Quarta-feira, 27.07.11

Uma pintura, uma fotografia?

Um homem e seu cão

 

 

 

 

Giacomo Favretto - Sem titulo - Fotografia (São Paulo Brasil), 2011 -

Uma fotografia com cores e texturas que lembram uma pintura de Edward Hopper. Bravo, Giacomo Favretto!!!

 

 

 

publicado por ardotempo às 21:05 | Comentar | Adicionar

A saída

Estação de serviço

 

António Lobo Antunes

 

 

 

- Preciso de tempo

 

disse ela, a tirar a mão da mão dele.

 

- Preciso de tempoFoi tudo muito depressa e sinto-me baralhada.

 

O homem ficou à espera.

 

Estavam sentados no restaurante de uma estação de serviço, na esperança que ninguém conhecido de algum deles entrasse e os visse.

 

A mulher disse:

 

- Depois há o meu marido e os miúdos de um lado, tu do outro e a minha confusão no meio. Sinceramente não sei o que fazer.

 

O homem continuou calado, a brincar com uma colher pequenina. Não a brincar, a torcê-la nos dedos.

 

Daqui a nada parto isto, pensou ele, e poisou a colher no tabuleiro.

 

Havia sempre automóveis junto às bombas e pessoas a desenroscarem as tampas dos depósitos. Felizmente todos estranhos. A mulher não usava aliança, usava um anel de prata, largo, no médio da mão esquerda. Desde o primeiro momento que o homem gostava daquele anel.

 

A mulher disse

 

- Para não falar na tua mulher e nas tuas filhas. Se calhar não há solução para nós

 

isto sem o olhar, a olhar a televisão junto ao tecto, não reparando nela.

 

O homem reparou: era uma cantora negra, de lingerie e botas, com sujeitos negros a dançarem-lhe em torno.

 

A frase

 

- Se calhar não há solução para nós

 

ia ecoando sem fim dentro dele.

 

Junto ao restaurante da estação de serviço havia um hotel barato onde entraram duas ou três vezes, demasiado tensos, demasiado aflitos. A mulher despia a roupa interior depois de puxar os lençóis para cima

 

- É a primeira vez que isto me acontece

 

explicava ela.

 

 - Palavra de honra que é a primeira vez que isto me acontece desde que casei

 

e o homem estendido ao seu lado, pouco à vontade, a pensar

- Não vou ser capaz, tenho a certeza que não vou ser capaz.

 

E não foi capaz de facto, ficou para ali quietinho, envergonhadíssimo, no receio de que a mulher pensasse que ele era impotente.

 

A cantora negra da televisão deu lugar a um grupo de guitarras eléctricas que acompanhavam um sujeito ruivo.

 

A mulher propôs

 

- Vamos deixando correr até nos conhecermos melhor, não achas?

 

O homem tocou-lhe de leve no anel de prata:

 

- É uma hipótese

 

disse ele, com qualquer coisa a rasgar-se-lhe ignorava em que sítio, na barriga, no peito, ou nem na barriga nem no peito, no fundo:

 

- Sinto-me cada vez mais preso a ti, sabias?

 

e, ainda a meio da frase, já a achava pateta: um marido, três filhos, o mais novo cinco anos se tanto, as filhas dele dezasseis e dezoito, nem uma só razão de queixa de ninguém lá em casa. Além do mais gostava do apartamento.

 

A mulher disse

 

- Eu também me sinto cada vez mais presa a ti mas o que é que podemos fazer?

 

imensa coisa a separá-los, crianças, família, gostos sem relação com os do outro, talvez, porque não acabar isto agora, porque não cessar de nos vermos, telefonemas às escondidas, culpabilidade, remorso, três filhos, que complicado, e a seguir?

 

A mulher disse

 

- Detesto a ideia de nos separarmos

 

e a cara esquisita como quando se aferrolham as feições para proibir uma lágrima, o homem, para si mesmo

 

- Não chores tu também

 

porque uma humidade no interior dos olhos, ele que desde a morte do pai não se recordava de, e admirou-se que a mulher não o tivesse achado impotente:

 

- Não tem importância nenhuma

disse ela

 

quando menos esperares volta

 

e uma gratidão de cachorro humilhado nele, ganas de abraçá-la durante imenso tempo a repetir

 

- Amo-te sem descanso,

 

a repetir

 

- Meu amor e nem

 

- Amo-te nem

 

- Meu amor

 

uma imobilidade de vencido, a súplica calada

 

- Não me mandes embora

 

uma tristeza só comparável à de quando a mãe deu o hamster a um vizinho

 

- Não aguento mais o chiar desta roda

 

e a mulher, metida na chávena de chá verde, informando-o que bebia litros de chá verde por dia

 

- Limpa o organismo das pessoas, sabias?

