos juicios legales a los que Federica es sometida, el primero por su divorcio, el segundo para defender a un amigo acusado de publicar un texto obsceno; por el otro, la actividad literaria de Federica, reflejada en un libro de anotaciones que está compilando, La Torre de Blablablá, y en una serie de comentarios, críticas y clases magistrales sobre diversas obras literarias. De manera casi mágica, el lector descubre que la ficción que está leyendo está construida sobre las ficciones leídas por la protagonista, la vida como cuento.

 

La historia de Federica transcurre en una supuesta realidad documental, pero su contexto, su sentido, sus posibles interpretaciones y ramificaciones se encuentran en las páginas de Kafka, D. H. Lawrence y el marqués de Sade. En este sentido, la traducción de Susana Rodríguez - Vida es un triunfo, ya que consigue transmitir al lector español la compleja trama de diversos lenguajes - coloquiales, judiciales, amorosos, filosóficos, literarios - que hacen a esta novela.

 

La Torre de Babel está poblada de fantasmas, sea invisibles, salvo en la memoria, como la hermana muerta y como ciertos personajes del pasado de Federica, y visibles, como los diferentes hombres y mujeres que solo cobran realidad en la mirada de la protagonista: su amante John Ottokar, y su inquietante hermano gemelo, el escritor secreto Jude Mason, a quien defiende en el juicio; su prodigioso hijo Leo, de apenas cuatro años, y los hijos de su hermana, abandonados por su padre, incapaz de relacionarse con ellos.

 

La bíblica Torre de Babel fue erigida como un desafío a los cielos y fue castigada con la pluralidad de lenguajes. La novela de Byatt redime aquella antigua ambición para su protagonista, y convierte el castigo lingüístico en una bendición. Para que su ambición se realice, Federica debe encontrar en el lenguaje cotidiano la multiplicidad de Babel, no ya muchas lenguas del mundo, sino una sola múltiple, ambigua, rica en posibilidades, cotidiana y literaria, práctica y trascendente, para salir adelante y sobrevivir. Son su pasión y coraje los que llevan a Federica a su destino, pero es el lenguaje el que la salva. Pocas otras novelas contemporáneas demuestran, con tanto talento, la fe de su autor en el uso de la palabra.

 

Alberto Manguel - Publicado em Babelia

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"Todo o mundo está em meu interior”

Borges en el corazón

 

Gay Talese

 

Lo que sigue es la reproducción del relato que escribí de mi única entrevista con Borges, que tenía entonces 62 años (y su madre, de 85), que llevamos a cabo en un hotel de Nueva York (creo que era el Algonquin, en la Calle 44 Oeste) y se publicó en The New York Times el 31 de enero de 1962.

 

En aquella época, yo tenía 30 años y era redactor del Times; aquel día mi redactor jefe me ordenó que fuera a entrevistar a Borges, cuya obra conocía por supuesto; me sentí ligeramente nervioso ante la perspectiva de conocer a la gran figura literaria en persona.

 

Nos encontramos en el vestíbulo del hotel, a la hora acordada, y, aunque yo sabía que era ciego, lo primero que me impresionó fue su aparente estado de alerta, la impresión que daba de enterarse de todo, sentado muy recto en una silla tapizada de respaldo alto, desde donde parecía observar las idas y venidas de docenas de huéspedes que recorrían el ruidoso vestíbulo. Junto a él se sentaba su madre, que, a pesar de tener 85 años, no aparentaba más de 60 y que, podría añadir, era de una belleza asombrosa para tener cualquier edad. Pensé que no podía haber sido más bella ni cuando tenía 25 años; porque, a los 85, irradiaba una vitalidad y una energía intemporales, y la suave piel de su rostro era la de una mujer bien conservada que (no me cabía la menor duda) debía de dedicarse a diario a mantener su atractivo; seguro que pasaba horas delante de un espejo con el fin de satisfacer su deseo de representar la perfección para todas las personas con las que se encontrase. Durante la entrevista que hice a su hijo, no pude evitar mirarla mientras nos escuchaba y, a veces, introducía alguna palabra para subrayar lo que estaba diciendo él.

 

La entrevista no duró más de media hora; he aquí, reproducido, el artículo que escribí en aquella memorable ocasión, en 1962, cuando conocí a Borges y a su inolvidable madre. Como su padre y su abuelo, su bisabuelo y su tatarabuelo, Jorge Luis Borges se ha quedado poco a poco ciego. Pero hasta la ceguera, dice, tiene ventajas.

