Sábado, 18.12.10

Georges Bernanos

Uma literatura do desespero


Mariana Ianelli


No ano em que Paul Éluard publicava Capital da Dor e André Gide Os Moedeiros Falsos, um romance de estreia iria alvoroçar o meio literário francês vendendo 6 mil exemplares da primeira edição em apenas um dia. O estrondoso sucesso de público e a atenção da crítica que despertou Sob o Sol de Satã, do então desconhecido Georges Bernanos, em 1926, vieram prenunciar a consagração de um autor marcado pelas angústias de um espírito cristão no seio da modernidade. Sete títulos representativos da trajetória de Bernanos, que foi também jornalista, começam agora a ganhar as livrarias brasileiras, por iniciativa da Editora É, que inaugura a Coleção Georges Bernanos com o relançamento de Sob o Sol de Satã, há pelo menos uma década fora de catálogo, na tradução do poeta Jorge de Lima.


O itinerário sobrenatural que se configura nesse romance, protagonizado pelo padre Donissan, futuro santo de Lumbres, apresenta de maneira exemplar os embates de alma e corpo contra o mal a que todos os personagens de Bernanos de algum modo estão submetidos. Ambientado nos campos do norte da França, paisagem da infância do escritor, Sob o Sol de Satã traz em seu prólogo a história de Mouchette, uma adolescente atormentada, presa da luxúria e da destruição, que não consegue vencer a tentação do desespero, contra a qual luta o padre Donissan na primeira parte do livro. São duas potências contrárias, duas faces que se atraem e que se enfrentam dentro dos personagens e também entre eles: a necessidade da fé e o apelo do vazio, o poder da esperança e a contaminação do tédio, Deus e o Diabo em uma guerra encarniçada cujo desfecho, reconciliador dos opostos, na segunda parte do livro, só pode ser sinônimo da morte.


O próprio Bernanos, dois meses antes de sua estreia literária, em carta a Vallery-Radot, dizia estar “entre o Anjo luminoso e o Anjo obscuro”, observando a ambos “com a mesma fome raivosa de absoluto”. Pois é também assim que seus personagens se miram uns aos outros, uma face duplicando-se na outra, como Sob o Sol de Satã se duplica, após um período de dez anos, no Diário de um Pároco, romance que está na lista das próximas publicações. A imagem atlética do padre Donissan mostra o seu inverso na figura macilenta do pároco da aldeia, a perdição de Mouchette tem seu contraponto na salvação da senhora condessa, o encontro com o Diabo no ponto obscuro de uma estrada reflete-se agora na visão luminosa da Virgem e o beijo que o santo de Lumbres recebe do seu adversário transmuda-se no beijo amigo que o pároco de Ambricourt recebe de um soldado. O que envolve os personagens de Bernanos nesse jogo dialético é uma mesma noite satânica, uma potência de destruição que ensombrece a todos, induzindo-os à falta de amor e à perda da alma.


Existem conflitos e lugares carregados de simbolismo que são recorrentes na obra do escritor. Entre eles, a errância solitária dos padres por estradas enlameadas, o intervalo entre noite e manhã como um espaço de metamorfose existencial, e o lugar do confessionário, um dos mais emblemáticos, com seus tabiques de madeira “impregnados de vergonhas”, onde aquele que dá a paz não a encontra em si, tal como as páginas aflitas do diário de um pároco relatam seu testemunho de almas perturbadas em uma anunciação do Juízo Final. É importante dizer que também pertencem a um território de confissão os diversos olhares trocados entre os personagens de Bernanos, olhares que leem uns nos outros os pensamentos não verbalizados, a fixidez da luxúria, a mentira, a vontade de suicídio, aquela parte humana povoada de sombras cuja revelação involuntária põe a alma a nu diante do “olhar primeiro de Deus”.


A figura feminina tem igualmente papel relevante, pois além de encarnar a artimanha e a perversão, no caso da menina Mouchette, que se decompõe em Chantal e Seraphita no Diário de um Pároco, representa a inocência corrompida pelo mal. A figura do soldado, por sua vez, tão cara a Bernanos, tem na imagem de Joana d’Arc a representação máxima do heroísmo cristão. Tais personagens ressurgem na obra do escritor em A Nova História de Mouchette, romance escrito durante a Guerra Civil Espanhola, e Joana, relapsa e santa, ensaio biográfico sobre Joana d’Arc, dois outros títulos a serem lançados em breve.


Quanto aos temas sempre presentes para Bernanos, destacam-se a miséria enquanto fonte do desespero, alimentada por Satã, e a pobreza enquanto fonte da esperança, princípio de realeza de um povo errante, descendente de Cristo. O texto “Vida de Jesus”, que, tal como Um Sonho Ruim, permaneceu inédito até a morte do autor, fala da cristandade da pobreza. Para o escritor, a exploração do homem pelo homem perdura nos costumes, dentro de um “circuito infernal” que escamoteia a injustiça, que é parte da condição humana, ao tentar dispersar a força dos pobres e converter sua altivez em servilismo, se possível transformando-os em pequenos funcionários.


Referindo-se ao tipo grotesco com que Bernanos retrata Anatole France em Sob o Sol de Satã, no personagem do escritor Antoine Saint-Marin, André Malraux atribui a caricatura a uma herança das “gárgulas de Léon Bloy”. De fato, Bernanos compartilha com Bloy das opiniões mais enérgicas e controversas sobre a caducidade das academias literárias, sobre o sacerdócio da pobreza e um mundo de tal modo dominado pelo tédio e pelo niilismo que somente uma literatura do desespero seria capaz de responder à linguagem moderna, que “encontrou um meio de fazer da palavra misticismo uma injúria”.


Polêmico em sua militância nos anos de juventude, quando chegou a defender a causa monarquista, Bernanos lutou como soldado durante a 1ª Guerra Mundial, experiência que foi assimilada para sua literatura e que atesta uma preocupação intensa com a realidade histórica e espiritual da época, a ponto de o escritor, anos mais tarde, acompanhar de perto, em Palma de Mallorca, os expurgos de Franco e o envolvimento da Igreja na Guerra Civil Espanhola, denunciados em seu longo ensaio Os Grandes Cemitérios sob a lua.


O final do ano de 1938 marca o início do autoexílio de Bernanos no Brasil, país que ele chamava de “terra da esperança”, onde viveu por sete anos, entre Minas Gerais e Rio de Janeiro, e onde compôs seu romance Senhor Ouine, originalmente intitulado A paróquia morta. Também nesse período o escritor colaborou para a imprensa com seus “artigos de guerra”, depois reunidos em Ensaios e escritos de combate, além de ter mantido estreito contato com escritores e intelectuais brasileiros, como Alceu Amoroso Lima e os poetas Murilo Mendes e Jorge de Lima. Na sua conferência “Adeus à juventude brasileira”, proferida em dezembro de 1944 na sede da União dos Estudantes, no Rio, o escritor conclama os jovens a retomar o espírito de liberdade semeado pela Revolução Francesa. Não por acaso, é também a Revolução Francesa o cenário no qual se passa Diálogos das Carmelitas, única peça de teatro e última obra de Bernanos, concluída na Tunísia, em 1948, poucos meses antes do seu falecimento.


Mariana Ianelli - Publicado em O GLOBO (Rio de Janeiro RJ Brasil)

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A cerimônia do expurgo

 

O nosso lado escuro à solta


Mariana Ianelli


Sob o Sol de Satã está de volta às livrarias e não podia ter surgido em melhor época, depois de tantos anos fora de catálogo. Basta um laço de fita e deixá-lo debaixo do pinheirinho cheio de luzes no centro da sala. O lar familial, antes das festas, do vinho e da mesa farta, merece mesmo o beijo do diabo.


Como acontece todos os anos na Guatemala, na queima dos diablitos de papel, um evento que reúne centenas de pessoas para expurgar os males antes do ano novo, ou como fazem em vilarejos da Áustria, antes do Natal, homens fantasiados de demônios, que saem pelas ruas arrastando correntes e perseguindo as crianças mal-educadas, também nós podíamos começar por fazer uma limpeza dos nossos recintos particulares, aqueles que nós escamoteamos, atapetamos, como se a nossa casa fosse sempre muito hospitaleira, muito encerada e agradável, e não existissem todas aquelas sombras, aquelas carantonhas, o quarto das fúrias mantido atrás do armário. Pelo destempero em casa por culpa do trabalho, pelo ataque de nervos no trabalho por causa do cansaço, pelo cansaço e a sujeira sob o capacho, pelo nosso riso irônico e a nossa pose enfatuada, pelo gesto obsceno e as respostas arrevesadas, pelos excessos, as refregas, a palavra venenosa, pelo nosso dar de ombros e o mau humor dado de graça, podíamos promover esse desfile de demônios antes da reunião de irmãos, primos, tios e sobrinhos no Natal.


Seria um desfile entusiasmante, o nosso lado escuro à solta, tudo o que é inspiração das intenções mais rastejantes, a praga de suçuaranas, de espinhos, cobiça e azedume passando sem cerimônia num expurgo memorável. Depois ficaríamos horas e horas à mesa bebendo e conversando, com aquela pachorra das tensões aliviadas, alguém levantaria um brinde, como pede a data, e seria uma algazarra, uma surpresa boa, seria enfim alguma coisa completamente nova.


Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

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Sexta-feira, 17.12.10

Passado e futuro? Presente

Fotografia

 

 

 

 

 

 

Alexandre Schlee Gomes - Educação - Fotografia (RS Brasil), 2010

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Os livros e as brocas

O bibliófilo e o fim do livro

 

Umberto Eco

 


O bibliófilo não tem medo nem da Internet, nem dos CD –ROM nem dos e-book. Na Internet ele já encontra os catálogos de antiquários, nos CD-ROM as obras que um particular dificilmente poderia ter em casa, como os 221 volumes in-fólio da Patrologia Latina de Migne, num e-book estaria super disposto a circular por aí com bibliografias e catálogos, tendo sempre consigo um repertório precioso, especialmente se e quando visita uma feira do livro antiga. Quanto ao resto, confia em que, até se os livros desaparecessem, sua coleção simplesmente duplicaria, que digo, decuplicaria de valor. Portanto, pereat mundus!