 

o homem

 

 

- Também detesto a ideia de nos separarmos mas detesto ainda mais a ideia de deixarmos correr

 

enquanto na televisão a negra de novo, com a mesma lingerie e as mesmas botas, a percorrer o corpo de um sujeito com o indicador lento, fitando a câmara numa espécie de gula. Os carros deles achavam-se estacionados, lado a lado, no parque vazio onde só uma furgoneta de entregas.

 

A mulher disse

 

- Que outra solução temos?

 

O homem levantou-se devagar

 

- Não sei

 

declarou

 

- Já venho

 

e em lugar dos lavabos saiu para o carro, abriu a porta, sentou-se ao volante, viu-a de pé igualmente, dava ideia que a chamá-lo, alcançou o parque e não tornou a vê-la, apanhou a estrada na direcção de Lisboa, cada vez mais depressa, uma curva suave, outra curva, notou as árvores da berma, plátanos, cento e vinte, cento e trinta, cento e cinquenta, ao ultrapassar um camião o volante escapou-lhe, o volante de onde os bombeiros tiveram dificuldade em desencaixá-lo quando um dos plátanos o recebeu, de folhas tão verdes como o chá que limpa o organismo das pessoas.

 

 

 

 

 

António Lobo Antunes

publicado por ardotempo às 19:30 | Comentar | Adicionar

Memórias de cinema

El cine de aquel invierno

 

Enrique Vila-Matas

 

 

 

En el primer día de enero del invierno de 1963, a los catorce años de edad, inicié un diario en el que, a lo largo de cinco meses, fui anotando todo lo que consideraba relevante, hasta que me cansé, entiendo que me cansé el viernes 3 de mayo, día en el que ya no anoté nada, lo que naturalmente me hace preguntarme qué pudo suceder aquel 3 de mayo para que enmudeciera hasta el 1 de enero de 1985, cuando me decidí a volver a llevar un diario. Nadie pone en duda que los círculos están también para cerrarse.

 

Del día martes 1 de enero del 63 quedaron unos datos que el tiempo ha vuelto tristes: tres de los cuatro familiares que visitaron la casa de mis padres aquel día llevan muertos ya tiempo. Por la tarde, con los invitados, "grabamos canciones en un magnetofón" que trajo uno de los invitados. No sé qué canciones serían, pero creo que la palabra ahí clave es magnetofón, pues no había tenido hasta entonces tan cerca ninguno. ¿Me magnetizó el magnetofón?

En la noche del día 2 vi en la televisión (escribí literalmente: "veo en tve") el entonces famoso programa Esta es su vida, "dedicado a un hombre que vive en los Hogares Mundet".

 

Creo que el hombre que yo entendí que vivía en esos hogares era el propio fundador de los mismos, Arturo Mundet, un industrial catalán que hizo gran fortuna en América y en 1955 donó a Barcelona muchos millones de la época para la construcción de un complejo residencial para ancianos y huérfanos.

 

El día 3 por la mañana fui introducido al altar del "sentido crítico" cuando alguien - algo así nunca me había ocurrido - habló mal de mí en el patio de juego del colegio y un profesor me dio al respecto un consejo muy sabio, un consejo que anoté debidamente y que toda mi vida he tenido en cuenta y que, dicho con mi lenguaje de ahora, podría formularse de la siguiente forma: "Cada vez que digan algo en contra de ti, muéstrate siempre de acuerdo; y además, diles que te parece que ese trabajo lo sabes hacer mejor tú". Por la tarde, fui a nadar. Recuerdo que iba mucho a una piscina de la Travessera de Gràcia.

 

Saliendo de allí, me dirigí al cine Maryland, donde con dos amigos de la escuela vi Tres sargentos y El príncipe encadenado. Nada recuerdo de ninguna de las dos. Sabemos que de las películas que hemos visto a lo largo de la vida, yendo las cosas muy bien, apenas alcanzamos a acordarnos de una imagen o de una escena. Con Tres sargentos y El príncipe encadenado no tengo ni el más mínimo recuerdo, ni siquiera después de haber utilizado el buscador de Google para poder refrescar literalmente mi memoria. He hallado la ficha técnica de las dos películas, pero no consigo acordarme de nada.

