Abstrata DOIS
Fotografia de Gilberto Perin
Gilberto Perin - Abstrata / Arbustos e muro (Porto Alegre RS Brasil), 2011
Fotografia de Gilberto Perin
Gilberto Perin - Abstrata / Arbustos e muro (Porto Alegre RS Brasil), 2011
Um dia
Certo dia, a moça muito bela (e muito rica) disse ao rapaz: "Você é honesto demais. Não se pode ser assim todo o tempo. Receber 10% nos trabalhos, nos projetos que você faz não tem problema algum. Ajuda e você não ficará sem dinheiro".
O rapaz, que era jovem, respondeu: "Honestidade não se quantifica, não se é mais ou menos honesto. É como a virgindade. Ou se é honesto ou não".
A moça respondeu com firmeza: "Não se pode ser assim o tempo todo. Você se torna chato com essa história de honestidade e porisso está assim, sempre no limite, sempre sem dinheiro." E afastou-se.
O casamento da princesa e do sapo se desfez. A moça, linda, ficou cada mais rica e o sapo, pobretão, cada vez mais solitário.
O génio simples
Maria do Rosário Pedreira
Nesta época em que vivemos, parece que já está tudo inventado – e, em matéria de literatura, é de facto muito difícil fazer bom e diferente. O segredo está muitas vezes em «baralhar e dar de novo», uma vez que se trabalha com um material abstracto chamado linguagem que, graças a Deus, não é estanque e aceita constantes combinações. Mas, se muitos críticos dão primazia à linguagem em detrimento da história para definir o génio literário, a verdade é que houve muitos génios da literatura que vingaram com um pelo menos aparente despojamento linguístico.
Os escritores norte-americanos, por exemplo, não são lá muito dados a rendas e franzidos, optando, frequentemente, por uma simplicidade quase comovente na escolha das palavras e na composição das frases e apostando quase tudo na estrutura e na temática. É, pois, a todos os títulos, admirável essa novela que todos os jovens deviam ler – e muitos lêem – chamada O Velho e o Mar, que vive com apenas duas personagens (e uma delas não fala) no mesmo cenário, do princípio ao fim da narrativa. Se, por mero acaso, nunca leu a pequena obra-prima do génio Ernest Hemingway, guarde umas duas ou três horas da sua vida para depois nunca mais se esquecer dela.
Maria do Rosário Pedreira - Publicado no blog Horas Extraordinárias
O Cinema Secreto
Ivan Lessa
Os melhores filmes foram aqueles que nós vimos garotos entrando sem pagar no cinema e matando aula. Não me lembro de um único deles. Sei que não foram poucos. Este bonequinho estava sempre de pé batendo palma.
Em matéria de filme cult era o que havia. Discutia-se apenas com outros praticantes desta arte que não ousava dar suas caras ou oferecer seu nome.
Os outros filmes eram apenas filmes. Bons, maus, ruins. Mas filmes, apenas.
O cinema secreto – na verdade, não tinha ainda um nome – era pessoal e intransferível. Pura curtição. Vendaval de emoções (acho que foi o nome de um desses filmes. Além do mais, com Vera Hruba Ralston. O que só tornava mais picante o prazer), segredo inviolável, mistério à beira-mar.
Era tudo pertencente a uns poucos pequenos truões e só não usávamos capa preta e máscara para não chamar a atenção do gerente e do bilheteiro, os dois grandes obstáculos à vitória de nossas conquistas. Vivíamos, sem saber, títulos de filmes perdidos, legendas esquecidas, atores desaparecidos que nunca pegaram (Vera Hruba Ralston seria nossa musa, se musa tivéssemos adotado).
Hoje, cinema passou daquele slogan sem graça, “Cinema é a melhor diversão”, a uma realidade digitalizada, em suas diversas modalidades.
Foi laserdisc, VHS, DVD (e Blue Ray, ainda por cima) e agora encontra-se em pleno estado de terceira dimensão, ou 3D, que simplifica mais a coisa, tornando obsoletos aqueles óculos de papelão com “lentes” verdes e vermelhas de, acho que eram, celofane.