Mas o bibliófilo também sabe que o livro terá longa vida, e percebe isso justamente ao examinar com olhos amorosos as próprias estantes. Se tivesse sido gravada, desde os tempos de Gutemberg, em suporte magnético, toda aquela informação que ele acumulou teria conseguido sobreviver por  duzentos, trezentos, quatrocentos, quinhentos, quinhentos e cinquenta anos? E teria sido transmitida antes de nós, com os conteúdos das obras, as marcas de quem as tocou, compulsou, anotou, atormentou e muitas vezes, sujou com impressões de polegar? E alguém poderia apaixonar-se por um disquete como se apaixona por uma página branca e dura, que faz crac-crac sob os dedos como se acabasse de sair da prensa?


Como é belo um livro, que foi pensado para ser tomado nas mãos, até na cama, até num barco, até onde não existem tomadas elétricas, até onde e quando qualquer bateria se descarregou e suporta marcadores e cantos dobrados, e pode ser derrubado no chão ou abandonado sobre o peito ou sobre os joelhos quando a gente cai no sono, e fica no bolso, e se consome, registra a intensidade, a assiduidade ou a regularidade das nossas leituras, e nos recorda (se parecer muito fresco ou intonso) que ainda não o lemos...


A forma-livro é determinada pela nossa anatomia. Podem existir os enormes, mas estes em sua maioria têm função de documento ou de decoração; o livro-padrão não deve ser menor que um maço de cigarros ou maior que um tabloide. Depende das dimensões da nossa mão, e estas – ao menos por enquanto – não mudaram, queira ou não queira Bill Gates.


Função do bibliófilo é também aquela, para além da satisfação pessoal do seu desejo privado, de testemunhar sobre o passado e o futuro do livro. Lembro-me do primeiro salão do livro de Turim, quando reservaram ao livro antigo um grande corredor (depois, creio que este belo hábito se perdeu). Visitavam a mostra os jovens das escolas, e alguns eu vi grudados às vitrines para descobrir pela primeira vez o que era um livro de verdade, não um fascículo descartável qualquer, um livro com todos os seus atributos no lugar certo. Eles me lembraram o bárbaro de Borges, quando vê pela primeira vez a obra prima da arte humana que é uma cidade. Este havia caído de joelhos diante de Ravenna, e se fizera romano. Eu me contentaria se os jovens de Turim tivessem levado para casa pelo menos uma emoção, talvez até uma broca benéfica.


Ah, eu ia esquecendo: também as brocas fazem parte da paixão do bibliófilo. Nem todas desvalorizam o livro. Algumas, quando não afetam o texto, parecem uma delicada renda. Eu, hoje confesso, também gosto delas. Naturalmente, ao livreiro que me vende o livro manifesto desprezo e nojo, para baixar o preço. Mas já disse aos senhores: por amor a um belo livro a gente se dispõe a qualquer baixeza.


Umberto Eco - Enviado por Carlos Cartell - Sapere Aude! Livros

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Quarta-feira, 15.12.10

Os livros do novo ano

Livros e amigos

 

 

 

Aldyr Garcia Schlee esteve em Porto Alegre na segunda-feira, participando da entrega do Prêmio Açorianos, onde encontrou vários escritores amigos e junto a eles festejou a premiação, a bela cerimônia e o show em que vários deles foram premiados em diversas categorias. Foi uma bela festa de confraternização e amizade, bem organizada pela Secretaria Municipal da Cultura, pela equipe do Secretário da Cultura e escritor Sergius Gonzaga.

 

 

 

No dia seguinte, terça-feira, esteve com agenda cheia, conversando sobre DON FRUTOS, sobre Jaguarão, sobre Pelotas e sobre o pampa, com um brinde de espumante pelo FATO LITERÁRIO 2010, numa lotada Livraria Sapere Aude! (de Lia, Letícia e Carlos Cartell), a casa repleta de amigos e especialmente de muitos jaguarenses; até o momento em que se dirigiu ao Bar Ocidente, para participar de um bate-papo animadissimo no SARAU ELÉTRICO, sobre a sua literatura do pampa, com KATIA SUMAN, CLAUDIA TAJES, LUÍS AUGUSTO FISCHER (outro premiado Açorianos) e CLÁUDIO MORENO. Em nenhum instante se falou de futebol, apenas de literatura e livros.

 

Em 2011, serão relançados em novas edições, os livros Contos de verdades e O dia em o Papa foi a Melo (atualmente esgotados), além de um novo livro de contos, inédito, previsto para lançamento em setembro.

 

 

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Terça-feira, 14.12.10

Prêmio Açorianos - Contos

 

 

 

 

 

Aldyr Garcia Schlee ganhou. Com o livro Os limites do impossível - Contos Gardelianos

Imagem: Desenho do troféu Açorianos, de Xico Stockinger, realizado a caneta esferográfica por Flor, neta do escritor.

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Segunda-feira, 13.12.10

SÁBADO 18 de dezembro - O JANTAR - Livraria da Vila Itaim

LANÇAMENTO EM SÃO PAULO - Livraria da Vila Itaim

 

 

 

 

 

 

Lançamento na Livraria da Vila Itaim - Rua Mário Ferraz, nº 414 (11) 3073-0513 - Itaim-Bibi São Paulo, no dia 18 de dezembro, das 15h até às 19h30, com a presença da autora, Naira Scavone, do chef Aires Scavone e do fotógrafo Mauro Holanda, autor das várias imagens publicadas no livro.

 

Imagem: Mauro Holanda

 



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Domingo, 12.12.10

Noite do Livro, em Porto Alegre

 

Prêmio Açorianos - Convite para a entrega dos Prêmios de Literatura - 13 de dezembro

 


 

 

publicado por ardotempo às 23:03 | Comentar | Adicionar

SARAU ELÉTRICO - 14 de dezembro - GRANDES RELATOS

SARAU DOS GRANDES RELATOS

 

O escritor de Jaguarão que passou 45 anos dedicado a uma ideia é o convidado do SARAU ELÉTRICO da proxima terça.

 

ALDYR GARCIA SCHLEE, Fato Literário 2010, apresenta seu romance DON FRUTOS, sobre a vida do caudilho uruguaio Fructuoso Rivera. Com a assistência da turma da casa, LUÍS AUGUSTO FISCHER, CLÁUDIO MORENO, CLAUDIA TAJES e KATIA SUMAN.

 

SARAU DOS GRANDES RELATOS. Histórias que mudaram tempos e vidas. E vão transformar a sua terça-feira também.


Canja pura salsa - TONDA Y COMBO

SARAU DOS GRANDES RELATOS - TERÇA 14.12.10 - OCIDENTE - 21h

 

 

 

 

DON FRUTOS

 

Um romance extraordinário sobre a vida do caudilho Fructuoso Rivera, presidente da República Oriental do Uruguai em duas oportunidades históricas e indicado a um terceiro mandato em triunvirato, num momento preciso e pontual: cerca de um ano inteiro de vida, o último de sua jornada, vivido em Jaguarão, no sul extremo do Brasil e permeado pelas lembranças sobre os inúmeros episódios de sua espantosa vida de aventuras políticas, amorosas, militares e de barroca construção de um novo país. Frutos Rivera, um dos libertadores da América. Um homem do pampa que assomou à presidência do Uruguai e incluiu-se como um dos fundadores da nova república, entre impérios e potências internacionais. Escrito com mestria por Aldyr Garcia Schlee (FATO LITERÁRIO 2010) em quatro anos, lastreado numa pesquisa exaustiva ao longo de 45 anos, em bibliotecas e arquivos nacionais, no Uruguai e no Brasil.

 

DON FRUTOS é um romance finamente lapidado em linguagem criativa, arquitetado pelo escritor que refez os caminhos, as memórias e as falas do personagem histórico com a verossimilhança que apenas a ousadia ilimitada de um autor densamente documentado poderia fazer. Abandone-se nessa escrita de alumbramentos e reconheça as marés de formação dos países do pampa.

 

Quantos serão eles, além daquele imaginado pelo escritor e os outros sugeridos pela imaginação infinita dos leitores, incendiada pelas suas palavras?

 

Aldyr Garcia Schlee pesquisou tanto, colheu um volume tamanho de informações, refletiu tão intensamente sobre sua personagem que mimetizou-se a ela, a ponto de pensar genuinamente suas ações, sentir seus sentimentos e saber seus medos, suas limitações, suas inseguranças, suas doenças e seus humores. Um romance magnífico que empresta a atmosfera de um continente emergente para o desfrute de uma literatura de invenção e originalidade.

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A biblioteca - como será?

A un paso de la biblioteca de Babel


Daniel Salgado

 

Las profecías sobre el futuro de las bibliotecas suelen citar a Jorge Luis Borges. Su relato La biblioteca de Babel, publicado en Ficciones, se ha convertido en tópico a la hora de imaginar cómo serán los almacenes de libros en lo que el comunicólogo Román Gubern denomina Galaxia Leibniz. Hace más de 70 años que Borges presentó el universo como biblioteca sin límites, con escaleras de caracol infinitas y miles de pasillos entrecruzados. En una peculiar e involuntaria analogía, los expertos actuales hablan de sistema de nodos interconectados, centros en red y acceso a todo el saber del mundo desde la soledad de la pantalla del computador.


"La meta es que el universo cultural entero pueda aparecer en la pantalla de consulta, hacer real el concepto totalizador de la biblioteca de Babel de Borges", explica Gubern, quien participó en Santiago de Compostela en un encuentro sobre el pasado, presente y futuro de las bibliotecas. Fue en esas jornadas en las que el escritor triestino Claudio Magris certificó que la lectura y el libro se encuentran ante un cambio de civilización. No aventuró hacia donde se dirigen y prefirió hablar de las bibliotecas de Cervantes o de Rabelais.


