Llosa versus Foucault
Através de Pedro S. Pereira, da Ohio State University, chegou-me às mãos o texto escrito por Pedro Meira Monteiro, investigador brasileiro a trabalhar nos EUA, sobre uma palestra que Mario Vargas Llosa proferiu na sua universidade (Princeton), poucos dias após a atribuição do Prémio Nobel de Literatura 2010.
É um texto instigante, que reage com inteligência ao ataque feito por Llosa a Foucault e ao desconstrucionismo.
Aos dois Pedros, agradeço a gentileza do contacto e a permissão para partilhar esta resposta com os leitores do Bibliotecário de Babel:
O anti-Foucault
Uma das muitas virtudes do pensamento conservador é lembrar, aos que temos a veleidade de afirmar-nos imunes à cantilena da conservação, que o nosso discurso é sempre guiado por fantasmas. De fato, não há voz que se sustente sem espectros. Quando falamos, a potência muitas vezes inconfessável que nos move é aquela que trabalha por materializar, diante de nós mesmos e dos que nos ouvem ou leem, um fantasma.
Anteontem, em Princeton, Mario Vargas Llosa, recém-laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, proferiu uma palestra intitulada “Breve discurso sobre la cultura”. Em sua fala, o alvo era, sem nenhum pejo ou temor, a figura “sofística” de Michel Foucault.
Incomoda profundamente, a Vargas Llosa, que a figura da Autoridade tenha sido profanada pela geração de 68, a qual, iludida, teria feito tábula rasa da “cultura” (que ele cuidadosamente utiliza no singular). Até aí, nada de propriamente surpreendente, já que a postura conservadora do escritor peruano é bastante conhecida. O que me surpreendeu foi ver um módulo do pensamento conservador, que eu tive a oportunidade de estudar em detalhe em outro momento, reaparecer, quase intacto, diante dos meus olhos incrédulos.
Quando escrevi sobre o visconde de Cairu – um economista do início do século XIX no Brasil – , flagrei-lhe, em meio ao mais empedernido conservadorismo, algo que então considerei quase genial: a capacidade de apaixonar-se quando expende seus argumentos contra um alvo. A questão é menos simples do que parece: é que um conservador existe siderado pela necessidade de reagir à soltura dos instintos e dos corpos.
(Por isso, em geral, o conservador é aquele que sabe, com razoável ou inquebrantável segurança, o que é a “barbárie”.)
No caso de Cairu, a soltura dos corpos se revelava plenamente na loucura da massa torpe e ignara (a Revolução Francesa), e nos avanços subsequentes do “dragão corso” (Napoleão Bonaparte) pela Europa. Eis o paradoxo: o autor, que cautelosamente reage aos indivíduos que se deixam tomar pelas paixões, deixa-se ele mesmo tomar pela paixão do discurso, lançando-se aos mais incríveis golpes de efeito poético, comparando, por exemplo, as revoltas provinciais no Brasil imperial a uma “explosão” de vontades mal concertadas, mais perdidas e enfurecidas que “os átomos de Epicuro” soltos no espaço.
O velho ranzinza (o frei Caneca chamava-lhe “rabugento sabujo”) deixava-se tomar pelas mesmas paixões que pretendia controlar, e era pela soltura de sua imaginação, e de seus demônios, que vinham à página seus melhores momentos como escritor. O problema é que Cairu nunca foi um bom escritor.
Guardadas as diferenças e as proporções (Vargas Llosa é, naturalmente, um bom escritor), o autor peruano tem também o seu dragão, que não é corso, mas é ainda francês. Sua ira mal contida, derramada anteontem contra Foucault, chegou a momentos de incrível ousadia, como quando o espírito “sofístico” do filósofo de maio de 68 é lembrado em paralelo à degradação de seu corpo.
É que Foucault, sendo o emblema mesmo da geração de 68, e herói-intelectual daquela aventura tresloucada, entregou-se também aos desvios do corpo e da alma. Foi com pasmo que ouvi Vargas Llosa evocar as famosas e já folclóricas excursões do filósofo francês pelas saunas e bares gay de San Francisco, até o ponto de que sua morte com AIDS (referida também na palestra) ficasse no ar, como uma espécie de justiça poética e maldita, que recai sobre aquele que tragicamente negou o aspecto dissoluto de sua vida moral.
