Sexta-feira, 18.02.11

Museu do Pampa - Jaguarão

Sobre o Museu do Pampa - Centro de Interpretação do Pampa, em Jaguarão


O novo museu brasileiro

 

Entrevista: Marcelo Ferraz


Diferente dos museus tradicionais que reúnem objetos e riquezas datadas, para contar ao visitante parte da uma história, os contemporâneos – campo de intenso trabalho do escritório Brasil Arquitetura, de Marcelo Ferraz e Francisco Fanucci – são dinâmicos ao tratar de temas muitas vezes abstratos, outras não. “Os novos museus assumem o papel de contar histórias entrecortadas, entrelaçadas, mas não pretendem ser abrangentes”, diz Ferraz.


Polos culturais de forte atração de público utilizam linguagens que falam mais de perto às pessoas, como a do cinema, da música e a tecnologia multimídia. Nesta entrevista ao AECweb (Portal Arquitetura, Engenharia e Construção), o arquiteto dá detalhes de cada um dos seis projetos de museus, assinados pelo escritório, em fase de construção ou de licitação de obras.


AECweb – Quais são os seis projetos?


Ferraz - Estamos fazendo, neste momento, seis museus entre os que estão com obras já licitadas e os que acabamos de entregar. São eles: Museu do Pampa (RS); Museu do Trabalho e do Trabalhador (SP); Museu Nacional da Cana de Açúcar (SP); Museu Cais do Sertão – Gonzaga (PE); Museu do Vinho (RS); e Centro de Referência e Memória de Igatu.


AECweb – Como tudo isso começou?


Ferraz - Esse processo começou com o projeto do Museu Rodin Bahia, em Salvador, corresponde do Museu Rodin, de Paris, projeto de grande sucesso. Veio, em seguida, o Museu do Pão, construído em Ilópolis, cidadezinha na serra gaúcha. Esse projeto foi muito premiado nacional e internacionalmente, inclusive com o premio Rino Levi, a homenagem máxima do IAB – Instituto de Arquitetos do Brasil -, e publicado em mais de 15 revistas no exterior. Fomos, então convidados para fazer o Museu do Pampa, em Jaguarão, na fronteira com o Uruguai, com 2,5 mil m². As obras estão sendo iniciadas com verba do Ministério da Cultura e Universidade do Pampa, através do Ministério da Educação.


AECweb – Do que trata o museu?


Ferraz - Começa que essa é uma cidade linda, que está sendo tombada pelo IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - com 800 imóveis classificados. Diferente dos museus tradicionais, a idéia é que seja um centro de interpretação do pampa, ou seja, é o pampa concentrado, do bioma à história, suas guerras e lutas de fronteira, passando pela visão antropológica da formação do gaúcho – música, literatura, dança. Apesar de menor em dimensões, ele segue o conceito do Museu da Língua Portuguesa, inclusive seu conteúdo está sendo preparado pelos mesmos profissionais que fizeram o do museu paulistano.


AECweb – O Museu do Trabalho veio depois?


Ferraz - Por encomenda do presidente Lula, fizemos o projeto do Museu do Trabalho e do Trabalhador, a ser construído no terreno do antigo mercado municipal, no centro de São Bernardo do Campo, ao lado da prefeitura. Importante: as obras, num total de 6 mil m², estão sendo licitadas neste momento e serão pagas através de convênio entre a prefeitura da cidade e o Ministério da Cultura. Nesse museu, vamos tratar do trabalho do homem numa dimensão ampla, com foco na região do ABC. Ele poderia estar em qualquer lugar do mundo, mas está em São Bernardo – cidade ícone do trabalho. Porém, não será o memorial do metalúrgico.


AECweb – O presidente Lula fez outra encomenda...


Ferraz - Sim, o presidente Lula nos pediu o projeto para o Museu Luiz Gonzaga, no marco zero de Recife, onde nasceu a cidade, com 7,5 mil m². A verba é do Ministério da Cultura e do governo de Pernambuco – o presidente saiu, mas tem dinheiro para tocar a obra. Em 13 de dezembro de 2012 é o centenário de Gonzaga, portanto, será fundamental inaugurar o museu em sua homenagem. A reforma em curso naquela região da cidade levará o porto para fora dali e os antigos armazéns serão requalificados – transformados em shopping centers e edifícios públicos. Em nossas mãos, o projeto transcendeu a proposta original de um memorial a Luiz Gonzaga, passando a ser o museu do sertão, por isso o nome ‘Cais do Sertão – Gonzaga’. É o sertão que chegou na beira da água. O conteúdo, ciceroneado por Luiz Gonzaga, é uma imersão no universo do sertão: a seca, a natureza, a tradição e a cultura, o imaginário do homem da caatinga. O visitante sai dessa imersão para entrar em contato com a discografia e o acervo do músico.


AECweb – O projeto do Museu do Vinho é ousado do ponto de vista construtivo?


Ferraz - O Museu do Vinho, em Bento Gonçalves, inclui a construção da fábrica de vinhos da Casa Valduga enterrada, em solo de rocha (basalto). Vamos cavar os dois subsolos e usar essas pedras na construção do museu, que ‘abraçam’ dois pavimentos sobre pilotis – área envidraçada, de onde se vê os parreirais. Na parte superior, uma caixa cega de concreto avermelhado é o ambiente mais introspectivo do museu, que receberá tecnologia de ponta para expor o conteúdo multimídia, que vai permitir ao visitante sentir o sabor e o cheiro do vinho. O museu será totalmente integrado à fábrica, tanto que o visitante poderá passear pelo subsolo para conhecer como é feita a fabricação do vinho.

 

 

Museu do Vinho - Bento Gonçalves - RS

 


AECweb – Cana de açúcar e diamante são os temas dos outros dois museus?


Ferraz - Sim. No caso do Museu Nacional da Cana de Açúcar, em Sertãozinho, ainda em fase de captação de recursos pela fundação que o criou, a proposta é ocupar um engenho abandonado do século 19, belíssimo. Já o Centro de Referência e Memória de Igatu, distrito do município de Andaraí, no sertão da Bahia, perto da Chapada Diamantina, o museu será erguido numa região belíssima, com cerca de 500 m², em meio a uma área abandonada de garimpo de diamantes. Ali vai ser contada essa que é uma história muito bonita, mas que entrou em decadência nos anos 40. O lugar, de uma paisagem incrível, é uma APA – Área de Proteção Ambiental. Sua história forte deixou marcas, basta dizer que ali viveram até 9 mil habitantes e hoje restam somente 380.


AECweb - Tem um fio que liga esses museus?


Ferraz - O fio é a nossa abordagem, a nossa maneira de fazer arquitetura. É também a nossa forma de olhar para cada lugar, fazendo com que o lugar se revele. No museu Luiz Gonzaga, por exemplo, tem um galpão antigo de 2 mil m² e uma construção nova de 5 mil m². Esse prédio novo é todo revestido com cobogó de concreto, em dimensões gigantescas, que obedece ao desenho que criamos, reproduzindo a galhada da caatinga. Remete ao homem que corre a cavalo na caatinga, vendo tudo filtrado pelos galhos secos. O cobogó vai ser todo branco, lembrando uma renda, e tem a função objetiva na arquitetura de filtro de luz. Já no Museu do Pampa, onde estamos usando um edifício de mais de cem anos, que foi a enfermaria da Guerra do Paraguai, a linguagem é outra, porque o clima é frio. É mais introspectiva, tem o lugar da fogueira, é fechado com vidros. Assim, cada projeto tem uma linguagem própria que fala do lugar através dos materiais. O que une esses projetos é a nossa linguagem arquitetônica sempre racionalista, econômica, sintética – sem excesso de material ou detalhes, limpa, com muita linha reta – dentro da visão de que a arquitetura carrega em si um conceito de economia.


AECweb - O que os projetos incorporam de tecnologias sustentáveis?


Ferraz - A sustentabilidade é própria da boa arquitetura, mas que agora vira lei. A casa do meu pai, que projetei há 33 anos, já fiz com água na cobertura: é um técnica conhecida, ou seja, três horas depois da laje concretada, sem qualquer impermeabilização, se enche com água que fecha todos os capilares. O concreto é curado com a própria água. Depois, é só colocar os peixes e uma bóia para controlar o nível d’água. Fiz o mesmo na minha casa e em nenhuma delas apareceu qualquer vazamento. Esse processo resulta num ótimo conforto térmico, assim como os terraços-jardins na cobertura.


AECweb - Tem algum sistema construtivo da sua preferência?


