Terça-feira, 18.01.11

Uma rua sem nome

Muito antiga, bem no centro, defronte ao rio

 

Existe uma rua em Jaguarão RS, bem no centro histórico recentemente tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN). Anônima em sua inclinação elegante e sequencial em cotas, é literariamente preenchida de feitos, dramas e sonhos. É uma das mais antigas da cidade, partindo do cais, paralela à Ponte Mauá, ao lado da antiga Rua do Fogo (atual XV de Novembro), lindeira ao Mercado Público Municipal e à Delegacia da Capitania dos Portos. É parte integrante da história da cidade heróica, no frontão do sol e da linha divisória com o Uruguai. Traçada no mesmo eixo da ponte, simboliza um corredor de acesso, em abertura de diálogo generoso ao revés de uma trincheira transversal de obstáculo. Apesar de curta em sua extensão, está nutrida de testemunhos de fatos notáveis e triviais, estes talvez mais caudalosos, consistentes e humanos do que aqueles e em seus muros e paredes ecoam os murmúrios da memória da vida e da literatura. Esta rua central, debruçada e voluptuosamente entregue às lendas e aos caprichos do Rio Jaguarão, nunca teve um nome. Terá um nome e uma titulação até o final do ano de 2011.

 

 

publicado por ardotempo às 18:25 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 17.01.11

Os sonhadores

Sonhos


Alberto Manguel


“Vamos de táxi a casa de Bioy e de Silvina, um apartamento espaçoso que proporciona a vista de um parque. Há décadas que Borges passa várias tardes por semana neste apartamento. A comida é horrível (hortaliça cozida e, à sobremesa, algumas colheradas de doce de leite), mas Borges não se dá conta.

 

Esta noite, cada um deles, Bioy, Silvina Ocampo e Borges, conta aos outros os seus sonhos. Com a sua voz àspera e grave, Silvina diz que sonhou que se afogava, mas que o sonho não foi um pesadelo: não houve dor, não teve medo, sentiu simplesmente que estava a dissolver-se, a tornar-se água. Depois Bioy refere que no seu sonho se encontrava diante de duas portas. Sabia, com essa certeza que muitas vezes possuímos em sonhos, que a porta da direita o levaria a um pesadelo; resolveu transpor a da esquerda e teve um sonho sem incidentes.

 

 

 

 

 

Borges observa que ambos os sonhos, o de Silvina e o de Bioy, são em certo sentido idênticos, uma vez que os dois sonhadores esquivaram-se ao pesadelo com êxito, um rendendo-se-lhe, outro negando-se a penetrar nele. Conta a seguir um sonho descrito por Boécio, no século V. Nele, Boécio assiste a uma corrida de cavalos: vê os cavalos, a linha de partida e os diferentes e sucessivos momentos da corrida até que um dos cavalos cruza a meta. Então, Boécio vê um outro sonhador: alguém que o observa a ele, observa os cavalos, a corrida, tudo ao mesmo tempo, num só instante. Para esse sonhador, que é Deus, o resultado da corrida depende dos cavaleiros, mas esse resultado é já conhecido pelo Sonhador. Para Deus, diz Borges, o sonho de Silvina seria ao mesmo tempo agradável e digno de um pesadelo, enquanto, no sonho de Bioy, o protagonista teria atravessado ao mesmo tempo as duas portas. Para esse sonhador colossal, todo o sonho equivale à eternidade, em que estão contidos cada sonho e cada sonhador.


Com Borges, de Alberto Manguel

Imagem: Fotografia de Marcelo Freda Soares

Publicado por José Mário Silva, no blog Bibliotecário de Babel

publicado por ardotempo às 15:08 | Comentar | Adicionar

No País das Maravilhas não há recato

 

Mil mortos nas avalanches da chuva

 

Mil mortos e um morto nas avalanches da chuva.

Não há recato no País das Maravilhas.

Ao mesmo tempo, na cidade ao lado,

a euforia de milhares na festa

pelo jogador de futebol.

Milhares de camisetas, milhares de pessoas

a cantar, a gritar no meio da tarde de trabalho

(de onde vem tanto dinheiro para consumir

tanto tempo, o luxo de tanto ócio?)

 

Não há recato no País das Maravilhas.

 

Mil mortos e um morto nas avalanches da chuva,

milhares de tragédias individuais,

que serão para sempre

e na cidade ao lado anunciam-se as festividades

do Carnaval próximo.

Ninguém olha para o lado.

A noticia trágica é adrenalina,

é o prazer do espanto.

A festa continua.

 

Não há recato no País das Maravilhas.

 

 

publicado por ardotempo às 13:05 | Comentar | Adicionar
Domingo, 16.01.11

Populistas são populares

Quando dois e dois são quatro

 

Ferreira Gullar

 

Talvez seja esta a última vez que escreva sobre o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil. Com alívio o vi terminar o seu mandato, pois não terei mais que aturá-lo a esbravejar, dia e noite, na televisão, nem que ouvir coisas como esta: "Ele é tão inteligente que fala todas as línguas sem ter aprendido nenhuma". Pois é, pena que não fale tão bem português quanto fala russo.

 

É verdade que tivemos, ainda, que aturá-lo nos três últimos dias do mandato, quando "inaugurou" obras inexistentes e fez tudo para ofuscar a presidente que chegava. Depois de passar a faixa, foi para um comício em São Bernardo, onde, até as 23h, continuava berrando no palanque, do qual nunca saíra desde 2002.

 

Aproveitou as últimas chances para exibir toda a sua pobreza intelectual, dizendo-se feliz por deixar o governo no momento em que os Estados Unidos, a Europa e o Japão estão em crise. Alguém precisa alertá-lo para o fato de que a crise, naqueles países, atinge, sobretudo, os trabalhadores. Destituído de senso crítico, atribui a si mesmo ("um torneiro mecânico") o mérito de ter evitado que a crise atingisse o Brasil.

 

Sabe que é mentira mas o diz porque confia no que a maioria da população, desinformada, acreditará.

 

Isso dá para entender, mas e aqueles que, sem viverem do Bolsa Família nem do empréstimo consignado, veem nele um estadista exemplar, que mudou o Brasil?

 

É incontestável que, durante o seu governo, a economia se expandiu e muita gente pobre melhorou de vida. Mas foi apenas porque ele o quis, ou também porque as condições econômicas o permitiram?

