Terça-feira, 17.05.11

Compromissos de afeto

Pont des Arts - Paris

 

 

 

 

 

Nas treliças das telas de aço das laterais da Pont des Arts, milhares de cadeados duplamente nominados selam os compromissos do afeto. Alguns não sobreviverão ao gesto de fechar o elo blindado e jogar a chave ao rio. Outros permanecerão perpetuamente porque simbolizam uma convicção do espírito, uma escolha serena por determinados valores. A ponte de aço pintado em verde discreto, refulge em ouro e prata sob o sol da primavera. Longo tempo e boa ventura para os afetos escolhidos e perseverados.

publicado por ardotempo às 02:53 | Comentar | Adicionar

A fabulosa coleção vintage de retratos

Wilhelm Maywald

 

 

 

 

A fantástica e rarissima coleção de retratos (em edição de ampliações vintage) de artistas de uma época de ouro em Paris. Todos eles fotografados por um extraordinário artista - Wilhelm Maywald

 

Cento e vinte e cinco imagens vintage de retratos de artistas como Picasso, Vieira da Silva, Matisse, Braque, Léger, Chagall, Roualt, Utrillo, Tamayo, Vasarely, Dina Vierny, Calder e muitos outros representantes da arte mais significativa da primeira metade do século XX, em Paris, França. Imagens capturadas pelas lentes de Wilhelm Maywald e cuidadosamente conservadas pelo seu herdeiro e curador do conjunto fotográfico, o igualmente fotógrafo Jean-Alex Brunelle. Um acervo expositivo importante,  exclusivo de celebridades artísticas, um conjunto bastante valioso.

 

Nas imagens, um retrato do pintor mexicano Rufino Tamayo no seu período parisiense e o fotógrafo Jean-Alex Brunelle, conservador e curador do notável tesouro cultural fotográfico.

 

 

 

 

publicado por ardotempo às 01:09 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 16.05.11

A palavra tempo

A vida e o tempo

 

A vida vale muito. Vale para cada indivíduo que a possui e vale coletivamente. Vale ainda mais pelo tempo, sempre o tempo, o tempo que deve ser desfrutado e preservado como um tesouro incomparável, minuto a minuto. E vale pelos afetos genuínos, os que a compõem de originalidades e surpresas. A vida será mais vida quando orquestrada num conjunto de vidas, cumulativas e criativas. A vida é mais que uma palavra e é também a palavra.

publicado por ardotempo às 23:05 | Comentar | Adicionar

Em poesia, português e espanhol são uma só língua

Recital de Poesía: A Duas Vozes

 

Recital dos poetas:

 

Mariana Ianelli (Brasil) e José Manuel Lucía Megías (Espanha)

 

 

 

 

 

16 de maio de 2011 às 19h30

 

Instituto Cervantes - São Paulo - Brasil

 

 

 

 

 

  

 

publicado por ardotempo às 22:51 | Comentar | Adicionar
Sábado, 14.05.11

Mistura de grito, sussuro e canto

 

 

Noturno Profundo

 

Mariana Ianelli

 

A Áustria é um país de florestas negras e escritores noturnos. Basta pensar em Robert Musil, Ingeborg Bachmann, Thomas Bernhard. Há uma abóbada escura cobrindo telhados, bosques, igrejas, montanhas. Há um clima de outono e angústia. Se cada livro tem sua porção de luz e sombra, estamos no crepúsculo. Mas em toda paisagem não há nada tão sombrio quanto um poema de Georg Trakl. Não há paisagem mais cheia de trevas. Georg Trakl é a flor azul da Áustria, o pássaro selvagem, o noturno profundo.

 

Entramos na noite e em tudo o que a noite propicia, os sonhos, a loucura, as formas do medo, segredos de amor e morte. Púrpura, marrom, azul e negro são as cores de Georg Trakl. Existe uma massa escura de pinheiros e por baixo dela um ar de chumbo. Nessa pintura aparecem camponeses, pastores, caçadores, soldados e anjos. Aqui e ali, uma pincelada de branco, o branco de um rosto petrificado, o branco do mármore e dos ossos. Os animais da noite de Trakl são os morcegos, as serpentes, os ratos, as aranhas. A lua vermelha reflete o sol se pondo do outro lado do mundo. Há um canal por onde desce um barco vazio e estrelas que se apagam. Há uma cor de ouro, mas esse ouro não refulge, é a cor de um dia que termina, a cor de uma infância que já vai muito longe. O sentimento da paisagem é de desterro, de orfandade, a solidão do último homem de uma linhagem assombrado pelo vulto dos seus ancestrais. É também um sentimento de filho não-nascido, de inocência arrancada e morta. Então uns olhos se abrem. Os olhos amarelos de Deus. E no meio da noite um salmo se levanta, uma flauta entre os juncos, o matiz de todos esses azuis, lilases, vermelhos e brancos: a cor rosa do rosto de um anjo. Uma poesia que é mistura de grito, sussurro e canto: De Profundis.

 

Georg Trakl viu de frente o sofrimento dos soldados austríacos feridos na batalha de Grodek, na Galícia. Viu a melancolia de um exército quando se desagrega em combates individuais contra a morte. Trakl foi um dos que estiveram nos campos de sangue no início da Primeira Guerra. Tentou o suicídio uma vez e falhou. Não sendo isso tenebroso o bastante, Trakl e sua irmã Gretl eram cocainômanos e amantes. Em novembro de 1914, em sua segunda tentativa, agora com êxito, Georg Trakl morre de uma orvedose. Não se pode dizer que foi um poeta precoce. O que viveu em seus 27 anos muitos não vivem durante a vida toda. Não foi alguém que conheceu a noite, simplesmente. Foi alguém que esteve na noite profunda.

 

 

 

 

 


 

 

Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

publicado por ardotempo às 06:36 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 13.05.11

Será ainda possível sonhar este sonho?

A Europa dos cafés

 

João Ventura

 

 

 

 

 

Primeiro, Viena, essa «estação meteorológica do fim do mundo» - como dizia Karl Kraus -, em cujos cafés os homens sem qualidades – afrontavam a vertigem do vazio da era moderna ou se deixavam ir, contemplativos, em «apocalipse alegre», que era a forma como os austríacos viveram nihilismo de fin de siècle). O Café Central, em cujas mesas, nos começos do século, se refugiava o poeta Peter Altenberg para escrever as suas incendiárias parábolas, os seus breves apontamentos sobre instantes de deslumbramento ou de sombra nos quais a vida revela a sua graça ou o seu vazio.

 

Também aqui se vinha sentar Bronstein, aliás Trotski, que, como conta Claudio Magris, em Danúbio, terá suscitado a seguinte reacção de um ministro austríaco à denuncia de preparativos revolucionários em cursos na Rússia: «E quem fará a revolução, na Rússia? talvez esse senhor Bronstein, que passa todo o dia no Café Central?»

 

Não muito longe de dali, em Zurique, conta Enrique Vila-Matas, outro revolucionário sentava-se, também, à mesa do café. «Na manhã seguinte, nevava em Zurique. Saí do hotel com o chapéu de feltro e o meu guarda-chuva, e fui tomar o pequeno almoço ao velho e famoso Café Odeon, de que sempre se disse que Lenine, assíduo cliente daquele estabelecimento, pôde trocar mais de uma palavra com James Joyce, outro cliente habitual. Ah, o Odeon! Lembrei-me que Mata-Hari tinha ali debutado como bailarina. E a seguir imaginei uma cena impossível, imaginei Lenine a beber um café, enquanto lançava olhares furtivos a um exemplar de Gente de Dublin». Fim de tarde em Zurique, neva lá fora, Lenine, à mesa do café, imaginando uma revolução. James Joyce escrevendo a história moral da Irlanda. Mata-Hari ensaiando os primeiros passos na intriga internacional. A presença invisível, ainda, de Goethe, Hermann Hesse, Thomas Mann.