 

"Antes, el mundo exterior interfería demasiado", me decía este intelectual argentino de 62 años ayer en Nueva York. "Ahora, todo el mundo está en mi interior. Y veo mejor, porque puedo ver todas las cosas que sueño. Fue una ceguera gradual, nada trágica", continuó. "Si uno se queda ciego de pronto, el mundo se le hace añicos. Pero si primero pasa por un crepúsculo, el tiempo fluye de manera diferente. No es preciso hacer nada. Uno puede quedarse sentado. Las personas ciegas tienen mucha dulzura. Las sordas, en cambio, no. Las personas sordas son muy impacientes. A veces, la gente se ríe de los sordos. Nadie se ríe de un ciego".

 

"El jueves", dijo el doctor Borges, "doy una conferencia en... ¿En? ¿Cómo se llama ese sitio?".

 

"Yale", dijo su madre.

 

"Eso es, Yale", siguió él. "Voy a hablar sobre William Henry Hudson, un escritor inglés nacido en Argentina. Y el 6 de febrero, estaré en Harvard. El 12 de febrero, en la Universidad de Columbia. Y el 14 de febrero, en Princeton. Hablaré de clásicos argentinos como el magnífico poema Martín Fierro, que trata de un gaucho y fue escrito en 1872 por Hernández. El gaucho es un personaje realista pero poco romántico; también presentaré al otro gran poeta argentino, Lugones, que tradujo a Homero al español".

 

Durante toda su gira de conferencias, el doctor Borges contará con la ayuda de una memoria extraordinaria, casi absoluta – otra consecuencia de la ceguera –, y de su madre, que, a sus 85 años, parece tan dinámica y se conserva tan bien como una de esas atractivas mujeres de 60 años dadas al narcisismo, algo que no parece ser el caso de la señora Borges.

 

La madre de Borges, como su hijo, pasó la mayor parte de sus años prerrevolucionarios en Buenos Aires luchando contra Juan Perón, y en una ocasión pasó una semana en la cárcel por participar en una manifestación contra él.

 

"Los escritores sufrieron mucho con el dictador", asegura el doctor Borges, aunque igual de mala era la situación en Argentina hace 30 años, "cuando nos leíamos las obras y nos lavábamos la ropa unos a otros". Pero hoy los escritores han progresado, y en especial él. Es autor de 30 libros de ensayo, poesía y relato, y su primera recopilación traducida al inglés saldrá publicada esta primavera en New Directions, bajo el título Labyrinth.

 

"No creo que Perón supiera que había literatura en su país", opina el doctor Borges. "Nos puso todos los obstáculos posibles, pero lo que más le importaba, en realidad, era agitar a todo el mundo en contra de Estados Unidos y mandar a la gente a la cárcel". Aunque el doctor Borges no puede adivinar las consecuencias a largo plazo de la última reunión de la Organización de Estados Americanos en Punta del Este, Uruguay, dice que, "por desgracia", Fidel Castro parece afianzado, y "los comunistas son muy listos".

 

"Los estadounidenses son siempre unos incomprendidos", añade. "Si dan dinero, la gente piensa que es un soborno. Si no lo dan...", reflexiona, "quizá sea mejor".

 

La madre del doctor Borges miró su reloj y le recordó que tenían una cita en otro lugar unos minutos después. Me puse de pie, les di la mano a los dos y les agradecí que me hubieran dedicado su tiempo.

 

Volví corriendo al edificio de The New York Times, que estaba a solo dos manzanas, con la esperanza de escribir algo que hiciera justicia al rato que había pasado con aquel extraordinario hombre de letras y su madre. También pensé en lo que había dicho sobre las personas ciegas, sobre todo esta frase inolvidable: "Ahora, todo el mundo está en mi interior... Y veo mejor, porque puedo ver todas las cosas que sueño".

 

 

 

Gay Talese - Publicado em El País

publicado por ardotempo às 14:46 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 11.08.11

A lenda dos jaguarões

As grandes onças brabas

 

Aldyr Garcia Schlee

 

Dizem que ali, para lá daquela volta do Jaguarão, lá adiante, nas barrancas, viviam as grandes onças brabas – metade tigre, metade peixe – que deram nome ao rio. Eram como sereias, com os seios, o jeito, o encanto de mulher. Talvez ocultassem sob a água o mistério de suas escamas de prata e de suas caudas ondulantes; mas não tardavam em revelar, na agudeza das garras, a voracidade de suas entranhas de fera.

 

Conta-se que elas atraíam e seduziam a gente com tal fascínio e encantamento que jamais qualquer um de nós pôde perceber que fora arrastado até ali a ponto de perder o coração. Conta-se que as grandes onças brabas comiam só o coração de suas vítimas.