Ferraz -Trabalhamos muito com concreto, mas usamos também estruturas metálicas e alvenaria estrutural. O problema é que o Brasil tem farta produção de minério de ferro, mas não há um parque industrial que ofereça para a construção civil uma ampla gama de peças metálicas como ocorre na Inglaterra, em que se escolhe pelo catálogo. Projetamos a estação rodoviária de Santo André e sua estrutura metálica exigiu que desenhássemos cada peça. É uma pena porque essa solução passa a ser mais cara do que o sistema em concreto. O concreto é ótimo para se trabalhar, é maleável, plástico.


Redação AECweb / Arquiteto Marcelo Ferraz - Portal Arquitetura, Engenharia e Construção

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Quinta-feira, 17.02.11

Ai Weiwei - mais uma montanha na Arte Contemporânea

 

4 euros por semente de porcelana decorada


Uma montanha de sementes de girassol (em porcelana pintada a mão), com cerca de uma tonelada de peso, vai para a casa de um colecionador.

Montanhas de alguma coisa: sementes, pedras, carvão, sapatos, fraldas, cinzeiros, já são uma fórmula clássica na arte contemporânea

 


 

 


El artista chino Ai Weiwei vende 100.000 pipas de girasol por más de medio millón de dólares

 

¿Qué se puede hacer con una montaña de 100.000 pipas de girasol? Salvo que se tenga un salón del tamaño de la sala de turbinas de la Tate Modern de Londres, es complicado gestionar semejante despliegue de casi una tonelada de peso.


El artista chino Ai Weiwei sabe bien de los problemas que puede acarrear algo, en principio, tan inofensivo. El pasado mes de octubre Weiwei desparramó 100 millones de pipas precisamente para alfombrar el suelo de la sala de Turbinas de la Tate en una de las llamativas instalaciones -se puede ver hasta el próximo mayo- que ya son marca de la casa del museo de arte contemporáneo por excelencia en el Reino Unido.


Para conseguir tal prodigio, necesitó de un ejército de 1.600 artesanos que decoraron una a una las semillas fabricadas en porcelana y que crujen bajo las pisadas de los visitantes.


El museo, muy dado a la interacción de sus clientes con las obras, instaba al público a pasearse sobre el tapiz de pipas de pega para disfrutar de la inquietante sensación bajo los pies y a toquetearlas para comprobar la calidad de la obra. Sin embargo, las pipas escondían contraindicaciones: la pintura utilizada para decorarlas tiene una alta concentración de plomo y la fricción de unas con otras ocasiona un nivel exagerado de polvo de cerámica perjudicial para la salud. Así que la instalación ha sido acordonada y la interacción prohibida.


La sorprendente obra ha sido capaz de sobreponerse a todos estos inconvenientes. Weiwei realizó 10 ediciones de la obra, en formato pequeño (sólo 100.000 pipas), y la casa de subastas Sotheby's acaba de vender una de ellas por algo más de medio millón de dólares (413.728 euros). Fueron cuatro los postores que pujaron por la montaña de pipas y, finalmente, el comprador telefónico desembolsó según los cálculos de la casa de subastas, unos 5,60 dólares (4.14 euros) por cada una de las pipas.

 

Publicado em El País

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Quarta-feira, 16.02.11

Arte ainda que tarde

Isso não é arte, isso é arte

 

Alguns anos atrás, fui visitar um Museu de Arte Contemporânea, recém inaugurado, na região da Bretanha, na França. Um belo museu, fruto da política de descentralização cultural implementada pelo Ministro da Cultura André Malraux, com a dedicação de fundos financeiros a longo prazo para os FRACs, visando beneficiar outras regiões que não apenas Paris e dirigidos à arte contemporânea, porque é isso que faz sentido no momento atual e futuro. Estava em companhia de um grande amigo, Jean-Yves Mérian, que me explicou como tudo aquilo fora possível e como alcançara resultados concretos para os artistas e benéficos para as comunidades das diferentes regiões da França. Uma excelente ideia que gerou museus e acervos contemporâneos de qualidade em várias cidades espalhadas pelo Hexágono francês.

 

Dentro do museu, ocupando uma parte considerável do espaço expositivo estava a máquina CLOACA, uma instalação com a proposta de um artista contemporâneo, creio que belga, que se propunha a funcionar como um grande aparelho digestivo mecânico, reproduzindo as funções fisiológicas humanas - ou seja, alimentar-se, digerir o alimento e expelir os resíduos. A máquina tinha uma espécie de boca mecânica metálica que recebia o alimento (um cardápio de degustação elaborado diariamente por um chef de nomeada e enviado por fax, desde um restaurante estrelado em Bruxelas). Tudo muito simples, apenas a máquina não se movimentava para queimar as calorias e tampouco engordava.

 

Ela estava ali, no centro das atenções de todos aqueles visitantes que pagaram caro seus ingressos para vê-la funcionando. Em aço polido e reluzente, cheia de tubos transparentes, funcionava com vigor ininterrupto em horários marcados, fazia ruídos, digeria os alimentos frescos elaborados criteriosamente numa cozinha gastronômica montada apenas para ela dentro do Museu, expelia cheiros e produzia ... excrementos.

 

Isso mesmo, o resultado produzido pelo mecanismo concebido pelo artista era a mais genuína... merda de artista. Que logo depois era envasada e vendida, em embalagem transparente, hermeticamente fechada (mas perfeitamente visível para ser apreciada minuciosamente em seus detalhes e examinada pelos aficcionados) a quem quisesse adquiri-la por um valor relativamente alto, em euros, na loja do Museu. Todas as obras produzidas pela máquina estavam numeradas na sua série, eram assinadas pelo artista que concebeu a ideia, com certificado de autenticidade e de procedência daquela máquina CLOACA, naquela data, museu e exposição. (O artista, posteriormente fabricou mais duas máquinas CLOACAs para produzir em série multiplicada outras obras dessas, simultaneamente em outros museus, tamanho foi o interesse e curiosidade que despertou nas pessoas, em geral.)

 

Recentemente, passados alguns anos, essas obras datadas como os vinhos de safra, começaram a chegar ao mercado de arte, alcançando altas cotações nos leilões, sendo disputadas fervorosamente por colecionadores interessados.

 

Naquela época, eu pensei, "isso não é arte..." Considerei a que máquina era surpreendente, um espanto de novidade tecnológica e científica e que seu lugar deveria ser num Museu de Ciências e Tecnologias, onde estaria bem e seria aplaudida por sua concepção, pela eficácia na tecnologia com as enzimas e as bactérias, pelo seu interesse científico efetivo, a produzir um fac-símile crível da verdadeira merda humana. Muito interessante, de fato. Nem tão bela nem tão arte como se poderia desejar.

 

 

 

Hoje, observando as Bienais, a atual produção artística frívola, vazia, com ausência absoluta de técnica de fatura, facilitada pela aceitação midiática, demagógica, francamente publicitária e infantil, distanciada da poesia e da reflexão, não mudei de opinião sobre o valor artístico intrínseco presente aquela obra produzida com estardalhaço pela máquina CLOACA no interior do próprio espaço do museu. Uma obra fabricada e autenticada dentro de um genuíno museu de arte contemporânea. Acho-a agora apenas coerente e compatível, representativa do muito que se produz e oferece ao consumo na área cultural, seja em artes visuais, seja na música, seja na literatura, tudo o que nos é empurrado cotidianamente, sem nenhum tempo para o desfrute, menos ainda para a reflexão. Obras destituídas de qualquer resquício de qualidade mas edulcoradas por discursos acadêmicos infindáveis e inconclusivos, enganadores e mistificadores. Passou, em realidade, a ser o sinônimo perfeito e um símbolo veraz, com alguma eloquência e retórica silenciosa, de um estado geral das produções, das atitudes e das tendências.

 

A obra produzida pela CLOACA é um símbolo concreto e pertinente à produção artística que nos é oferecida de forma avassaladora neste tempo de caos, de superficialidade e inconsciência crítica. A obra produzida pela CLOACA e seu criador, para mim não se constitui em verdadeira obra de arte, porém, em sua ironia primitiva e grosseira, gera um mínimo questionamento e resulta ainda superior a tudo o que nos circunda, o que nos chega ou nos é o sinalizado como sendo os novos paradigmas a serem admirados e aceitos. Ou seja, a maior parte da produção artística em praticamente todas as áreas rasterizou-se e isentou-se de valores de interesse para um certo número de pessoas, algumas pessoas, um número pequeno. Infelizmente, foi a encontro do gosto e de uma unanimidade que se mostra cada mais numerosa em sua insuficiência. Para essa imensa maioria está bem assim, atende aos desejos e às necessidades imediatas da novidade e do choque sensacionalista.