 

Vamos aos fatos: até a criação do Plano Real, a economia brasileira sofria de inflação crônica, que consumia os salários. Qual foi a atitude de Lula ante o Plano Real? Combateu-o ferozmente, afirmando que se tratava de uma medida eleitoreira para durar três meses. À outra medida, que veio consolidar o equilíbrio de nossa economia, a Lei de Responsabilidade Fiscal, Lula e seu partido se opuseram radicalmente, a ponto de entrarem com uma ação no Supremo para revogá-la. Do mesmo modo, Lula se opôs à política de juros do Banco Central e ao superávit primário, providências que complementaram o combate à inflação e garantiram o equilíbrio econômico.

 

Essas medidas, sim, mudaram o Brasil, preservando o valor do salário e conquistando a confiança internacional. Lembro-me do tempo em que o preço do pão e do leite subia de três em três dias. Quem tinha grana, aplicava-a no overnight e enriquecia; quem vivia de salário comia menos a cada semana. Se dependesse de Lula e seu partido, nenhuma daquelas medidas teria sido aplicada, e o Brasil - que ele viria a presidir - seria o da inflação galopante e do desequilíbrio financeiro.

 

Teria, então, achado fácil governar? Após três tentativas frustradas de eleger-se presidente, abandonou o discurso radical e virou Lulinha paz e amor. Ao deixar o governo, com mais de 80% de aprovação, afirmou que "é fácil governar o Brasil, basta fazer o óbvio". Claro, quem encontra a comida pronta e a mesa posta, é só sentar-se e comer o almoço que os outros prepararam.

 

A verdade é que Lula não introduziu nenhuma reforma na estrutura econômica e social do país, mas teve o bom senso de dar prosseguimento ao que os governos anteriores implantaram. A melhoria da sociedade é um processo longo, nenhum governo faz tudo.

 

Inteligente, mas avesso aos estudos, valeu-se de sua sagacidade, já que é impossível conhecer a fundo os problemas de um país sem ler um livro; quem os conhece apenas por ouvir dizer não pode governar. Por isso acho que quem governou foi sua equipe técnica, não ele, que raramente parava em Brasília. Atuou como líder político, não como governante, e, se Dilma fizer certas mudanças, pouco lhe importará, pois nem sabe ao certo do que se trata. Para fugir a perguntas embaraçosas, jamais deu uma entrevista coletiva. Afinal, ninguém, honestamente, acredita que com programas assistencialistas e aumento do salário mínimo se muda o Brasil.

 

O tempo se encarregará de pôr as coisas em seu devido lugar. O presidente Emílio Garrastazu Médici também obteve, em 1974, 82% de aprovação.

 

Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo/ UOL

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publicado por ardotempo às 22:54 | Comentar | Adicionar
Sábado, 15.01.11

"No que você está pensando?"

 

Correndo com os búfalos


Mariana Ianelli


Ali está você, uma sombra num canto, aparentemente muito quieto, inofensivo, pensando, então vem aquela voz doce arrulhar no seu ouvido, aquele sorrisinho típico das chantagens do afeto, você começando sua jornada selvagem, já quase desaparecendo pelas estepes, desbravando o longe, revolvendo a poeira, e vem a pergunta ciumenta, indecente, infratora do último dos mandamentos, no que você está pensando?.


Como é impossível dizer, e desta vez você pretende ser sincero, absolutamente sincero, porque não lhe acode outra saída e, em situações como essa, recomenda-se um prólogo de gentileza, antes de tudo você também sorri, afinal, nada foi interrompido, nada se perdeu, vem a calhar a pergunta nesta hora amarela, porque, se quer mesmo saber, eu estava me lembrando da história do velho eremita que pastava com os búfalos no deserto, sem saber que naquele lugar os homens tinham colocado umas redes, pois não foi que o velho caiu na armadilha, caiu e ali ficou, sem se dar ao trabalho de se desvencilhar, como se não tivesse mãos para se libertar das redes, e assim permaneceu, um búfalo entre os búfalos, até o dia seguinte, quando chegaram os homens para apanhar os animais e, ao se darem conta do velho no meio das redes, ficaram tomados de pavor, então o eremita, sem uma palavra, foi solto e partiu desbaratado atrás dos búfalos…


A essa altura, quem fez a pergunta talvez esteja um pouco assustado, possivelmente confuso, porque você volta a sorrir, gaiato e tranquilo, provando que está tudo aí, que tudo foi dito e respondido da melhor maneira possível, agora só falta cada um regressar ao seu ponto de partida, quem veio delicadamente, delicadamente se vai, e você se acomoda outra vez num canto, aparentemente muito quieto, inofensivo, correndo com seus búfalos.

 

 

 

 

Mariana Ianelli - Publicado no blog Vida Breve

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Sexta-feira, 14.01.11

Lançamento da Jornada Literária de Passo Fundo

 

Convite


 

publicado por ardotempo às 13:25 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 13.01.11

O time ideal dos jogadores é o Dinheiro F.C.

 

Não deu

 

Luis Fernando Verissimo

 

Nosso time é a nossa segunda pátria. Tem até hino e bandeira, como a outra pátria. Conhecemos a sua história, cantamos as suas glórias, queremos vê-la sempre vitoriosa entre as nações e a amamos com fervor. Mas, assim como acontece com a pátria de verdade, nem sempre sabemos o que amamos. Ser brasileiro é de nascença, mas o time a gente escolhe, geralmente seguindo uma tradição familiar, ou influenciado por alguém, ou pelo fato do time estar em evidência no momento, ou pela simples simpatia. E o que é, exatamente, o objeto dessa paixão que nos pega desde pequenos e nunca nos larga?

 

Não é o clube como entidade social, este nem nos pertence. Suas cores e seus símbolos nos emocionam, mas são apenas cores e símbolos – embora muita gente morra por apenas cores e símbolos. Amamos os jogadores, o time? Mas o time é provisório, é mesmo o que há de mais transitório e fugaz nesse estranho relacionamento. O que amamos, então, é uma abstração, uma ilusão de continuidade mesmo que o time seja sempre outro. Um ideal romântico.