De entrada, pocos expertos se atreven a mapear lo que vendrá. Gubern, que define los centros que se encargan de custodiar los libros como "depósito del saber y de la fantasía que permiten realizar una geología del conocimiento", nombra el concepto de red y "la conexión con otros centros del mundo". Y la novelista Rosa Regás, directora de la Biblioteca Nacional española entre 2004 y 2007, se muestra totalmente escéptica: "Las bibliotecas irán cambiando paulatinamente, no habrá grandes cambios sino a medida que cambien las costumbres de los usuarios. Si estos se acostumbran a las pantallas, en las bibliotecas habrá también pantallas y posibilidades para descargar los materiales". Tampoco el catedrático de Historia Contemporánea de la Universidad de Santiago y presidente del Consejo de Cultura Gallega, Ramón Villares, vislumbra grandes vuelcos: "Lo digital y lo físico se combinarán durante un tiempo y las bibliotecas, tal y como las conocemos, no morirán. Por lo menos, en el corto plazo".


Que haya una persona, el estadounidense Robert Darnton, que al mismo tiempo asesora a Google Books y dirige la biblioteca de Harvard parece dar la razón al profesor gallego. Sin embargo, el discurso del sociólogo canadiense Derrick de Kerckhove, discípulo de Marshall McLuhan, difiere. Presente en los debates de Santiago, realizados en la Biblioteca de Galicia, aún por inaugurar, que alberga la Cidade da Cultura, De Kerckhove defiende la posibilidad de "situar el centro del mundo en casa".


El teórico de la "inteligencia conectiva" aplicada a Internet recuerda que, en su país, cada persona pasa "siete horas al día ante una pantalla" y metaforiza en la figura de Pinocho 2.0 la actual condición humana. "La memoria se encuentra fuera del individuo, en Google, en la Wikipedia", explica, "y una biblioteca debe pensar en cómo funcionar en ese contexto híbrido electrónico". Lo material y lo digital, lo local y lo global, son asuntos de los que preocuparse. Y si la realidad objetiva es que los estudiantes cada vez usan menos la biblioteca, para De Kerckhove hay razones palmarias: "Ya tienen acceso directo a toda la información".


Pero no todo son buenas noticias en el bando de los integrados. El propio sociólogo advierte de los estudios recientes que afirman la superioridad de la lectura en papel sobre la digital. Por lo menos, desde el punto de vista de ejercitar la memoria: leer un libro en pasta de celulosa hace trabajar la memoria un 20% más que hacerlo en digital. "Una biblioteca es una cosa viva", consideró Claudio Magris, "también es una perfumería, con sus olores". En ninguna profecía aparece, todavía, un mundo sin libros. "A veces hablamos del futuro como si fuese un horizonte al que llegar", se lamenta Rosa Regás, "pero no es así; se trata de un proceso continuo y los cambios resultan paulatinos". Nadie pensaba, 15 años atrás, "que existirían todas estas herramientas para descargar música o libros de la Red", dice.


La imagen del templo resulta socorrida, recurrente a la hora de definir la idea de biblioteca. Como peculiar espacio colectivo también corre riesgos. "Es cierto que en una biblioteca hay mucha gente que no se habla entre sí", describe Román Gubern, "pero sí hay compañía". El rito colectivo de estudiar o leer en una biblioteca se asemeja, según su visión, al del cine. Y como en el cine en salas, la afluencia decae. La multitud solitaria la llamó, ya en los años cincuenta, otro sociólogo, David Riesman. "Las empresas de hardware y software", ironiza Gubern, "conspiran para fomentar la claustrofilia y la agorafobia". Arrancar es el verbo con que el ensayista catalán define "las estrategias necesarias para que la gente salga de casa".


"Cada vez más, las bibliotecas tienden a que nadie venga a ellas", coincide Daniel Buján. Actual director de la Biblioteca de Galicia, Buján se encargó de poner en marcha el centro público Ánxel Casal, que el Estado construyó en Santiago de Compostela y que abrió en 2008. "Pero el libro funciona, se sigue prestando", asegura, antes de referirse a las pruebas de la institución que encabeza sobre el préstamo de e-readers. En las mesas redondas de la Cidade da Cultura, su intervención centró las aproximaciones de los expertos y enumeró problemas concretos a los que se enfrentan las bibliotecas en la época digital.


"Es necesario diferenciar entre una biblioteca de las llamadas nacionales, como la de Galicia, ocupadas de la conservación y que deben guardar todo", aduce Buján, "y las públicas, de difusión de la lectura". Digitalizar un documento cuesta aproximadamente un euro por página. Y los metadatos, la información que adjunta cada elemento digitalizado, tienen que ceñirse, vía directiva europea, al estándar de la Biblioteca del Congreso de Estados Unidos. Pero la obsolescencia tecnológica -Buján hace memoria y explica como, a principios de siglo, el CD "iba a ser el formato del futuro"- dificulta las labores: existen fondos en formatos que no se pueden leer, archivos informáticos en programas ya desaparecidos, papeles irreductibles a las técnicas hasta ahora conocidas.

 

Según el pensador De Kerckhove, en imagen transparente, "el futuro del libro en la biblioteca equivale al oro de la banca: nadie lo usa, pero debe existir, es la garantía, el símbolo".


"Todavía no conocemos la duración de los formatos digitales", alerta, a mayores, Gubern. "Hay expertos que hablan de unos 30 años, es decir, menos incluso que las viejas cintas de vídeo". La experiencia de la Galaxia Leibniz (el filósofo alemán que hace cuatro siglos sentó las bases del sistema binario de lo digital) es todavía incompleta. El propio Gubern recurre a sus ejemplares de la Enciclopedia Británica para expresar la incertidumbre: "La compré en 1995 y fue la última edición en papel que se editó".


El historiador Ramón Villares, que confiesa no imaginar un mundo sin bibliotecas, menciona otras cuestiones inherentes al abandono de la, en terminología de McLuhan, Galaxia Gutenberg. "Que el libro físico conviva con un gran almacén de libros digitales, una biblioteca universal virtual", señala, "acarreará consecuencias, ya las está acarreando, en la industria editorial, y aún no hemos resuelto el problema de los derechos de autoría y la retribución económica de los autores". La historia del libro y de su organización colectiva se entrelazan desde que Aristóteles comenzara a reunir los papiros que formarían el embrión de la biblioteca de Alejandría, en la tercera centuria antes de Cristo.


César Antonio Molina mostró similares preocupaciones: "Una biblioteca, pública o privada, es un templo. La mía está repleta de lugares y calles. Estoy en contra de aquellos que piensan que llegamos a un final; Gutenberg no ha muerto".


Para De Kerckhove no parece que haya vuelta atrás. La humanidad ha dado un paso adelante y aunque, dice, la libertad se reduce "al leer en pantalla", lo digital resulta irremediable también en las bibliotecas. "Ahora deben convertirse en aceleradores culturales, con una posición nodal en la red del conocimiento, al nivel de un gran aeropuerto". Atrás van quedando las avenidas abigarradas de los antiguos centros, aquellos que filmó Alain Resnais en la Biblioteca Nacional de Francia y llamó Toda la memoria del mundo.

 

 

 

 


Daniel Salgado - Publicado em Babelia / El País

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publicado por ardotempo às 17:56 | Comentar | Adicionar

A vida, enquanto isso

 

 

 

 

 

“A vida é o que acontece enquanto você está ocupado, fazendo outros planos."


John Lennon

 

(Um pergunta de Dr. Pangloss: o lançamento de um disco de grande sucesso mundial, a retomada de carreira solo nos Estados Unidos, uma desavença judicial com o Departamento de Estado norte-americano, vigilância cerrada cotidiana pelos serviços secretos... alguém acredita na história do assassinato pelo fã contrariado por não ter sido reconhecido na fila em frente ao edificio Dakota ou ele foi, de fato, executado por matador contratado? Prêmio Lee Harvey Oswald para quem acertar a resposta.)

publicado por ardotempo às 13:21 | Comentar | Adicionar

A defesa dos cidadãos


Lisbeth Salander e os "wikihackers"


Elio Gaspari


Os maganos da Amazon, do Mastercard, da Visa e do PayPal tentaram asfixiar o WikiLeaks e foram surpreendidos por uma revolta que juntou dezenas de milhares de micreiros, atacou seus portais e derrubou alguns deles. Na Holanda, foi preso um "wikihacker". Tem 16 anos. À força dos poderosos contrapôs-se a mobilização dos teclados da internet. O mundo do sucesso cibernético produziu figuras legendárias como Steve Jobs e Mark Zuckerberg, mas os "wikihackers" vêm de outro universo, onde há algo de transgressor. Por mais que haja "wikihackers" pensando em virar Jobs ou Zuckerberg, quem eles admiram mesmo é Lisbeth Salander.

 

 

 

 

 

Com seis piercings só na cabeça e um dragão tatuado nas costas, ela é a micreira antissocial, introspectiva e malvada dos romances do sueco Stieg Larsson, autor da trilogia "Millenium" (25 milhões de livros vendidos). Salander foi magistralmente interpretada por Noomi Rapace no filme "Os homens que não amavam as mulheres".

 

Gótica, cerebral e emburrada, come o pão que o diabo amassou, mas seus trocos são dolorosos. Uma das desforras faz do Capitão Nascimento um pacifista. A barreira do seu individualismo só é removida quando liga o computador, com o qual faz o que quer. Ambígua até na sexualidade, Salander não é uma personagem que estimule a clonagem, mas todo hacker tem um pouco de Lisbeth.