 

El príncipe encadenado la dirigió Luis Lucía y en su reparto están María Mahor y Katia Loritz, famosas entonces; de Mahor creo que estaba ligeramente enamorado, pero tampoco podría asegurarlo; Loritz era espectacular, pero decían que era novia del futbolista del Barça Luis Suárez y eso complicaba las cosas. Tres sargentos - veo en Google - era un western de John Sturges en clave de comedia (con Sinatra, Dean Martin y Sammy Davis Jr.) y seguro que la broma de la camarilla mafiosa de Las Vegas, la juerga particular del clan Sinatra, no me interesó nada porque los westerns me entusiasmaban, pero no podía comprender - sigo igual ahora - que no fueran en serio.

 

Al día siguiente, volví al cine. Con el amigo Ruiz Soriano -el primero del mundo en hablarme de Bob Dylan - fuimos al cine Cataluña, donde daban El empleo y Sola ante el peligro. De este último film tampoco recuerdo absolutamente nada. He podido ver que su título original era The second time around y lo dirigió Vincent Sherman y era en clave de comedia, lo que probablemente me dejó frío.

 

Es curioso, pienso ahora, lo tarde que me inicié al humor, probablemente porque mi iniciación a la tragedia requirió de mucho tiempo y de profundización en ella y porque me parece que a esa edad sólo acertaba a ver el ángulo serio del mundo. De El empleo, del italiano Ermanno Olmi, sí que me acuerdo, quizás porque fui a verla sabiendo que retrataba cierta "realidad social", sobre la que era consciente en aquellos días de saber poco. El film narraba la historia de dos jóvenes que buscaban su primer empleo y supongo que, como jamás había tenido una profesión u oficio, estudié el asunto con atención, pues se trataba nada menos que de saber qué quería ser en la vida.

 

Recuerdo que el film me pareció aburrido y, en consecuencia, los empleos también. De hecho, yo creo que fue mi primer contacto - un tanto indirecto, claro - con el mundo de Kafka, porque la única imagen que recuerdo del film es una multitud de oficinistas en un escenario de pupitres infinito. En el fondo, la película nos recordaba que se trataba de encontrar en la vida un posto (un sitio, un empleo, situarse) para siempre. Reviso sólo los films que vi a lo largo de aquel invierno y tras cotejarlo todo en Google, constato que de ninguno de los que en esos tres meses vi me queda rastro en la memoria: Kansas busca un asesino, Plan 402, La tercera llave, Bajo el signo de Roma, Dos frescos en órbita, Entre dos pasiones, Silla eléctrica para ocho hombres, Yo soy el padre y la madre, Crimen en Montecarlo, Vacaciones para enamorados, Soltero en el paraíso, Atraco audaz, Barreras de orgullo, La esposa del embajador.

 

Hasta el 21 de marzo, el primer día precisamente de la primavera, no encuentro un film (lo vi en el cine Vergara) del que haya conservado recuerdos: Hatari, de Howard Hawks. Hatari significa peligro en swahili. La película fue filmada en lo que hoy es Tanzania, en un rancho que entonces era propiedad del actor Hardy Krüger, no muy lejos de donde el próximo otoño se casan Paula y Malcolm.

 

El lugar parece que lo hayan elegido estos amigos para que se cierre un círculo, si es que hay círculos que se cierran, lo que no está claro en círculos como éste, que va de la primavera del 63 hasta nuestros días. Pero bueno, nadie pone en duda que los círculos están también para cerrarse. Al menos, los círculos de ensueño, de los que todos hemos oído hablar alguna vez y sobre los que el cine y Tanzania lo saben todo.

 

Enrique Vila-Matas

publicado por ardotempo às 18:07 | Comentar | Adicionar

Gênios e sobredotados

Entrevista traduzida depois de imaginada

 

Paulo José Miranda

 

 

 

A minha entrevistada desta noite tem 32 anos e acaba de escrever um livro acerca da distinção entre pessoas sobredotadas e o génio. Ela mesma é uma pessoa sobredotada. Tem um doutoramento em física nuclear, pela universidade de Cambridge, e um doutoramento em literatura, pela universidade do Bósforo e tem ainda uma licenciatura em Filosofia, também pela universidade do Bósforo. Lê e fala 10 línguas. Tem ouvido absoluto, que implica reconhecer imediatamente o som que escuta, e estudou 9 anos de piano e toca Mozart, Chopin e Lizst na perfeição. Aos 16 anos o seu QI foi classificado de 190. Para que os nossos telespectadores possam ter uma noção mais precisa do que isto representa, acrescento que o QI de Einstein foi classificado de 180.

 

Entrevistadora: Boa noite! Espero que a minha apresentação não tenha esquecido nada. Julga-se um génio?

 

Mulher: Não, mas talvez seja aquela que está em melhor posição para reconhecer o génio. Eu sou aquilo que é designado pelas ciências da cognição como sobredotada.