 

A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kirkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. «Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da ideia de Europa», escreve George Steiner no ensaio A ideia da Europa.

 

A Europa dos cafés, lugar de encontro de poetas, escritores, artistas, filósofos, revolucionários, flâneurs. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Odessa: num café do guetto judeu, Isaac Babel põe em movimento os seus gangsters de papel. Copenhaga: Kierkegaard troca a universidade pelos cafés da cidade e lança as bases do existencialismo. Lisboa: no Martinho da Arcada, Pessoa inventa a mais profunda genealogia da literatura portuguesa. Paris: através dos vidros molhados por uma chuva oblíqua Walter Benjamin observa desde o Café de Flore a coreografia de guarda-chuvas correndo apressados no Boulevard Saint Germain: a modernidade a ser pensada no espaço interior de um café para onde se transporta o mundo exterior. Praga: Kafka conversa com o seu amigo amigo Marx Brod no Café Louvre. Budapeste, Deszó Kosztolányi, no Café Sirius, a pedir tinta para escrever, em vez de um café: «- Garçon – dizia – tinta, s´il vous plaît!». Trieste: Claudio Magris desatando o fio de Aridiane - que é o seu livro Danúbio - no Café San Marco, «um verdadeiro café, situado na periferia da História».

 

Este o primeiro axioma que Steiner convoca para pensar uma Europa, hoje, em perda de identidade. Desapareceram, entretanto, os cafés. Os que sobrevivem já não são habitados pela ideia de infinito, mas antes por uma espécie de melancolia generalizada dos europeus, servindo apenas de espelho retro-reflector de um esplendor apropriado à admiração de turistas nostálgicos, refinados ou fetichistas. «Bruxelas é a capital do vazio», escreve Peter Sloterdijk no livro Se a Europa se levanta. A Europa como «laboratório para a experiência do fim do mundo», conforme uma visão completamente apolítica da existência. Em vez dos cafés, os não-lugares sem alma dos centros comerciais. Em vez da conversa mobilizadora à mesa do café, a delegação política em «expertocratas que gerem as coisas por nós, de modo a realizar o projecto de nos tornarmos os últimos homens», como afirmou Sloterdijk. Permanece válida a pergunta de Czeslaw Milosz: «Estes homens de negócios de olhares nulos e sorrisos atrofiados… É a esta vérmina que chegou uma civilização tão delicada, tão complexa?»

 

Em vez do infinito, o consumismo, como se a Europa tivesse perdido para sempre a sua alma faustiana habitada pela ideia de infinito. Assim como se eclipsaram os cafés da «velha» Europa, também a paixão metafísica se evaporou da nova cartografia espiritual europeia. A literatura já não é a grande máquina da modernidade. Quem são, hoje, os herdeiros da Mitteleurope? Quem transporta o fogo de Thomas Mann e de Robert Musil? Na Inglaterra, os grandes escritores são indianos, sul-africanos, ou emigraram para a América. W. G.Sebald já cá não está. A literatura encontra-se numa encruzilhada. Ou é uma literatura ensimesmada, sobre o nada. Ou reporta-se a inutilidades pós-modernas, a representações de consumo enjoado. Para onde vai a Europa herdeira das duas cidades, Atenas e Jerusalém? «Com a queda do marxismo na tirania bárbara e na nulidade económica, perdeu-se um grande sonho de – como Trotsky proclamou - o homem comum seguir as pisadas de Aristóteles e Goethe».

 

Nesta espécie de laboratório do consumismo em que se transformou a Europa, ainda guardamos algumas referências - «a santidade do pormenor diminuto», dizia William Blake - de que é feita a nossa diversidade. Mas cada vez mais somos turistas de nós próprios, consumidores do efémero, perdidos no labirinto do novo Minotauro. Como olhar, então, o touro sem sucumbir ao fascínio do seu olhar que como um espelho restitui à Europa o seu feitiço, levando-a à perdição? Acredita, apesar de tudo, Steiner que «o sonho pode, e deve ser, sonhado novamente. É, porventura, apenas na Europa que as fundações necessárias de literacia e o sentido da vulnerabilidade trágica da condition humaine poderiam constituir-se como base. É entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e de Jerusalém que poderíamos regressar à convicção» de que ainda é possível enganar o Minotauro e inverter o ardil a favor da Europa.

 

João Ventura - Publicado no blog O Leitor sem qualidades

publicado por ardotempo às 20:38 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 12.05.11

Faças o que fizeres será mal feito

Cartilha maternal

 

António Lobo Antunes

 

A minha mãe tem noventa e três anos, está cega, está surda, é um farrapinho que o menor sopro leva e, no entanto, lembra-se do peso com que os seis filhos nasceram, das peripécias de cada parto, dos primeiros dentes, do momento em que começaram a falar, a andar, a tudo o resto, doenças, operações ao apêndice, gracinhas, e dá-me ideia que os considera, ainda hoje, como as crianças que foram, mascaradas de adultos.

 

Ontem, ao despedir-me dela, beijei-a e a reação foi

 

- Isso é maneira de se dar um beijo?

 

seguida de

 

- Um beijo como deve ser, se fazes favor

 

e lá lhe pus, na bochecha, um beijo como deve ser.

 

E tinha razão porque me limitara a roçar-lhe a testa com a boca. Várias vezes a ouvi perguntar aos meus irmãos

 

- Não sabes dar um beijo como deve ser?

 

de pé, minúscula, mirando as sombras que agora somos para ela e que, mesmo assim, consegue avaliar

 

- Estás mais gordo, estás mais magro

 

com uma exactidão infalível. Passa connosco os jantares de quinta-feira em silêncio, o Pedro grita-lhe na orelha as poucas coisas que lhe dizemos, vive, sem uma queixa, numa solidão absoluta

 

- O que é que faz o dia todo?

 

- Penso

 

às voltas com recordações, memórias.

 

Uma ocasião, ainda o meu pai estava vivo, sentiu-se mal. Formaram-se duas brigadas de filhos, metade permaneceu em casa a acompanhar o meu pai, a outra metade partiu com ela para a Cuf. Sem uma queixa, exigiu, antes de partir, subir ao primeiro andar para se pôr mais bonita: maquilhou-se melhor, penteou-se melhor, apareceu com uma écharpe, um broche e um sorriso

 

- Até logo ou até ao outro mundo

 

e, por acaso, foi até logo. Isto sem alarme, sem pânico, sem patetismo algum: absolutamente tranquila:

 

- Até logo ou até ao outro mundo

 

e que lição de dignidade vinda de uma pessoa que diz ter muito medo da morte.

 

Eu sou o mais velho e, ao nascer, quase a matava de uma eclampsia. Depois de me tirarem a ferros quem ia indo desta para melhor era eu, porque toda a gente, ocupada com a moribunda, se esqueceu de mim. Segundo a lenda familiar foi uma tia velha, uma das primeiras senhoras a matricularem-se em Medicina, quem me descobriu sem respirar. E, não me lembro como, porque a memória dos meus primeiros minutos, ignoro porquê, não é lá muito boa, conseguiram reanimar o crianço.