 

A prosperidade dos anos 50 e a fé no poder da tecnologia ajudaram o escritor Ian Fleming a construir a figura de James Bond. O poder que a gregariedade da internet dá hoje ao individualismo criou os "wikihackers" e Lisbeth Salander. Bond deixou atrás de si alguns tiques, um modelo de pasta e mais nada. O ataque aos portais da Amazon, do Mastercard, da Visa e do PayPal ensinou a essas empresas onipotentes que atrás de cada monitor não está apenas um freguês.


Elio Gaspari

publicado por ardotempo às 13:12 | Comentar | Adicionar

Cação branco

Cação é tubarão.

 

 


 

 

 

Cação não é peixe. Cação é tubarão. Tubarão, cavalo, cachorro, gato, lobo, tigre, elefante não são alimentos para seres humanos.

publicado por ardotempo às 13:07 | Comentar | Adicionar

A curta vida de Noel Rosa


Noel Rosa, flor de Vila Isabel


Ferreira Gullar

 


 


Faz alguns meses, a Folha lançou um CD de Noel Rosa, abrindo uma coleção de música brasileira. Comprei-o e, quando o ouvi no meu carro, fiquei encantado, logo imaginei um espetáculo, com uma única cantora e alguns poucos músicos. Nada de grande show nem orquestra.

 

Não: ela cantaria seus sambas imortais e, entre um e outro, falaria dele, de sua vida em Vila Isabel, de seus amigos de boemia e das pequenas loucuras que aprontava. Mas ficou nisso. Aliás, não.

 

Fui atrás de uma biografia do cantor, escrita por João Máximo e Carlos Didier, edição comemorativa de seu 80º aniversário de nascimento, que é muito mais que uma biografia. Com suas 500 páginas, nos faz mergulhar num rico universo de compositores, cantores e instrumentistas e nos revela, ao mesmo tempo, os começos do rádio como difusor de nossa música popular, as relações profissionais e de amizade que resultaram num período de intensa criatividade musical, só comparável ao período da bossa nova.

 

Tudo isso me deixou tão empolgado que cheguei a falar com Sérgio Cabral, mestre no assunto, do tal espetáculo com músicas de Noel. E só então tomei conhecimento de que, neste ano de 2010, ele completaria cem anos de vida, se não tivesse morrido, em 1937, com pouco mais de 26 anos de idade.

 

Por isso mesmo, vários espetáculos e homenagens estavam sendo preparados e realizados. Logo, o show que imaginara - mais um entre muitos - não despertaria o interesse dos produtores já engajados na programação comemorativa dos cem anos de nascimento do artista.

 

Nem por isso deixei de me imaginar na plateia de algum teatro, ouvindo possivelmente Adriana Calcanhotto a interpretar "Com que Roupa", o primeiro sucesso de Noel.Noel o compôs com menos de 20 anos de idade e ele tomou conta da cidade, tocando nas rádios e nos alto-falantes tanto da praça Saenz Peña quanto da avenida Atlântica. Tomou conta também do Carnaval daquele ano, dando início a uma série de sucessos que fariam de Noel um dos mais destacados sambistas daquela época.

 

Ganhou tanto dinheiro que chegou a comprar um automóvel, no qual saía para conquistar as mocinhas namoradeiras. E ainda buzinava para provocar os amigos, obrigados a fazer suas conquistas a pé. Consideraram essa concorrência desleal, com que Noel concordou e, a partir de então, cada fim de semana, convidava um deles para a caçada motorizada.

 

Em Vila Isabel, moravam, além de Noel, Lamartine Babo, Nássara e Orestes Barbosa, entre outros. A figura mais famosa da patota era Francisco Alves, cuja voz encantava a todo mundo. Por essa razão, todos os compositores queriam ter músicas gravadas por ele. Valendo-se disso, mau-caráter que era, explorava-os, lhes comprando a parceria.

 

Os pais de Noel sonhavam com o filho formado em medicina. Ele não se fez de rogado. Estudou, fez o vestibular e foi aprovado. Mas alguém imaginaria Noel Rosa, sentado num consultório, atendendo pacientes e receitando remédios? Ele, no entanto, achava que poderia conciliar o samba e a medicina.

 

Enquanto isso, passava as noites na companhia dos boêmios, a beber e a cantar sambas. Certa madrugada, em São José dos Campos, de porre, saiu nu pelo corredor do hotel. Tinha uma namorada, parente de um delegado de polícia, Lindaura, que sofria nas mãos dele, pois, a cada noite, a deixava em casa prometendo voltar logo e sumia. Ela, desesperada, saía atrás dele pelos bares e botecos e, quando o encontrava, estava já de porre a cantar e tocar violão numa roda de sambistas.

 

Ela queria casar; ele não. A mãe termina a expulsando de casa e os dois passam a noite indo e vindo num trem, até amanhecer. Finalmente, em face de tanta pressão, casam-se, para a infelicidade dela, já que quase nunca o tem a seu lado.

 

Continua a levar as noites bebendo e cantando nas rodas de malandros e, para piorar, se apaixona por Ceci, uma dançarina de boate, que depois o troca por um rapaz bonito e fino, que se chamava Mário Lago.

 

Assim foi que, comendo mal, dormindo pouco e tomando um porre por noite, contraiu uma tuberculose que o mataria rapidamente. No dia 4 de maio de 1937, morre na mesma Vila Isabel onde nascera. Se se chamasse Raimundo, talvez tivesse completado cem anos de vida ontem, no dia 11 de dezembro.


Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo / UOL

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Sábado, 11.12.10

Um brinde ao FATO LITERÁRIO - RSVP

CONVITE

 

 

 

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O canto das almas

Visões do Paraíso


Mariana Ianelli


Uma terra de grandes arvoredos, águas infinitas e com gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos, escreveu Pero Vaz de Caminha na Carta a El-Rei D. Manuel, desde a Ilha de Vera Cruz, em maio de 1500. Era a descoberta do Paraíso na Terra, um mundo em estado de sétimo dia de criação. Agora, em pleno século 21, temos a fábula científica do Paraíso no Espaço, da vida em desertos extraterrestres, o sonho da colonização de Marte.


Neste momento, em Moscou, seis astronautas estão vivendo confinados em uma cápsula que simula uma nave em jornada interplanetária. A expedição virtual, que faz parte de um projeto chamado Mars500, inclui testes físicos e psicológicos, atividades exploratórias em terras marcianas, além de um monitoramento constante da tripulação pelo Instituto de Problemas Biomédicos russo, que conduz o experimento ao lado da Agência Espacial Norte Americana e da Espacial Europeia. Outro projeto, menos ambicioso mas igualmente fantástico, foi realizado nos Estados Unidos, dois anos atrás, com estudantes que simularam uma viagem ao planeta vermelho nos confins do deserto de Utah. Existe ainda a Sociedade Marciana, fundada há pouco mais de uma década, que hoje reúne cerca de 10 mil pessoas interessadas nos avanços científicos para um futuro desbravamento espacial. Já foi criada até mesmo uma bandeira de Marte, hasteada na ilha de Devon, no Canadá.


Uma das provas a que os astronautas em Moscou estão sendo submetidos, durante esse período de mais de um ano de confinamento, intitula-se “O Livro da Vida”. Cada tripulante deverá preencher um diário com reminiscências da sua vida na Terra, lugares, situações, rostos familiares. Então imagino, daqui a um século, os pioneiros dessa tão sonhada missão colonizadora aportando em terras nada vicejantes, uma paisagem acidentada e ressequida, semelhante ao Vale de Josafá. A carta que redigiriam, do fundo de uma encosta acobreada, ao observarem o céu de Marte. Se por acaso encontrariam ali o mesmo que uma vez encontrou Dante, a visão do venerável signo, aquela resplandecência de grãos, o som de harpa do canto das almas.

 

 

 

 


Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

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Sexta-feira, 10.12.10

Espectro verde

O edifício espectral em São Paulo

 



Mario Castello - Edifício em São Paulo - Fotografia (São Paulo SP Brasil), 2010
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NaTHOLL Solidário

Ballet Contemporâneo e brinquedos

 

 

 

 

 

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Quinta-feira, 09.12.10

A fonte das nanás

Nanas

 

 

 

 

Niki de St. Phalle - Fonte das nanás - Pinacoteca de São Paulo (São Paulo SP Brasil)

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Terça-feira, 07.12.10

O beijo ensaiado

A alma encantadora das ruas


Roberto Kaz


Em 1950, Françoise Bornet, uma jovem atriz, trocava beijos com o namorado, em Paris, quando foi abordada pelo fotógrafo Robert Doisneau (1912-1994). Qual um tarado diante do objeto de fetiche (no caso, o instante perfeito), Doisneau pediu que o beijo se repetisse, para um ensaio fotográfico encomendado pela revista americana "Life". Françoise declarou, anos depois, ter adorado: "Nós estávamos acostumados a beijar. Fazíamos isso o tempo todo".


Doisneau levou o casal, então, para três locais de Paris: a Place de la Concorde, a Rue de Rivoli e o Hôtel de Ville, pedindo que os dois se entrelaçassem com volúpia. Resultou, daí, "O Beijo do Hôtel de Ville" - foto-ícone do romantismo parisiense dos anos 1950. A imagem integra o livro "Paris Doisneau", publicado em 2009 na França, pela Flammarion, e relançado no mês passado, no Brasil, pela Cosac Naify. A publicação traz cerca de 500 imagens de atrizes, bêbados, açougueiros, crianças, cães, mercados, praças, pontes -todas com a cidade luz ao fundo.


O crítico de fotografia Eder Chiodetto, curador do Clube de Fotografia do MAM-SP, diz que Doisneau, como Henri Cartier-Bresson, é "um ícone da escola francesa que fez carreira na calçada".


Chiodetto acredita que a imagem do beijo, embora encenada, nada deva à realidade. "Doisneau soube orquestrar algo que existia. Era um momento de otimismo, após a Segunda Guerra Mundial. De fato, namorava-se muito nas ruas de Paris." Para casais apaixonados mundo afora, a fotografia foi alçada a símbolo do amor romântico. Para a jovem do beijo, rebaixada a uma longínqua memória. O namoro foi desfeito poucos meses após o retrato.