O cinema ficou tão importante, mas tão importante que passou, ao menos no Brasil, no Rio de Janeiro, a resolver problema social.
Lá está nas folhas: inauguraram agora, neste fim de ano que passou, na favela do Complexo do Alemão um cinema, o Cine Carioca Nova Brasília, com ar condicionado e todos os modernos confortos, a um custo relativamente barato, apenas 3 milhões de reais, com 93 poltronas (5 para pessoas com necessidades especiais e obesos), que só podem ser de luxo. A novíssima sala de espetáculos estreou com um filme antigão mas maquiado de terceira dimensão e um Jeff Bridges digitalmente remoçado. Tron - O Legado, seu título em português do Alemão.
Todo mundo que sabe escrever e ocupa lugar em jornal foi unânime: estava resolvido o problema social que há décadas empana as maravilhas de nossa cidade. Traficantes deixaram tudo de lado – armas brancas e de fogo, drogas – e foram comemorar a auspiciosa ocasião que tem duas horas de duração. As outras 22 horas do dia? Que farão os habitantes não marginais? E também os marginais, claro? Ora, exegeses do clássico Jeff Bridges.
Incrível não terem pensado nisso antes. O fato de alguns dias depois de sua inauguração o Cine Carioca ter sido apedrejado e vandalizado prova a irritação dos malfeitores malogrados.
Aqui em Londres há literalmente, como na minha infância, um cinema secreto.
Não se chama nem Roxy, Politeama ou Rian. Chama-se O Cinema Secreto. Mesmo e apenas.
Não se destina à recuperação social, pois os ingleses são meio burrões nesse esquema. O Cinema Secreto oscila, eu diria, entre a instalação artística e a velha e boa invenção dos irmãos Lumière.
Sai meio caro. Andei farejando, deixarei para dias melhores. A coisa funciona assim:
Você entra na internet, depois de googlar The Secret Cinema, e se inscreve. Simplíssimo. Aí fica esperando ser convidado para a próxima exibição, se assim a podemos chamar. Não é barato. Tudo indica, porém, que compensa. O mais recente filme “passado”, lato sensu, foi aquele que nós, inspirados que somos, chamamos de Um Estranho no Ninho, no original One Flew Over The Cuckoo´s Nest, baseado no romance homônimo de Ken Kesey. Vocês manjam. Aquele com o Jack Nicholson no hospício.
Uma vez sócio e feita a reserva, você vai a um lugar específico – sim, são cheios de mistérios, feito quando se batia gazeta e se ia ao cinema Ritz – e mergulha no mundo que já foi da sétima arte e agora, parece estar partindo para a oitava ou nona.
O filme em questão estava sendo passado num hospital abandonado. Só que o filme era a atração final. Antes, o espetáculo, ou a exposição. O frequentador (não dá para ser chamado só de espectador) passa por um desfile de pacientes com olhos de demência vagando por corredores decrépitos, iluminados apenas por oscilantes lâmpadas de 40 watts. Há sangue nas paredes. Música adequada (The Sound of Silence, no caso) cantarolada por centenas de almas vagando por todo o noso- ou será mani-cômio?
Depois é que vem o filme. Que é aquele mesmo repleto de Oscar e que todo mundo já viu. E que, se digitarem e tacarem em 3D, sugiro para nossas favelas. Vai ser recuperação social a mãos cheias (mas não de pedras). Mas passem mesmo. O filme apenas. Sem essas frescuras de “instalações”. Esqueçam a parte “artística”, algo que ocorre sempre entre aspas e nunca tem o mérito da redenção que tem o Cine Carioca do Alemão.
Ivan Lessa - Publicado no blog BBC - Brasil
Ano cor de rosa no país das maravilhas
Un año de color de rosa. Pantone es el instituto del color en cuyas paletas se basan la inmensa mayoría de los creadores del mundo. Casi todos los objetos coloreados de uso cotidiano se basan en las escalas y las variaciones propuestas por esta empresa que, tradicionalmente bautiza cada año con uno de sus tonos numerados y sistematizados.