 

Mas antes disso, quando transportavam a minha mãe para a sala de partos, já com visão dupla e os outros sintomas todos, conta ela que a maca passou pelo meu pai, encostado à parede do corredor.

 

A minha mãe

 

- Eu não te disse que ia morrer?

 

E o meu pai não encontrou melhor resposta do que

 

- E o que é que queres que eu faça?

 

e até ao dia de hoje ela não esqueceu esta frase.

 

Ao falar nisto, muito mais tarde, o meu pai continuava sem lhe entender a indignação

 

- E o que é que tu querias que eu fizesse, realmente?

 

como se continuasse, encostado à parede, a ver passar a mulher moribunda. Aliás a doença e a morte são assuntos a que nos referimos pouco entre nós, o pudor sempre nos impediu a expressão, em voz alta, dos sentimentos mais íntimos, e gostamos uns dos outros sem falar nisso. Sofre-se calado e acompanha-se o sofrimento calado. Em regra tampouco se cumprimenta um de nós pelos seus sucessos ou se critica o que não gostamos: uma espécie de princípio de vasos comunicantes silenciosos chega.

 

Quando de um problema de saúde na tribu, em lugar de soprar fosse o que fosse ao meu irmão que o teve ofereci-lhe um pião e o respectivo cordel, um pião igual àqueles que deitávamos em criança, de pau e com um prego a fazer de bico. Não se calcula a quantidade de emoções que um pião sabe explicar, ou como um pião é capaz de resumir os numerosíssimos afectos de uma vida inteira. O meu irmão percebeu. Eu sabia. E chega.

 

Tenho estado para aqui a escrever sobre a minha mãe e, se calhar, parece que gosto muito dela: não é verdade. A nossa relação é demasiado complexa, como qualquer relação verdadeira, mas não vou, evidentemente, falar disso. E a relação de um homem com os pais foi sempre um assunto penoso, cheio de julgamentos implacáveis, muitas vezes injustos, muitas vezes cruéis, olhando-se mutuamente num rancor de acusados.

 

Quando um amigo de Freud lhe perguntou como educar o filho, Freud respondeu

 

- Faças o que fizeres será mal feito

 

e eis uma verdade do tamanho do mundo, pela qual os pais e os filhos pagam um preço demasiado grande. Um preço insuportável. Não merece a pena andar com paninhos quentes dado que não se pode escapar disto.

 

Recordo-me de uma senhora para o marido

 

- Gostas de mim, Zé?

 

e do marido

 

- Isso são coisas a que não se pode responder de ânimo leve

 

que me dá ideia, embora o senhor, na cabeça dele, estivesse a brincar, que me dá ideia de ser a única resposta honesta possível.

 

A frase

 

- Isso são coisas a que não se pode responder de ânimo leve

 

gira-me há anos e anos, na cabeça, a mim que pertenço à classe dos eternos culpabilizados e questiono sempre tudo. Não me apetece insistir nesta matéria. Primeiro porque dói, segundo porque ninguém tem nada a ver com isso e terceiro porque não se deve pôr um coração debaixo de cada palavra. Os livros que escrevi, o livro que escrevo agora, os livros que, se tiver tempo, escreverei, falam o suficiente de vocês e de mim. A nossa sede de amor é inextinguível. Mas não vou passear pela rua de caneca na mão.

 

 

 

 

 

 

António Lobo Antunes

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publicado por ardotempo às 21:47 | Comentar | Adicionar

Ignácio de Loyola Brandão em Portugal

Não verás país nenhum

 

 

 

 

 

 

Hoje, na Sábado, escrevo sobre Não Verás País Nenhum, do brasileiro Ignácio de Loyola Brandão (n. 1936), ed. Ulisseia; e Correntes do Índico, de Joaquim de Oliveira Ribeiro (n. 1956), ed. Guerra & Paz. Publicado em 1981, traduzido em vários países mas só agora editado em Portugal, Não Verás País Nenhum antecipa o apocalipse ambiental: sobreaquecimento provocado pela destruição da camada de ozono, escassez de água e outros recursos naturais, Amazónia transformada em deserto, necessidade de reciclar a urina (isso ou a sede), Nordeste devastado, pandemias virais, caos urbano, violência, corrupção, seca, desemprego, fome... Notável.

O de Oliveira Ribeiro é uma espécie de Lourenço Marques revisited...

 

Eduardo Pitta - Publicado no blog Da Literatura       

publicado por ardotempo às 14:57 | Comentar | Adicionar
Quarta-feira, 11.05.11

La Hune

 

 

 

 

 

 

 

Pisando em chão mítico - Carregamento de oito livros

publicado por ardotempo às 19:39 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar

13, rue des Beaux Arts

Jorge Luis Borges e Oscar Wilde

 

 

 

 

Neste hotel (L'Hôtel) em Paris, a uma quadra do Sena, moraram em décadas distantes e diferentes, os dois grandes escritores.

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publicado por ardotempo às 07:50 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 10.05.11

Uma aposta valente

 

 

 

A leitura de Don Frutos por Del Rey

 

 

 

Aldyr Garcia Schlee: Don FRUTOS - Romance 

 

José María del Rey Morató

 

El distinguido escritor brasileño publicó este libro en edições ardotempo, Porto  Alegre, 2010. Está ilustrado con dos imágenes del protagonista: una pintura atribuida a Hermann Rudolph Wendroth y una litografía de Risso (“Retrato del Brigadier General Fructuoso Rivera”). Garcia Schlee ha sido profesor universitario en ciencias humanas y literatura. Vencedor dos veces en la Bienal de Literatura Brasileña (1982 y 1984), recibió cuatro veces el Prêmio Açoriano de Literatura (1997, 1998, 2001 y 2010).

 

Este libro es una novela histórica. Esta obra extensa, producto del trabajo de muchos años, recrea la historia con los detalles que permiten presentar una construcción del pasado y su memoria con los mismos derechos que si se tratara de una mera crónica de la realidad en la que se apoya. Porque el autor –a lo largo de sus quinientas once páginas– tanto describe como inventa, tanto habla de aventuras como de recuerdos, tanto relata la historia real como la fama que de ella se deriva y consigue que convivan las cosas de los documentos con las otras que colorean los cuentos.

 

Fructuoso Rivera (Don Frutos) había sido el primer presidente constitucional de Uruguay (1830-1834) y cuatro años después fue el tercero (1838-1842). Más tarde, las vueltas de la política, agitadas por intereses y ambiciones, llevaron a su detención por sus correligionarios (1847). Colocado en un barco fue deportado al Imperio de Brasil, que lo alojó como prisionero en la Fortaleza de Santa Cruz. Ahora, 1853, lo llaman de Montevideo, para que integre un Triunvirato con Venancio Flores y Juan A. Lavalleja. 

 

El autor propone a los lectores compartir la recomposición y reconstrucción de las imágenes prodigiosas de esta historia/ficción.  Es una apuesta valiente. Porque Rivera fue un protagonista de la revolución sudamericana, actuó en los espacios  rioplatenses y del Sur de Brasil durante más de cuarenta años (1811-1854) y en todos lados dejó amigos y adversarios. Con documentos, testimonios, recuerdos y leyendas relativas a Don Frutos pueden llenarse varios cajones: este libro ofrece mucho de todo lo que está documentado, y también de otras imágenes que el tiempo ha visto rodar por ahí y se conservaron de alguna manera.