Houve outros momentos de pasmo para mim, como quando sua ira se estendeu a toda uma tradição do pensamento crítico no pós-68, e quando, dos teóricos pós-estruturalistas (De Man, Derrida), ouvimos as piores coisas, pelo menos até que, num estranho golpe de misericórdia, se dissesse que o que tal pensamento produziu não é muitas vezes mais que uma inútil e aparatosa “masturbação” (sic).
Eu respeito o pensamento conservador, e respeito especialmente aqueles que, como Vargas Llosa, têm a coragem de defendê-lo e de, ao mesmo tempo, sustentar publicamente sua voz, cultivando, ademais, a forma do diálogo. Há, contudo, pelo menos um equívoco grande naquilo que disse anteontem o ganhador do prêmio Nobel deste ano: em dado momento, ele reproduziu a já usada e cansada gracinha de que, diante de um texto de Derrida, nada ou pouco se compreende. Foi aí que pulei da cadeira, e vi meu próprio demônio diante de mim: não é verdade que ele nada tenha compreendido dos textos de Derrida! Que não compreendeu os textos em si, o seu “breve discurso” deixa claro. Mas ele compreendeu – e como conservador, compreendeu perfeitamente – que o gesto de desconfiança em relação ao sentido, que está no coração da aventura desconstrucionista, é o mais perigoso dos gestos, porque comporta a aposta no desejo e a possibilidade mesma do desvio. Mas desvio de quê? Rumo a quê? À cultura? Ou estamos todos perigosamente fugindo da cultura? Cultura de quem? Para quem?
Vargas Llosa não crê que, transviados, cheguemos à cultura. Por isso, o seu é o discurso da retenção, da contenção, e do recalque em relação aos poderes dissolventes do corpo, ou do Corpo.
É de fato uma enorme questão, que o “Breve discurso sobre la cultura” tem o mérito de trazer de novo à baila. Como acontece com quase todo conservador, o mais importante talvez não seja o que ele propõe, mas sim aquilo de que ele foge.
Pedro Meira Monteiro (Princeton University)
A forma como Llosa terá atacado Foucault, moralizando a partir da conduta sexual do intelectual francês, não deixa de ser estranha, se a analisarmos à luz do seu último romance: O Sonho do Celta. É que um problema semelhante se colocava na abordagem à personagem central do livro, Roger Casement.
Homossexual não assumido, Casement vai aparecendo ao longo da narrativa em momentos de entrega aos seus instintos sexuais, umas vezes consumados, outras vezes apenas com a sua fantasia como palco. A importância do comportamento do cônsul (apenas uma das muitas facetas da sua personalidade) prende-se com um dos nós dramáticos da aventurosa história deste irlandês. Condenado à morte por traição, Casement tinha muitos intelectuais do seu lado, assinando petições para um indulto por parte do governo inglês. É então que surgem, publicados nos jornais, supostos fragmentos dos seus diários secretos; os Black Diaries, nos quais o cônsul teria registado, em registo minimalista mas muito gráfico, as suas aventuras eróticas com rapazinhos em África e na Amazónia. O efeito da publicação destes excertos foi devastador, não só para a sua reputação como para o esforço dos seus amigos para o libertarem da forca. Até hoje, os ditos Diários Negros continuam a ser um foco de intensa polémica. Há quem garanta que foram manipulados e truncados (em suma, forjados) pelos serviços secretos ingleses, para desacreditar de vez Casement, e há quem garanta, com testes grafológicos, que os diários são verdadeiros. Em O Sonho do Celta, curiosamente, Llosa assume uma posição intermédia. Fazendo-se valer das prerrogativas romanescas, mostra-nos um homem que regista no seu diário alguns encontros amorosos esporádicos com rapazes novos, sim, mas que imagina todos os outros, nomeadamente os que mais poderiam escandalizar a sociedade puritana do início do século XX. Mais do que a transcrição da sua vida erótica real, os diários seriam o mapa do seu desejo recalcado.
Em momento algum o narrador de Llosa deixa entender uma condenação explícita da sua personagem por razões morais. Pelo contrário, parece compreensivo diante do sofrimento e da angústia que aquela existência oculta decerto provocou em Casement.
Tendo isto em conta, custa-me efectivamente a entender o violento ataque a Foucault e a baixeza dos argumentos utilizados na conferência de Princeton. Mas, se as coisas se passaram da forma que Pedro Meira Monteiro descreve (e não tenho razões para duvidar da sua palavra), então prova-se mais uma vez que é sempre necessário separar o escritor do homem público que o encarna, porque a pequenez do segundo não deve pôr em causa a grandeza do primeiro.
José Mário Silva - Publicado em Bibliotecário de Babel