 

O amor por um time é o último exemplo de romantismo puro do mundo. O problema na relação da torcida com o jogador é este: a torcida ainda vive no século 19, os jogadores vivem na era do realismo prático. O jogador ideal da torcida é o que se forma no clube, sobe das divisões de base para o time titular como grande revelação, recebe propostas fabulosas para mudar de time mas mantém-se fiel à camiseta. Enfim, não trai a pátria. Um perfeito herói romântico. Claro que o ideal é frágil e os torcedores já se resignaram aos novos tempos de empresários sem fronteiras, negócios sem limites e jogadores sem espírito de torcedor, mas vez que outra assoma o romantismo.

 

O retorno do Ronaldinho ao Grêmio, de onde saiu mal há 10 anos – se tudo acontecesse como o Grêmio queria – seria um triunfo de folhetim à antiga. Um filho do clube voltando perdoado e (se ainda jogasse metade do que jogava no seu auge) levando o time a novas grandes conquistas, resgataria o romantismo de um mundo tornado cínico e sem grandeza. Infelizmente – inclusive para a literatura – não deu certo.

 

 

 

 

 

Luis Fernando Verissimo

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publicado por ardotempo às 23:24 | Comentar | Adicionar

Voo direto Porto Alegre-Lisboa

TAP: empresa aérea começa a operar em junho a rota de Porto Alegre a Lisboa


A adoção de um voo direto de Porto Alegre para Europa, a ser operado pela TAP, foi determinada principalmente por fatores como o apoio do governo, a localização no Cone Sul e o potencial exportador da capital gaúcha. A ideia, segundo o vice-presidente da TAP Portugal, Luiz da Gama Mór, "é conectar o RS com o mundo".

 

"A capital gaúcha, Porto Alegre, é o centro de uma área econômica forte, o Cone Sul. Vamos fazer do Rio Grande do Sul a porta de entrada dos europeus para essa região". — afirmou Mór em entrevista coletiva no Hotel Sheraton, em Porto Alegre.

 

A TAP terá quatro voos semanais para a Europa desde Porto Alegre, com duração de 10h30min, em uma aeronave Airbus A330. Com mais um voo que deve sair de São Paulo (Viracopos, Campinas SP), a TAP pretende fechar 2011 com 75 voos semanais envolvendo o Brasil.

 

 

 

 


A meta da empresa TAP é obter uma ocupação acima de 80% no primeiro voo de Porto Alegre para a Europa, em junho, quando será período de alta temporada. TAP ainda não divulgou valor das tarifas para a Europa, mas promete campanha de lançamento. "Será bem mais vantajoso" — garante Mór.


O novo voo foi anunciado na segunda-feira, depois de um encontro entre o vice-presidente da TAP e o governador Tarso Genro. A duração da viagem, cerca de 10 horas e 30 minutos, é maior em uma hora, mas também nesse caso, o passageiro escapa de conexões bem mais demoradas em Guarulhos SP ou em Viracopos, em Campinas SP.


Gama Mór enfatizou ainda que, para o voo se consolidar, precisará contar com a opção preferencial dos gaúchos pela nova rota. Apesar da maior parte dos voos de negócios a partir de Porto Alegre ter o destino de Frankfurt, Alemanha, o executivo da TAP diz que o passageiro voando para cidades alemãs teria grande segurança e facilidades na escala em Lisboa.


"Lisboa possui um aeroporto moderno, central, onde nunca neva e que fecha pouquissimas vezes no ano "— adianta o vice-presidente da companhia.


Publicado no jornal Zero Hora

publicado por ardotempo às 23:15 | Comentar | Adicionar

Bem-vindos sempre!

Vários autores portugueses estarão no Brasil em 2012, O Ano de Portugal no Brasil


Entre as ações culturais, artísticas e comerciais que Portugal pretende realizar no Brasil em 2012, estarão três iniciativas no campo literário: a primeira será a viagem de vários escritores portugueses ao Brasil para palestras e conferências em todo o país; a segunda, a comercialização de livros da nova literatura portuguesa em valores diferenciados e especiais, a menor. A terceira iniciativa será a realização de um filme de 30 minutos sobre os novos autores de Portugal. Tudo isto tem a assinatura de Inês Pedrosa, diretora da Casa Museu Fernando Pessoa (Lisboa) e encarregada de tratar do assunto com os interlocutores brasileiros.

 

 

 

 

publicado por ardotempo às 21:30 | Comentar | Adicionar

Ilusão adamantina

 

 

Imperativo


Pedro Gonzaga

 

 

Se puderes pedir uma coisa

a Júpiter

pede uma ilusão adamantina

não a verdade.

Somente filósofos e tolos,

inquisidores

e síndicos

estão atrás da verdade.

 

Se puderes fechar os olhos para o real

fecha agora.

Não te preocupes,

antes,

aproveita.

Hão de acordar-te os credores

a dor no ciático

o fingimento da mulher

que nunca se entrega

e que julgas siderar

com tuas carícias de manual,

enquanto ela organiza no teto

uma lista de afazeres vitais.

 

Percebes?

Somente em sonhos

podes ser quem imaginas

apenas em tua memória

seletiva

tuas ações recebem

a devida camada

de nobre pátina.

Por isso, nega as fotos

foge dos amigos

sentimentais

e nostálgicos

evita as reuniões de

dez

de quinze

de vinte anos

da formatura do colégio.

 

Investiga menos,

questiona menos,

de que te serve

a dúvida e

o relativismo

vetusto

dos pós-modernos?

Não há fatos,

só versões, dizem.

Ora, deixa que guardem para si

tais patacoadas,

elas não podem te salvar.


Se puderes pedir uma coisa

a Júpiter

pede uma ilusão adamantina

não a verdade.

Porque somente filósofos e tolos,

inquisidores

e síndicos

estão atrás da verdade.

 

 

 

 

 

Pedro Gonzaga - Escritor e poeta

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publicado por ardotempo às 15:27 | Comentar | Adicionar

A camisola de Schlee

A camisola de Schlee


José Mário Silva

 

 

 


Os fios do acaso que levam duas pessoas a encontrar-se num dado lugar, num dado momento, são insondáveis. Quando me sentei numa esplanada em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, no recinto da maior feira do livro a céu aberto do continente americano, não imaginei que aquele escritor septuagenário de sorriso aberto e longo cabelo grisalho pelos ombros – Aldyr Garcia Schlee, apresentado ali mesmo pelo nosso editor comum (Alfredo Aquino, da ARdoTEmpo) – se converteria, poucos dias depois, num velho amigo. Mas foi isso que aconteceu.


