Encontro de chefs, gourmets e leitores em São Paulo
Lançamento de O JANTAR em São Paulo
Para todos os convidados a O JANTAR - as chefs, os chefs, os gourmets, as leitoras e os leitores:
Lançamento de O JANTAR em São Paulo
Para todos os convidados a O JANTAR - as chefs, os chefs, os gourmets, as leitoras e os leitores:
Ah, se não fosse a realidade!
Ferreira Gullar
Dilma está eleita e, a partir de 1º de janeiro de 2011, será a presidente do Brasil. Nunca imaginou que isso pudesse acontecer, nunca sonhou com isso, nunca o desejou e, não obstante, terá em breve, nas mãos, o mais alto posto político do país.
Um milagre? Um passe de mágica? Se pensamos assim, o mago é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Inicialmente, apesar de sua indiscutível popularidade, dava a impressão que superestimara seu prestígio, não iria elegê-la.
De fato, como acreditar que uma mulher que nunca se candidatara a nada, destituída de carisma e até mesmo de simpatia, fosse capaz de derrotar um candidato como José Serra, dono de uma folha de serviços invejável, tanto como parlamentar quanto como ministro de Estado, prefeito e governador? Não obstante, aconteceu. Para espanto meu e de muita gente mais, 56% dos eleitores preferiram votar em alguém que eles mal conhecem do que eleger um político conhecido de todos, contra o qual não pesa qualquer suspeita ou acusação desabonadora. E por que o fizeram? Porque o presidente Lula mandou.
E não foi só o pessoal mal informado que recebe Bolsa Família, não. Empresários, banqueiros e intelectuais famosos também apoiaram sua candidatura, porque Lula mandou. Mas não estou aqui para chorar sobre o leite derramado e, sim, para tentar ver o que pode acontecer em consequência disso.
Advirto o leitor de que não parto do princípio de que vai dar tudo errado, que o governo de Dilma Rousseff está condenado ao fracasso. Nada disso. Como muita gente, diante desse fato inusitado, nunca visto na história brasileira, pergunto: e agora?
Sempre se faz tal pergunta quando um presidente da República, seja ele quem for, assume o mandato. Ocorre que, pela primeira vez, pouco se sabe da pessoa eleita e, mais que isso, eleita porque alguém mandou. A pergunta que está na cabeça de todos - dos que votaram contra e dos que votaram a favor - é: quem vai governar, ela ou Lula? É uma questão razoável, não só porque ela nunca governou nem mesmo um município, como porque Lula, sabendo disso, deve temer pelo que venha a fazer. E temerá, com razão, já que o fracasso dela, como governante, será debitado inevitavelmente na conta dele, responsável pela mágica que a pôs na Presidência da República. Estará, assim, criada uma situação também inédita na história do poder central do Brasil: como Dilma não é responsável por ter sido eleita - e ocupar o lugar que só não é do Lula porque a lei não permite uma segunda reeleição -, talvez não possa fazer no governo senão o que for aprovado por ele.
Isso lembra, até certo ponto, a situação vivida por Cristina Kirchner, eleita presidente da Argentina graças à popularidade do marido, Néstor Kirchner, recentemente falecido. Enquanto vivo, era ele quem governava, sem maiores vexames para ela, uma vez que, casados, podiam até na cama discutir e acertar as medidas governamentais que ela tomaria no dia seguinte. Já o caso de Lula e Dilma será mais complicado, pois ninguém imagina que ele deixe dona Marisa dormindo em São Bernardo para instalar-se na alcova da presidente Dilma, no palácio da Alvorada.
Nem se acredita, tampouco, que optem por um relacionamento clandestino para, em encontros secretos, disfarçados - ele de peruca loura e ela vestida de homem, bigode e barbas -, discutirem a volta da CPMF ou o que fazer com o MST. Fora daí, o jeito seria divorciar-se e casar com Dilma, mas tendo o cuidado de deixar claro que se tratou de uma paixão repentina, fulminante, e não de um romance secreto que só então veio à tona. Tal solução tem o perigo de manchar a reputação dos dois, por oferecer aos maldosos a chance de sussurrar que a candidatura de Dilma teria origens sexuais. É risco demais, não dá. A alternativa, então, talvez seja Dilma nomeá-lo chefe da Casa Civil, lugar antes ocupado por ela. Minha dúvida é se Lula, que se acredita o maior estadista brasileiro de todos os tempos, aceitaria função tão subalterna, especialmente depois dos escândalos que envolveram Erenice Guerra, a substituta de Dilma no cargo. É problema dele. Apenas constato que, se é fácil, com truques mágicos, fazer acontecer o impossível, difícil é resolver os problemas reais.
Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo/ UOL
Do breu da toca do ouriço
Invejo o ouriço-preto, que hiberna durante três meses todo ano. Que bom seria tirar licença de existir de vez em quando, discretamente desaparecer por uns dias sem por isso ganhar fama de melancólico.
Porque nem sempre estamos prontos. O telefone está tocando, alguém vem para uma visita, e simplesmente não estamos prontos. Então imagino se, diante da insistência, atrás da porta ou do outro lado da linha, como que saindo do breu da toca do ouriço, uma voz se desculpasse de não ser aquela voz conhecida, de ser, em vez disso, um sopro, um marulho de folhas no vento, qualquer coisa que se ouve a distância, no intervalo entre dois tempos, e logo desencadeando o que poderia ser um imprevisto, antes não fosse a condição da alegria, penso que maravilha se essa voz, nada mais que um sopro, um sussurro atrás da porta ou do outro lado da linha, encantasse aquele que estivesse ouvindo e silenciasse tudo em volta. Porque às vezes o pouco que nos basta é o que mais falta, um brevíssimo intervalo, uns dias de restinga, silêncio para honrar a velha máxima de dar tempo ao tempo e só depois voltar à tona, responder como é devido, com aquela voz cristalina de quem não se desculpa mais porque já recobrou o ânimo, a prontidão, a presença de espírito e, sobretudo, aquela ponta de impaciência que convenientemente dá corda à rotina.
Um intervalo assim evitaria alguns deslizes, uma palavra fora de contexto, um gesto irrefletido, o descomedimento no calor da hora, pequenos rompantes assassinos. Talvez evitasse mesmo erros tremendos, os erros sem conserto, o descuido de um momento que marca uma vida, a famosa ladainha do que poderia ter sido e que não foi, esta sim, nossa grande melancolia.
Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve
Monumento símbolo
BORBA GATO - Monumento em concreto armado, policromado, revestido de pastilhas vitrificadas coloridas.
Segundo os artistas Wesley Duke Lee e Sérgio GAG, este monumento público, pré-pós moderno, situado no bairro de Santo Amaro, em São Paulo é o verdadeiro e mais legítimo símbolo da cidade de São Paulo. (Fotografia de Sérgio GAG)
Agradecimento pela indicação feita por José Simões
DARDOS
"O Prémio Dardos é o reconhecimento dos ideais que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc.... que, em suma, demonstrem a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras e as suas palavras. Estes selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web."
E faço a minha indicação de dez nomes/blogs:
José Mário Silva - Bibliotecário de Babel
Luiz Carlos Vaz - Jornalista Vaz
Henrique Chagas - Verdes Trigos
Eric Tenin - Paris Daily Photo
Laure Limongi - Rougelarsenrose
João Ventura - O leitor sem qualidades
A história contempla o escritor
Luiz Carlos Vaz - O autógrafo - Fotografia (Porto Alegre RS Brasil), 2010
LITERATURA
Na sua 16ª edição, o Prêmio Açorianos de Literatura Adulta e Infantil premiará 10 livros e 02 destaques literários. Esse ano, os três finalistas de cada categoria são:
CAPA:
AUTOBIOGRAFIA DE UM EX-NEGRO
Autor: James Weldon Johnson. Tradutor: Roberto Frizero – Capa: Gustavo Demarchi e Gabriel Demarchi. Editora 8inverso
SILÊNCIO EM SIENA
Autor: Flávio Wild - Capa de Flávio Wild. Editora 7Letras
VOO RUMO ÀS ASAS: A ARTE E O VÍNCULO COMO REMÉDIO