A 2010 le tocó ser el año turquesa y un nada gafe amarillo mimosa representó al desastre del año 2009. Según los responsables de Pantone, los primeros servían como "un escape para muchos", mientras que este madreselva elegido para representar a uno de los años más negros que se han podido vaticinar se supone que es un color que "nos amina a enfrentar problemas cotidianos con brío y vigor. Una dinámica de color rosa rojizo es alentador y edificante. Se eleva más allá de escapar de nuestra psique, infundiendo la confianza, el coraje y el espíritu para afrontar los retos que se han convertido en parte de la vida cotidiana.
"En momentos de estrés, necesitamos algo para levantar el ánimo. El Madreselva es cautivante y estimula el color que tiene la adrenalina - perfecta para alejar la tristeza", explica Leatrice Eiseman, directora ejecutiva del Instituto Pantone Color.
El madreselva no sólo ha sido seleccionado como color del año por Pantone, también será el matiz decisivo para la primavera del año que comienza. Según un portavoz de Pantone, este color ya ha sido elegido por diseñadores como Cynthia Steffe o el gigante de la moda rápida H & M que ya lo han incorporado sus líneas de primavera de prêt-à-porter.
Durante más de una década las declaraciones de color del año de Pantone han influido en el desarrollo de productos y las decisiones de compra en múltiples industrias como la moda, el hogar y diseño industrial.
Publicado em El País
A fé inquebrantável move montanhas e derruba paredes
Maribel Felippe - A fé - Fotografia (Estrada Rio Grande a Pelotas RS Brasil), 2011
Jaguarão, a sua ponte e seu futuro museu
Saúdamos o tombamento do conjunto arquitetônico da fantástica cidade de Jaguarão como tesouro do patrimônio cultural brasileiro, os oitenta anos da Ponte Mauá entre Jaguarão e Río Branco e o futuro Museu do Pampa (Centro de Interpretação do Pampa - CIP). Na imagem, a ponte que leva à cultura e ao conhecimento, a maquete da ponte internacional de Jaguarão (representação estilizada que completa cerca de 60 anos) na biblioteca do grande escritor Aldyr Garcia Schlee, acompanhado pela sua neta Helena.
Maquete da Ponte Mauá - Aldyr Garcia Schlee e Helena (Capão do Leão Brasil), 2011
Presidente ou presidenta?
Prof. Cláudio Moreno
PRESIDENTE ou PRESIDENTA Dilma?
Finda a eleição, abre-se um verdadeiro plebiscito entre os falantes; o resultado, que só conheceremos com o tempo, pode apontar a vitória de uma das duas formas ou, o que é mais provável, um honroso empate entre elas. Conhecido o resultado das eleições, a vitória da ministra Dilma Rousseff suscitou uma questão que anda na boca das gentes e faz meu telefone tocar de dez em dez minutos: afinal, é presidente ou presidenta?
Como já expliquei numa coluna sobre generala, os tempos modernos assistiram a uma ascensão feminina irreversível. Há mais de vinte anos as mulheres do planeta — especialmente no Ocidente — vêm conquistando, assim de mansinho, as mais altas posições na escala de poder, antes reservadas exclusivamente para o sexo frágil (título que há muito os homens surrupiaram das mulheres). Hoje não constitui novidade alguma encontrar uma mulher no cargo de prefeito, de vereador, de deputado, de governador (o leitor há de notar que aqui o masculino se refere ao cargo, não à pessoa que o ocupa); nada mais justo, portanto, que recebam o tratamento linguístico adequado e sejam chamadas de prefeitas, vereadoras, deputadas e governadoras.
É muito importante lembrar o que ocorreu com o vocábulo primeiro-ministro, que passou por várias etapas antes de conquistar definitivamente o direito a ser usado no feminino. Quando o mundo começou a falar em Indira Gandhi, eleita em 1966, a imprensa brasileira foi apanhada de surpresa e saudou-a inicialmente como “o primeiro-ministro Indira“. O absurdo da situação levou alguns a ousarem uma combinação híbrida, cruza de jacaré com cobra-d’água: “a primeiro-ministro Indira“. Esta forma esquisita foi a gota derradeira, o passo decisivo para a metamorfose final, pois a não-concordância do artigo com o substantivo, escandalosa demais para ser aceita por qualquer ouvido normal, forçou a flexão natural para “a primeira-ministra Indira“.