 

Assim seja, para tantos que se sintam tão agradados e tão confortáveis nesse caos e com essa música percussionada que nos atinge sem que tenhamos escolha. Num outro lado, parafraseando o enigma da felicidade de Borges, ainda podemos encontrar a boa música, a boa pintura, a boa fotografia, a boa literatura. Vamos em frente, enquanto existir espaço para todos.

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publicado por ardotempo às 20:37 | Comentar | Adicionar

Duas personagens

 

dois homens em elba

 

Pedro Gonzaga

 

dois homens se encontram em elba

fora dos séculos que os separam

dois homens não sabem que em elba

reserva-lhes a força vulgar do destino

uma queda e uma esperança

que hão de acometê-los

cada qual a seu momento

como sói ocorrer nos falsos paralelismos

da história e da poesia.

 

em elba está ovídio

na companhia do amigo fiel

insciente de que já o convoca

o imperador com a ordem do desterro

que lhe espera uma terra esquecida

para além do bósforo

que a crença no perdão

e a volta à roma eterna

perduradas apenas nos versos tristes

finamente encadernados na edição

da loeb classicals

 

em elba está napoleão

imerso ainda nas sombras frias

da desastrosa campanha na rússia

abandonado por seus marechais

a tramar o triunfal retorno

entre ameaças de veneno e morte

a uma paris por ele mesmo modificada

a um mundo que agora mais bem o terá

como uma estátua de madame tussot

tendo por cenário santa helena

 

dois homens reproduzem em elba

o desperdício infinito dos gênios

dois homens encarnam em elba

o estratagema dos maus atores

que não escapam à armadilha

de serem personagens de si mesmos

 

 

 

© Pedro Gonzaga

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Terça-feira, 15.02.11

Homenagem ao poeta e músico

Sax-O-Phone

 

 

 

Homenagem ao mestre Pedro Gonzaga, escritor, poeta e músico.

 

o aprendizado


Pedro Gonzaga


ainda estava no colégio

quando comecei a tocar saxofone.

depois que as aulas terminavam

eu ficava na imensidão da sala

em meio as tias da limpeza

maltratando o sax weril

que meu pai comprara usado

com dois vazamentos

e três amassões.

então não conhecia coltrane

sonny rollins e gato barbieri

não conhecia paul desmond

charlie parker e cannonball

pouco sabia sobre

boquilhas

palhetas

técnicas de digitação.

eu soprava com a força

destemor

e destempero

tinha no peito

colunas e colunas de ar

para desperdiçar.

pobres tias da limpeza

penso em vocês agora,

que nunca ouviram

minha evolução.

esta melodia de agora

é para vocês,

nobres tias

por nunca reclamarem

do som de pato

enquanto levavam a faxina

depois do trabalho de um dia inteiro.

onde quer que estejam,

benditas tias

quero que saibam que foram

meu melhor público,

o mais gentil,

pois nunca mais encontrei

tamanha tolerância

para a imperfeição.


© Pedro Gonzaga

publicado por ardotempo às 22:40 | Comentar | Adicionar

Por acaso, a receita secreta

Receita da Coca-Cola é revelada e tem coentro

 

A “receita” secreta da bebida mais famosa do mundo foi revelada. Para fazer um litro de Coca-Cola basta ter ingredientes como extracto líquido de folha de coca, óleo de noz-moscada e néroli. O coentro também é necessário para produzir o sabor 7X que entra na composição do xarope que dá o toque especial à bebida.


A descoberta foi feita pela pelo This American Life, um programa de rádio semanal de uma hora, que é transmitido pela Chicago Public Radio, e que encontrou a fotografia da receita na edição de 18 de Fevereiro de 1979 do jornal "Atlanta Journal Constitution", em Atlanta, a cidade de John Stith Pemberton, o homem que inventou a fórmula da bebida em 1885.


Pemberton era farmacêutico e voltou da Guerra Civil viciado em morfina. Para tentar resolver o seu vício fabricou uma bebida alcoólica que tinha coca nos seus ingredientes chamada Pemberton's French Wine Coca. Mais tarde, devido às pressões contra as bebidas alcoólicas, o químico refez a receita sem álcool, mas manteve a coca na sua composição. Nasceu assim a Coca-Cola.


O artigo sobre a Coca-Cola da edição de 1979 do jornal de Atlanta recebeu pouca atenção na altura, mas os produtores do programa da rádio, explica a revista "Time", dizem que ninguém se apercebeu que a fotografia que ilustrava o artigo continha a receita. Segundo a rádio, a receita foi passada à mão, a partir da original de Pemberton, por um amigo do farmacêutico, e estava escrita num livro com receitas de produtos medicinais e unguentos, com uma capa de couro, que foi copiada por amigos e família durante gerações.

 

A receita:


Extracto líquido de folha de coca: 11,07 mililitros (mL)

Ácido cítrico: 90 mL

Cafeína: 30mL

Açúcar: 30 (medida desconhecida)

Água: 9,46 L

Sumo de lima: 0,946 L

Baunilha: 28,35 gramas

Caramelo: 42,525 gramas (a quantidade pode ser maior para dar cor)


O sabor secreto 7X (usa-se 60mL do sabor 7X por 18,927L de xarope)


Álcool: 240 mL

Óleo de laranja: 20 gotas

Óleo de limão: 30 gotas

Óleo de noz-moscada: 10 gotas

Coentro: 5 gotas

Néroli (extracto de flor de um citrino "parente" da laranja): 10 gotas

Canela: 10 gotas


Publicado pelo jornal Público (Lisboa - Portugal) e notícia indicada por Eduardo Pitta (Da Literatura)


Você acredita nesta história? Eu também não mas ela é bem engraçada. Acho que é uma brincadeira dos jornalistas norte-americanos, só para ver o tamanho da repercussão em todo o mundo. Curiosamente, no Brasil, uma agência de publicidade afirma que a felicidade existe e que está dentro de uma lata ou de uma garrafa desse refrigerante. O que será mesmo que eles estão querendo passar com essa mensagem?

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Tinta china e lápis de cor

Um desenho para uma capa

 

 

 

 

 

Desenho - Tinta china, aguadas a pincel e lápis de cor, sobre papel de gravura Montval 100% algodão

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A vida é séria, a arte é alegre

La vida es seria


Enrique Vila-Matas

 

La frase dice: "basta que un libro sea posible para que exista". La encontramos en La Biblioteca de Babel, relato en el que, según algunos, Borges anticipó Internet. Qué pena, por cierto, que nos falte el comentario irónico que habría dado Borges de haberse enterado de que fue un visionario que prefiguró la Red.


La frase borgiana abre La Biblioteca de los libros perdidos, de Alexander Pechmann, que llega ahora a nuestro país en traducción de Juan José del Solar. El divertido libro rescata una serie de obras que por muy diversos motivos, a causa, por ejemplo, de la locura o de la ira (Balzac quemando un manuscrito solo para fastidiar a su mezquino editor), se perdieron o fueron destruidas. Es un libro divertido, quizás porque conecta con el espíritu de "la vida es seria, el arte es alegre", variante que Schiller imaginó para un célebre lema sobre la vida breve y el arte largo.


El libro opta por el arte alegre, y sus páginas huyen de las máscaras de la solemnidad que tanto aterraban a Laurence Sterne, para quien la misma esencia de la seriedad era la maquinación, y en consecuencia, el engaño. El mismo Sterne aparece riendo en el capítulo de los libros falsos que surgen de textos perdidos. Cuando Sterne murió, su mojigato cuñado destruyó sus papeles y solo quedaron unos textos que también se perdieron, pero que reaparecieron años después en forma de memorias. El volumen autobiográfico siempre pareció falso, lo que a un amante del arte alegre como Sterne seguramente le habría divertido. ¿O no le faltan intencionadamente páginas a su Tristram Shandy?

 

 

 

 

He llegado hasta este discreto libro de Pechmann - puntuado por manuscritos póstumos o destruidos, memorias falsas, autores sin obra y libros que nunca fueron escritos - gracias a Robert Derain, buen amigo de mi amigo Jordi Llovet. Como si de un texto perdido de Sterne se tratara, Derain ha reaparecido después de pasar varios años en paradero desconocido. Me llamó y, tras recomendarme el libro, comentó que nuestro país le parece un camarote abarrotado de narradores que escriben como si toda la literatura desde Madame Bovary hubiese sido abolida. Considera, además, que con la próxima llegada al poder de la extrema derecha estas actitudes conservadoras se agrandarán. Habrá una época de sequía y se perderán muchos libros que, en un clima de más alto espíritu, habrían podido surgir. La vida se volverá más seria, dice. Quizás también por eso ha querido recomendarme esta suma de páginas extraviadas que podrá alegrarme en épocas que se prevén peores.