 

 

Roberto Kaz - Publicado na Folha de São Paulo/ UOL

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SVEGLIA, de Edson Migracielo

 

Lançamento de livro - Bamboletras

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O lançamento do livro SVEGLIA, do escritor Edson Migracielo, que ganhou Menção Honrosa no Prêmio Nacional SESC 2009, será lançado nesta quinta-feira, dia 9 de dezembro, às 19h na Livraria Bamboletras, em Porto Alegre, RS.


Publicado pela editora 7letras, o livro é um romance sobre a liberdade, mas tem uma característica particular: a história é contada sem pausas, em um parágrafo único, no qual diálogos, descrições e devaneios se misturam.


A intenção do autor é valorizar o ritmo e o som da obra, "um delírio da linguagem em transe de escrita", segundo ele.


Trecho do livro:


Chegou num cavalo, com sede. Arfava. Ao redor do pescoço pendia num barbante uma chave pendurada e pelo menos visíveis não eram as asas que proclamava ter. Bradou: água! Quero mais que me ver! Quero me lambuzar no sangue do tempo! Quero nascer! Água! Água! Arfava. Gostava de consumir-se no seu fardo que pertencia a cada um a seu modo e no caso dele era o mistério. O mistério em que refestelava-se levava-o imune pelo  mundo, e ele precisava aceitar como um prêmio aquela dor. Porque era dor também um fardo como o mistério, como o segredo vivo da morte, carregar-se assim como um iluminado e sem chamar a atenção como um passageiro. As pessoas eram roubadas e não percebiam, achavam que ele era apenas condescendente. Mas ele via nos encontros e nos sucessos os efeitos, e os tomava por causas num pressentimento de trás para a frente que era como divertir-se. Com as mais diversas máscaras cuspia atravessado em algumas caras. Como uma invenção móvel e imprecisa, assim moldava-se a cada vez distinto. Pois queria amar mas o amor quanto maior mais implacavelmente o dissolvia no grande pavor de um nada. Mas o céu restava. O céu estava sempre lá e as estrelas vinham à noite e nenhum espelho devolvia com fidelidade seu genuíno suspiro quando alguma delas caía. O fogo ardia num transe e ele pegava-se emprestado algumas chamas altas, para queimar-se. Para cumprir o misterioso fardo de consumir-se. As bolhas das queimaduras estouravam conforme as revoluções da lua e ele era novo. Bastava começar a caminhar e ele já era um rosto sem o sim e o não que conhecia, e cultivava, um rosto fabricado pelo futuro de todos, andando na rua entre mil outros. Famílias e descaminhos atiçavam-lhe a imagem e ele dizia muito, escrevia, ele acabava falando demais e deixava-se perpassar por flechas quando muito mais fácil teria sido abandonar os personagens. Mas não é fácil viajar sem a vida ou mesmo miseramente distante dela. E o fumo, e um café forte cujo cheiro já era uma promessa, café feito às pressas para abraçar a insônia. Para abraçar as máscaras, removê-las atentamente do papel cuidando que suas letras permanecessem unidas como na palavra Sveglia. E assim como a verdade, Sveglia também é sempre o filho trazido do cemitério onde ventava muito quando acordei. Receei que o sono do início fosse querer me levar outra vez: mas eu lembrava mesmo de quando estivera lá dentro, no escurinho líquido, atado por um cordão de carne?

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A paixão do discurso

Llosa versus Foucault


Através de Pedro S. Pereira, da Ohio State University, chegou-me às mãos o texto escrito por Pedro Meira Monteiro, investigador brasileiro a trabalhar nos EUA, sobre uma palestra que Mario Vargas Llosa proferiu na sua universidade (Princeton), poucos dias após a atribuição do Prémio Nobel de Literatura 2010.

 

É um texto instigante, que reage com inteligência ao ataque feito por Llosa a Foucault e ao desconstrucionismo.

 

Aos dois Pedros, agradeço a gentileza do contacto e a permissão para partilhar esta resposta com os leitores do Bibliotecário de Babel:

 

O anti-Foucault

 

Uma das muitas virtudes do pensamento conservador é lembrar, aos que temos a veleidade de afirmar-nos imunes à cantilena da conservação, que o nosso discurso é sempre guiado por fantasmas. De fato, não há voz que se sustente sem espectros. Quando falamos, a potência muitas vezes inconfessável que nos move é aquela que trabalha por materializar, diante de nós mesmos e dos que nos ouvem ou leem, um fantasma.

 

Anteontem, em Princeton, Mario Vargas Llosa, recém-laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, proferiu uma palestra intitulada “Breve discurso sobre la cultura”. Em sua fala, o alvo era, sem nenhum pejo ou temor, a figura “sofística” de Michel Foucault.

 

Incomoda profundamente, a Vargas Llosa, que a figura da Autoridade tenha sido profanada pela geração de 68, a qual, iludida, teria feito tábula rasa da “cultura” (que ele cuidadosamente utiliza no singular). Até aí, nada de propriamente surpreendente, já que a postura conservadora do escritor peruano é bastante conhecida. O que me surpreendeu foi ver um módulo do pensamento conservador, que eu tive a oportunidade de estudar em detalhe em outro momento, reaparecer, quase intacto, diante dos meus olhos incrédulos.

 

Quando escrevi sobre o visconde de Cairu – um economista do início do século XIX no Brasil – , flagrei-lhe, em meio ao mais empedernido conservadorismo, algo que então considerei quase genial: a capacidade de apaixonar-se quando expende seus argumentos contra um alvo. A questão é menos simples do que parece: é que um conservador existe siderado pela necessidade de reagir à soltura dos instintos e dos corpos.

 

(Por isso, em geral, o conservador é aquele que sabe, com razoável ou inquebrantável segurança, o que é a “barbárie”.)

 

No caso de Cairu, a soltura dos corpos se revelava plenamente na loucura da massa torpe e ignara (a Revolução Francesa), e nos avanços subsequentes do “dragão corso” (Napoleão Bonaparte) pela Europa. Eis o paradoxo: o autor, que cautelosamente reage aos indivíduos que se deixam tomar pelas paixões, deixa-se ele mesmo tomar pela paixão do discurso, lançando-se aos mais incríveis golpes de efeito poético, comparando, por exemplo, as revoltas provinciais no Brasil imperial a uma “explosão” de vontades mal concertadas, mais perdidas e enfurecidas que “os átomos de Epicuro” soltos no espaço.

 

O velho ranzinza (o frei Caneca chamava-lhe “rabugento sabujo”) deixava-se tomar pelas mesmas paixões que pretendia controlar, e era pela soltura de sua imaginação, e de seus demônios, que vinham à página seus melhores momentos como escritor. O problema é que Cairu nunca foi um bom escritor.

 

Guardadas as diferenças e as proporções (Vargas Llosa é, naturalmente, um bom escritor), o autor peruano tem também o seu dragão, que não é corso, mas é ainda francês. Sua ira mal contida, derramada anteontem contra Foucault, chegou a momentos de incrível ousadia, como quando o espírito “sofístico” do filósofo de maio de 68 é lembrado em paralelo à degradação de seu corpo.

 

É que Foucault, sendo o emblema mesmo da geração de 68, e herói-intelectual daquela aventura tresloucada, entregou-se também aos desvios do corpo e da alma. Foi com pasmo que ouvi Vargas Llosa evocar as famosas e já folclóricas excursões do filósofo francês pelas saunas e bares gay de San Francisco, até o ponto de que sua morte com AIDS (referida também na palestra) ficasse no ar, como uma espécie de justiça poética e maldita, que recai sobre aquele que tragicamente negou o aspecto dissoluto de sua vida moral.

 

Houve outros momentos de pasmo para mim, como quando sua ira se estendeu a toda uma tradição do pensamento crítico no pós-68, e quando, dos teóricos pós-estruturalistas (De Man, Derrida), ouvimos as piores coisas, pelo menos até que, num estranho golpe de misericórdia, se dissesse que o que tal pensamento produziu não é muitas vezes mais que uma inútil e aparatosa “masturbação” (sic).

 

Eu respeito o pensamento conservador, e respeito especialmente aqueles que, como Vargas Llosa, têm a coragem de defendê-lo e de, ao mesmo tempo, sustentar publicamente sua voz, cultivando, ademais, a forma do diálogo. Há, contudo, pelo menos um equívoco grande naquilo que disse anteontem o ganhador do prêmio Nobel deste ano: em dado momento, ele reproduziu a já usada e cansada gracinha de que, diante de um texto de Derrida, nada ou pouco se compreende. Foi aí que pulei da cadeira, e vi meu próprio demônio diante de mim: não é verdade que ele nada tenha compreendido dos textos de Derrida! Que não compreendeu os textos em si, o seu “breve discurso” deixa claro. Mas ele compreendeu – e como conservador, compreendeu perfeitamente – que o gesto de desconfiança em relação ao sentido, que está no coração da aventura desconstrucionista, é o mais perigoso dos gestos, porque comporta a aposta no desejo e a possibilidade mesma do desvio. Mas desvio de quê? Rumo a quê? À cultura? Ou estamos todos perigosamente fugindo da cultura? Cultura de quem? Para quem?

 

Vargas Llosa não crê que, transviados, cheguemos à cultura. Por isso, o seu é o discurso da retenção, da contenção, e do recalque em relação aos poderes dissolventes do corpo, ou do Corpo.

 

É de fato uma enorme questão, que o “Breve discurso sobre la cultura” tem o mérito de trazer de novo à baila. Como acontece com quase todo conservador, o mais importante talvez não seja o que ele propõe, mas sim aquilo de que ele foge.