Logo naquela primeira tarde, à sombra dos jacarandás e ipês floridos, a dois passos das barraquinhas com livros pendurados por cordéis, não falámos de literatura mas de futebol. Acompanhado pela mulher, Marlene, tão fanática pelo jogo quanto ele e capaz de recordar, com minúcia, factos ou lugares perdidos no tempo, Aldyr apresentou-me enciclopedicamente o mundo das grandes equipas brasileiras, sem esquecer as mais antigas, algumas das quais relegadas para divisões secundárias, como o time de que é torcedor: o Grêmio Esportivo Brasil, de Pelotas, já perto da fronteira com o Uruguai. Estava dado o mote. Primeiro em Porto Alegre, depois nos três dias que passámos juntos em São Paulo, falámos bastante dos seus «contos gardelianos» (Os limites do impossível) e do imponente romance, com mais de 500 páginas, que escreveu sobre a vida extraordinária do General Fructuoso Rivera (Don Frutos), mas os olhos deste homem que tem exactamente o dobro da minha idade, embora não se note (conversou sempre tu cá tu lá, com aquela intimidade dos colegas de liceu que se reencontram muitos anos depois), os olhos deste homem ganhavam outro brilho ao resgatar da memória certos estádios, os nomes dos craques e o que eles faziam dentro de campo, o clamor das arquibancadas.


Por trás desta paixão, esconde-se uma história incrível que logo veio à tona. Além de escritor, Schlee já foi muitas coisas: desenhista, homem da imprensa, professor universitário. O primeiro momento de glória, porém, aconteceu quando tinha apenas 19 anos. Em 1953, para apagar de vez o trauma provocado pela derrota na final do Campeonato do Mundo de 1950, frente ao Uruguai, no Maracanã, o jornal carioca Correio da Manhã decidiu lançar um concurso para mudar o equipamento da selecção nacional brasileira, uma vez que o branco parecia ser funesto. Das centenas de candidaturas recebidas, a escolha recaiu na proposta de um tal Aldyr Garcia Schlee. Ou seja, a célebre canarinha (camisola amarela e calção azul), um dos maiores ícones do desporto mundial, é nem mais nem menos do que uma criação do meu companheiro de tournée literária.

 

Já em São Paulo, antes de visitarmos o MASP (com os seus Van Gogh, Renoir, Modigliani, Velázquez, Turner e outras maravilhas da pintura europeia), fomos ao Museu do Futebol, instalado por baixo do Estádio Pacaembu. Logo à entrada, uma imagem de Barbosa ainda desperta comentários ressentidos nos visitantes. Ele é o mais odiado dos guarda-redes (no Brasil diz-se goleiro), o bode expiatório da Copa perdida no Maracanã. Aldyr ri-se deste ódio que persiste há mais de meio século. Até porque ele, ó ironia, torce desde sempre pelo Uruguai (país que quase vê das janelas da sua casa-biblioteca e cujos principais escritores vem traduzindo para português). Quando Ghiggia marcou o 2-1 fatal, ele estava num cinema em Montevideu. Lembra-se de o filme ser interrompido e de ouvir, emocionado, o hino uruguaio. Como se lembra de quase tudo o que as fotografias, filmes e hologramas do museu documentam. A história do Brasil reflectida no verde da relva.


Talvez para selar uma viagem feliz e uma amizade inesperada, o nosso editor encontrou uma camisola da canarinha, em algodão, modelo de 1954 (sem as modernices estéticas e têxteis da Nike, que Schlee detesta). É para ela que olho agora, já deste lado do Atlântico. A gola verde, o emblema grandão, junto ao qual a firme caligrafia de Aldyr evoca «Pelé & cia». Depois arrumo-a no saco e vou ler Don Frutos.

 

 

 

 


José Mário Silva - Escritor e poeta - Publicado na revista Ler (Lisboa, Portugal)

Imagem: Caricatura de Aldyr Garcia Schlee

Fotografia: Don Frutos, por Alexandre Schlee Gomes

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Quarta-feira, 12.01.11

Em busca da beleza, o retroativo da tristeza

 

O nariz de Malraux

 

Enrique Vila-Matas

 


Sólo veo tres temas esenciales: el amor, la muerte y la nariz de Cleopatra. Una variante de la misma sentencia la ofrece Monterroso: "Hay tres temas: el amor, la muerte y las moscas". Completemos el tríptico con otra frase del mismo Monterroso: "La mosca que hoy se posó en tu nariz es descendiente directa de la que se paró en la de Cleopatra". De ahí al famoso pensamiento de Blaise Pascal hay solo un trecho: "Si la nariz de Cleopatra hubiera sido más corta, toda la faz del mundo habría cambiado".

 

 

 

 

Es decir, que un pequeño detalle puede ser poderoso. De esas grandes minucias se ocupaLa nariz de Cleopatra (Duomo). Su autora, Judith Thurman, famosa periodista neoyorquina, ha elegido ese título pascaliano para su recopilación de los ensayos/críticas culturales que publicó en The New Yorker entre 1987 y 2009, en una sección de la revista que suele encuadrarse en lo que se denomina "vanidad humana". En este terreno, Thurman se vale desde siempre del elegante látigo de su estilo y de una formidable capacidad para analizar como nadie lo que podríamos llamar, invocando el título de una novela de Ivan Thays, "la disciplina de la vanidad". Porque ese es un detalle que puede a veces pasarnos desapercibido: algunas de las más grandes vanidades de nuestro tiempo han sido construidas con un admirable sentido de la disciplina.


Como un castillo de naipes, diría otro. Pero este no es precisamente el caso del disciplinado André Malraux, vanidoso tremendo, cuya nariz se asoma largamente en La nariz de Cleopatra. Fue un cuidadoso constructor de sus propios naipes y mito, gran timador, tunante mayor de la República Francesa, experto en leer con voz temblorosa oraciones fúnebres, grandísimo engreído, rufián enamorado solo de los colosos (Mao, Kennedy, Picasso, De Gaulle) que acabó él mismo enterrado en el Panteón de los Grandes Hombres en París, pícaro que en su ambición por suceder a De Gaulle propagó el rumor de que en un testamento secreto el general así lo había dejado escrito.