No es un libro precisamente completo, pero es lógico que así sea porque el material es interminable y el texto es breve. Falta, por ejemplo, en el capítulo de "los autores sin obra" una mención a Artistes sans oeuvres. I would prefer not to, de Jean-Yves Jouannais, libro sobre creadores que optaron por realizar obras para sí mismos en lugar de hacerlas para la lógica industrial y que cuenta entre sus héroes a Félicien Marboeuf. Nombrado "mejor escritor (no habiendo escrito nada)" de Glooscap, la ciudad del arquitecto Bublex, Marboeuf fue una especie de Pepín Bello, que tampoco aparece, por cierto, en el libro de Pechmann.


Quien sí está es el empleado bancario Ernst Polak, un vienés que inspiró a Kafka un personaje de El castillo y que no escribió nunca nada propio, pero coleccionaba citas, como si toda su existencia estuviera contenida en esa colección de frases que, según todos los indicios, se ha perdido.


Si un capítulo me ha atraído especialmente, este es el de los manuscritos destruidos. Entre otras escenas, encontramos a Joyce queriendo quemar escritos en una chimenea, cayendo pues en la vulgaridad de tantos. He tomado muchas notas de lectura, pero las he destruido, quizás para poder recomendar con más autoridad este libro sobre páginas que nunca han sido y que, solo a primera vista, parece completo.


Enrique Vila-Matas - Publicado em El País

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Negros fantasmas esfumados em papel

Escritores na sombra


Maria do Rosário Pedreira


 

Tenho um amigo escritor (de grande qualidade, é bom que se diga) que, no seu país, e quando era mais jovem, escreveu a autobiografia de outra pessoa – o presidente de um grande clube de futebol. Calculo que lhe tenha feito algumas entrevistas e lido o bastante a seu respeito – e a verdade é que o homem se reviu no que leu como se tivesse sido ele próprio a redigir o texto (parece que só o título do livro é da sua autoria).

 

Conheço outra pessoa que vive de escrever livros alheios, mas não escreve os seus – e tão-pouco quer que o seu nome apareça sequer como colaborador ou redactor na ficha técnica, mesmo quando lho sugerem; talvez, no seu íntimo, esteja convencido de que um dia ainda há-de escrever alguma coisa que valha a pena e não queira que os leitores identifiquem o seu nome com obras que julga menores (mesmo se escritas pela sua mão).

 

Sei que existem muitos escritores na sombra neste momento em todo o mundo – e Portugal não é excepção – e pergunto-me o que sentirão quando vêem os seus textos serem publicados com a assinatura de outra pessoa. Claro que, nestes casos, a discrição é a alma do negócio e nunca se acusarão, mas não terão pena de que, como acontece nos EUA, o seu nome não apareça na capa debaixo do do (falso) autor? E não gostariam de ocupar o tempo a escrever outras coisas, que pudessem assinar e publicar, em vez daquelas? E, quando um desses livros vende às pazadas, não pensarão no que poderiam ter ganho se fossem (e são) os seus verdadeiros autores? E como serão as pessoas que aceitam ficar com os louros (e o dinheiro) dos que assim trabalham?


Maria do Rosário Pedreira - Publicado no blog Horas Extraordinárias

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Novo filme de Almodóvar

A pele em que vivo

 

 

 

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Segunda-feira, 14.02.11

Fora da vista, fora da luz

 

J.D. Salinger: Uma Vida - Espiando a vida de um recluso


Michiko Kakutani

 

A famosa dedicatória de J.D. Salinger em “Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira e Seymour: Uma Apresentação” diz: “Se ainda existir um leitor amador que seja no mundo – ou qualquer pessoa que apenas leia e pronto – eu pediria a ele ou ela, com indizível afeição e gratidão, para dividir a dedicatória desse livro em quatro partes com minha mulher e filhos”.


O recluso Salinger, que morreu há um ano, aos 91, parece ter encontrado esse leitor ideal em seu último biógrafo, Kenneth Slawenski, criador do site de fãs Dead Caulfields e agora autor de uma nova biografia de Salinger que é honesta, simpática e sensível.


O volume, “J.D. Salinger: A Life” [“J.D. Salinger: Uma Vida”], que se baseia principalmente nas cartas de Salinger e nas memórias escritas por sua filha, Margaret, equivoca-se um pouco em sua tendência a fazer correspondências diretas entre a vida e a obra do autor. E retraça boa parte do caminho já percorrido por livros anteriores, de Ian Hamilton e Paul Alexander. Ainda assim, ele faz isso sem o tipo de especulação condescendente e às vezes voyeurista que aparece nas biografias anteriores, e faz um trabalho evocativo ao traçar a evolução da obra e do pensamento de Salinger.


O Salinger que emerge desse livro é um parente psicológico próximo de sua criação mais famosa, o adolescente Holden Caulfield, e do garoto prodígio da família Glass, que estrelaria em seus livros posteriores. Ele é o eterno forasteiro e peregrino espiritual que se sente ilhado num mundo materialista e vulgar, cheio de hipócritas e gente entediante. Mimado por uma mãe que “acreditava totalmente em seu talento”, diz Slawenski, o jovem Salinger “acabou esperando a mesma reação dos outros e não tinha muita paciência ou consideração com aqueles que duvidavam dele ou não compartilhavam de seu ponto de vista”. Essa sensação de ser especial mais tarde se calcificaria numa impaciência com os outros, numa incapacidade de ultrapassar a visão de mundo adolescente de “ou isto, ou aquilo” de Holden, que eventualmente moldou a ficção posterior de Salinger, tornando-a cada vez mais solipsista e crítica.


As experiências de Salinger durante a 2ª Guerra Mundial aumentaram ainda mais sua sensação de alienação. Slawenski escreve que a guerra deixou Salinger com cicatrizes psicológicas profundas, marcando “todos os aspectos” de sua personalidade e reverberando em seus escritos. E seu livro faz um trabalho torturante de reconstruir os horrores do jovem soldado provavelmente testemunhados durante o Dia-D e depois dele, como membro de um regimento que perdeu muitos homens na Batalha de Hurtgen Forest e mais tarde se envolveu na libertação de vítimas do sistema de campos de concentração de Dachau.


De acordo com essa biografia, Salinger foi hospitalizado em 1945 pelo que hoje seria chamado de síndrome do estresse pós-traumático. Uma carta que ele escreveu para um amigo indicava que, no dia que o exército alemão se rendeu, Salinger estava sentado em sua cama, olhando, nas palavras de Slawenski, “para uma pistola calibre 45 apertada entre suas mãos”, perguntando-se o que sentiria se ele “disparasse a arma através de sua palma esquerda” – uma cena que antecipa assustadoramente o final chocante de “Um Dia Ideal para o Peixe-Banana”.


Depois de voltar a Nova York, escreve Slawenski, Salinger tentou retomar, no centro da cidade, uma versão da vida sofisticada de Manhattan que ele conheceu antes da guerra (quando teve um romance com a filha de Eugene O'Neill, Oona, e frequentava o Stork Club). Ele se juntou a um pequeno grupo de jogadores de pôquer que se encontrava todas as quintas-feiras no SoHo, teve sucessivos romances com jovens mulheres e saía regularmente para restaurantes e clubes. Ainda assim, tinha dificuldades de encontrar o que Slawenski chamou de “um lugar 'normal' para se encaixar”.


Seu isolamento foi gradual. Primeiro, diz Slawenski, ele se mudou para Connecticut, e depois, em 1953, comprou 90 acres de uma propriedade nas colinas de Cornish, um vilarejo em New Hampshire. Quando se casou com a jovem Claire Douglas alguns anos mais tarde, levava uma existência austera que se revolvia em torno da escrita, meditação e ioga – uma vida, nas palavras de Slawenski, “desprovida da falsidade e do materialismo” que Salinger havia “repudiado em seus escritos”.


Depois do nascimento de sua filha, Margaret, em 1955, Slawenski conta que Salinger começou a passar mais e mais tempo escrevendo num pequeno quarto verde que construiu nas proximidades com blocos de concreto; depois de comprar a fazenda vizinha em 1966, ele “construiu uma casa para si do outro lado da rua” em que ficava o chalé de sua família. Claire Salinger pediu o divórcio naquele mês de setembro.


A última história publicada de Salinger, “Hapworth 16, 1924”, apareceu no “The New Yorker” em 19 de junho de 1965, e a partir de 1970, escreve Slawenski, Salinger “se dedicou”, com a ajuda de seu agente, a “sufocar qualquer tipo de revelação de informações pessoais passadas e presentes”. Nos anos 80, diz Slawenski, a “aversão crônica de Salinger por cartas não solicitadas deixou de ser um receio para se transformar em desprezo e temor”; com o tempo “ele começou a ignorar não só as correspondências enviadas por estranhos, mas também cartas de sua família e amigos.”