 

El relato se abre en el invierno de 1853, cuando Don Frutos llega a la localidad de Yaguarão en Rio Grande do Sul. Se describen los detalles de su alojamiento en esa población limítrofe con el Uruguay y se pasa revista a las varias personalidades que se presentan allí, de un modo o de otro, para visitarlo.


Un baúl misterioso se coloca al lado de la cama de Rivera en su alojamiento en Yaguarão: es el que llevó cuando lo deportaron a Rio de Janeiro y ahora viene en su regreso a Montevideo. Ocupa un lugar importante en esta obra: contiene los documentos que Rivera conserva, y a su manera explican todas sus actuaciones públicas. En su habitación de Yaguarão también colocan cierto artefacto, un mueble de madera, que sirve a un médico inglés para observar sus deposiciones y poder seguir la evolución puntual de la mala salud de Rivera.

 

Para que los lectores podamos acompañar mejor la propuesta del autor, cada uno de los capítulos se encabeza con un texto de las coplas de Jorge Manrique (siglo XV) compuestas  a la muerte de su padre, algunas conservadas en versión original, otras adaptadas en parte al caso  de Don Frutos.  En esos versos están la vida y la muerte, el honor y la memoria, el final y la continuidad. La poesía acompaña la narración y aporta unas claves que nos acercan al alma del protagonista y, por cierto, establecen una cierta comprensión entre el lector, el protagonista y el escritor.

 

Haciendo pie en aquellos días de Don Frutos en Yaguarão la novela va para atrás y recuerda: el nacimiento de Fructuoso, su niñez, los amigos, el descubrimiento de la vida en el campo, el ganado, los perros cimarrones, las andanzas de los charrúas, el sobrino Bernabé, la conquista de las Misiones, las cuarenta batallas que dirigió contra españoles, argentinos, portugueses, brasileños, orientales…

 

La novela termina en la crónica de la llegada de los restos mortales de Don Frutos a Montevideo en el verano de 1854: el cortejo, el velatorio, su entierro en la Catedral, la leyenda colocada en el túmulo. En ese punto que cierra la historia de Fructuoso Rivera, el dr. Garcia Schlee pasa en paralelo el último diálogo que pudo haber habido entonces entre Don Frutos y su secretario Pedro Onetti. Hablaban de la vida y la muerte, las batallas, los hijos, la gloria…

 

– Me diga outra cousa, Pedro: quem se lembrará de tudo isto?

 

 


 

José María del Rey Morató

Doctor en Derecho y Ciencias Sociales

Uruguay

Litogravura de Risso (“Retrato del Brigadier General Fructuoso Rivera”)

Publicado por Luiz Carlos Vaz - no blog  Jornalista Vaz

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Duplos

Direção Brasil

 

Enrique Vila-Matas

 

Si bien ya había dado mi versión del extraño suceso de Burdeos, la de Álvaro Enrigue en El Universal, versión que en nada difiere de la mía, viene a confirmar que lo ocurrido, efectivamente, nos dejó a todos atónitos. Hace dos años, hubo un homenaje a Sergio Pitol en la Universidad de Burdeos, y hacia esa ciudad viajamos algunos de los conferenciantes.

 

Nada más llegar, consternados profesores y alumnos nos informaron de que Pitol ni estaba ni se le esperaba en las siguientes horas. Hacía ya dos días que tendría que haber llegado, pero había olvidado el pasaporte en su casa de Xalapa y en DF había tenido que dar vuelta atrás y, en fin, entre una cosa y otra, aún no había cruzado el Atlántico.

 

Álvaro Enrigue cuenta el extraño momento en el que recibimos una llamada en la recepción del hotel: era el secretario de Pitol desde Xalapa, diciendo que el avión del escritor acababa por fin de despegar del aeropuerto de Benito Juárez. Nada más colgar el teléfono, Pitol se asomó por las escaleras y nos pidió ayuda para abrir una maleta. "Nunca supimos", dice Enrigue, "si el Sergio Pitol real fue al que homenajeamos al día siguiente, o el que estaba subido a un avión".

 

Llevo horas volando hacia Brasil. Viajar solo, desoladoramente solo, conduce a la lectura, el sueño o la escritura, también a la locura. De vez en cuando, anoto historias, impresiones, como ahora, cuando ya queda poco para llegar a São Paulo. El recuerdo de aquel Pitol duplicado en Burdeos me remite a veces a La vida privada, relato de Henry James en el que alguien, con la lógica sorpresa, descubre en un hotel suizo que mientras Clare Wawdrey, escritor de éxito, hace vida social y discute brillantemente con otros artistas en el salón del hotel, su "doble" teclea como un loco en su habitación, inmerso en su novela.

 

Si quisiera construir un artículo virtuoso, hablaría ahora de la cantidad de conspiraciones - en forma de conferencias, coloquios, homenajes y presentaciones - que caen sobre algunos literatos asfixiándoles, impidiéndoles dedicarse a su verdadero trabajo, el de gabinete. Y si buscara que el artículo tuviera un matiz más perverso, denunciaría que hay escritores que, asfixiados por tantos compromisos públicos, han tenido a veces que enviar a sus dobles a los "bolos" a los que habían sido invitados.

 

Conozco a más de uno. Por eso de vez en cuando ustedes se encuentran con escritores raros que no saben responder a las preguntas más elementales: cuál es su horario habitual de trabajo, por ejemplo. Absorto en la cuestión de la duplicidad y de los mundos paralelos, miro por la ventanilla y, en lugar de luces brasileñas, me encuentro con la noche cerrada de un planeta ignorado. Después, noto el cansancio del día ya acumulado.

 

En 2666, la novela de Bolaño, encontramos a un Amalfitano que cree (o le gusta creer que cree) que cuando uno está en Barcelona aquellos que "están y son en Buenos Aires o el DF no existen". La diferencia horaria sería solo una máscara de la desaparición. De modo que "si uno viajaba de improviso a ciudades que en teoría no deberían existir o aún no poseían el tiempo apropiado para ponerse en pie y ensamblarse correctamente, se producía el fenómeno conocido como jet lag. No por el cansancio de uno, sino por el de aquellos que en aquel momento, si tú no hubieras viajado, deberían de estar dormidos". Me despido de Amalfitano y busco una trayectoria de fuga de mis propios pensamientos, quizás una vía por la que pudiera pasar como una flecha para desaparecer en el horizonte. Discurrir es como correr, decía Galileo. Quizás hemos ido demasiado deprisa. Rapidez, fulgor del momento, sorpresa en el destello último del aterrizaje. Fin de trayecto. Huiré en todas las direcciones si São Paulo está dormida.

 

Enrique Vila-Matas

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Domingo, 08.05.11

Paris, 8 de maio

 

Macarons Lenôtre

 

 

 

 

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Sábado, 07.05.11

Ternos Pombos

Crepúsculos

 

António Lobo Antunes

 

Noite. No prédio em frente um rapaz diante de um computador, as outras janelas às escuras. Árvores sem folhas ainda, algumas pessoas na esplanada em baixo. Interrompi o livro para escrever isto. Não bem escrever, a caneta anda sozinha. Quais palavras vai ela desenhar neste papel agora? E o livro à espera que eu volte.