Autor: Valmor Bordin - Capa de Kelly Gerevíni. Editora Nova Prova
PROJETO GRÁFICO:
O NERVO DA NOITE
Autor: João Gilberto Noll - Projeto gráfico: Marisa Iniesta Martin. Editora Scipione
MINICONTOS E MUITOS MENOS
Autores: Laís Chaffe e Marcelo Spalding - Projeto gráfico: Auracebio Pereira. Editora Casa Verde
THEO WIEDERSPAHN: ARQUITETO
Autor: Günter Weimer - Projeto Gráfico: Vinicius Xavier. Editora EDIPUCRS
INFANTIL:
ERVILINA E O PRINCÊS OU DEU A LOUCA EM ERVILINA
Autora: Sylvia Orthof. Editora Projeto
PEDRO MALAZARTE E A ARARA GIGANTE
Autor: Jorge Furtado. Editora Artes e Ofícios
ROSITA MARIA ANTONIA MARTINS DA SILVA
Autora: Ana Terra. Editora Larrousse Júnior
INFANTO-JUVENIL:
MARIA DEGOLADA, SANTA ASSOMBRADA
Autor: Caio Riter. Editora Edelbra
O NERVO DA NOITE
Autor: João Gilberto Noll. Editora Scipione
TRÊS PAIS
Autor: Paulo Bentancur. Editora Atual
CONTO:
ESCURO, CLARO: CONTOS REUNIDOS
Autor: Luís Augusto Fischer. L&PM Editores
HISTÓRIAS DO MUNDO VIRTUAL
Autora: Tania Correa Alegria. Editora Movimento
OS LIMITES DO IMPOSSÍVEL - CONTOS GARDELIANOS
Autor: Aldyr Garcia Schlee. Editora ARdoTEmpo
CRÔNICA:
A VOZ QUE SE DANE
Autor: José Pedro Goulart. L&PM Editores
FLOR DE GUERNICA
Autor: Pablo Morenno. WS Editor
MULHER PERDIGUEIRA: CRÔNICAS
Autor: Fabrício Carpinejar. Editora Bertrand Brasil
POESIA:
FIM DAS COISAS VELHAS
Autor: Marco Menezes. Editora Modelo de Nuvem
PEJUÇARA
Autor: Escobar Nogueira. Editora 7Letras
ZERO UM
Autor: Guto Leite. Editora 7Letras
NARRATIVA LONGA:
ANJO DAS ONDAS
Autor: João Gilberto Noll. Editora Scipione
CRIME NA FEIRA DO LIVRO
Autor: Tailor Diniz. Editora Dublinense
O GATO DIZ ADEUS
Autor: Michel Laub. Editora Companhia das Letras
ENSAIO DE LITERATURA E HUMANIDADES:
GUILHERMINO CESAR: MEMÓRIA E HORIZONTE
Autora: Maria do Carmo Campos (org.). Editora da UFRGS
INTELIGÊNCIA COM DOR - NELSON RODRIGUES ENSAÍSTA
Autor: Luís Augusto Fischer. Arquipélago Editorial
TRÍPTICO PARA IBERÊ
Autores: Daniela Vicentini, Laura Castilhos e Paulo Ribeiro. Edição da Fundação Iberê Camargo e Cosac Naify
ESPECIAL:
CIDADES GAÚCHAS: PAISAGENS URBANAS
Autor: Eurico Salis. Edição do Autor
DOSTOIÉVSKI: CORRESPONDÊNCIAS 1838-1880
Autor: Fiodor Dostoievski. Tradutor: Robertson Frizero. Editora 8Inverso
TENTATIVA DE INDEPENDÊNCIA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
Autor: Luigi Nascimbene. Organizador: Mário Rozano. Tradução: Elvo Clemente. Editora CiaE
A Noite de premiação será no dia 13 de dezembro, às 20h, no Teatro Renascença. Nesse dia, além de conhecer os vencedores de cada categoria, serão anunciados os destaques do ano (concorrem editoras e/ou livrarias; projetos de incentivo, promoção e divulgação da literatura; mídia digital; e mídia impressa, rádio e TV); o Livro do Ano, que receberá um prêmio no valor de R$ 10 mil; e a Coletânea inédita vencedora do Prêmio Açorianos de Criação Literária/Conto que receberá R$ 10 mil e a publicação da obra.
Informações: Coordenação do Livro e Literatura
(51) 32898072 / 8071
e-mail: cll@smc.prefpoa.com.br
site: coordenacaodolivro.blogspot.com
Convite:
A escritora Laure Limongi viaja ao Brasil e participa da 56ª Feira do Livro de Porto Alegre a convite da Câmara Sul-riograndense do Livro, com o apoio integral e cobertura de viagens e hospedagens por parte da Embaixada da França no Brasil.