 

 

 

 


O que causou a reclusão de Salinger? Sem dúvida as experiências da época da guerra influenciaram sua sensação cada vez maior de estranhamento, assim como suas crenças religiosas. No final de 1946, escreve Slawenski, “Salinger começou a estudar o zen budismo e o catolicismo místico”, e nos anos 50 ele havia adotado os ensinamentos do místico indiano Sri Ramakrishna. Slawenski argumenta que a partir “do momento em que ele concluiu 'O Apanhador nos Campos de Centeio', Salinger manteve a filosofia de que seu trabalho equivalia à meditação espiritual”, e a fama e os fãs e a publicidade alimentavam o ego, e não o espírito, e também “serviam para atrapalhar sua meditação”.Entrelaçada ao relato da longa e estranha jornada que foi a vida de Salinger, há uma análise de sua ficção. Slawenski não está particularmente preocupado em discorrer sobre os dons de Salinger como escritor: seu fantástico ouvido para o diálogo; seu amor pela linguagem coloquial e idiomática; sua habilidade para domesticar as inovações do fluxo de consciência dos grandes modernistas. Em vez disso, Slawenski se concentra em traçar as ligações entre a vida e a arte do autor, e os temas recorrentes em sua ficção, principalmente aquilo que Slawenski chama de “visão do mundo dividida entre o genuíno e o falso, o iluminado e o insensível, o tigre e a ovelha”.

 

Diferentemente das primeiras histórias de Salinger, que tendiam a se concentrar nas “falhas dos outros”, escreve Slawenski, Salinger se alinhou “tão perto de Holden Caulfield” (nas histórias que eventualmente evoluiriam até o “O Apanhador No Campo de Centeio”) que foi como se ele tivesse “jogado seu próprio espírito dentro do personagem principal”. O fato de abraçar personagens como Holden e as crianças Glass significou “apresentar qualidades ainda mais humanas, porque eram as suas próprias”, argumenta Slawenski, e isso se tornou um meio de se conectar com seus leitores.


Na visão de Slawenski, Salinger se dedicou, depois do “Apanhador”, a escrever ficção “permeada de religião, histórias que expunham o vazio espiritual inerente da sociedade norte-americana”. Ele argumenta que as histórias de “Nove Contos” relatam a história de uma “jornada espiritual” – do desespero de “Um Dia Ideal para o Peixe-Banana” (no qual Seymour Glass pega uma arma e atira na própria cabeça) até a esperança de conexão humana presente em “Para Esmé – Com Amor e Sordidez”. Ele vê as histórias de Glass também como explorações da “própria luta de Salinger para aceitar os outros e reconhecer a bondade no mundo”.


A narrativa de Slawenski sobre a estranha vida de Salinger, entretanto, está cheia de buracos e questões sem resposta, talvez sem surpresa, levando em conta a extrema reticência do sujeito e de sua mania pela privacidade, e a dependência do biógrafo de fontes secundárias.


Slawenski escreve que o fato de Oona O'Neill ter terminado com Salinger e se casado logo depois com Charlie Chaplin foi “a grande tragédia romântica da vida de Jerry”, mas não elabora como isso pode ter influenciado os relacionamentos seguintes de Salinger ou sua imaginação. Ele também escreve que Salinger “havia sofrido de depressão durante anos, talvez durante toda sua vida, e às vezes foi acometido por episódios tão intensos que não conseguia se relacionar com os outros”, mas não mergulha de fato nas suas fontes anteriores à guerra ou nos motivos pelos quais Salinger buscou a religião como um caminho para superar suas aflições emocionais.


“Salinger expressava sua depressão através de seus personagens”, escreve Slawenski, mas dava a alguns deles, como Holden e o Sargento X em “Esmé”, alguma esperança, salvação ou “um caminho para o bem-estar, normalmente encontrado através da ligação humana”. Mas embora “o autor costumasse compartilhar a tristeza de seus personagens”, acrescenta Slawenski, “ele dificilmente tinha as curas” para si mesmo.


Michiko Kakutani - Publicado no jornal O Estado de São Paulo

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Domingo, 13.02.11

Chocolate

Palavras mágicas


Maria do Rosário Pedreira


Há muitos anos, fui contactada por uma agência de publicidade para lá ir dizer o que esperava de uma pasta de dentes. Compareci no dia combinado e fiquei eu própria surpreendida com a quantidade de coisas que consegui verbalizar sobre uma matéria aparentemente comezinha como aquela. Não era a única pessoa presente, claro, e essa circunstância acabou por desencadear um diálogo de mais de uma hora à volta do tema "dentífricos", com intervenções memoráveis sobre cor, sabor, textura, embalagem, preço e ecologia. Mais tarde, explicaram-me que aquela reunião era parte daquilo a que se chama um "estudo de mercado" e que, quando uma agência quer lançar um produto, tem de saber o que os clientes exigem e desejam para construir a campanha em consonância.

 

 

 

Ora, o sucesso de um livro é sempre uma incógnita e, para os livros, não há realmente estudos de mercado possíveis (por isso nos zangamos quando chamam "produtos" aos livros). E, no entanto, parecem existir palavras mágicas que conduzem quase sempre ao êxito. A melhor que conheço é "chocolate" e, se um título a inclui, é quase certo que o livro se vai vender bem. O romance Chocolate – que depois deu um filme menor com a admirável Juliette Binoche – tirou Joanne Harris do anonimato e transportou-a para um estrelato que se calhar nem merecia, e o Baunilha e Chocolate de Sveva Casati Modignani pô-la a vender de repente milhares de exemplares num país onde os escritores italianos raramente vingam...


Maria do Rosário Pedreira - Publicado no blog Horas Extraordinárias

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Pássaro das águas

 

Taim

 

Cleonice Bourscheid

 

Suave plana a ave,

grande e cinzenta,

anunciando a manhã:

Taim, taim,taim

 

Sob o céu do banhado

ao entardecer entoa

seu sagrado canto:

Taim, taim, taim


O Tachã no afã

de proteger o ninho

emite estridente grito:

Taim, taim, taim


Por vezes aflito

chama o próprio nome:

Tachã, tachã, tachã.


Um santuário escondido

no Rio Grande de São Pedro:

Taim, taim, taim

 

 

Taim


Swiftly flows the bird,

big and grey,

announcing sunrise:

Taim, taim, taim

 

Under the sky

of the marsh

at sunset sings

its sacred cry:

Taim, taim, taim

 

Willing to protect its nest

Tachã readily cries:

Taim, taim, taim


At times worried

calls for its own name:

Tachã, tachã, tachã


A hidden sanctuary

in Rio Grande de São Pedro:

Taim, Taim, Taim


© Cleonice Bourscheid - Taim, 2011

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Olhar para as imagens

Las postales de Federico Garcia Lorca


Fietta Jarque


Hoy se envían mensajes, fotos. La experiencia de cualquier acontecimiento en la distancia - durante un viaje, o simplemente en otro sitio ajeno al del destinatario - se comparte en el instante.  El antepasado de ese fenómeno empezó en los primeros años del siglo XX con las tarjetas postales. Era costumbre enviarlas a familiares y amigos durante un viaje, a veces hasta diariamente. Se consideraba  importante elegir la imagen adecuada a cada persona y elegir bien las palabras en cada caso. Los textos eran necesariamente breves, como en Twitter. La exposición Geografía Postal, en Aranjuez, muestra la colección de postales acumulada por las familias García Lorca y Giner de los Ríos, con especial incidencia en las enviadas y recibidas por Federico.

 

 

 

 

La selección de las postales incluidas en esta exposición ha sido realizada nada menos que por el fotógrafo británico Martin Parr, miembro de la prestigiosa agencia Magnum. Un observador atento de la cotidianeidad y lo considerado ordinario en sus facetas más chirriantes. En el texto introductorio señala que lo que sigue siendo fascinante en las postales antiguas son las imágenes, más que los textos del dorso. "Un volcán en erupción o un esbozo art decó de un hotel modernista de Nueva York, entre otras, definen el siglo XX", escribe. En el catálogo de la exposición, editado por This Side Up, despliega esas imágenes y los textos de solo algunas de ellas.