Nas esplêndidas noites de lua, nas preguiçosas tardes de mormaço, nas resplandecentes manhãs de garoa com sol – em épocas de jasmim e flor de laranjeira – aqueles jaguarões deslumbravam e enfeitiçavam as pessoas apenas para comer-lhes os corações; só o coração. Conta-se que nunca ninguém teve memória para lembrar que fora vítima das grandes onças brabas.

 

Os que um dia se sentiram chamados para o rio, que serenamente entraram pelas águas e inadvertidamente se entregaram às garras das feras, ofuscados pelo brilho das curvas e subjugados pelo encanto feminino daqueles seres fantásticos – os perdidos de amor – estes deixaram ali o coração sem se darem conta disso e de tudo o mais.

 

Há quem diga que a história dos jaguarões não passa de lenda, até porque não resta por aí uma só lembrança das grandes onças brabas; jamais alguém admitiu ter sido atacado por elas; nunca ninguém cometeu a loucura de pretender provar a existência desses entes extraordinários que viviam no rio. Houve quem dissesse que tal lenda teria sido inventada em outros tempos pelos jesuítas e divulgada e aceita por aqui como remate dos primitivos rituais de iniciação dos índios, ao simbolizar na perda do coração o fim da pureza do amor e, assim, o risco da tentação, da traição – de tudo que é proibido e pecaminoso.

 

Houve quem dissesse que lenda não há, nem nada. E que, desdobrando-se um rosário de prostíbulos à beira do rio, era fácil imaginar ali mesmo na praia, tentadoras e humanamente renascidas, as grandes onças brabas – com as quais deixávamos a inocência de nossos corações, descobrindo, nos perigos da noite e nos riscos da clandestinidade, o carinho comprado e a ausência de afeto.

 

Eu vos digo, em verdade, que nada sei de maravilhas embora trema ao falar de jaguarões. Talvez eu também seja daqueles que não tenham se dado conta de mistérios, que não guardem lembrança de milagres, que não se animem a comprovar magias. Mas, cada vez que venho aqui, sei que perco um pouco o coração; e que, no entanto, saio redivivo. Por tudo, prefiro contar histórias que me contaram como verdadeiras: os meus Contos de Verdades.

 


 

A.G.S. 

Ilustração: Xilogravura de Leandro Barrios

 

Contos de Verdades ©Aldyr Garcia Schlee, edições ardotempo 2011 

 

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publicado por ardotempo às 04:00 | Comentar | Adicionar
Quarta-feira, 10.08.11

Fotografias e livros no Museu

 

MALG  SESC

Gilberto Perin e Aldyr Garcia Schlee

 


publicado por ardotempo às 20:50 | Comentar | Adicionar

Linguagem de fronteira - o escritor conta

 

Dois lançamentos nos próximos dias -

Aldyr Garcia Schlee

 

 

 

 

 

 

(reedições de dois livros de contos, premiados e com suas respectivas edições esgotadas)

 

 

Capa de Contos de Verdades: Gilberto Perin

Capa de Uma terra só: Marcelo Freda Soares

 

 

 

publicado por ardotempo às 00:58 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 09.08.11

Recital AVE, FLOR em Passo Fundo RS Brasil

Estreias

 

 

 

ARTESESC convida:

 

Exposição e Recital AVE, FLOR

SESC Passo Fundo Recital 13 de agosto de 2011 - 20h (sábado)

 

Exposição de 09 de agosto de 2011 a 28 de agosto de 2011

 

De segundas-feiras aos sábados, das 9h às 20h30

 

Aquarelas botânicas de Anelise Scherer e poemas de Cleonice Bourscheid

Curadoria de Alfredo Aquino

 

SESC Passo Fundo

Organização: SESC RS

Avenida Brasil, nº 30

Passo Fundo RS Brasil

 

Agendamento: 51 37 41 56 68

 

PARTE I

 

 

Música de Fernando Lewis de Mattos

sobre poemas do livro Ave, Flor de Cleonice Bourscheid

 

SUÍTE FLORAL

 

Três canções para soprano e viola caipira

 

I. Árvore-da-felicidade (estreia)

II.Canoinha (estreia)

III. Rabo-de-gato-vermelho (Unha-de-gato) (estreia)

 

Soprano: Luciana Kiefer

Viola: Fernando Lewis de Mattos

 

I. “Poética” II.

“Lírios” III.

“Asa de Anjo (Flor-do-céu)” IV.