 

O que fará a minha mãe neste momento? Deve estar na cadeira do costume, à espera de nada. Que coisas pode esperar ainda? Diz que se lembra da sua vida, ressuscita episódios defuntos, conversa com a parentela dos retratos. Quanto mais infelizes são as pessoas mais medo têm da morte. Mas não serão quase todas mais ou menos infelizes, com uns momentos de alegria aqui e ali?

 

Como é que está? Vou indo não entendo muito bem o que é ir indo, às vezes sublinhado pelo traço vermelho de um suspiro que, quase sempre, antecede o ir indo. Primeiro sublinha-se e depois é que se põe a frase. E há sempre doenças, maçadas, desgraças a contar, que se escutam com gravidade e pena. Entre os tais momentos de alegria existe um que me surpreende especialmente. Costuma chegar com uma satisfação disfarçada Sabes quem está muito mal? e sente-se o prazer de dar notícias dessas, quer dizer qualquer coisa não inteiramente desagradável mora em comunicações desse tipo, antecedidas de uma pausa expressiva e das sobrancelhas circunflexas, embora se repare na luzinha a espreitar por baixo. O Sabes quem está muito mal? continua em regra com Quando me contaram fiquei todo arrepiado ou Quero ver se arranjo tempo para a ver ou Custa-me imenso mas tenho de lá ir ou Ainda há um mês almocei com ela, estava óptima, cheia de planos, e agora, de repente, isto. Não valemos um chavo mas agarram-se ao chavo, trémulos de cagaço Devia fazer exames, eu no pânico de confessar ao doutor Quando respiro parece que tenho vidros moídos aqui com a certeza de que Devem ser nervos tranquilizando-os.

 

O rapaz do computador no prédio em frente levanta-se, desaparece, regressa a subir o fecho da braguilha. Que motivo leva boa parte dos homens a voltarem da casa de banho subindo o fecho da braguilha? Nos urinóis dos aeroportos, por exemplo, a maioria regressa a aperfeiçoar-se nas calças, de saco a tiracolo. Até param para ajustar melhor as saliências, e os primeiros passos são de perna aberta, com um Merda interior porque um pingo na fazenda. Sacode bem insistia a minha avó Sacode bem, menino e não era preciso sacudir se a pila fungasse. O rapaz no computador desceu o estore e perdi-o. Suponho que está a matar monstros num desses jogos utilíssimos que farão dele, em crescendo, Secretário de Estado ou administrador de empresas, duas classes que me fascinam. Os monstros desintegram-se em explosõezinhas amarelas.

 

O meu pai era só médico, o pobre, nunca lhe ouvi a palavra crise. Também nunca lhe ouvi Sabes quem está muito mal? conforme nunca ouvi a nenhuma alma Sabes quem está muito bem? e porque carga de água nunca se diz Sabes quem está muito bem?

 

Árvores sem folhas ainda, algumas pessoas na esplanada em baixo, a fumarem. O homem que ficou tan-tan da guerra em Angola passa por eles aos gritos. De vez em quando dá um soco num caixote do lixo e volta para trás a insultar fantasmas. A minha mãe lá continua decerto, na cadeira, convocando defuntos. A minha avó Vocês matam a vossa mãe com as suas condecorações e os seus santinhos. As condecorações, num armário com portas de vidro, pertenciam ao meu bisavô. Eu gostava especialmente da Torre e Espada, e ela deixava-me abrir o armário e enfeitar-me de medalhas até me tornar uma árvore de Natal heróica.

 

Condecorações portuguesas, inglesas, uma chinesa até, complicadíssima, uma placa de oiro cheia de fios compridos. Às vezes pegava-me na mão à mesa e os seus dedos macios, mas as veias saídas faziam-me impressão. Era muito alta, de olhos azuis, imponente. Em contrapartida o meu avô pequeno, os irmãos dela chamavam-lhe O berloque da Margarida e lembro-me da minha mãe beijá-la quando deixou de respirar. Almoçava aos domingos em sua casa e comia como um alarve. Em adolescente, no que se refere a alarvidades, fui sempre uma competência. Poucas pessoas terão sido, como eu, um virtuoso da estupidez, um talento na asneira. Já esgalhava uns sonetos, bebidos nos poemas de pé quebrado que senhoras, tão prendadas quanto eu, publicavam no Almanaque Bertrand, em edições antes de eu ter nascido. Na base de cada folha havia um pensamento em itálico, com o nome do autor no fim, entre parênteses, pensamentos que eu achava prodígios de lucidez. Decorei vários e tornei-me cultíssimo.

 

Uma ocasião recitei um ao meu pai, que me perguntou se eu não era parvo. Não era: era erudito, condição que, de tão subida, o infeliz não enxergava. Aliás não se erguia além de porcarias rasteiras, Flaubert, Camões, vulgaridades assim, para quem maravilhas como Palram pega e papagaio e cacareja a galinha os ternos pombos arrulham geme a rola inocentinha eram inatingíveis. Nem pus pontuação, de tal modo tanto génio me arrebata. O meu pai detestava os ternos pombos, com o pretexto fútil que lhe sujavam o carro e as cagadelas, além de custarem a sair, manchavam a pintura. Na minha opinião era uma sorte que fossem os ternos pombos a enodoarem o carro. Imaginem só o que aconteceria se as braguilhas dos passageiros do aeroporto pendessem das árvores.

 

 

 

 

 

 

António Lobo Antunes

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Um lugar que se habita

Dia do Silêncio

 

Mariana Ianelli

 

O que quer que justifique a data, é irresistível pensar que esse dia existe desde sempre, que apenas gradativamente foi perdendo espaço, sendo expulso, até resultar numa ilha remota da qual já não se tem notícia, um pedaço de terra aonde agora só se chega, quando se chega, para breves passeios turísticos.

 

Não é o lugar onde alguém fica ruminando uma estratégia, uma jogada de mestre, qualquer coisa bem pensada que vai crescendo, amadurecendo na sombra, não é isso. Nem é uma forma de protesto, um estado de alerta, uma prova declarada de desprezo ou uma divergência tão grande que nada vale a pena ser dito.Não é um minuto de silêncio pelas vítimas de uma chacina.

 

Existe a censura, a veladura, o regime do medo, mas também não é isso, esse túmulo de verdades escondidas onde o que fecha a boca é a impotência, a humilhação ou a cumplicidade num crime. Tudo isso existe dentro de limites bem conhecidos e forma só uma casca de silêncio. Por baixo e ao redor dessa casca continua o mesmo barulho, o mesmo trabalho de colmeia, um mundo de insatisfações, de intenções e de interesses confundidos.

 

O silêncio que ficou difícil, que foi aos poucos se afastando e se perdendo é outro. Não quer significar nada, não sente falta de nada. Não tem o que esconder nem o que reprimir. É quando tudo repousa por dentro. Um horizonte tranquilo, exato, completo. Nenhuma rajada de vento, nem mau pressentimento, nenhum desejo de estar em outra parte. É um chão de pedra com silêncio de pedra. A coisa mais simples. Uma paragem. Um lugar que se habita.

 

Lembrando Ernesto Sabato falecido na madrugada do dia 30/04, último sábado:

 

A dois meses de seu centenário, Sabato encetou viagem para outros séculos. Porque lhe parecia triste morrer, foi mais além: tornou-se o anfitrião de uma outra realidade. Penetrou na noite definitiva, como fazem aqueles que de um sonho não voltam mais. Agora podem esses dois grandes amigos, Borges e Sabato, retomar sua conversa e devanear sobre a vida como antes devaneavam sobre a eternidade.