 

Escogemos una de Luis Buñuel para Federico García Lorca, el 18 de junio de 1926 desde Chateauroux (Francia): "Queridísimo Federico: Dos letras sólo. El film es poco interesante (comercial, para el gran público) pero mucho para aprender el oficio. Lo terminaremos para otoño. Y... pienso comenzar el mío a principios del próximo año. Ahora (contéstame sinceramente por carta) atiende: ¿Quieres hacerme uno o dos escenarios para ponerlos al écran de mi debut? Ya sabes que esto da mucho dinero y yo sé que tú intentas ganarlo sea como sea". Pocas frases, pero suficientes para retratar una relación. En su introducción, Parr comenta que hay tarjetas de Federico "que ilustran el diálogo descarado y revelador entre éste y Dalí". Desenvuelve el caramelo de la curiosidad, pero el libro nos deja sin el dulce porque esos textos no se reproducen en la publicación.


Hay un elemento más de interés y es la introducción del lúcido escritor Enrique Vila-Matas, tiulada Archivo del inconsciente. En él describe el origen de su personal Archivo de la huella, conformado por más de un millar imágenes, que va colocando - siguiendo la estela de Aby Warburg y su Atlas Mnemosine - sobre paneles negros. Las postales de este libro están en su colección, dice, por el lado de las imágenes, no el de las palabras, porque para él lo importante es  "mirar, mirar antes que nada las imágenes y hacerlo con los ojos del que no sabe nada y sólo cuenta con su archivo mental".

 

 

 

 

Fietta Jarque - Publicado em Blog de Babelia - Papeles Perdidos / El País

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Construção, de Mario Castello

Itamaraty - Abstração

 

 

 

 

Mario Castello - Itamaraty - Fotografia (Brasília DF Brasil)

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Sábado, 12.02.11

Sem assinatura

Os novos condes de Lautréamont


Mariana Ianelli


E se de repente artistas do mundo inteiro aderissem ao anonimato? Contando que toda obra de arte que se preze hoje exibe o epíteto da originalidade, este seria um expediente bastante original. Não deixaria de satisfazer também certo gosto pelo ato performático. Excetuando-se o mal que isso acarretaria para a vaidade e o mercado que dela se aproveita, vale pensar no bem que faria, por exemplo, para a literatura.


Apagados o nome e a figura do escritor, ficaria o seu livro, um livro sendo tudo o que há, nem maior por ter a chancela de uma grife, nem menor por carência de fama. Um livro com seu justo peso e sua justa medida, louvável ou desprezível, impressionante ou insípido, envolvente ou fastidioso por ele mesmo, pelo que nele está escrito, do modo como está escrito, sem os atenuantes ou os encômios da crítica por se tratar deste ou daquele autor, sem a ressalva ao demasiado jovem ou a concessão ao demasiado velho, sem o anexo dos afetos ou das antipatias pessoais.

 

Um livro sendo tudo o que nele há de pensamento, olhar e voz de alguém cujo mistério da autoria, não garantindo mais os privilégios da consagração de um nome, reconduzisse todas as atenções para o texto como um corpo total, com suas virtudes e suas falhas levadas ao primeiro plano, despojadas de manto, chapéu, lapela amedalhada, gravata de lantejoulas e outros distintivos. Quem sabe dentro deste fabuloso universo de escritos apócrifos surgissem muitas surpresas, e um livro, em circunstâncias costumeiras desprezado pela mídia, alçasse ao rol dos mais lidos e comentados, e um outro, antes merecedor do timbre das academias, fosse considerado simplesmente um gatinho perdido no meio de uma savana de leões.

 

 

 

 

O certo é que neste mar de vozes, um grande escritor, contrariando a ansiedade por seu reconhecimento e as ocasiões forjadas para sua autopromoção, levaria um tempo indefinível até ser descoberto, o tempo mágico em que se elaboram os encontros com os leitores, um a um. E agora, sem estar submetido ao peso de nomes que eventualmente falam mais alto do que os livros, o leitor seria respeitado em sua participação soberana nas garimpagens e nas descobertas que fizesse de acordo com seus próprios critérios de exigência, interesse ou predileção. Os escritores, por sua vez, não mais ocupados com atrativos adjacentes, poderiam empenhar um tempo extra no que é a alma mesma do seu ofício, a escrita, o livro, a palavra na sua força intrínseca e na sua jornada paciente através do tempo rumo a um destinatário igualmente anônimo. No correr das águas, os livros iriam se entender entre si e com seus leitores, seguindo uma vida conquistada por seus méritos, dependendo aqui e ali de um pouco de sorte, mas, ainda assim, fazendo prevalecer os méritos, como deveria ser a vida de todos os filhos, que, já de seus pais, antes e para além do nome, herdaram o sangue.


É possível imaginar, neste cenário infinito de textos e de vozes atravessadas por outras vozes, um homem passeando entre mundos de papel coligidos em lombadas enigmáticas, um visitante qualquer que fosse movido pelo sentimento que nele despertam os títulos de alguns livros apanhados ao acaso, até que, subitamente, numa dessas leituras, o susto, o tremendo calafrio, como o de encontrar, com uma estocada de picareta, ouro na rocha: a descoberta de um novo Conde de Lautréamont muitos anos após a sua morte.


Mariana Ianelli - Publicado no blog Vida Breve

publicado por ardotempo às 03:55 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar

Construção, de Joaquín Torres Garcia

Abstração / Construção - Pintura

 

 

 

 

Joaquín Torres Garcia - Construção em branco e preto - Pintura, óleo sobre tela (Uruguai), 1938

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publicado por ardotempo às 03:31 | Comentar | Adicionar

Futebol é catástrofe anunciada

No Brasil (e talvez em outros lugares, outros países)

 

É o sinônimo da violência bestial e sem autoria. Desmanchado numa geléia anônima de impunidades e irresponsabilidades. Todos, aparentemente, aceitam que assim seja. Falam em paixão e fervor para justificar o que procuram esconder. Existe lavagem de dinheiro a todo minuto. Tráfico e outros tráficos. De influências e de interesses. De populismo. De gente, de sangue, de substâncias, de ambições, de concreto. A gangorra planejada do valor das ações, a essência da publicidade, a mentira e a dissimulação. Todos admitem que assim seja. É o drible humilhante. Superfaturamento subtraído ao que é mais precioso para as pessoas: o seu tempo. Migração e drenagem dos recursos da educação, da saúde, da cultura e da consciência estrita. Todos aceitam silenciosamente que assim seja. O futebol é um vício e uma praga. Pior do que o cigarro, pior do que o álccol, produz mais vítimas porque tem muito mais aficcionados e ninguém alerta para os riscos nem sugere moderação em seu consumo.

 

publicado por ardotempo às 03:17 | Comentar | Adicionar

Sol de sangue

Os cães latem na aurora

 

Os cães ladram. Parece que são todos, pelos bairros da cidade, infinitamente. Nos quintais, nas vielas, nos cemitérios. Uivam, latem de maneira ritmada, percussionada, tediosa. Hoje amanheceu de maneira esquisita, diversa do habitual com o canto dos pássaros. Hoje com a novidade desse som espectral, de ecos artificiais, emissões reais superpostas. Sinfonia horizontal, sem comando e sem maestro.

 

Dura um longo tempo, formatada, a tensão mantida.

 

Repentinamente, os cães silenciam.

 

Uma lacuna de terrível abrangência, unanimidade ausente. O silêncio premonitório.

 

Sol de sangue. Hoje será dia de lobisomem.

 

 

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Quarta-feira, 09.02.11

Espaço recluso

Figuras pasolinianas


João Gilberto Nöll

 


 

 

 

 

Uma das emoções estéticas mais verticais que tive nesses últimos tempos no Rio Grande do Sul deu-se no encontro com o trabalho fotográfico de Gilberto Perin. É inacreditável que, de dentro desse cidadão de expressão costumeiramente serena, possa irromper uma arte de toques metafísicos acompanhados de um gozo tão eloquente e avassalador, característica assombrosamente presente já em sua penúltima exposição. Na ocasião dessa primeira mostra, o que poderíamos acrescentar diante de uma fotografia a revelar um homem negro em algum ponto da África, de costas contemplando o mar? Em frenesi de cores, sentimos a nudez pagã entre o eu e o mundo, mais nada. Talvez um arrepio. Contemplamos a atual exposição um pouco de soslaio, tal um certo pudor em face do impacto frente a corpos masculinos periféricos, um tanto esquecidos pelos jornais de grande circulação. Vemos jogadores em um campeonato de segunda divisão  num intimismo viril, nos toscos vestiários, alguns ensaboados debaixo dos chuveiros, entre confidências discretas, surdos palpites talvez. Parecem as figuras populares pasolinianas, encenando a sua autenticidade singela. E as cores, sempre as cores, vivíssimas, tão vivas que sentimos nelas um santo laivo narcísico.