“Mal-me-quer”

V. “Lição de poesia”

 

Soprano: Deisi Coccaro

Viola: Fernando Lewis de Mattos

 

PARTE II     TRIBUTO À NATUREZA

 

1. O Acalanto da Rosa

Música: Claudio Santoro

Poema: Vinicius de Moraes

 

2. Edelweiss

Do Musical A Noviça Rebelde

Música: Richard Rodgers

Letra Original: Oscar Hammerstein II

Versão brasileira: Claudio Botelho

 

3. Andorinha da primavera

Música: Carlos Maria Trindade

Letra: Pedro Ayres Magalhães

 

Soprano: Clarice Bourscheid

 

1. "Róseas flores da alvorada" (Modinhas Imperiais)

Recolhidas e organizadas por Mário de Andrade

Música e Poesia: Anônimo

 

2. "A Primavera" (Dois epigramas - N.2)

Música: Lorenzo Fernandez

Poesia: Luiz de Andrade Filho

Data: 1925

 

3. "Canção da primavera"

Música: Dimitri Cervo

Poesia: Mário Quintana

Data: 2001

 

Soprano: Luciana Kiefer

 

Quarteto Cordas UNISINOS

Geraldo Moori, Alyson Kestering Wendhausen Caroline Malinski Argenta e Pedro Ludwig

Arranjos: Alexandre Ostrowski

 

FINAL

 

1. "Flor-de-São-João" (estreia)

Música: Fernando Lewis de Mattos

Poesia: Cleonice Bourscheid Data: 2011

Sopranos: Clarice Bourscheid, Luciana Kiefer e Deisi Coccaro

Viola: Fernando Lewis de Mattos

Quarteto Cordas UNISINOS

Arranjo: Alexandre Ostrowski

 

 

publicado por ardotempo às 20:28 | Comentar | Adicionar

Um fotógrafo com Leica

 

Uma cidade que se move - Mario Castello

 

 

 

 

 

 

Mario Castello - Monumento às Bandeiras (Victor Brecheret) - Fotografia (São Paulo SP Brasil), 2011

publicado por ardotempo às 17:21 | Comentar | Adicionar

Livro, fotografias e textos

Luiz Antonio de Assis Brasil

 

Futebol

 

Cabe celebrar aqui Camisa Brasileira, uma obra cúmplice do fotógrafo Gilberto Perin e do escritor Aldyr Schlee, a que se somaram um depoimento de João Gilberto Noll e o trabalho de um editor – e poeta – sensível, Alfredo Aquino e sua ardotempo.

 

É um livro sobre o Grêmio Esportivo Brasil, de Pelotas. O que poderia ser uma peça de ardor clubístico, transforma-se numa reflexão sobre o ser humano. A arte soberba de Gilberto Perin seguiu parte da campanha do Brasil no ano passado, entre vitórias e derrotas, momentos de desânimo e euforia. Os protagonistas são os próprios jogadores, captados em diferentes vestiários e túneis. Os jogadores não são identificados. O fotógrafo capturou suas imagens e dividiu-as em secções que indicam os elementos que perpassam os vestiários: a preparação do jogo, a fé religiosa dos atletas, a dor, a solidão dos expulsos de campo.

 

O capítulo da fé impressiona: são pequenas imagens de santos, galho de arruda atrás da orelha, Jesus Cristo e Iemanjá, rezas coletivas. Já a preparação mostra a indigência de alguns vestiários, com suas duchas de plástico, azulejos faltantes, paredes cobertas de mofo. A glória das vitórias e o desalento das derrotas constituem uma das partes mais dramáticas – mas ambas se parecem, em seus efeitos psicológicos: choros e abraços.

 

Costurando as fotos e dando-lhes uma identidade única, está o texto de Aldyr Schlee, escritor de Contos de Futebol e, cabe repetir sempre, criador do uniforme da seleção canarinho. É dele esse resumo impecável: o vestiário “é um mundo fechado e interdito de onde os homens saem mudos e deslembrados; de onde, logo, já não se sabe e não se diz o que se viu ou se ouviu; de onde, depois de tudo, já não se recorda o que se fez ou o que se deixou de fazer”.

 

O depoimento de João Gilberto Noll comove também pela síntese, capturando o instante sem tempo das fotos: “Vemos jogadores em um campeonato de segunda divisão num intimismo viril, nos toscos vestiários, alguns ensaboados debaixo dos chuveiros, entre confidências discretas, surdos palpites talvez”. A apresentação de Alfredo Aquino é um sumário que revela: “O que vemos neste livro está antes do apito inicial e logo após o apito final, ou seja, sem a competição, sem a luta e sem o lúdico...” E podemos completar: trabalhado com esmero e paixão, uma obra de arte superior.

 

Luiz Antonio de Assis Brasil - Escritor

publicado por ardotempo às 17:07 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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