 

Pedro Meira Monteiro (Princeton University)

 

 

 

 

 

A forma como Llosa terá atacado Foucault, moralizando a partir da conduta sexual do intelectual francês, não deixa de ser estranha, se a analisarmos à luz do seu último romance: O Sonho do Celta. É que um problema semelhante se colocava na abordagem à personagem central do livro, Roger Casement.

 

Homossexual não assumido, Casement vai aparecendo ao longo da narrativa em momentos de entrega aos seus instintos sexuais, umas vezes consumados, outras vezes apenas com a sua fantasia como palco. A importância do comportamento do cônsul (apenas uma das muitas facetas da sua personalidade) prende-se com um dos nós dramáticos da aventurosa história deste irlandês. Condenado à morte por traição, Casement tinha muitos intelectuais do seu lado, assinando petições para um indulto por parte do governo inglês. É então que surgem, publicados nos jornais, supostos fragmentos dos seus diários secretos; os Black Diaries, nos quais o cônsul teria registado, em registo minimalista mas muito gráfico, as suas aventuras eróticas com rapazinhos em África e na Amazónia. O efeito da publicação destes excertos foi devastador, não só para a sua reputação como para o esforço dos seus amigos para o libertarem da forca. Até hoje, os ditos Diários Negros continuam a ser um foco de intensa polémica. Há quem garanta que foram manipulados e truncados (em suma, forjados) pelos serviços secretos ingleses, para desacreditar de vez Casement, e há quem garanta, com testes grafológicos, que os diários são verdadeiros. Em O Sonho do Celta, curiosamente, Llosa assume uma posição intermédia. Fazendo-se valer das prerrogativas romanescas, mostra-nos um homem que regista no seu diário alguns encontros amorosos esporádicos com rapazes novos, sim, mas que imagina todos os outros, nomeadamente os que mais poderiam escandalizar a sociedade puritana do início do século XX. Mais do que a transcrição da sua vida erótica real, os diários seriam o mapa do seu desejo recalcado.

 

Em momento algum o narrador de Llosa deixa entender uma condenação explícita da sua personagem por razões morais. Pelo contrário, parece compreensivo diante do sofrimento e da angústia que aquela existência oculta decerto provocou em Casement.

 

Tendo isto em conta, custa-me efectivamente a entender o violento ataque a Foucault e a baixeza dos argumentos utilizados na conferência de Princeton. Mas, se as coisas se passaram da forma que Pedro Meira Monteiro descreve (e não tenho razões para duvidar da sua palavra), então prova-se mais uma vez que é sempre necessário separar o escritor do homem público que o encarna, porque a pequenez do segundo não deve pôr em causa a grandeza do primeiro.

 

José Mário Silva - Publicado em Bibliotecário de Babel

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Começa quando se termina

 

El llanto enigmático

 

Enrique Vila-Matas

 

Hacia el final de un coloquio en Pamplona, en el formidable café Alt Wien, en el parque de la Taconera, una joven levanta la mano para decirme con mucha gracia que le ha interesado mucho todo lo que allí se ha hablado, aunque no ha entendido nada. Me parece fascinante. "Lo ideal", le digo, "sería que todo lo que has oído esta tarde aquí te acompañe al salir, lo ideal es que empiece en ti cuando todo esto termine".


Me doy cuenta al instante de que mi respuesta me ha devuelto a la entrevista a Antonio Lobo Antunes que he leído por la mañana en el avión. Le dicen al narrador portugués que, debido a que es difícil entrar en su escritura, agradecerían un consejo para un lector que se frustrara después de haber leído un libro suyo y no haber entendido nada. Y Lobo Antunes contesta:


-La primera vez que Téophile Gautier vio Las meninas de Velázquez dijo: "¡¿Pero dónde está el cuadro!?". Para mí es la mejor crítica de arte que leído en mi vida. Es el mejor elogio que se le puede hacer a una obra de arte.


Las palabras de Lobo me han llevado a recordar, esta mañana, las ocho o nueve tardes casi seguidas en las que, cuando tenía 15 años, vi en Barcelona la película El año pasado en Marienbad, siempre con el objeto de tratar de entenderla, ya que sentía que el filme me desafiaba y me hacía dudar de mi inteligencia, puesto que, por mucho que pusiera de mi parte, no lograba entenderlo nunca. Fueron días memorables en los que, al salir por las tardes del colegio de los jesuitas de la calle de Casp, subía paseo de Gràcia arriba a toda velocidad y me dirigía al cine Publi, dispuesto a ver por enésima vez la película y tratar por fin de comprender algo. Contaba con la inestimable complicidad del tío de un amigo, que era acomodador en esa sala y me dejaba pasar sin pagar. Ocho o nueve veces vi el filme y no lo entendí nunca, pero es que nunca. Luego, con el tiempo, perseguido por aquella experiencia de juventud, fui entendiéndolo de mil maneras distintas. Todavía hoy la película me entusiasma, aunque no es precisamente lo que le dije a su guionista y gran responsable del duro enigma, Alain Robbe-Grillet, la tarde en Barcelona en que le conocí y no pude evitar comentarle la cantidad de veces que había visto El año pasado en Marienbad con el objeto de tratar de entenderla.

 

-¿Y la entendiste al fin? -me preguntó de inmediato Robbe-Grillet.


Me di cuenta de que me la jugaba, de que según lo que le respondiera iba a pensar que yo era un imbécil, de modo que opté por contestarle la verdad. Si quedaba en ridículo, al menos que fuera habiéndole dicho la verdad.


-No. Sigo sin entenderla - le dije.


Vi como la sonrisa de Robbe-Grillet se triplicaba, feliz supongo de haber comprobado que, tantos años después, El año pasado en Marienbad seguía causando trastornos y siendo una fuente de energía creadora, una inagotable fuente de interpretaciones.


Pensé en Pamplona en todo esto al evocar aquella respuesta de Lobo Antunes, que, como le apuntaba el propio periodista, parecía estar insinuando que a él le gustaba que, al terminar sus novelas, los lectores se preguntaran dónde estaba el libro.


-Exactamente -le contestaba Lobo-. Los libros que me gustan empiezan en mí cuando termino de leerlos.


La frase me recuerda ahora lo que hace años me dijera Mercedes Monmany acerca de los libros que uno escribe y pierde, pierde para siempre, porque se apoderan de ellos los lectores, que los continúan en el espacio y el tiempo, lejos ya de quien los escribiera. Esa es la clase de libros que más habría de interesarnos a todos escribir, aquellos que empiezan en los lectores cuando estos acaban de leerlos.

 

 

 

 


Creo que hay algo de lo que me olvido en demasiadas ocasiones, pero que en los últimos tiempos pierdo menos de vista: en el arte de narrar no es necesario que todo quede explicado. Parece que es algo que sabían muy bien los clásicos. La mitad, como mínimo, de lo que contamos debe quedar sin explicaciones que lo hagan demasiado comprensible. ¿O acaso vamos nosotros por la calle comprendiéndolo absolutamente todo?


Una historia que quede bien explicada carece de excesivo interés, es más informativa y periodística que narrativa. Hay una historia que cuenta Heródoto que contiene ciertas fórmulas para construir - si el talento es también nuestro aliado - narraciones perdurables. Es la historia del faraón Psamético. En ella se nos cuenta cómo, tras la caída de Menphis, 500 años antes de la era cristiana, Psamético fue capturado por el ejército persa junto con su familia. Según el relato, el cruel Cambises puso a prueba la entereza del faraón infligiéndole el más doloroso de los castigos al colocarle en un ángulo de una vía a través de la cual iba a pasar el desfile de la victoria; un lugar estratégico desde donde le hizo ver también a su hija convertida en sirviente y a su hijo, completamente vejado, marchar camino de una dura muerte. Dice Heródoto que Psamético no se conmovió ante la suerte de su familia y aguantó firme, con la mirada en el suelo, todo lo que tenía que ver y que tan solo al final de todo se desmoronó, se derrumbó cuando reconoció entre los prisioneros a uno de sus sirvientes, un hombre viejo y miserable. Entonces, rompió a llorar. El misterio de ese incomprensible llanto permanece todavía hoy. Montaigne trató de explicarlo, pero no logró convencerse ni a sí mismo, porque acabó abriendo aún más interpretaciones del misterio de aquel extraño comportamiento. "Lo seguro es que hoy un periodista lo daría explicado de inmediato", escribió Walter Benjamin a propósito de este relato de Heródoto en el que veía el modelo ideal de narración, el cuento que nunca se entrega. Desde luego ha llegado hasta nuestros días, ha llegado hasta aquí, y es una historia que nunca nadie se acaba de explicar, quizás porque empieza en nosotros cuando terminamos de leerla.


Enrique Vila-Matas

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Segunda-feira, 06.12.10

Griffe de charme

Vitoria Cuervo

 

 

 

 

 

Coleção Capulana Verão 2011 - Design de alto estilo de Vitoria Cuervo (a estilista é a do centro na fotografia), realizada exclusivamente com tecidos africanos - (Brasil), 2010

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Café

Fotografia

 

 


 

 

Giácomo Favretto - Café - Fotografia (São Paulo SP Brasil)

 

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Domingo, 05.12.10

Histórias sombrias

Quarteto de sombras

Mariana Ianelli

A chegada do verão é um chão de ardósia quente depois que anoitece. Para temperar o calor, um calor infernal, como se usa dizer, nada melhor do que uma boa antologia de poetas russos, com seus campos gelados e seus domos escondidos na bruma. Joseph Brodsky junta os dedos em volta da pena, menos por costume de escritor que por ter sido educado pelo frio. Boris Pasternak faz descer a geada num canteiro e esta imagem é sua definição de poesia. Marina Tsvetáieva imita a tempestade rebentando em versos exclamativos feito bátegas. Anna Akhmátova nos envolve em nuvens sombrias.