Gilberto Perin é um dos mais marcantes fotógrafos brasileiros em ação. Entre suas fotos, há uma expondo como que um túnel improvisado entre  o campo do jogo e o vestiário. Ninguém. Existe tal densidade em sua luz erma, entre o claro e o sombrio, que esse instante tem a qualificação de um mistério. Trata-se da pausa entre as múltiplas insinuações eróticas da exposição. As coisas sem a presença humana nos fazem descansar um pouco da força carnal, mesmo que essa força venha um tanto dissimulada no bojo de certa placidez do pós-futebol, no desfecho do trabalho-lazer, antes de os atores se dissolverem novamente na prática do cotidiano.


No fundo dessa fotografia, as sombras da entrada do vestiário não deixam nada tomar forma. Mas os atletas de um arrabalde distante podem ainda estar ali, dormitando, esboçando o sonho de uma nova partida, quando serão, aí sim, os herois...

 

 

 

 

© João Gilberto Noll

© Brasil - Camisa Brasileira - Livro de Fotografias de Gilberto Perin

Texto de Aldyr Garcia Schlee

Projeto Camisa Brasileira PRONAC nº 10 4301

Imagens de © Gilberto Perin - Edições ARdoTEmpo

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Charutos negros

Negócios com nicotina


Yoani Sánchez


As manos se mueven seguras, veloces, apenas tienen 30 segundos para colocar en la parte inferior de la mesa los tabacos que irán hacia el mercado negro. Dos cámaras panean el salón donde las olorosas hojas se enrollan y terminan en cajas con el nombre de Cohiba, Partagás, H. Upmann. Cada ojo de vidrio gira 180 grados, dejando –por muy breve tiempo– una zona ciega, una estrecha franja de torcedores sin vigilancia. Buen momento para poner fuera de las vista de los supervisores aquel lancero o ese robusto, que después será vendido al margen del mercado oficial. Otro empleado se encarga de pagar a los custodios para lograr sacarlo del recinto y en veinticuatro horas su fuerte aroma ya estará en las calles.

 

 

Cuando mis estudiantes de español me preguntan sobre la calidad de los tabacos que se venden “por fuera”, bromeo diciéndoles que en el interior de dichas cajas bien podrían encontrarse el periódico Granma enrollado. Sin embargo, también sé que una buena parte de esa oferta clandestina es sacada de los mismos lugares institucionales donde se confeccionan los que se exhiben en las tiendas legales. Tres de cada cinco habaneros, en caso de ser interpelados, se vanagloriarán de conocer a un verdadero torcedor que consigue puros auténticos y frescos. El negocio de la nicotina involucra a miles de personas en esta ciudad y genera una red de corrupción y ganancias de incalculable tamaño. Su reto es que el producto final se parezca al que comercia el Estado, pero cueste tres o cuatro veces menos.


Entre las proposiciones más comunes que reciben aquí los turistas se escuchan aquellas de “¡Mister, cigars!”, “¡Lady, habanos!”que les lanzan en cada esquina. Al menos, no resulta tan chocante como cuando el proxeneta les susurra un catálogo que incluye “Chicas, Chicos, Chicas con Chicos”. Así la secuencia que comienza en la fábrica, en esos 30 segundos en que el lente de la cámara mira hacia otro lado, termina en un extranjero pagando por veinticinco tabacos lo que de otra manera sólo le alcanzaría para comprarse un par. Todos salen felices: el torcedor, el custodio, el vendedor ilegal y … ¿el estado? bueno… ¿a quién le importa?

 

Yoani Sánchez - Publicado em Generación Y

yoani.sanchez@gmail.com

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Terça-feira, 08.02.11

Um desenho

Aquarela

 

 

 

 

 

Desenho a tinta china e aquarela, 2011

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Segunda-feira, 07.02.11

Silêncio

Quando nada responde

 

Quando os telefones não tocam, os e-mails não mostram nada de bom nem apresentam qualquer coisa que tenha a mínima utilidade, quando as noticias não convencem, quando o Correio nada traz, nem cartas, nem livros, nenhum estímulo; é melhor ler um livro, fazer uns desenhos, uma pintura, escrever um conto, diagramar a maquete de um livro de fotografias ou de contos, ficar em silêncio, permanecer em silêncio. O tempo não está bom, melhor ficar recolhido e profundamente silencioso. É mais saudável e produtivo. Sem fazer marolas.

 

 

 

 

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Domingo, 06.02.11

A barbearia e o festival

Liberdade (Bairro oriental em São Paulo)


 

 

 

Mario Castello - Barbearia na Liberdade - Fotografia (São Paulo SP Brasil), 2011

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Sábado, 05.02.11

O banco verde, em Ponta Delgada

Viajar, derrumbarse del sueño - Antonio Tabucchi


Enrique Vila-Matas


Elegancia, humor y niebla de melancolía. O sea, Tabucchi. Salgo hacia las Azores de un modo inmóvil, releyendo Dama de Porto Pim, de Antonio Tabucchi, un artefacto literario que a veces recuerdo como una especie de Moby Dick en miniatura y también como un libro que en su momento me sorprendió - hablamos de febrero de 1984 - porque sus menos de cien páginas parecían componer un buen ejemplo de "libro de frontera", un curioso artilugio compuesto de cuentos breves, fragmentos de memorias, diarios de traslados metafísicos, notas personales, la biografía y suicidio del poeta Antero de Quental contada al modo de una "vida imaginaria" (a lo Marcel Schwob), astillas o restos de una historia cazada al vuelo en la cubierta de un barco, crónicas costumbristas de las ballenas y los balleneros, transcripciones de viejos aventureros que pasaron por las islas, apéndices, mapas, bibliografía, abstrusos textos legales: elementos a primera vista enemistados entre sí y, sobre todo, con la literatura, transformados por una firme voluntad literaria en ficción pura.


Elegancia, humor, melancolía. Y la agazapada idea de viajar para derrumbarse del sueño. "Para Tabucchi, un viaje es, sobre todo, un clima, un estar a solas, un estado discretísimo de saudade y de soledad. En eso está la fascinación sin par de este escritor, y es eso lo que le otorga esa voz distinta, su mágica serenidad de escritura", escribió José Cardoso Pires en un artículo de extraño título: Elpé juepegopó delpé revevespé.


Llegué en febrero de 1984 a Dama de Porto Pim - primer libro de Tabucchi traducido al castellano - porque me llamó la atención ese artículo de Cardoso y porque además, sólo dos días después, me encontré con una entrevista al propio Tabucchi que me abrió panoramas muy inéditos para mí. En esa entrevista - la primera que le hacían en nuestro país - decía, por ejemplo, que hoy en día es difícil juzgar los propios sentimientos porque, desde que la cultura se ha vuelto laica, falta un ojo que mire: "El hombre no se siente mirado y se vuelve, por ello, un poco inexistente. La idea de ser mirado confiere a la existencia cierta plenitud".


Uno de los fragmentos más memorables de Dama de Porto Pim es 'Una ballena ve a los hombres'. Allí un cetáceo cree ver que "los hombres a veces cantan, pero sólo para ellos, y su canto no es un reclamo sino una forma de lamento desgarrador (...) se alejan deslizándose en silencio y es evidente que están tristes". Al parecer, esta bella pieza literaria surgió de Tabucchi el día en que presenció cómo una ballena moría bajo los arpones y él experimentó la sensación de ser observado por ella.


"Montes de fuego, viento y soledad. Así describía las Azores, en el siglo XVI, uno de los primeros viajeros portugueses que desembarcó allí", dice Tabucchi. La verdad es que desde entonces las cosas, en las islas, no han cambiado mucho. No es un lugar donde la gente borre las huellas. Hay un pacto entre las Azores y lo inmutable, y otro con el concepto de la lejanía.

 

Tabucchi escribió hace años: "Azores, en medio del océano, lejos de todo. De Europa y de América. Tal vez sea la lejanía el embrujo de las Azores". Pero esa lejanía, dice Tabucchi, la dejan los habitantes de las Azores sólo para quienes les visitan. Y es que los azorianos están, sobre todo, cerca de ellos mismos. Pero ¿cercanos a qué? No siendo nada cercanos a las tradiciones ni a la historia, tal vez lo sean sólo del suelo, de su tierra verde y azul. Próximos a lo suyo, que es algo inmediato, sin pasado.


Recuerdo muy bien que en aquella entrevista de 1984 Tabucchi comentaba que, en relación con el pasado, nuestra experiencia moderna es más fragmentada, más frágil y, por tanto, posiblemente la narración, el cuento, se adapten mejor a la vida incompleta de ahora. Para alguien como yo que en aquellos días no estaba muy interesado en las novelas, sus palabras fueron una bendición y abrían un camino para la escritura de lo fragmentario. Ha pasado el tiempo y creo que nada ha cambiado de aquello que sugería Tabucchi. El relato corto es un espacio literario en el que todavía se puede hallar una especie de fogonazo, de flash, con una curiosa y extraña adherencia a la realidad.