Quando Golda Meir e Margaret Thatcher apareceram no cenário mundial, o nosso léxico já tinha absorvido plenamente a inovação.
E presidente, como fica?A rigor, podemos deixá-lo na forma invariável, assim como fazemos com a maioria dos vocábulos derivados dos antigos particípios presentes: o/a viajante, o/a estudante, o/a gerente, o/a assistente. Contudo, sendo a adaptação e a evolução as duas características mais importantes de um idioma vivo como o nosso, é natural que vá crescendo, pouco a pouco (como tudo o que a língua faz), a tendência a flexionar em gênero alguns desses vocábulos tradicionalmente considerados uniformes. Ao lado de mestre surgiu mestra, forma cuja aceitação foi facilitada pelo extraordinário prestígio que desfrutam as heroicas professoras que nos ensinaram a ler e a escrever — mas o mesmo ainda não ocorreu com chefa, forma em que muitos ainda farejam um viés (ô, palavrinha pedante!) pejorativo. O prezado leitor pode ter certeza, porém, que a resistência é temporária, pois chefa tem a seu favor o fato de ser uma flexão formada dentro das regras internas do idioma (no mundo vegetal, diríamos que é uma plantinha do bem, nativa e espontânea, e não uma espécie exótica ou transgênica, sempre suspeita). Em breve este feminino será aceito no clube das formas cultas; o brasileiro, então, de acordo com seu gosto e sua intenção, poderá escolher entre ela ou a forma genérica chefe para designar uma mulher que exerce um cargo de chefia.
“Poderá escolher” — aqui é que bate o ponto. Não vejo por que reclamar quando um velho galho produz um novo rebento, pois isso significa que o repertório que a língua nos oferece acaba de ficar mais rico. Da costela de parente acabou nascendo o feminino parenta; há quem não use, mas ele está aí, agradando a muito bom escritor. Assim também presidenta, que figura, aliás, tanto no Aurélio quanto no Houaiss. Quem preferir, trate o vocábulo como um comum-de-dois (“substantivo que tem a mesma forma para o feminino e para o masculino”), cuidando apenas em flexionar os artigos e os adjetivos que o acompanham (o presidente eleito, a presidente eleita); quem, no entanto, achar que presidenta é mais adequado para marcar o coroamento da ascensão feminina (esta parece ser a opção de Dilma), ou que soa melhor, etc. e tal, pode ficar tranquilo, que tem padrinhos poderosos.
A partir desta data, cada vez que alguém optar por uma ou por outra forma estará participando de imenso plebiscito silencioso, que acabará, com o tempo, determinando o destino das duas.
Prof. Cláudio Moreno
Publicado em Sua Língua
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(N.E: Continuarei a utilizar a versão “comum-de-dois” - ou seja, a presidente e o presidente, o que me parece bem mais elegante, generoso e democrático, pela razão singela que a inovação aparenta transcender ao simples uso da palavra, uma vez que carrega uma conotação imperativa ideologizada, aparentemente visando identificar e cooptar adeptos de uma opção partidária e política, o que não me soa ou cheira como uma boa, inocente e apolínea utilização para a linguagem)
Lo imposible
Enrique Vila-Matas
El autor de aquel famoso eslogan del Mayo francés que decía "Sed realistas, pedid lo imposible" fue Raúl Escari.
Le vi a Raúl este verano en Buenos Aires y, tras una agitada conversación, terminó por recomendarme, sin duda irónicamente, un libro de Michio Kaku, Física de lo imposible (Debate), que, según dijo, ilustra cómo ha pasado el tiempo, 40 años, desde la Revolución, y cómo ya no hay que pedir lo imposible, lo tenemos simplemente aquí, a la vuelta de la esquina.