 

Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

publicado por ardotempo às 07:21 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 06.05.11

Uma Viagem à Índia

 

À procura do Espírito

 

Mariana Ianelli

 

Quando Odysseus Elytis publicou seu longo poema Axíon Estí (Louvado Seja), em 1959, seu nome começou a popularizar-se na Grécia, alcançando reconhecimento internacional pouco tempo depois, com a versão musicada por Míkis Theodorákis, um espetáculo de canto e orquestra capaz do prodígio de comover multidões. Elytis acreditava ser possível um poeta moderno beber da tradição e, partindo de novas condicionantes, “conseguir erguer mais uma vez um edifício sólido”.

 

Foi assim que, de uma visão da Natureza, da História, das Leis e do Destino surgiu o longo poema de um homem sozinho em um mundo que, apesar do que foi feito dele, ainda é um mundo digno de louvor. Passado mais de meio século, surge Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares. À primeira vista, surpreende a criação de uma epopeia em pleno século 21. Sem dúvida existe aí uma obra invulgar e portentosa, porém se trata de um portento no âmbito da linguagem.

 

História, Natureza, Destino participam desse longo poema, mas já não promovem uma conversão positiva nem ascendem à dimensão de um canto congraçador, como é o caso do poema de Odysseus Elytis. Nessa epopeia de um único homem à procura do Espírito, toda a viagem se passa em uma jornada do pensamento atravessada por sensações, intuições e, sobretudo, pelo sopro desmistificador da ironia.

 

Dentro do rol das grandes aventuras literárias que pensam a própria linguagem, Uma Viagem à Índia se destaca como uma exuberante reflexão sobre questões de poética em um século versado em tecnologia, no individualismo e no aviltamento das relações humanas convertidas em transações comerciais. Com uma vasta obra que passeia pelos mais diversos gêneros, do teatro ao romance, do ensaio à poesia, Gonçalo M. Tavares é dono de uma vitalidade criadora que particulariza sua voz no campo da metaficção contemporânea, o que se faz notar pela copiosa lista de prêmios nacionais e internacionais que seus livros acumulam, o mais recente deles, Prêmio de Melhor Livro de Ficção Narrativa, da Sociedade Portuguesa de Autores, concedido a Uma Viagem à Índia. Embora circunscrito nos domínios da ficção narrativa, esse poema em dez cantos de Gonçalo se apresenta como o lugar para onde convergem e onde se adensam os temas e caracteres dos personagens literários que desde há muito lhe são caros, mas não apenas isso, senão que neste lugar de convergência dos aspectos fundamentais de sua obra o autor exercita longamente sua ética de admirar o mundo, uma disciplina da atenção que direciona seu olhar e esculpe a matéria deste e de outros poemas anteriores de sua trajetória.

 

Pelo menos três forças podem ser identificadas na arquitetura dessa epopeia. A primeira delas vem da série O Bairro, um segmento da obra de Gonçalo que reúne personagens da literatura e da filosofia ficcionalizados pelo autor. A ideia de escritores que se aproximam por habitarem o mesmo bairro intelectual, como Borges uma vez definiu seu parentesco com o escritor Ernesto Sabato, é uma ideia evidente na configuração do bairro literário de Gonçalo. Ali habitam inúmeros personagens, entre eles, Sr. Valéry, Sr. Cortázar, Sr. Borges, Sr. Calvino, Sr. Juarroz, Sr. Brecht, Sr. Eliot, Sr. Breton. Os traços definidores da personalidade de cada um deles e do modo como observam o mundo e a si mesmos parecem se valer do esboço da mesma “Quimera da mitologia intelectual” que inspirou Paul Valéry a criar seu Monsieur Teste. Também compõe tais personagens uma atmosfera lúdica e afetiva como a que envolve os cronópios e famas de Cortázar.

 

Em Uma Viagem à Índia, aquele que viaja para arejar o seu caminho e para ler nas variações da paisagem diferenças de linguagem, aquele que se move dentro da epopeia de cada dia em meio a elaborações teóricas, pressentimentos e vontades, chama-se Bloom. Esta é a criatura literária que empreende a longa odisseia interior do homem contemporâneo do Ocidente ao Oriente, transpondo, em suas deambulações mentais, fronteiras entre o desejável e a realidade. Em Bloom se concentra e explode em ação a energia que alimenta as especulações dos personagens da série O Bairro: os exercícios de atenção do Sr. Calvino, a originalidade dos raciocínios do Sr. Juarroz, os princípios de lógica do Sr. Valéry, as elucubrações do Sr. Eliot em suas conferências sobre poesia. A fonte dessa energia mental que entretém os habitantes do bairro de Gonçalo e que impele o herói de sua epopeia a se deslocar pelo mundo é uma segunda matemática, “a que se perdeu nos tempos”, como diz o Sr. Henri, a matemática “que deu origem, por caminhos e subcaminhos, à poesia”.

 

Pois é esta secreta inteligência, de uma matemática que pode já ter existido e ter sido subjugada pela força, derrotada em uma batalha arcana entre dois povos, é esta lógica sensível enquanto modo de perceber a realidade e de agir sobre ela que Gonçalo põe em prática na jornada de Bloom. “Se a álgebra é uma religião rigorosa, / a poesia será uma religião excessiva, religião entre / a embriaguez e um espaço onde / as mais belas músicas descansam/ antes de novamente conquistarem o ar.” (Canto II). Com essa embriaguez e um olhar ciente de imprevisibilidades, Bloom sai em busca de “uma alegria espiritual mas que exista”, pois aí está o propósito de sua viagem à Índia: a busca de um sistema poético de pensamento que possa converter-se não somente em lucidez mas também em júbilo, tal como o absinto para o Sr. Henri erige sua “teoria sobre o mundo”. Bloom é um especialista na “ciência das investigações privadas; a ciência em que um homem se experimenta”. Bloom sabe que “o tempo tornou-se material” e agora “exige atos e experiência”. Por isso Bloom é um homem que decide, um corpo em excitação constante, que se desloca e utiliza sua energia tanto para a guerra como para o amor.

 

A busca pelo Espírito que move esse personagem desassossegado e reflexivo a partir da velha Europa até a Índia das águas sagradas é uma problemática da poética dos novos tempos em que “as palavras exigem apoios místicos mas que estejam no chão como sapatos”; é também uma problemática para a estética de uma época em que “os homens são gênios do bem para o ouro, gênios do mal para a paisagem”; e ainda uma problemática para a língua de um país “que já nem se preocupa se fabrica ou não poetas”; todas elas questões que se colocam como tarefa para o pensamento em um século que descende do progresso tecnológico que viabilizou as grandes fábricas da morte e que portanto já não tolera sutilezas nem palavras delicadas. Uma segunda força na elaboração dessa epopeia, que compõe o cenário de peripécias vividas pelo herói, é o que reúne na Tetratologia de Gonçalo os romances Um homem: Klaus Klump, A máquina de Joseph Walser, Jerusalém e Aprender a rezar na era da técnica: o problema do mal.

 

A galeria de assassinos, prostitutas e miseráveis que nesses romances colabora para a criação de uma atmosfera verdadeiramente sombria, em Uma Viagem à Índia funciona como uma emanação dos pressentimentos de Bloom, configurações de uma realidade perversa sobre a qual o personagem medita enquanto viaja. Bloom vem, ele mesmo, de um passado violento e em sua viagem espera encontrar, além de sabedoria, esquecimento. Bloom sabe que “nem um segundo separa a educação da barbárie”, que “só não se mata por acasos do caminho” e que “não se enterra a maldade, / ela é apenas interrompida”.