En la revista PopMatters, tras leer lo que Thurman cuenta de Malraux en su libro, se preguntaron si no habrá que tener siempre algo de estafador si se aspira a ser artista. Con todas sus contradicciones, el personaje de Malraux acaba resultando fascinante, e incluso humano, demasiado humano. Y Thurman lo absuelve en parte: "Sin embargo, hay un aspecto suyo que solo puede calificarse con la palabra 'noble'. Malraux fue el héroe de una batalla tragicómica que todos conocemos y todos perdemos: 'la lucha del hombre contra la humillación', como él la llama".

 

 

 

 

Pero en el libro de Thurman, más allá de la nariz de Malraux (al final de su vida sus tics faciales de siempre daban la impresión de ser, para el que no los conocía, los de un viejo cocainómano), asoman otras historias en la lucha contra la humillación, tratadas también con el látigo y el cariño que es la marca indeleble de la casa Thurman. De Jackie Kennedy, por ejemplo, se nos cuenta cómo su mitomanía estaba conformada por las pretensiones de una familia que procedía de inmigrantes de clase trabajadora por ambos lados y que inventó para sí misma una historia aristocrática. De Catherine Millet, que fue una devota niña católica que deseaba ser monja. De Ana Frank, que ni siquiera era una buena chica y que no se sabe qué más habría hecho con esa libertad sensual y expresiva que tanto llama la atención en su prosa. De Yves Saint Laurent, que "nació con una crisis nerviosa" y que, al retirarse del mundanal ruido, dijo que la lucha por la belleza y la elegancia le había causado mucha tristeza. Esa gran pena en su retirada turba a Thurman y la remite a las últimas escenas de Proust, cuando este descubre que "la cruel ley del arte es que la gente muere (...) después de haber agotado todas las formas de sufrimiento, de modo que sobre nuestra cabeza pueda crecer algún día la hierba, no del olvido, sino de la vida eterna".


Enrique Vila-Matas

publicado por ardotempo às 20:54 | Comentar | Adicionar

Contemporânea - Retratos digitais de Cezar Almeida

Pintura Digital

 

 

 

Cezar Almeida - Pintura, Colagens e Fotografia Digital (São Paulo SP Brasil), 2011

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Terça-feira, 11.01.11

Mãos de Zilah

Fotografia

 

 

 

Gilberto Perin - Mãos de Zilah Machado - Fotografia (Porto Alegre RS Brasil), 2010

publicado por ardotempo às 12:12 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar

Contratos

 

Contratos minuciosamente redigidos, clausulados, entre duas pessoas ou instituições, intensamente revisados por advogados e departamentos jurídicos, revelam sempre que as partes não têm a mínima confiança entre si e sabem que ao menor descuido, e a qualquer tempo, buscarão trapacear e tirar algum tipo de vantagem, um contra o outro.

publicado por ardotempo às 01:16 | Comentar | Adicionar

Abstrato

Desenho e aquarela

 

 

 

 

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publicado por ardotempo às 00:28 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 10.01.11

Mil dias e um dia

Desenho e aquarela

 


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publicado por ardotempo às 20:24 | Comentar | Adicionar

Foi num café do Centro

 

 

Foi num café do Centro

 

Pedro Gonzaga

 

foi num café do centro

há muito passara a primeira juventude

e pesava sobre os dois

o silêncio das palavras não ditas

 

já não era ela aquela jovem

já não era ele aquele inapto,

e por isso,

porque certa doçura

só se colhe na alvorada

 

havia aspereza no reencontro

aos poucos,

ela passou a falar de suas conquistas profissionais

do primeiro casamento desastroso

do segundo casamento recém-encerrado

 

ele tinha menos feitos a oferecer

o divórcio ainda vivo

e um filho

o único emprego público e insosso

que tomara depois da faculdade

 

neste café do centro,

que ameaça fechar as portas

ambos têm a sensação de que a vida

é um veloz desperdiçar de tudo

 

onde fora parar o desejo que os animara?

quão ridícula lhes parece agora

a esperança de um beijo

de um encontro furtivo ao fim da tarde

 

o garçom volta a surgir

pergunta

sem esconder o enfado

se ainda querem alguma coisa,

comunica que a cozinha

está por fechar

 

os dois se olham e se desolham

se pudessem ainda pedir alguma coisa

seria uma nova tarde aos 17 anos

mas o que poderiam pedir agora?

 

o que se pode pedir quando o café já vai fechar?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pedro Gonzaga

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Domingo, 09.01.11

Sorria, você está sendo filmado

 

 

 

 

publicado por ardotempo às 23:06 | Comentar | Adicionar

A sorte como futuro

Quando dois e dois são cinco

 

Ferreira Gullar

 

Faz tempo que não toco, aqui, em assuntos políticos e, se volto ao tema hoje, é para refletir, junto com você, leitor, sobre um fato para mim inusitado.

 

Certamente nem todos concordarão comigo ou simplesmente preferirão desconsiderar esse tipo de perplexidade. De qualquer modo, se eu estiver equivocado, peço-lhe desculpas, mas, sinceramente, neste caso, não opino, constato e com espanto.

 

Constato o seguinte: a eleição de Dilma Rousseff à Presidência da República não me parece real. Talvez não seja eu o único a pensar assim e que não só a mim a eleição dela pareça inusitada. Tendo a admitir que não. Pode ter ocorrido que, na tropelia da disputa política, meses de propaganda, declarações, acusações, desmentidos, as pessoas se deixaram levar pela paixão e não pararam para refletir sobre o que acontecia. Disputa seja na política seja no futebol, tende a nos cegar, a nos impedir de refletir e ponderar. Não me excluo disso, tanto que só depois que a coisa se consumou, que os discursos cessaram, os debates acabaram e a Justiça Eleitoral a proclamou presidente eleita do Brasil é que me dei conta de quão surpreendente era tudo aquilo - isto é, de quão surpreendente é termos Dilma Rousseff como presidente do Brasil e que irá nos governar pelos próximos quatro anos.