Claro está que tenerlo aquí ha dejado pulverizada la materia tierna de nuestros sueños de antes. Ahora lo imposible ha ampliado su espectro y, según pasan los años, en lugar de aspirar a grandes conquistas sociales (concebíamos, por ejemplo, un mundo utópico, ya no sin edad de jubilación, sino directamente sin nadie obligado a trabajar), se centra en cuestiones ligadas a la panacea electrónica, a la gran lámpara de Aladino de la alta tecnología.
Ahora el mundo de lo imposible se pregunta si algún día podremos desplazarnos a un lugar en un instante (quizás parpadeando, haciendo funcionar uno de los chips que llevaremos incorporados), crear máquinas de movimiento perpetuo, leer el pensamiento ajeno (en Utah han leído ya en las ondas cerebrales de más de un paciente), viajar en el tiempo, ser invisibles. Estábamos en la terraza de La Biela, en la Recoleta. El día era nítido, sin nubes, con vocación de visible. "Deberías escanear tu ropa. Puede que te estén espiando, que lleves nanosondas", dijo Raúl, queriendo seguramente mostrarme que sigue siendo una autoridad en el tema de lo imposible, pero en cualquier caso advirtiéndome de algo nada descabellado.
¿O acaso hemos de considerar inverosímil que civilizaciones avanzadas, que dominan la Nanotecnología - ciencia del control y manipulación de la materia a una escala menor que un micrómetro -, hayan enviado ya a la Tierra robots de tamaño molecular y nosotros ni nos hayamos enterado? "Creo que las nanosondas son un método de indagación mucho más práctico que las naves espaciales", concluyó un temerario Raúl. Y ya solo le faltó añadir que los ovnis - toda aquella parafernalia asustando a nuestros pobres campesinos - eran pura antigualla.
La verdad es que, con su mezcla de ironía y realismo de lo imposible, terminó logrando que, a mi regreso de Buenos Aires, no tardara nada en leer Física de lo imposible, donde Kaku anuncia un inmediato futuro con paredes inteligentes a las que formular preguntas, lentillas con realidad aumentada, chips a un céntimo insertados en todo tipo de objetos, ordenadores controlados por la mente. Kaku lo ve todo factible, aunque sea para dentro de un millón de años. Pero sus zumbidos de euforia tecnológica le hacen caer - gran paradoja - del lado del viejo mundo de las fábulas, en el universo idílico de la lámpara de Aladino. Y ya se sabe que, desde que se supo de su existencia, la lámpara no ha cesado de evidenciar lo poco preparada que anda la humanidad a la hora de administrar con inteligencia el poder de las energías extraordinarias que ella ofrece.
Es lo que Ernst Jünger definió como "el problema de Aladino". Al igual que en el cuento de la lámpara, el problema está en nosotros mismos, incapaces de ir hacia un mundo verdaderamente libre, por mucho que la luz de la fábula - ahora tecnológica - proyecte maravillas. Kaku decide ignorar que existe ese problema y describe un ridículo porvenir perfecto, sin la traba del factor humano que tanto lo enredaría todo. Dibuja un futuro sin los defectos morales y demás averías humanas que frustraron a las sucesivas generaciones de realistas que pidieron lo imposible y que, como Raúl, autoridad todavía en la que fuera tan tierna materia, se encontraron con el problema y mordieron el polvo, y ahora leen a Kaku incrédulos, el rostro demudado, la ironía a duras penas contenida.
Enrique Vila-Matas
Desenho
Desenho-Carta - Desenho a tinta china e aquarela, a pincel, pena caligráfica e canivete, sobre papel de gravura - 2011
Veneza
Uma catástrofe recorrente para os moradores (poucos) e para os turistas (muitos): quando sobem as águas em Veneza. Todo ano acontece, na imagem a Piazza San Marco, ao lado do Palácio dos Doges, ao lado da Catedral, a água alta do Lido invade a cidade.
Alta Fotografia
"A percepção e o sentido da excelência não é uma expectativa passiva que leva à surpresa, é uma exigência interior e consciente que confirma a curiosidade."