 

Lenz, personagem de Aprender a rezar na era da técnica, vê uma maldade subterrânea na natureza, que está crescendo e um dia se tornará o grande inimigo do homem. Bloom sabe que “há uma guerra bem mais forte e bem mais alta, / porém os generais ainda não perceberam”, e essa guerra será contra a Natureza. O personagem Busbeck, de Jerusalém, empenha-se em construir um gráfico do horror na História, uma espécie de eletrocardiograma da maldade humana. Bloom, por sua vez, procura fazer do sofrimento um sistema e tem sua viagem mapeada em um plano cartesiano de ações, intenções e sentimentos que resultam em um itinerário da melancolia contemporânea. O personagem Klober, de A máquina de Joseph Walser, acredita que “o ódio é a grande marca do Homem”, e que em breve esta será a única razão para que dois corpos se aproximem. Para Bloom, o ódio entre os homens é uma lei da natureza e, se ainda lhe resta uma certeza, é a de que ninguém se aproximará dele para abraçá-lo. Em Um homem: Klaus Klump, o protagonista não sabe se voltará para casa com os dois braços com que saiu. Bloom, por sua vez, sabe que “estamos vivos, levantamos a cabeça: cortam-nos a cabeça”.

 

Percorrendo este mundo decomposto pela mesquinhez humana e pela crueldade, buscando espaço para o otimismo, dispondo de uma coragem tanto capaz de matar como de salvar e construir, o herói de Uma Viagem à Índia parece imbuído da determinação de esquecer não apenas o seu passado, mas “todo este atoleiro para se chegar a ser um homem e não uma máquina de incubar o ódio”, estas que são palavras de Albert Camus dedicadas ao poeta Alexandre Blok.

 

Eis aí a terceira força na epopeia de Gonçalo: a poesia propriamente dita, o amor enquanto sentimento central, a música que vem dos números, uma alegria que não tem preço no mercado das coisas consumíveis, a grande alegria que sustenta uma montanha e que se pode chamar de alma, as mensagens dos sonhos, mais próximas da verdade que da ciência, a crença no espírito: este é o país que o herói de Gonçalo procura. Energia e Ética, poema de uma coletânea do autor já publicada no Brasil em 2005, intitulada 1, serve como síntese da ação poética de Bloom em sua jornada: “qualquer pessoa dar um passo que seja / em direção ao que não aprecia, para insultar ou derrubar, / parece-me brutal perda de tempo, uma falha grave / no órgão de admirar o mundo”. É assim que, pouco antes de chegar à Índia, Bloom decide admirar.

 

Depois de sobreviver à maldade dos homens e da natureza, depois de ter aprendido com o sofrimento, Bloom dirige sua energia para a admiração e a paciência. Porque apesar de o mundo ter perdido o Espírito, Bloom não perdeu o espírito: “O estômago existe, e tem fome./ (...) / Mas o espírito também existe, e tem fome”. Porque apesar de trazer consigo um inferno, Bloom também traz o indispensável para a alegria. Porque “os milagres recolheram há muito às cavalariças”, no entanto, “não é por ter entrado no século XXI que a alma perdeu a atualidade”.

 

A procura pela sabedoria de um país sagrado aqui se traduz na investigação de uma potência poética que seja realizável neste novo século, que possa salvar da bestialidade o homem contemporâneo, elevá-lo a um estado de atenção e a uma vontade de edificar, não pela força mas por uma “claridade súbita”, um discurso mágico enquanto experiência, uma experiência que exceda os domínios do literário. Sucede que, de seu longo périplo, o herói da epopeia de Gonçalo regressa desiludido. A possibilidade de iluminação permanece em estado de linguagem, simbolizada na edição rara do Mahabarata que Bloom carrega em sua mala. A derradeira estação desse itinerário da melancolia contemporânea não é sabedoria nem música, mas tédio.

 

Curiosamente, o ano de 2003, data em que se passa a narrativa da epopeia, marca também o ano de estreia de Um Filme Falado, de Manoel de Oliveira, uma espécie de documentário ficcional sobre uma professora de História e sua filha, que partem de Portugal até a Índia, refazendo nesse percurso o mesmo trajeto realizado por Vasco da Gama no século 15. E o que triunfa dessa visitação à memória de antigas civilizações, o que resta, ao final do filme, de toda essa aprendizagem minuciosa do olhar, que se detém com mesma surpresa sobre o mundo de ontem e o mundo de hoje, é a barbárie, a destruição, o terrorismo.

 

Fica, pois, como tarefa para depois dessa viagem histórica – uma viagem que, nessa epopeia, tal como em Os Lusíadas, invoca o auxílio das ninfas e das musas, sendo portanto uma jornada pela história da linguagem, entre outros pilares (ou ruínas) da civilização –, fica como tarefa, para além da literatura, repensar o que pode um poema quando libera sua energia e fortalece a vontade humana. Afinal, como declarava Odysseus Elytis em seu discurso na entrega do Prêmio Nobel, em 1979, “se a poesia contém uma garantia, e isto nestes tempos sombrios, é precisamente esta: que o nosso destino, apesar de tudo, está nas nossas mãos”.

 

Mariana Ianelli - Publicado no Rascunho

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Quarta-feira, 04.05.11

Um museu para o Pampa

Jaguarão é nossa

 

Andrey Rosenthal Schlee - Arquiteto e paisagista

 

O conjunto histórico e paisagístico de Jaguarão e a Ponte Internacional Mauá foram considerados patrimônio do povo brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em reunião realizada hoje, dia 3 de maio de 2011, em Brasília.

 

O parecer favorável ao tombamento foi elaborado e lido pelo conselheiro Luís Phelipe Andres e, ao longo de suas vinte páginas, lembrou daqueles que, ao longo de muitos anos, lutaram pela preservação da cidade (desde o velho “Projeto Jaguar", da década de 80). Mas o momento mais emocionante da reunião foi a homenagem ao jaguarense Aldyr Garcia Schlee e a finalização do parecer com a seguinte citação:

 

"...O Cerro está aqui, alçado sobre suas entranhas de pedras pretas, que uma vez lhe foram arrancadas para calçar a cidade e outra vez foram tiradas das ruas para evitar que o barulho das rodas dos carros perturbassem a pacata vida de ilustres moradores. Sobre o Cerro, além da pedreira velha, está a velha Enfermaria, construída entre 1880 e 1883, e que esteve destinada a atender militares enfermos até transformar-se numa espantosa ruína a se impor na paisagem, desafiando nos seus inquietantes vazios e nos seus imponderáveis desabados nossa memória e nossa imaginação.

 

 

 

A Enfermaria, com os desolados restos de uma fachada de dez janelões e de uma imponente portada central, cercada pelo mistério e pela magia que sua imagem e sua história impõem, como sentinela avançada do pampa – que nunca deixou de ser – depois de injustificáveis anos e anos de abandono, descaso e incúria, está destinada agora a recolher e a difundir nossa memória e nossa imaginação, sendo delas depositária, ao transformar-se num Museu – um novo e renovado, um vivo e revivido, um atual e atualizado, um ativo e atuante museu: o Museu do Pampa. Esse Museu transformará as ruínas da Enfermaria num apropriado lugar de reflexão sobre o pampa – esse mítico espaço onde povos de pastores campeiros desenvolveram sua centenária cultura comum, ligada originalmente à captura e depois à criação extensiva de gado, e que foi traduzida e amalgamada na figura supranacional do gaúcho." .