 

Se quiser entender meu espanto, siga este raciocínio: Dilma Rousseff nunca pretendeu candidatar-se a nenhum cargo eletivo. Embora tenha entrado para a política muito jovem, na época da ditadura, e continuado sua militância após a volta da democracia, jamais disputou eleição alguma. Isso não teria importância em alguém que sempre se manteve à margem da política, o que não é o caso dela; daí a conclusão de que, se nunca se candidatou, foi porque essa não era a sua praia. Em vez disso, estudou economia e se contentou em ocupar cargos oficiais na área de sua especialização, chegando a ministra-chefe da Casa Civil da Presidência da República. Mas, de repente, essa pessoa que nunca disputou eleição nem para vereadora é lançada candidata à presidência da República.

 

Acredita você que foi por vontade dela? Que um dia acordou e disse a si mesma: "Sabe de uma coisa, vou me candidatar a presidente do Brasil!". Você não acredita nisso, claro, nem eu tampouco.

 

O que aconteceu então? Todo mundo sabe o que aconteceu: foi Lula quem decidiu isso e impôs a ela a decisão. Como acha você que terá reagido Dilma, ao ouvir de Lula a ideia de candidatar-se ao mais alto cargo eletivo do país, ela, que nunca se candidatou a cargo algum? Estou certo de que pediu um tempo para pensar e mal conseguiu dormir aquela noite. "Lula pirou", terá dito ela a si mesma, imóvel na cama, olhando para o teto. "Eu, presidente do Brasil? É maluquice!" Claro, estava perplexa, mas, certamente, fascinada pela ideia, como Cinderela ao ver que o sapato da princesa buscada poderia caber em seu pé. Mas tinha dúvida: "Caberá mesmo?". Aquilo mais parecia sonho que realidade.

 

O mesmo espanto senti eu e muita gente mais quando a coisa se revelou. Lula veio a público dizer que Dilma seria a candidata sua e do PT à Presidência da República. Não dava para acreditar. O PT também reagiu, tentou convencer Lula de que aquilo era um disparate, mas não conseguiu. Como sempre, prevaleceu a vontade do líder absoluto e incontestável. Tudo isso se sabe, claro, mas pretendo é que avalie bem o que ocorreu.

 

Vamos adiante: porque nunca disputara eleições, era natural que não tivesse eleitores, muito menos para ganhar um pleito presidencial - ou seja, conquistar os votos de mais da metade de 130 milhões de eleitores. E chegou lá graças a Lula, que, para elegê-la, usou toda a máquina estatal e desconsiderou a lei eleitoral. O resultado é que temos, diante de nós, agora, uma presidente da República que é uma surpresa até para si mesma.

 

Eleita sem ter votos! É quase como um suplente de senador. Olho para ela e me pergunto: essa senhora é de fato a presidente do Brasil ou se trata de uma personagem de novela? Acredito até que ela, às vezes, se belisca para ver se é mesmo verdade. O que não significa que fatalmente fará um mau governo, já que tudo é possível neste mundo surrealista latino-americano. Desejo-lhe boa sorte.

 


 

 

 

Ferreira Gullar

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publicado por ardotempo às 23:05 | Comentar | Adicionar

Mil dias

Desenho e aquarela

 

 

 

Desenho - Desenho em tinta china a pincel e pena caligráfica; e aquarela sobre papel

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publicado por ardotempo às 22:15 | Comentar | Adicionar

Caindo do céu

Os pássaros


Luis Fernando Verissimo

 


 

Um dos meus Hitchcocks favoritos é um dos filmes mais estranhos da história do cinema. Em "Os pássaros" o sempre explícito Hitchcock faz uma parábola obscura que só pode ser descrita como um prelúdio para o fim do mundo.


O filme é sobre os últimos dias de harmonia entre a Humanidade e a Natureza e termina — como nenhum outro filme do Hitchcock — sem resolução ou explicação, pois o único fecho adequado seria o Apocalipse.


Numa pequena cidade da costa californiana, os pássaros começam a atacar as pessoas. Ninguém sabe por quê, e o filme acaba sem que se saiba por quê. É uma história de horror sem vilões. Um filme com violência e mortes em que não aparece uma arma, salvo os bicos dilacerantes dos pássaros.
Já se disse que "Os pássaros" é, antes de mais nada, sobre a conhecida misoginia do Hitchcock, já que no filme as mulheres são os alvos preferidos das bicadas.


E tudo começa com a chegada na pequena e idílica Bodega Bay de uma loira vinda da cidade grande que irá se intrometer na rotina do lugar e subverter a ordem natural das suas relações antigas, e concentrar a fúria das aves. Mas o filme vai além do que o Hitchcock gostava de fazer com loiras. Algo está sendo anunciado. Algum desconcerto está sendo vingado.


Li que pássaros mortos estão caindo do céu em regiões dos Estados Unidos e da Suécia. Ainda não se sabe a causa das mortes.


Como no filme do Hitchcock — especula-se, pois o próprio Hitchcock não deve ter entendido bem o que estava fazendo —, os pássaros estariam tentando nos dizer alguma coisa.


Pássaros caindo do ar são quase mais perturbadores do que pássaros nos atacando, pois sugerem um desconcerto sem refúgio, do qual não se escapa nem voando. Podemos viver com a ideia de pássaros retomando o mundo, mas não com a ideia de um mundo irreparável caminhando para o nada. Depois de pássaros caindo do céu vêm mortos saindo das sepulturas, o Juízo Final, sobem os créditos e Fim.


Ou então descobrirão causas perfeitamente racionais para a morte dos pássaros e tudo continuará como antes. Bodega Bay, por sinal, ainda existe.


Luis Fernando Verissimo

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publicado por ardotempo às 20:11 | Comentar | Adicionar

O sexo dos anjos

 

O anjo de São Paulo

 

Mario Castello - O anjo - Fotografia (São Paulo SP Brasil)

publicado por ardotempo às 19:48 | Comentar | Adicionar

O segredo

Protegiendo el secreto


Enrique Vila-Matas


Releer suplementos literarios de antaño puede parecerse a profundizar en el rostro cansino de las ovejas que un día nos narcotizaron. Pero no todos los suplementos operaron siempre como somníferos, los hubo también dinámicos y estimulantes y leerlos hoy puede devolvernos de golpe a un cierto clima de entusiasmo que casi habíamos ya olvidado. Recuerdo un Babelia de primera generación (entonces llamado El País Libros) que abría con un reportaje ultramoderno sobre Roland Barthes, visto no como un pensador únicamente, sino como un pensador y un frecuentador de discotecas. Eran tiempos en los que, como veníamos de mojigatas épocas de cerebro plano, todo lo que parecía nuevo nos creaba la sensación de estar alejándonos de la sempiterna gravedad de nuestro paisanaje.