Giacomo Favretto - Cozinha - Fotografia I-Phone (São Paulo SP Brasil), 2010
O século de Sabato
Mariana Ianelli
Sendo a sorte generosa, Ernesto Sabato completará este ano um século de vida. É uma pena que homens como ele sejam submetidos à mesma recôndita justiça que, assim como deu a vida, dá também a morte a todos. Porque a vitalidade deste senhor quase centenário é de fazer inveja aos jovens de hoje.
Quem sabe neste momento, em Santos Lugares, onde mora, Ernesto Sabato esteja desfrutando de algum prazer muito simples, rememorando, por exemplo, a campana das suas horas de infância em Rojas, pintando um autorretrato em azul e negro ou contemplando em silêncio, na ruína da sua casa coberta de trepadeiras, a imagem da sua própria velhice. Ernesto Sabato é um homem que pode se mirar, a essa altura da vida, sem o medo de encontrar pegada à cara qualquer espécie de máscara sinistra.
Não por acaso o ano de explosão da bomba atômica em Hiroshima oficializou sua entrada para a literatura. Entre as torres da ciência e um caminho escarpado de perigos, Sabato escolheu o que julgava ser o seu destino. Onde se encerrava uma prestigiosa carreira de físico, tinha início a peregrinação do artista, seu respeito pelo mistério de uma realidade que a razão não domina, sua observância a valores transcendentes que não se negociam, uma luta contra aquilo que, adoecendo o mundo contemporâneo, ele chamou de “indiferença metafísica”.
Em uma manhã de janeiro de 1975, Borges e Sabato, em um de seus últimos encontros, conversaram sobre Hölderlin e sobre a loucura que levou o poeta a viver em uma torre durante mais de trinta anos, aos cuidados de um carpinteiro. Borges fala dessa loucura como um cerco da noite. Sabato recorda, então, uma frase de Hölderlin citada anteriormente em seu livro O escritor e seus fantasmas: “O homem é um deus quando sonha e não passa de um mendigo quando pensa”. Frase emblemática da trajetória de Sabato como artista, como criador que, separando a luz das trevas, hospedou-se, também ele, dentro da noite, levando para ali sua lucidez, uma lucidez que, se teve algo de louco, foi sua resistência, sua esperança em uma vida mais humana, feita de convívio, de memória e de experiência, e não uma vida avassalada pela tecnologia, pela hipnose das telas, pelo utilitarismo.
Se faltam encontros verdadeiros e horas livres, é porque sobeja do outro lado um entorpecimento, uma esterilidade dos sentidos, uma epidemia de cegueira da qual já se teve notícia uma vez pelas páginas da literatura. Foi inclusive José Saramago que, na ocasião do aniversário de 97 anos do escritor, escreveu em seu Caderno: “Estou certo de que ao século que acabou se virá chamar também o século de Sabato, como o de Kafka ou de Proust”. Espera-se que o início desta nova década mereça também um século de vida de Ernesto Sabato.
Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve
Imagem: O túnel de poesia, de Mana Bernardes
O miúdo
António Lobo Antunes
Costumava ficar na loja, durante o almoço, para que o pai e o irmão pudessem ir a casa comer. As aulas da tarde começavam às três e embora tivesse só onze anos o pai confiava nele:
- Nasceu para isto
dizia à mãe com orgulho, a desfazer-lhe o ombro numa palmada satisfeita, o raio do miúdo nasceu para isto. Era uma loja pequena, uma papelaria, os clientes moravam no bairro, tratavam-no por tu, conhecia-os todos, sabia mexer na caixa, sabia o preço das coisas, e mesmo os estranhos, tão raros, gostavam de ser atendidos por ele. A maior parte do tempo, aliás, não atendia ninguém: lia revistas aos quadradinhos ou essas, de modelos, tão diferentes da mãe, magras, bonitas e quase sem roupa, que namoravam jogadores de futebol ou atores de novela, de peito ao léu e ele pasmado. Eram duas e meia, no relógio hexagonal por cima do tabaco e dos isqueiros de plástico, o pai e o irmão deviam estar a chegar, guardou os modelos na pilha dos modelos
(algumas cá fora, dos dois lados da porta, presas com pinças de roupa)
guardou os quadradinhos na pilha dos quadradinhos
(nenhuma cá fora, dos dois lados da porta, presas com pinças de roupa)
e só então deu pelo sujeito, de costas, a pegar num boneco de feltro, a examinar-lhe o preço, a poisá-lo, trocando-o por um Bambi cromado numa peanha de madeira, a voltar-se erguendo o Bambi à altura dos olhos
- Bonito, não achas?