Sobre martírios e milagres
Mariana Ianelli
Consta que, até o Natal, o papa Bento XVI anunciará a beatificação de Irmã Dulce, o Anjo Bom da Bahia. Com isso, fica reconhecido pela Igreja Católica o primeiro milagre atribuído a Irmã Dulce. O próximo passo será a abertura de um novo processo, agora, para canonizá-la. O caminho da beatificação à santidade dependerá da comprovação de mais um milagre. O processo deve tramitar no Vaticano por algum tempo até ser aprovado. Enquanto isso, Irmã Dulce já pode ser declarada oficialmente venerável e beata, uma religiosa de virtudes heroicas.
Por coincidência, nesses últimos meses, li três peças de teatro sobre religiosas heroicas. A primeira delas, Diálogos das carmelitas, de Georges Bernanos. A história se passa em plena Revolução Francesa, mostra a invasão de um convento por uma multidão em marcha ao som da Carmagnole, e termina em uma praça abarrotada e emudecida, que assiste às carmelitas entoando o Veni Creator enquanto se dirigem, uma a uma, para o cadafalso.
O segundo texto, do argentino Gabriel Cacho, já resume no título o ápice da tragédia: Edith Stein na Câmara de Gás. Basta dizer que, na cena final, depois de fotografada, Edith Stein está se despindo para o banho enquanto ao fundo uma orquestra toca A Viúva Alegre.
A terceira peça, de Hilda Hilst, chama-se A Empresa. O cenário, geometricamente definido por um triângulo equilátero dentro de um círculo, é a alegoria de um teorema. São poucos mas essenciais os elementos que caracterizam o ambiente de um internato religioso e de um laboratório. O martírio da religiosa, nesse texto, começa com a morte de uma ideia e termina em uma aniquilação macabra, asséptica.
Voltando, então, ao Anjo Bom da Bahia e aos trâmites burocráticos, apenas para um adendo à notícia. Três anos atrás foi beatificada pela Igreja a Irmã Lindalva Justo de Oliveira, que morreu em Salvador um ano depois de Irmã Dulce. Ambas dedicaram a vida à caridade e prestaram assistência aos doentes e aos idosos. Ambos os processos de beatificação começaram a tramitar no Vaticano em 2000. Irmã Lindalva, no entanto, não precisou de um milagre para ser proclamada beata. Morreu no abrigo Dom Pedro II, onde trabalhava, assassinada com 44 facadas.
Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve
Os últimos meses de Rivera em Jaguarão
Para apreender a vida do personagem principal de seu novo livro, o escritor Aldyr Garcia Schlee contou com tempo de praticamente uma vida inteira.
Don Frutos, romance que Schlee discute com Cláudio Moreno às 17h30min de hoje no Santander Cultural e que autografa às 20h30min na Praça de Autógrafos, é mais do que uma reinvenção dos últimos meses de vida do caudilho uruguaio Fructuoso Rivera. É o ponto final de um interesse de 45 anos.
– Quando tive a ideia de fazer esse livro pela primeira vez, meu filho que hoje já fez 50 anos tinha apenas cinco – rememora o escritor.
A gênese do romance remonta à época em que Schlee, então um jovem professor de Relações Internacionais na Universidade Federal de Pelotas, começou a fazer uma pesquisa sobre as intervenções do imperialismo ibérico nas guerras de fronteira sul-americanas. No decorrer desse levantamento foi que Schlee topou com documentos comprovando uma história que já ouvira contada de boca a boca em sua cidade natal, Jaguarão: fora lá que o caudilho e político uruguaio José Fructuoso Rivera (1784 – 1854), primeiro presidente institucional do Uruguai, havia morrido. (NE: Na realidade, Rivera morreu no Uruguai, nas proximidades de Melo, a caminho de Montevidéu, depois de permancer praticamente um ano em Jaguarão, por razões de saúde e de estratégia política, conforme está narrado no livro Don Frutos).
Foi apenas no início dos anos 2000, com a ajuda de um pesquisador uruguaio, Amilcar Brum, que Schlee conseguiu se dedicar à pesquisa necessária para criar o romance – a obra está pronta desde 2007, mas suas mais de 500 páginas assustaram mais de uma editora à qual o livro foi submetido.
– Uma das editoras me enviou um parecer dizendo que o livro era muito bom, mas que o custo-benefício não aconselhava a publicação – diz Schlee.