 

E: O que é que a leva a fazer essa distinção? Porque, para a maioria das pessoas, uma pessoa como você é um génio.

 

M: O génio é aquele que faz o que nunca ainda tinha sido feito. O que ainda não tinha vindo ao mundo. O génio faz mundo. O sobredotado, como eu, faz muito bem feito uma quantidade enorme de coisas que já estão no mundo. Para usar uma metáfora da música, e que é verdade em mim, o sobredotado tem um ouvido absoluto para o mundo. O sobredotado faz, isto é, “imita” imediatamente o que há, quer seja a matemática, quer seja a música ou as línguas já criadas. Ele ouve e reproduz. Esta é a definição que melhor cabe para sobredotado: o reprodutor do mundo. O génio, pelo contrário, pode até ser surdo para o mundo, isto é, não conseguir aprender línguas com facilidade, ter sérias dificuldades para a matemática ou para a música, mas, depois, aquela que é a sua actividade, aquilo que faz, faz mundo. Contrariamente ao reprodutor de mundo, que é o sobredotado, o génio é o fazedor de mundo. O sobredotado “apanha” o mundo todo de ouvido, o génio não apanha nada. O génio joga, lança, faz mundo. É como se, o génio ao não saber quase nada, inventasse ele mesmo um saber, o seu saber.

 

E: Mas o génio pode também saber muito! Quando se trata de ciência, então, o génio sabe também sempre muito. Por exemplo, o caso de Einstein.

 

M: Sem dúvida! Mas ainda assim, Einstein não sabia mais matemática do que eu, e sabia menos física e matemática do que muitos cientistas ou professores do seu tempo. A questão é esta: o que faz a diferença entre Einstein e um professor do seu tempo não é o que ele sabe ou deixa de saber, mas de ir buscar o que ninguém sabe. E: Então porque é que o seu livro não faz de si um génio? M: Porque o meu livro faz apenas, ainda que possa ser brilhante, a distinção entre coisas que já há, entre o sobredotado e o génio. Não crio nem um, nem outro.

 

E: Mas julgo que cria essa distinção, que ainda não existia.

 

M: Não! A distinção já existia, não estava era muito clara. Eu apenas dei claridade à coisa. É muito diferente de criar a coisa. O facto de haver um livro, não identifica o seu autor com coisa nenhuma a priori. O que mais há no mundo são livros, e só muito poucos são de génio. E a maioria nem sequer são, asseguro-lhe, de pessoas sobredotadas.

 

E: O que é mesmo um sobredotado?

 

M: Um sobredotado é uma espécie de agente secreto dos filmes, uma espécie de James Bond, que consegue fazer tudo, mas não inventa nada, não cria nada. O James Bond é aquele que faz o que quer do mundo, mas não lhe acrescenta nada. E vamos ver uma coisa, inventar ou criar, não é uma questão modal, mas substancial. Ou seja, criar versos que não existem pode também ser não criar nada.

 

E: Porquê?

 

M: Porque se pode tratar de uma imitação, de uma reprodução de algo que é verdadeiramente bom. Também há livros que nós dizemos que são bons, mas não são de génio. São os livros a que eu chamo de sobredotados. Livros que imitam perfeitamente o génio, sem que se perceba. Mas não se trata aqui de um falsificador, como aqueles que imitam os quadros de pintores famosos, trata-se antes de alguém que escreve de um modo que já foi escrito. Píndaro inventa a escrita, Rimbaud inventa a escrita e Fernando Pessoa, poeta português do início do século passado, inventa a escrita, só para dar alguns exemplos, depois, os outros, quando são bons são sobredotados, isto é, imitam muito bem o mundo que esses, os génios, criaram. O problema, em relação à poesia, é que como as palavras e a ordem delas são diferentes de livro para livro, tem-se a ilusão de que são coisas diferentes, quando verdadeiramente não são. Aliás, o problema é comum a todas as artes. São variações do génio, alterações modais e não substanciais, isto é, não acrescentam mundo. A ciência já não tem este problema. Por exemplo, a Teoria da Relatividade não é imitada.

 

E: Mas pode ser ultrapassada, na sua tentativa de descrição do universo!

 

M: Isso pode! Na arte, o génio nunca é ultrapassado. O génio é sempre à mesma altura ou, para manter a metáfora anterior, o génio é inultrapassável, é sempre à mesma velocidade, a inultrapassável velocidade da luz.

 

Paulo José Miranda

publicado por ardotempo às 01:41 | Comentar | Ler Comentários (3) | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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