Ayer di con un El País Libros (3 de agosto de 1980) que dedicaba tres páginas a una entrevista a una "desconocida" llamada Patricia Highsmith. Lo hallé perdido en un viejo tomo de filosofía, y estaba ya totalmente ambarino, sin duda aburrido de haber permanecido olvidado tantas décadas, y más aún en un tomo tan severo. Nada más encontrarlo, recordé de inmediato la Gran Sensación - así con mayúsculas - que en su momento me causaron aquellas tres páginas ligeras y heterodoxas, tan desprovistas del polvo de lo metafísico. En ellas, la desconocida era entrevistada por Óscar Ladoire y Fernando Trueba, a los que les decía cosas que entonces a nosotros -pasajeros todavía del túnel estalinista- nos chocaban: "No soy muy popular en Estados Unidos, lo sé, y me da igual. Escribo para divertirme".


¿Para divertirse? No era frecuente escuchar eso en un escritor, y menos en un entorno de viejas baladas familiares, porque el suplemento lo completaban severos artículos sobre Hoyos y Vinent y Xavier Zubiri, reseñas de libros de León Trotski y Salvador de Madariaga. En aquel duro entorno casi iraní, aquella desconocida que decía en el suplemento que escribía para divertirse parecía la vedette francesa que caía despistada en un pueblo castellano en Nunca pasa nada de Juan Antonio Bardem: "Más leída en Francia, Inglaterra y Alemania que en su país de origen, prácticamente desconocida en España, Patricia Highsmith es la maestra indiscutible de un género que parece pertenecerle, un género donde lo cotidiano y lo psicológico no son sino un anzuelo...".


El género era el de la "novela policiaca", que, según contaban Ladoire & Trueba, acababa de conocer un boom editorial en España, "con el regreso de algunos clásicos, el descubrimiento de otros y el injusto olvido de los no favorecidos por la lotería editorial". Precisamente esa mención a los olvidados les permitía introducir, por primera vez en España, el nombre de la escritora americana que vivía sola en el pueblecito francés de Montcourt, en la región de Seine-et-Marne, donde, refugiada del mundanal ruido, soñaba crímenes.


Aquella entrevista no habría sido la misma sin la tensa descripción inicial de un viaje por carretera hasta la emboscada finca de la creadora del asesino Ripley. La descripción de Ladoire & Trueba, releída hoy, sigue recordándome a la de Eça de Queiroz en El misterio de la carretera de Sintra. Era una narración que iba creando un clima de intriga, muy adecuado para ir acercándonos al Lugar del Crimen, como habría podido llamarse perfectamente la casa de la escritora: "Para llegar a Montcourt hay que atravesar multitud de carreteras de segundo orden y cruzar el río Loing. Este y los bosques que lo rodean se nos antojan sembrados de cadáveres. Se diría que a quien vamos a visitar en realidad es a Tom Ripley, el asesino de Dickie Greenleaf, aquel inseguro joven americano...".


No hacía mucho que Wim Wenders había adaptado con éxito al cine El amigo americano, basado en una novela de Highsmith, Ripley's game. Aquella entrevista del dinámico dúo Ladoire & Trueba la completaba la curiosa inclusión de un recuadro conteniendo la bibliografía de Highsmith íntegramente en inglés, lo que me permitió imaginar una obra tan enigmática como fabulosa. La exótica bibliografía, que parecía querer indicarnos que todavía estaba por publicar entre nosotros la obra entera de aquella señora genial, le abrió sin duda el paso en estas tierras y en noviembre de 1981 aparecían ya dos libros en Anagrama: La máscara de Ripley y A pleno sol (El talento de Mr. Ripley).


Releo la entrevista y observo que los visitantes de la señora de Montcourt analizan con agudeza los métodos utilizados por ella para escribir algunos de sus libros. Le dicen, por ejemplo, que Ripley comete grandes torpezas, mata impulsivamente, no prepara sus crímenes, los elabora después, cuando dedica todo su esfuerzo a la forma de camuflarlos. Creo yo también que uno de los encantos de Ripley radica en su sofisticada máquina de confeccionar laberintos para no ser descubierto. Pero Highsmith no está por la labor de ser analizada y, tratando de proteger el secreto de su talento, interrumpe la disertación de los entrevistadores:


- A veces no entiendo exactamente las preguntas. No las preguntas de ustedes, sino todas las preguntas. No acostumbro a reflexionar sobre mi trabajo, a dar opiniones definitivas.


Falso. No fue tan alérgica a las reflexiones. Escribió unas estupendas notas recogidas en Suspense, notas de una apabullante sencillez y quizás construidas con la envidiable simpleza de quien sobre su oficio reflexiona lo justo, en realidad lo justo para no entrar en una deriva intelectual innecesaria, seguramente para no revelar de verdad cómo ha hecho sus libros... A veces con su falsa inocencia recuerda las actitudes no intelectuales de Simenon, que también buscaba divertirse cuando escribía. En realidad, tanto ella como él vienen de Chéjov. Y los dos coinciden en la forma simple pero enigmática, de llegar al corazón de las historias después de haber pasado por el hallazgo de un comienzo banal. En Suspense precisamente Highsmith habla de esos acontecimientos insignificantes que pueden poner en marcha una narración: "En todo hay el germen de una idea: en un niño que cae sobre la acera y derrama el helado que lleva en la mano; en un señor de aspecto respetable que está en una verdulería y, furtivamente, se mete una pera en el bolsillo sin pagarla".