Carlos André Moreira - Publicado em Zero Hora
IC-19
Há muitas coisas no mundo que não compreendo. Mas o que me atormenta mesmo, palavra de honra, é não entender por que carga de água existem engarrafamentos. É um mistério inexplicável, um enigma. As filas de automóveis formam-se, crescem, esticam-se por quilómetros e quilómetros, mas quando uma pessoa chega ao sítio onde era suposto haver um estrangulamento, um desastre, qualquer coisa de grave, verifica com espanto que não há nada de anormal e que o trânsito até flui com facilidade.
Confesso que este fenómeno não só me deixa perplexo como profundamente irritado. Já que um homem esperou não sei quanto tempo fechado num carro, com os nervos em franja e a paciência a ferver, ao menos que fosse por uma razão forte, um acidente com vários automóveis amachucados, com pessoas feridas na berma e muitas ambulâncias e bombeiros e macas, uma coisa em grande, digna de ser mostrada no telejornal das oito. Mas quase nunca há razão forte nenhuma. Na melhor das hipóteses, estão dois homens de gravata a discutir por causa de um farolim partido. Ou então é uma senhora que deixou o carro ir abaixo e não consegue pô-lo a funcionar por causa dos nervos e das buzinadelas. São sempre coisas destas, coisas menores. Nunca nada que justifique tantas horas com o pé na embraiagem, tantas horas num pára-arranca que nos mói o juízo.
No outro dia, lá no emprego, o Antunes tentou explicar-me o mistério. O Antunes é um tipo assim para o esquisito. Tem perto de dois metros de altura, quase outro tanto de lado e raramente toma banho. Há quem lhe chame o urso, mais pelo cheiro do que pela envergadura. Além disso, é gago, passa a vida nos corredores a meter conversa e tem a mania de que é muito inteligente. A meio da manhã, quando saí para beber café, estava ele a falar com o Fernandes sobre o El Niño e a dinâmica imprevisível dos furacões. Quando voltei, a vítima era a Micaela, encostada à parede a ouvir histórias sobre um tal Mandelbrot, matemático ou coisa parecida, um tipo de certeza ainda mais esquisito do que o Antunes. Ele a dar-lhe com o Mandelbrot e a Micaela, coitada, a perguntar: "Mandelquê?"
"Man-Man-Mandelbrot", exclamou o Antunes. Com a minha aproximação, a Micaela pôs-se a milhas, enquanto o urso me pregava uma violenta palmada nas costas e dizia "nem de pro-pro-propósito". Era mesmo comigo que queria falar, garantiu-me, porque já descobrira a solução para a minha dúvida existencial. Referia-se, é claro, à história dos engarrafamentos, que eu mencionara uns dias antes, nem sei bem porquê. Segundo ele, o tal Mandelbrot tinha a ver com uma coisa chamada fractais e com uma outra coisa chamada teoria do caos.
"Num sistema, pequenas alterações nas condições iniciais podem provocar grandes alterações nas condições finais", disse o Antunes, orgulhoso da sua sabedoria. E eu a esbugalhar os olhos, a dizer "troca lá isso por miúdos". E ele a especificar que "basta um carro abrandar o ritmo, uma coisa de nada, para que esse abrandamento se propague e amplie na sucessão de carros que vêm atrás, provocando um abrandamento generalizado que vai ao ponto de criar uma paragem do fluxo automóvel; ou seja, o engarrafamento".
O Antunes é um sabichão mas não me consola. Porque a verdade é que estou parado no IC-19, com milhares de automóveis à minha frente e meia-hora para chegar ao emprego. Saber se a culpa foi de um acidente ou de um abrandamento generalizado é igual ao litro. O que interessa são os factos e os factos dizem-me que estou preso dentro do meu próprio carro, com o motor em ponto morto e a pequena árvore desodorizante a baloiçar, a baloiçar, a baloiçar, pendurada no espelho retrovisor. Estou preso eu e estão presos milhares de outros como eu, que também picam o ponto às nove, que também ganham uma miséria, que também vivem em apartamentos no Cacém e em Queluz, apartamentos T1 com manchas de humidade nas paredes e vista para outros prédios, outros como eu que também pegam no carro todos os dias a pensar "isto não é vida", outros como eu que também desconheciam a origem misteriosa dos engarrafamentos e talvez ainda desconheçam, porque apesar de tudo gajos como o Antunes contam-se pelos dedos.Olho para o relógio digital do meu Opel Corsa e percebo que vou chegar atrasado, mais uma vez. O relógio pisca 08:40, 08:40, 08:40, como antes o despertador piscou 07:30, 07:30, 07:30.