antes de o deixar cair no soalho, a interessar-se
- Quantos anos tens, miúdo?
um sujeito mais ou menos da idade do irmão, vinte e um, vinte e dois, com uma tatuagem no pulso, de cabelo comprido e trança de cabedal à volta do pescoço. Respondeu
- Onze
no momento em que o sujeito dava um pontapé no Bambi, que desapareceu a saltar no passeio.
- Bela idade, miúdo, bela idade
aprovou o sujeito a fechar a porta da rua e a virar o cartão, pendurado de um anzol, do lado que anunciava Aberto para o lado que anunciava Fechado.
- Assim estamos à vontade, miúdo, só tu e eu cá dentro, não achas?
Depois de virar o cartão desceu a persiana metálica da porta. Não devia fazer a barba há uma semana e usava brincos a imitarem caveiras. O miúdo encostou-se à parede atrás do balcão, a sentir o puxador de uma gaveta contra os rins. Viu um amigo do pai passar lá fora, entre as prateleiras da montra, o senhor Lima, que trabalhava nos impostos, viu a dona da mercearia em frente a inspecionar pêssegos num caixote, com uma freguesa, e um automóvel da polícia, com um par de guardas lá dentro, a rodar devagarinho. O sujeito assentou os cotovelos no balcão numa confidência amiga
- Sou compincha do teu mano, miúdo
e inclinou-se para diante repreensivo
- O problema, percebes, é que me faltou ao respeito
enquanto o puxador da gaveta entrava na carne do miúdo e principiava a doer-lhe. O sujeito insistiu
- Faltou-me ao respeito
e pediu-lhe a opinião, a ajeitar o brinco
- O que é que tu fazes quando te faltam ao respeito, miúdo?
o olho direito guinava-lhe um bocadinho para dentro. Mais cinco ou dez minutos e o pai e o irmão chegavam. Respondeu
- Não sei
e não sabia de facto, nunca lhe tinham faltado ao respeito e não entendia muito bem o que faltar ao respeito significava. Na verdade não entendia mesmo o que faltar ao respeito significava. Às vezes a mãe, para uma vizinha
- O meu marido nunca me faltou ao respeito
a vizinha a aprovar, muito séria, e ele sem coragem de perguntar.
- O que é respeito, mãe?
por se lhe afigurar um assunto grave e terrível. Vinte para as três e a cara do sujeito, desiludida
- Entreguei ao teu mano uns saquinhos com uma coisa cara para vender e ele ficou com o dinheiro, miúdo
e o miúdo contente por aprender o que era o respeito: se a mãe desse ao pai saquinhos com uma coisa cara para vender o pai entregava-lhe logo o dinheiro. O sujeito percebeu o soslaio ao relógio:
- O teu mano gosta muito de ti, não gosta, miúdo?
enquanto tirava uma pistola do blusão e atarraxava, no cano, uma espécie de tubo
- Isto não me dá prazer nenhum mas vais ver como o teu mano entra na ordem
com o miúdo a pensar que a pega da gaveta lhe ia sair pelo umbigo. Não saiu. O sujeito disse
- Gostei de te conhecer, miúdo
e a seguir um estalo, e a seguir outro estalo. De bochecha nas revistas, o miúdo viu-o subir a persiana, virar o letreiro ao contrário, do lado que anunciava Fechado para o lado que anunciava Aberto, deixar a porta escancarada e sair. Por menos de trinta segundos, risquinho por risquinho no relógio da papelaria, não assistiu à chegada do pai e do irmão.
António Lobo Antunes