 

 

Aquella tarde, sin embargo, ante sus visitantes españoles, como seguramente ante todos los que le hacían preguntas, no estaba dispuesta a soltar prenda y se hizo la inocente y quizás jugó - como Ripley - a camuflar sus delitos, si los hubiere. Su conducta, vista ahora treinta años después, pone en marcha una narración; la historia de una mujer que no está dispuesta a revelar el sencillo secreto de su arte a nadie. Esa actitud de Highsmith me recuerda a Simenon cuando, con ganas de jugar (de divertirse, en definitiva) se mostraba totalmente perplejo con André Gide, que no paraba de escribirle cartas, llenas de preguntas, casi todas sobre sus mecanismos creativos. Según Simenon, "durante toda su vida Gide tuvo el sueño de ser un creador y no un filósofo, y yo era exactamente su opuesto, y creo que estaba interesado en mí por ese motivo". Simenon tampoco le dio pistas fiables a Gide sobre su proceso creativo y éste murió - ahí habría también una buena historia para una novela - sin saber cómo se podía ser tan sencillote y al mismo tiempo tan extremadamente creativo.


Desde el primer momento, lo que envidié de Highsmith fue que supiera ser una escritora tan astutamente simple. Es muy posible que por eso guardara ese suplemento de aquel 3 de agosto. Haberlo ahora reencontrado puede ayudarme en mi camino. Highsmith me parece alguien que se dedicó siempre a proteger su secreto, suponiendo que lo tuviera, porque cabe sospechar que su único secreto era el poder de su imaginación: "Una calle miserable en alguna parte, llena de cubos de basura, chiquillos, perros vagabundos, es tan fértil para la imaginación como una puesta de sol en Sunion, donde Byron grabó su nombre en una de las columnas de mármol del templo de Apolo". Dicho de otra forma: todo en esta vida es tan misterioso como la carretera de Sintra, y todo es novelable. Y sencillo. Qué envidia. Envidia sana, claro, pero también dolorosa.


Enrique Vila-Matas - Publicado em El País

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publicado por ardotempo às 19:40 | Comentar | Adicionar

Do Livro do Piquenique (O Labirinto)

 

Rabo-de-gato-vermelho


 

Quem foi que viu?

Meu gato sumiu.


Que gato que é?

Que gato que é?


Tem rabo vermelho

E olho dourado.


Como é que é?

Como é que é?


É gato, é gato.

Juro que é.


Eu vi, eu vi.

Juro que vi.


Quem viu, mentiu.

Gato vermelho.

Nunca existiu.

 

 

© Cleonice Bourscheid

publicado por ardotempo às 19:04 | Comentar | Adicionar
Sábado, 08.01.11

Os mentirosos, cruéis e verdadeiros

A verdade nua por baixo de sete véus


Mariana Ianelli


Erico Verissimo dizia que os escritores são todos uns mentirosos. Não é à toa que o avô o reprovava por se divertir inventando histórias que nunca aconteceram sobre gente que nunca existiu. Há uma espécie de dança de Salomé na arte da escrita, um enfeitiçamento, um ludíbrio que dá prazer e no fim nos presenteia com alguma coisa surpreendentemente cruel e verdadeira.


A diferença na vida, supondo que mentimos pelo menos uma vez por dia, todos os dias, é a falta de um toque de delírio nas nossas mentiras, a diferença entre a lei do bom convívio e um obstinado instinto de fantasia. Seria preciso mentir completamente, maravilhosamente, ser um encantador de serpentes, um sonhador incorrigível, para não trair a verdade mas revesti-la com sedas e holandas, cor de púrpura e fúcsia, num enredo de encantos que roubasse da realidade sua palidez, sua monotonia, seu aterro de belezas destruídas. Seria preciso existir uma mentira que pusesse algum fogo mágico em uma das inúmeras versões de um mesmo fato, uma mentira que voltasse a conhecer o seu sentido não pejorativo, a sua natureza de fábula, que nos deixasse mais encantados do que iludidos, e brincando, divagando, desfilasse a verdade nua por baixo de sete véus, uma verdade que, por mais estranha ou terrível que parecesse, ainda assim pudéssemos contar a uma criança sem o perigo de matar sua fantasia.


Porque se o homem é escravo do menino, como dizia Erico Verissimo, basta enterrar o nosso castelo de quimeras para sermos escravos do desgosto, do cansaço, da mentira que perdeu sua realeza e transformou-se na coisa desencantada, o legítimo oposto da verdade, que costumamos chamar de hipocrisia. Nada perdemos de sensatez no gosto pela fábula, de realismo no prazer da metáfora, apenas saímos da condição de miséria para a qual nos arrasta a falta de magia. A dança de Salomé continua a nos dizer o mesmo que nos diz a vida, todos os dias, que, afinal, mais cedo ou mais tarde, sempre perdemos a cabeça. Assim dizem os escritores nos seus devaneios, nos seus rodopios.

 

 

 

 


Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve
Imagem: Pintura de Siron Franco

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publicado por ardotempo às 14:03 | Comentar | Adicionar

Shakespeariana

O alerta recorrente


Muitos, dezenas, centenas, milhares, em várias línguas, disseram ao jovem talento que tomasse muito cuidado, que estivesse atento o tempo todo, com as más companhias.


Ninguém se atreveu a dizer-lhe que ele era a má companhia.

 

 

 

publicado por ardotempo às 13:53 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 07.01.11

A vida é um desenho

Um desenho

 

 

 

 

 

O desenho pode ser mal feito. Pode resultar bom. Pode juntar falhas, borrões, traços refeitos, equívocos disfarçados, não existem as correções possíveis, os riscos traçados não se escondem. Tudo está exposto no desenho. As cicatrizes, a leveza. O traço, o branco vazado, a ausência. Pode ser um bom resultado, ter um final admirável, pode ser um fracasso. Pode trazer um acúmulo de erros sobrepostos, um congestionamento de consertos, pode apresentar uma síntese bem urdida. Pode ser um desenho conservador e reconhecível dentro de um padrão que se repete, uma fórmula automática, pode mostrar alguma originalidade, pode trazer a surpresa de algo jamais visto. O frescor de uma ousadia. A vida é um desenho. Ao seu final, pode ser jogado fora ou pode ser guardado na memória, de um ou de outros.

 

(Desenho a caneta esferográfica, 2011)

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publicado por ardotempo às 21:04 | Comentar | Adicionar

Abstrata QUATRO

Fotografia de Alexandre Schlee Gomes

 

 

 

 

Alexandre Schlee Gomes - Abstrata / Copos - Fotografia

publicado por ardotempo às 19:35 | Comentar | Adicionar

Abstrata TRES

Fotografia de Giacomo Favreto

Giacomo Favreto - Abstrata / Objetos - Fotografia I-Phone

publicado por ardotempo às 19:30 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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