É uma violência, acordar com o som estridente do buzzer e aqueles algarismos vermelhos a dizerem-me que não posso fechar outra vez os olhos, que tenho de saltar da cama, atravessar a cozinha descalço, acender o esquentador, enfrentar um rosto em ruínas no espelho da casa de banho, espalhar o creme da barba, fazer um slalom gigante com a lâmina de barbear, ter cuidado para não deixar pêlos no lavatório (caso contrário a Irene aproveitará logo para vir com os seus remoques), entrar para o duche rápido, sair do duche, vestir roupa lavada, acordar a Irene, engolir à pressa um prato de corn flakes, pentear o cabelo com um nadinha de gel, ajeitar o nó da gravata no espelho do hall de entrada, descer no elevador com a vizinha do sexto direito que trabalha num escritório das Amoreiras, beber um café na pastelaria da esquina e chegar ao carro convicto de que hoje vai ser diferente, de que hoje não haverá trânsito nenhum, embora saiba que no IC-19 já está a ser montado o inferno do costume.
O inferno, sim senhor, o inferno. Sem labaredas e sem demónios, mas inferno. Aliás, o castigo que nos reserva o outro mundo, a nós pecadores, deve ser isto: um engarrafamento infinito, eterno. O relógio agora pisca 08:50, 08:50, 08:50 e ainda estamos a uns quilómetros de Lisboa. O inferno, sim senhor. E por falar nisso espreito os outros condenados, os meus companheiros de infortúnio. No automóvel em frente, um homem de meia-idade, careca, estendeu o jornal desportivo sobre o volante e lê as últimas sobre o seu clube. No carro ao lado, um casal de trombas. Estiveram de certeza a discutir quem teve mais culpa no atraso, agora estão calados, ele a sintonizar o rádio e a esfregar os olhos, ela a fazer crochet, talvez uma camisolinha para o neto que há-de nascer daqui a uns meses. Atrás de mim, um yuppie de óculos espelhados a gritar, furioso, para um telemóvel.Passam dez minutos. Na fila ao lado, o casal de trombas avança. O carro que vem logo atrás apita. É o Antunes. Apita, gesticula, baixa o vidro. Eu também baixo o vidro e olho para o relógio: 09:04, 09:04, 09:05.
Ele grita: "Nunca mais lá chega-ga-gamos". Pois não, digo eu. "É uma cha-cha-chatice", torna ele. Pois é, respondo. E lá vamos nós, lado a lado, sorrindo um para o outro de vez em quando, encolhendo os ombros e abanando a cabeça, resignados aos abrandamentos generalizados que nos paralisam a vida, enquanto o tal Mandelbrot deve estar neste momento a fazer contas num quadro de ardósia, algures num instituto que fica, aposto, a cinco minutos a pé de sua casa.
© José Mário Silva - Efeito Borboleta e outras histórias - Edições ARdoTEmpo, 2010
Trecho de Don Frutos, de Aldyr Garcia Schlee (O casamento de Anita)
QUE FAZER, diante de um pedaço de papel como este?
– Comandante Rivera, responda por Don Juan Antonio Lavalleja, do qual tem plenos poderes: deseja casar com esta mulher?
– Sim.
– Doña Ana Monterroso: deseja casar com este homem?
– Sim.
– Sendo estas as expressões de suas vontades de se terem por esposos por mútuo consentimento, e não havendo algo que possa impedir este matrimônio, em nome de Deus e da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana, eu vos declaro marido e mulher.
Rasgar o papel? Olvidar? Recordar?
Pois o padre Oubiña ou era meio atolondrado ou estava confundido ou tinha bebido por demais... O cura, depois de ouvir o que lhe havia dito em nome de Lavalleja – que sim, que queria casar com Ana; depois, ainda perguntou a ela, simplesmente: deseja casar com este homem ? E ela: sim. E quem era este homem, o homem ali, ao lado dela? Era o homem com quem ela havia dito que desejava casar; era o homem que, afinal, pelo menos pela vontade manifesta dela mesma, o padre Oubiña declarava casado com Ana de Monterroso!
A gente toda está sempre tão habituada às arengas e prédicas, às palavras de sempre dos padres nas igrejas, que nem ouve nem se preocupa em saber o que ficam dizendo e repetindo eles, seja num casamento, seja num batizado ou numa missa de defuntos...