Dama de Porto Pim, estilizado "libro de frontera", se inicia con una inolvidable cartografía sonámbula, 'Sueño en forma de carta', una especie de prólogo soterrado (que Tabucchi ha contado que surgió de una lectura de Platón y del traqueteo de un parsimonioso autocar que iba de Horta a Praia do Almoxarife), donde la escritura parece servir para dar forma a una geografía existencial, a un mapa interior que el autor de la carta diseña recorriendo un grupo de islas pobladas por gentes que veneran pasiones y adoran dioses como el amor o el odio ("el dios del odio es un pequeño perro amarillo de aspecto macilento, y su templo se levanta en una minúscula isla que tiene forma de cono") o el dios del resentimiento, pero que, como en el mapa interior, son reales sólo en un sueño en forma de carta: "Después de haber surcado las aguas durante muchos días y muchas noches, he comprendido que el Occidente no tiene fin sino que sigue desplazándose con nosotros, y que podemos perseguirle a nuestro antojo sin jamás alcanzarle".


Todo el libro es la historia de esa persecución sin fin, lo que hace que en un momento determinado, derrumbados por el más lúcido de los sueños, lleguemos a la maravillosa Horta, la capital de la isla de Faial, y allí entremos en el legendario Peter's Café Sport, el bar más famoso del Atlántico. En realidad, es mucho más que un bar, es una auténtica institución y fue inaugurado en los primeros años del siglo pasado y ya entonces exhibía su fachada pintada de azur, su marca distintiva.

 

En el texto 'Otros fragmentos', incluido dentro del libro, es donde Tabucchi incluyó la mención a este acogedor bar del gin-tonic fulminante, donde los balleneros van todas las tardes a recordar las otras tardes, aquellas en las que aún navegaban y, por tanto, aún conservaban ese oficio que, al estar hoy prohibido, les ha convertido en pacíficos agricultores con tabarra de taberna.


Una de las piezas claves de Dama de Porto Pim es el relato de amor y crimen que da título al libro y que Tabucchi oyó a un ex ballenero, convertido en cantante en locales nocturnos para turistas norteamericanos. Es la narración de un amor total, apasionado y violento, la historia de una doble traición que culmina en un final mortal. Pero acaso la cumbre del libro sea la intensa microbiografía del poeta del siglo XIX Antero de Quental. Tras una larga estancia en Lisboa, el gran bardo de las Azores, el más trágico de todos, regresa a sus islas cargado de sueños para ellas, sueños que se derrumban a los pocos meses. Desesperado por la soledad de su patria, descubre la existencia de la nada y se mata en Ponta Delgada de un pistoletazo en un banco verde frente al mar, bajo el blanco muro del convento de la Esperança, donde hay un ancla azul dibujada sobre la pared encalada: "Accionó el mecanismo del revólver e hizo fuego por segunda vez. Entonces el gitano desapareció con el paisaje y las campanas de la Matriz empezaron a tañer el mediodía".

 

 

Un mediodía, en mi primer viaje a las islas, fui a la Matriz para sentarme en el banco verde frente al mar y sentirme así en el mismo lugar que Antero. Lo encontré todo igual que el día en que se mató, incluso seguía allí el ancla azul dibujada en la pared encalada. Pero de todos los bancos verdes de la zona, el de Antero era el único ocupado. Por alguna extraña razón, era casi propiedad de unos vagabundos. Tuve que esperar dos horas a que éstos se marcharan para poder sentarme en el lugar del pistoletazo. Había el mismo mar azul perfecto que aquel lejano mediodía. La misma plaza, los mismos árboles, el mismo resplandor del agua. No son las Azores un lugar donde la gente borre las huellas.


Enrique Vila-Matas - Publicado em Babelia

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publicado por ardotempo às 16:35 | Comentar | Adicionar

O sábio e o anel de ouro

 

 

O blog ARdoTEmpo envia essa imagem ao jornalista Luis Carlos Vaz, profundo conhecedor dos labirintos fascinantes da alma feminina, tal como o compositor Chico Buarque de Holanda. O anel, uma trama barroca em ouro 24 quilates incrustrado de diamantes, é uma criação do designer de jóias Ralf Schinke. Se esta obra estivesse tangível e livre nas mãos do jornalista Vaz, ele bem saberia o destino que lhe daria.


Imagem: O anel Trama, de Ralf Schinke - Ouro 24 quilates e diamantes

publicado por ardotempo às 15:15 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar

O relâmpago

Ninguém mais senão eu comigo no escuro


Mariana Ianelli


O quarto feito um lago sem fundo e o corpo ali mergulhado, esperando o sono. Nesta hora do mais ninguém senão eu comigo no escuro, vai-se embora a pose de garça, o extenso currículo, a questão da honra. É quando tudo se aclara e as partes da bilha quebrada se encaixam.


Os dias voltam, tantas coisas voltam, o que nem imaginávamos ter salvado aqui dentro, o repique de um sino e um estrondo de portas, em algum lugar daquela casa uma briga mal contida, explodindo em sussurros, mas por que lembrar disso agora, dos móveis arrastados na enchente, das paredes cobertas de lama, de repente a prancheta branca onde o primeiro poema e uma gata siamesa debaixo do calor da lâmpada, tudo isso que vem num instante, e que já foi o pão de cada dia, durante anos e anos, agora é só uma aguada no tempo, um chumaço de nuvens desenhando formas, agora um lustre japonês, agora uma orquídea, agora uma salamandra, todas essas coisas que voltam misturadas, mas cada uma perfeitamente clara, inexplicavelmente viva, perto de ser tocada, nesta hora do corpo caído no escuro, ao comprido na cama, esperando o sono, nesta vigília do terceiro olho, este olho que se abre com perícia de lobo, que se abre e vai à caça de todas essas coisas, é então que lá de dentro vem o relâmpago, mas como foi que não vi isso antes, quanto descaso, quanta ansiedade inútil, ou será que vi e desprezei, pois também isso pode acontecer nesta hora, debulhar o terço do guardai-me em vosso nome, escutai-me, dai-me forças, minha rocha e meu refúgio.


Sabe-se lá quanto tempo dura essa hora que não tem fundo, para um corpo estendido que não está morto, que tem visões que não são as de um sonho, quando tudo fica tão nítido que mal chega o dia seguinte e já não lembramos que sabemos tanto.

 

 

 

 

Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

publicado por ardotempo às 12:02 | Comentar | Adicionar

As sombras, os touros e a coragem

Desafio

 

 

Gilberto Perin - Carro alegórico - Fotografia (Uruguaiana RS Brasil), 2010

publicado por ardotempo às 01:23 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 04.02.11

Dia 22 de fevereiro - três anos de blog

A pensar...


 

2.250 artigos (o que foi possível fazer), 250.000 visitantes (pouco, muito pouco...), 8 livros publicados, 4 prêmios de literatura (nenhum deles é o Portugal Telecom nem o Jabuti, certames aos quais já não se concorrerá mais), 15 livros a publicar em 2011, 1 livro a escrever (sem data para terminar), 10 exposições no período passado, 5 exposições a realizar em 2011, uma individual de pintura (Apenas Pintura), ausência de apoio de divulgação ao blog, freio no facebook, é necessário pensar...

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publicado por ardotempo às 21:49 | Comentar | Ler Comentários (2) | Adicionar
Quinta-feira, 03.02.11

A felicidade não existe

A ilusão inventada

 

É uma mentira, um truque de ilusionistas, demagogos e trapaceiros, uma aposta no escuro, perdida, a fraude de vigaristas mentirosos, manipuladores dos incautos e dos crédulos. É uma palavra triste e sem consistência. Não é um conceito e tampouco se tangibilza. Nem dinheiro é o seu sinônimo. Jamais alcança concretude. É uma abstração demencial, uma névoa embriagadora, hipnótica. Uma droga, um vício que resulta inevitavelmente em tragédias. São instantes efêmeros de interpretação subjetiva portanto questionáveis e não substantivos. Sempre, em todos os casos, o final piora e termina mal, fúnebre, friamente.

 

Existe a alegria, a natureza, a saúde, os afetos, a frugalidade, as amizades, as viagens, os reencontros, as saudades, a arte, as realizações de trabalho individual, a leitura, a sorte, a vida. Viver a vida intensamente é o minuto e isso pode ser uma canção, uma palavra perfeita, uma cor inesquecível, a beleza exata. A vida não tem depois.

publicado por ardotempo às 23:59 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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