Sombrias também são as histórias de vida desses poetas. Enfrentando a pobreza e o regime do medo, na década de 30, Anna Akhmátova presenciou o destino trágico de muitos dos seus conterrâneos. Réquiem, seu mais célebre poema, por muito tempo censurado pelo governo soviético, canta o sofrimento de centenas de mulheres como ela, que tiveram seus filhos presos e se postaram em fila diante das penitenciárias de Leningrado. Marina Tsvetáieva, com quem Anna Akhmátova se correspondia, também provou o ostracismo e a miséria, testemunhou a prisão de uma de suas filhas e teve seu marido executado. Boris Pasternak, que trocou longas cartas apaixonadas com Marina Tsvetáieva, viveu no isolamento depois da publicação de Doutor Jivago e, vencendo o Nobel em 1958, foi impedido pelas autoridades soviéticas de receber o prêmio. Joseph Brodsky, também ganhador do Nobel, chegou a ser acusado de parasitismo, condenado a trabalhos forçados e, afinal, expulso de seu país, buscou asilo político nos Estados Unidos. Até o fim da vida, o poeta não pôde rever seus pais na velha casa que chamava de bela terra Pátria.


Extensos campos nevados formigando de botas pretas, o terror nos olhos arregalados na treva, correntes nas portas das casas e nas celas, o som dos trovões misturado ao som dos projéteis, o ar abafado e um chão escaldante nos vagões cheios de sombra dentro de um poema. Realmente, nada como uma antologia de poetas russos para reconsiderar o clima neste começo de dezembro.

 

 

 

 


Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

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publicado por ardotempo às 23:27 | Comentar | Adicionar

Dia de futebol

 

Dia universal da barbárie

 

 

É dia de violência desenfreada, de ausência de regras,

da escatologia e dos palavrões recitados coletivamente.

Dia de tiros (eu os escuto no momento) e de balas perdidas.

É o vizinho que dispara para cima

(mas as balas caem em algum lugar).

Sem lei, sem regras, vale tudo.

 

Ao lado do estádio, milhares vestidos com a camiseta do time

bebem cerveja de maneira incontida.

A arca do dilúvio é de isopor, está inundada de blocos de gelo

e latas de álcool.

 

Fala-se que é a alegria e a festa – mas será dia de ferimentos e dor.

Os gritos ameaçam e guincham impropérios.

Ônibus trazem as hordas desafiadoras.

Não há polícia, faz-se o que se quer sob a sombra da bandeira do esporte.

Alarido, barbárie, estupidez liberada em nome de algo

que não se sabe bem ao certo.

 

Fanatismo religioso em tecido desfraldado.

Toda a selvageria possível, no anonimato do comportamento coletivo.

A torcida vem de todos os lugares, carros e ônibus estacionam em qualquer espaço,

na rua, sobre a grama, sobre jardins, sobre as calçadas.

Os mais impróprios, os que perturbam mais são os escolhidos, são os mais desejados.

A polícia que se vê, faz que nada vê.

 

O dia de futebol é o dia do uivo, é o dia do animal, é o dia da catarse,

é o dia da agressão desmesurada,

da anticivilização.

Estão todos embriagados, tomados pela inconsciência, pela fúria, pela euforia.

Há cantos coletivos, há batuques cardíacos. A violência é um fusível.

 

Fala-se que é a alegria e a festa.

Tudo estará nos jornais amanhã, em diferentes páginas.

publicado por ardotempo às 22:03 | Comentar | Adicionar

Picassos de presente. Uma verdade que se supera


De cómo ocultar 40 años 271 'picassos' en un garaje



Antonio Jiménez Barca

 

El electricista jubilado Pierre Le Guennec tiene cara de buen tipo y pinta de persona a la que uno compraría un coche usado. Desde hace una semana se ha convertido en el manitas más famoso y perseguido de Francia: el lunes, por medio de un artículo en Libération, se supo que guardó durante 40 años 271 obras inéditas de Picasso en un rincón del garaje de su casa de Mouans-Sartoux, en el sur de Francia, a veinte kilómetros de Cannes, envueltas en una bolsa de plástico, según él mismo explica, al lado de sus herramientas de electricista y de un montón de cables viejos. Él asegura que se los regaló el pintor en 1973. "Y se conservaron bien", añade, con una sonrisa retraída, "a pesar de los ratones que hay ahí".


Le Guennec - gafas con cordones, tirantes, camisa de leñador de las de hace treinta años- es muy tímido, hasta el extremo de que le cuesta explicarse. Habla a trompicones y esconde la cara con las manos en un gesto repetido de impotencia. Cuando se le comenta que los dibujos que él conservó tanto tiempo ocultos valen más de ochenta millones de euros murmura (aparentemente) abrumado por la cifra: "Esto no es posible. Esto me sobrepasa". Para el abogado de los herederos de la familia Picasso, Le Guennec es un pillo mentiroso muy listo con cara de buen hombre que ha conseguido mantener en secreto y escondido un tesoro robado hace 40 años que ahora destapa para dejar una herencia a sus dos hijos y cuya impostura puede acabar con una condena de cárcel; para la abogada Evelyn Rees, de Cannes, sus defendidos, Le Guennec y su animosa y charlatana mujer Danielle, son simplemente una pareja humilde de ancianos que ha vivido siempre del escaso sueldo del marido (algo que corrobora la policía), reconvertidos de golpe en protagonistas de una historia tan inverosímil como cierta, de esas que solo pueden ocurrir en la Provenza, y que arrancó una mañana de 1970.


"Ese día, el secretario de Picasso, Miguel algo, me llamó por teléfono para que fuera a arreglar el motor del horno que se les había estropeado en su casa de Mougins, que está cerca de donde yo vivo. Fui y se lo arreglé. Después volví mucho allí, a arreglar luces, enchufes, grifos, a poner un sistema de alarma por toda la casa", explica Le Guennec, muy despacio, mirando al suelo.


-Pero cuenta lo del sombrero, hombre, lo del sombrero, le ordena Danielle.


"Un día, en el que yo estaba arreglando las luces del jardín, el secretario ese, Miguel, me hizo llamar, y me dijo que me llamaba el maestro. Yo me acerqué. Estaban desayunando en la terraza. Picasso me indicó que me sentara a su lado. Y se fijó en el sombrero de paja que yo tenía. Jacqueline [Roque, última esposa de Picasso] me pidió que se lo regalase. Y se lo di claro. Luego vi que lo había utilizado para un cartel de una exposición en Aviñón".


Después, un día no determinado de 1973, meses antes de que falleciera el pintor, cuando Le Guennec se iba para casa después del trabajo, Jacqueline se le acercó: "Venía con una caja de cartón y me dijo: 'Para ti, de parte del maestro'. Vi que eran unos papeles, unos dibujos, pero no le di mucha importancia, lo metí en la camioneta y me volví a casa. Al llegar los envolví bien y los dejé en una estantería del garaje. Para mí no eran cuadros, no eran pinturas, muchos no estaban acabados, eran dibujos, pruebas, a los que no di mucho valor...".


La resolutiva Danielle añade: "Tal vez ahora habríamos hecho otra cosa. Pero entonces, éramos jóvenes, no sabíamos. Él tenía 30 años y yo, 27".


Guardaron el contenido de la caja, jamás hablaron de él a nadie, pasaron 40 años, y hace meses Pierre decidió desenterrarlo. ¿Por qué ahora? "Porque hace un año me detectaron un cáncer de próstata. Me operaron, toco madera, y estoy bien, pero pensé que si yo moría, mis hijos se iban a preguntar que qué eran esos dibujos, así que decidí contarles la historia y para que quedara claro que eran de Picasso, me dirigí a los herederos".


Así, en enero llamó a la sociedad Picasso Administration, en París, y explicó a una secretaria que poseía varias obras del pintor y que deseaba autentificarlas. En esta sociedad están acostumbrados a las llamadas de chiflados o de espabilados que afirman guardar en su casa un cuadro o un dibujo del artista, así que a Le Guennec le dieron la respuesta tipo: "Haga unas fotografías y envíenoslas por correo". El viejo electricista, ayudado por uno de sus hijos, colocó un marco blanco de papel a cada dibujo y se puso manos a la obra: "Mientras las fotografiábamos les íbamos poniendo el título que nos parecía mejor, un poco al tuntún: a una la llamamos Bailarina, a otra Cabeza de mujer..., yo no sé". Envió una treintena de fotografías. Los de Picasso Administration le pidieron más. Obedeció. Y en septiembre, Claude Picasso, uno de los hijos del pintor y el encargado de gestionar la herencia, intrigado por esas fotografías malas en blanco y negro que escondían obras desconocidas, llamó a Le Guennec y le rogó que se acercara a París para estudiarlo todo personalmente.


"Metimos en una maletita con ruedas todos los dibujos y nos fuimos en tren a París, Danielle y yo", explica Le Guennec, encogiéndose de hombros.
El hijo de Picasso y un colaborador contemplaron estupefactos durante tres horas el maravilloso contenido de la maleta de los dos ancianos: un pequeño cuaderno con un centenar de deliciosos dibujos de Picasso a lápiz y a tinta, de apuntes al natural, de ensayos, de caricaturas; pero también una treintena de litografías (varias idénticas), un retrato a tinta de la primera mujer de Picasso, Olga Koklowa, nueve collages cubistas que por sí solos valen más de cuarenta millones de euros, una decena de bocetos de Las tres gracias, una acuarela de su periodo azul y varios paisajes (muy raros en Picasso), entre otros prodigios. En ningún momento dudaron de su autenticidad. Nadie en el mundo podría haber imitado con tanta perfección tantas técnicas diferentes de Picasso. El valor aproximado de las obras guardadas en el garaje de Le Guennec ronda los ochenta millones de euros, según varios expertos franceses. Anne Baldasari, directora del Museo Picasso de París, en una entrevista concedida el miércoles al periódico Le Figaro, aseguraba: "Las numerosas piezas aparecidas tienen una importancia considerable para aclarar la obra de Picasso en su juventud. Son fondos de su taller personal, de los años 1900-1932".
Recuperado de la conmoción, Claude Picasso recomendó a Le Guennec que hiciera fotos en color - y de buena calidad - de las obras a fin de autentificarlas de una vez y le recomendó un fotógrafo parisiense. Y quedaron en hablar. Le Guennec accedió y fue a ver a ese fotógrafo al salir de la entrevista. "Pero cobraba cuarenta euros por foto, así que lo dejamos", explica.