De modo que ninguém se deu conta de com quem mesmo Ana de Monterroso disse que desejava casar...Bastou olhar para Felipe Duarte e Ramón Mansilla para entender que, como testigos, não haviam maliciado nada: estavam ausentes dali, apesar de por demais compenetrados e o mais ajaezados possível. Bastou ver uma luz meio que piscando, como que um lampejo de dúvida e de perplexidade, um brilho de nada nos olhos de Anita (quando ela disse sim), para notar como ela bem havia entendido tudo – mesmo que ninguém pudesse testificar aquilo; e como ela parecia bonita, que lindaça estava!...
Ana havia dito sim; e, no ato, havia entendido perfeitamente tudo. Se chegou a ter um instante de titubeio, foi, foi porque soube bem com quem, com que homem havia dito que desejava casar.
Numa solenidade de casamento há que agir com compostura e recato: as mãos cruzadas por diante, os olhos baixos, a cara séria e os pensamentos distantes. Mas ali, ali era demais: ia casando por outro, estava casando, e ao repente terminava como que casado com Ana; e ela se dava conta disso e era preciso fazer-lhe saber que, afinal, depois do sim, quedavam os dois mesmo que casados.
Tinha, afinal, cumprido com a representação delegada por Lavalleja. Permanecia ali, diante da noiva acompanhada apenas pela irmã – a mãe delas em total estado de demência, o pai já falecido; e sem a presença dos parentes do noivo, opostos ao enlace (na capela vazia, ninguém mais que o padre, o major, o capitão e dois negros saídos sabe lá de onde). O noivo Juan Antonio andaria pelas cercanias do arroio de la Calera, no cumprimento de ordens e de seus deveres de capitão de milícia, a reaproximar os artiguistas e a combater os portugueses.A noiva estava passada quase dez anos da idade de casar, bem como a irmã, Juana. Mas era uma mulher de presença forte, de porte altivo, a fisionomia aberta e a tez louçana. Ainda assim, quem a imaginaria, um dia, mandando em Lavalleja (“dá-te corte, Juan Antonio! não te quedes atrás!”)?
Quem imaginaria o que ela ia fazer, depois, daquele petiço cambota sem garbo e sem ânimo? Animo, ela sempre teria; como valor, valentia e intrepidez suficientes para incendiá-lo; e para defendê-lo: para lutar por ele, para se expor por ele, para sacrificarse por ele.Naquele instante, mirava Anita como a buscar adivinhar o que lhe passava pela cabeça; e, ao mesmo tempo, para tomar coragem suficiente e encontrar as palavras próprias para fazê-la ver o que então havia se passado. Ela estava com um vestido muito rodado – azul-claro, parece – de mangas compridas com fofos nos ombros; e dava para ver-lhe o que jamais esqueceria: a ponta dos sapatos, de camurça branca, lisos, com uns tufos de seda por cima.
Foi preciso esperar um pouco, porque, encerrada a cerimônia, Juana abraçou-se à irmã, chorando; e, havendo se sumido os negros, Anita esteve, ainda, a receber os cumprimentos do próprio cura e dos dois oficiais. Só aí foi possível chegar até ela, quedar-se de banda para saudá-la, e dizer-lhe:
– Cumprimentos... Receba meus cumprimentos.
– Gracias, senhor comandante.
– Bueno... Mire, Anita...
– Sim?
– Sabes de uma cousa?
– Que cousa?
– Que estou mui feliz de ver-te casada.
– Ah! Gracias, muchas gracias por seu sentimento.
– E mais, se me permite...
– Mais quê?
– O que já lhe digo...
– Diga nomás...
– Usté me desafia a dizer-lhe, porque é inteligente e vivida o suficiente para sabê-lo.
– Saber quê, senhor comandante?
Disse-lhe, então, sorrindo:
– Saber que o cura se atrapalhou; e à vez de perguntar-lhe se queria casar-se com Juan Antonio, perguntou se usté queria casar-se comigo.
– Pobre padre Oubiña, estava tão nervoso...
– É que usté respondeu que sim, que queria casar comigo...
– Que cousa, comandante...
Imagem: ©Gilberto Perin - Edições ARdoTEmpo (Don Frutos, Aldyr Garcia Schlee - 2010)
Reflexões sobre um blog
Sobre o sentido, da permanência, da conveniência e da atividade de publicação de um blog.