 

Publicado no blog Bipolar Flexível

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Terça-feira, 03.05.11

Normandia

 

 

Exposição de Fotografias em Barneville-Carteret

 

CAMISA BRASILEIRA

Fotografias de Gilberto Perin

 

Bastidores do futebol - Vestiários e os segredos do futebol que ninguém vê

 

Hôtel des Isles - 9 boulevard Maritime

Normandia França

 

Dia 6 de maio de 2011

 

 

 

 

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Domingo, 01.05.11

Ecos e fantasmas da mina de sal

Todos contra os Wildenstein

 

Era un apacible día de enero, cuando los investigadores de la policía francesa entraron a empellones en uno de los lugares más refinados del refinado mundo del arte en París. Venían a examinar la impresionante colección del Instituto Wildenstein. Pese al enorme revuelo causado en la habitualmente apacible orilla derecha del Sena, aquella no era la primera vez. Al final de aquella, la tercera redada, la policía se incautó de una ingente cantidad de obras, entre dibujos de Degas, una escultura de Rembrandt Bugatti o un cuadro impresionista de Berthe Morisot. Todas ellas figuraban en listas de piezas cuyo extravío o robo había sido denunciado por familias judías saqueadas por los nazis o por herederos convencidos de que sus tesoros habían desaparecido durante la resolución de las herencias de sus familias. Aquella incautación centró todas las miradas en la familia Wildenstein, discreta dinastía de marchantes judíos franceses durante más de cinco generaciones y cuyo nombre contaba entre los más prestigiosos en el mundo del arte internacional.

 

En el centro del maëlstrom de problemas se halla Guy, de 65 años, presidente de Wildenstein & Company, negocio repartido entre Nueva York, Tokio y París. Esta no es la primera vez que la familia se ve envuelta en controversias o demandas judiciales, pero nunca en la cantidad o la magnitud de las que ahora penden sobre ella.

 

Wildenstein fue citado esta semana en París para enfrentarse a un interrogatorio conducido por los policías antifraude franceses, que descubrieron las obras de arte mientras investigaban acusaciones por presunto lavado de dinero y evasión de impuestos presentadas contra él. También busca respuestas la Academia de Bellas Artes, una prestigiosa sociedad cultural francesa que ha interpuesto una demanda judicial para solicitar una investigación sobre un cuadro de Morisot desaparecido de la Academia, de la que el padre de Wildenstein, Daniel, y su abuelo Georges, eran miembros. En febrero Guy Wildenstein declaró en la revista francesa Le Point que la presencia del cuadro de Morisot en la cámara acorazada del Instituto Wildenstein podría haber sido "fruto de un error o de un descuido".

 

Las hostilidades comenzaron en París en septiembre, tras una demanda de la madrastra de Guy, Sylvia Roth Wildenstein. Antes de morir, disparó un último cartucho para obtener lo que consideraba suyo: una mayor participación de la herencia del patrimonio de su marido, Daniel Wildenstein, fallecido en 2001. Ella acusaba a Guy Wildenstein de evasión de impuestos y de lavado de dinero para ocultar el tamaño de la fortuna familiar, poniendo la propiedad de valiosas obras a nombre de fondos anónimos en las Bahamas o almacenando arte en una cámara acorazada en Ginebra fuera del alcance de las autoridades. Cuando la galería Wildenstein, hoy organización sin ánimo de lucro que realiza investigaciones artísticas, abrió en 1875 su primera sucursal en París, se labró rápidamente una reputación por vender cuadros de grandes maestros, esculturas francesas del siglo XVIII, y obras impresionistas y posimpresionistas. Sus prácticas empresariales han sido duramente cuestionadas varias veces desde entonces.

 

Después de la II Guerra Mundial, la familia reanudó la actividad de la galería en Francia, pero la interrumpió a principios de la década de los sesenta, después de que André Malraux, ministro francés de Cultura, acusara a Georges Wildenstein de sobornar a un funcionario para que permitiera la exportación de un cuadro de Georges de La Tour. Nunca se presentaron cargos. La reputación de la familia volvió a estar en entredicho en los noventa, cuando el escritor Hector Feliciano publicó The lost museum: the nazi conspiracy to steal the world's greatest works of art [El museo perdido: La conspiración nazi para robar las mayores obras de arte del mundo].

 

 

 

 

 En él se aseguraba que durante la II Guerra Mundial, Georges Wildenstein trabajó con un influyente marchante nazi, Karl Haberstock, que compraba y vendía obras de arte robadas a los judíos. Guy Wildenstein y otros miembros de la familia rechazaron enérgicamente los cargos e interpusieron contra Feliciano una demanda por difamación, finalmente infructuosa, en el tribunal supremo francés.

 

La última crisis de los Wildenstein empezó el pasado otoño cuando la madrastra de Guy, que sufría un cáncer de ovarios terminal, estaba a punto de morir. Ciudadana estadounidense nacida en Ucrania, conoció a Daniel Wildenstein en 1964 y estuvo casada con él 23 años. Quince días después del funeral de su marido en 2001, declaró en los juicios contra Guy y su hermano Alec que la habían convencido de que Daniel había muerto en la ruina y que se enfrentaba a unos impuestos onerosos, lo que la llevó a aceptar la renuncia de sus derechos sucesorios a cambio de un apartamento y de unos ingresos anuales de 400.000 euros. En 2005, los tribunales franceses restablecieron sus derechos como heredera en una decisión mordaz. También ordenaron a sus hijastros que le pagaran 20 millones de euros como adelanto de una fortuna que según diversos cálculos varía entre los 43 y los 4.000 millones de euros. La señora Wildenstein dejó instrucciones específicas en su testamento para seguir con la batalla más allá de la tumba. También Yves Rouart, el sobrino y heredero de la coleccionista de arte Anne-Marie Rouart, lleva años luchando en los tribunales franceses para que los Wildenstein devuelvan las obras de arte de la colección de su tía, fallecida en 1993. Ella donó una parte de su colección y de sus propiedades a la Academia de Bellas Artes, siguiendo el consejo de Daniel Wildenstein, pero dejó su apartamento de lujo en Neuilly-sur-Seine, con sus muebles incluidos, a Yves Rouart.

 

La cruzada judicial de este empezó tras descubrir que durante la resolución de la herencia habían desaparecido de las paredes hasta 40 cuadros - entre los que se incluyen obras de Degas, Manet y el cuadro de Morisot de la casita de campo normanda -. Guy Wildenstein fue uno de los dos albaceas. Veinticuatro de esas obras de arte, con un corot entre ellas, aparecieron en Suiza en 1997 en una cámara acorazada alquilada por François Daulte, experto en impresionismo y padre de Olivier Daulte, el otro albacea. En la redada de enero en el Instituto Wildenstein, otro cuadro perdido de Morisot fue descubierto por la policía, que avisó a Rouart. Este ha interpuesto una nueva denuncia, mientras se trata de determinar cómo llegó el cuadro a estar en el Instituto Wildenstein. La Academia ha interpuesto una denuncia similar en relación con el cuadro de la casita de campo de Morisot en la que también afirma que tiene interés debido a la donación de la señora Rouart.

 

Publicado em El País

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