Volvieron los dos, Danielle y Pierre, en tren a su casa de la Provenza, con los dibujos otra vez metidos en la maletita de ruedas. Al llegar a casa, eso sí, los guardaron en un arcón donde Le Guennec conserva una colección de armas antiguas. Y se dispusieron a aguardar la llamada de los Picasso. En vez de eso, a la semana se presentaron en la casa varios agentes especializados de la Oficina Central Contra el Tráfico de Bienes Culturales que reclamaron inmediatamente las obras y le informaron de que sobre él pendía una denuncia interpuesta por los herederos de Picasso. Asombrado, asustado, según cuenta, Le Guennec le mostró a la policía el arcón donde guardaba los dibujos. Después, los policías registraron minuciosamente toda la casa, habitación por habitación, el jardín, el famoso garaje. Pero no encontraron nada más. Le Guennec no había distraído ni uno solo de los dibujos que enseñó a Claude Picasso: todo estaba ahí. Los tres (los dibujos, Pierre y Danielle) fueron traslados a la comisaría. Allí, el electricista jubilado se enteró de que los herederos de Picasso le habían denunciado no por robo (delito ya prescrito), sino por apropiarse de un bien robado (delito aún vigente). Arrestado por ladrón, pasó una noche en el calabozo.


-A mí me soltaron a las tres horas, especifica Danielle, sonriente.


El abogado de Picasso Administration, Jean-Jacques Neuer, desde un despacho de una de las zonas más exclusivas de París, explica las razones que les llevaron a acusar a Le Guennec: "Para nosotros está claro que robó las pinturas. Ninguno de los dibujos está dedicado. Todos pertenecen a un periodo determinado, como si estuvieran archivados en un mismo sitio, en la misma caja. Nadie conoce a este señor Le Guennec de nada, no aparece por ningún lado en ninguna biografía del artista probablemente más estudiado de la historia. No creemos que fuera un amigo de Picasso". Y añade: "Si a ti te regalan unos dibujos de Picasso, los pones en tu casa, los cuelgas en las paredes, los enseñas, no los escondes en el garaje. ¿Por qué los ha ocultado durante cuarenta años? Además, no me imagino a Picasso regalándole a su electricista un lote de dibujos, muchos de ellos inacabados, o dándole unos collages surrealistas que no habría regalado ni a Braque. Todo esto no tiene sentido, es simplemente aberrante".


Con todo, la prensa local defiende al electricista y subraya el hecho de que jamás haya intentado vender ningún dibujo bajo cuerda y a escondidas, que no haya intentado escapar después de hablar con Claude Picasso, que ni siquiera ocultó las obras ni apartó ninguna para él después de viajar a París. Los expertos en arte, por el contrario, opinan que Le Guennec se apropió de algo que no le pertenecía, apelando a las mismas razones que Neuer. Hay galeristas de Niza que opinan, sin embargo, que Jaqueline Roque bien pudo darle la caja por error y que eso explicaría el caso. El alcalde de Mouans-Sartoux, André Aschieri, solo recuerda, en una entrevista reciente a Le Figaro, que Pierre ha sido siempre un vecino ejemplar del que jamás se ha conocido un episodio turbio. Y su abogada desde hace 15 días, Evelyn Rees, asegura que los herederos de Picasso tratan de ensuciar una bonita historia de gente honrada que tuvo la suerte de codearse con Picasso porque simplemente vivían a diez minutos en coche.


El mismo Le Guennec, con su torpeza al hablar y sus gestos de impotencia, explica inocentemente que él jamás pensó que ese lote de dibujos, muchos inacabados, sin marcos, valieran algo, que jamás imaginó que ese montón de pinturas desordenadas dentro de una caja de cartón pudieran ser consideradas obras maestras, que por eso lo guardó todo en el garaje y que ha sido la amenaza de la muerte después de operarse de cáncer y la necesidad de que sus hijos entendieran qué y de dónde venía eso lo que le impulsó a dirigirse a Claude Picasso. Y no entiende que pueda acabar en la cárcel.


Por lo pronto, la policía investiga con los cuadros requisados y custodiados en una comisaría de Nanterre. Después, será el fiscal de la zona el que decida. Lo hará a finales de diciembre. A él le corresponderá dilucidar si Le Guennec es lo que parece, esto es, un jubilado apacible con aspecto de buen vecino al que la suerte le sonrió hace 40 años, o si por el contrario es un gran actor dispuesto a rentabilizar el golpe de su vida. Si el fiscal cree que existen sospechas de delito, el caso continuará en manos de un juez de instrucción. Si no, los 80 millones de euros en pinturas y dibujos volverán a la casa del electricista jubilado de 1.200 euros de pensión.


¿Qué hará entonces con ellos, convenientemente autentificados, tasados ya en una fortuna si eso es lo que decide el juez?


Le Guennec se vuelve a ocultar la cabeza con las manos, tartamudea un poco, sonríe (tal vez enigmáticamente, tal vez no) y dice: "No lo sé. Esto me supera".

 

 

 

 

 

Publicado em El País

publicado por ardotempo às 13:28 | Comentar | Adicionar

Os que não sabem o que fazem...

Justiça complacente


Ferreira Gullar


"Vivemos num regime democrático, logo os presos têm direito a receber parentes, amigos, advogados e visitas íntimas", afirmou um jurista.


A pergunta é: os traficantes respeitam as normas do Estado democrático? Na verdade, os bandidos dominam as comunidades pobres, impõem a pena de morte a quem não os obedece, expulsam de casa os moradores quando lhes convém, enfim mantêm a comunidade sob terror. Ou seja, não respeitam os direitos de ninguém, mas, quando presos, gozam dos direitos democráticos que não respeitam.


Veja bem, não pretendo que os bandidos presos sejam tratados do mesmo modo que tratam suas vítimas; apenas pergunto se não seria mais equânime e sensato usar de maior rigor para impedir que, através das visitas, passem orientações e decisões que os mantêm atuando criminosamente.


A polícia do Rio encontrou, recentemente, uma carta entregue a uma visita por um preso da penitenciária de segurança máxima de Catanduvas, no Paraná, dando ordem a seus asseclas para desencadear os atentados que aterrorizaram a população da cidade do Rio. Não seria mais justo para com todos nós impedir que os chefes do tráfico continuem a comandar suas gangues de dentro do presídio?


Sei muito bem que pega mal dizer coisas como essas. Muitos temem opinar contra certas medidas, estatutos e leis que têm, teoricamente, como objetivo fazer justiça a determinados setores da sociedade.


Não faz muito tempo nossa Justiça decidia que o benefício da progressão da pena (cumpri-la fora da cadeia depois de algum tempo encarcerado) deveria ser estendido aos condenados por crimes hediondos, uma vez que a lei deve ser igual para todos. Depois, parece que voltou atrás e fez um remendo nessa decisão desastrosa.


O estatuto do menor é outra peça intocável. Todo mundo sabe que os bandidões usam menores de idade para consumar seus crimes porque para eles, na prática, não há punição. Se um menor, a seu mando, mata alguém, o máximo que lhe acontece é ser internado por três anos numa casa de recuperação, donde foge com a ajuda do próprio mandante. Mas vá dizer que o estatuto deve ser modificado! Será tachado de desumano e retrógrado.


Alguém acredita, em sã consciência, que um rapaz de 16 anos, quando rouba ou mata, não sabe o que faz? Não conheço ninguém que tenha a coragem de afirmá-lo, olho no olho. Mas os defensores do estatuto lançam mão de todo tipo de subterfúgio para mantê-lo intocado.


Agora mesmo, durante essa onda de terror que aterrorizou a população carioca, a polícia constatou que muitos dos autores desses atentados eram menores. Entravam armados nos ônibus, mandavam os passageiros descer, espalhavam gasolina no veículo e ateavam fogo. Tudo isso sem saber o que faziam.


Muitos deles, presos e encaminhados para uma casa de recuperação, de lá foram retirados pelas mães, que chegaram chorando e lamentando terem sido eles desencaminhados pelos traficantes. Em breve, estarão nas ruas tocando fogo em outros ônibus e assaltando, certos de que nada lhes acontecerá.


Semanas antes disso, em São Paulo, um menor atacou um rapaz, batendo-lhe violentamente com uma lâmpada fluorescente no rosto. Pertencia a um grupo de desordeiros que andava pela cidade agredindo pessoas. Quando o rapaz atingido, com o rosto sangrando, tentou revidar, foi espancado brutalmente pela patota e só se safou graças ao vigia de um prédio em frente. A polícia os prendeu, mas, na manhã seguinte, os que eram menores de idade foram soltos para, se o quiserem, voltar a cometer novas agressões.


Durante a tomada pelas forças policiais do Complexo do Alemão, aqui no Rio, foi preso o bandido Zeu, um dos matadores do jornalista Tim Lopes. Cortou-o aos pedaços e o assou num "micro-ondas". Não obstante, condenado, foi agraciado com a prisão-albergue. Saiu e não voltou mais.


Certamente, não se pode achar que todo jovem delinquente seja um bandido em potencial, mas a nossa tolerância com os criminosos é tal que se tenta aprovar, agora, no Congresso, uma lei para proteger os direitos da vítima, já que a legislação em vigor só cuida dos direitos do condenado. Vivemos numa democracia. O termo "demo" vem do grego e quer dizer "povo". Será que o povo está de acordo com uma Justiça que não o protege?


Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo / UOL

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publicado por ardotempo às 13:05 | Comentar | Adicionar

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