Domingo, 12.09.10

A realidade forjada

Quando o fim lembra o começo

 

Ferreira Gullar

 

O fim do "Jornal do Brasil" - que há duas semanas deixou de circular em papel - nos leva, a nós que nele trabalhamos, a lembrar dos anos passados em sua Redação, a lembrar dos colegas e dos momentos que nos marcaram.


As lembranças são muitas e diversas, porque muitos ali batalharam, e em diferentes momentos. Há os que, como eu, atuaram no JB da avenida Rio Branco, o antigo JB, que renasceu das cinzas para se tornar um jornal moderno e vibrante; outros, pelo contrário, viveram já a fase de declínio, quando a Redação foi transferida para o prédio novo da avenida Brasil.


Transferência que, na opinião de muitos, foi uma rematada maluquice, não apenas pela grana gasta para erguer aquele prédio enorme e feio, como por fazê-lo numa área pouco valorizada da cidade, de difícil acesso e fora de mão.


De minha parte, eu, que trabalhei no prédio antigo, mal me imagino tendo de ir diariamente para aquele ponto da avenida Brasil e sair de lá altas horas da noite. Mas, quando essa transferência se deu, eu já havia sido demitido havia muitos anos.


Fui demitido em 1962, por efeito da greve de jornalistas que marcou o renascimento da consciência reivindicatória de nossa profissão, depois de 50 anos quietinha, sem nada reivindicar.


Mas essa foi a minha segunda demissão, porque houve uma primeira, em 1959, que me pegou de surpresa, já que eu era amigo do editor-chefe e chefiava, eu próprio, o copidesque do jornal, quando, entre outras novidades, introduziu-se nele a técnica do lide e sublide. Fui demitido porque não aderi à conspiração que visava afastar da direção do suplemento literário meu amigo Reynaldo Jardim.


O suplemento, que lançara a poesia concreta, o movimento neoconcreto e esbanjava espaço em branco nas páginas, não contava com a simpatia de alguns poucos, que se valeram de uma atitude impensada do Reynaldo, para acabar com aquela farra. Só que eu disse não ao convite velado e, com isso, me tornei persona non grata. Um mês depois, ao voltar de uma viagem a São Paulo, soube que estava demitido.


Isso implicava em não ter como pagar o aluguel do apartamento e as despesas da família. Reynaldo me chamou e ofereceu-me uma solução: eu passaria a escrever para o suplemento literário, sob pseudônimo, já que a demissão implicava meu afastamento total do jornal, inclusive da página de artes plásticas que mantinha no SDJB. A proposta de Reynaldo, se não me restituía o total da renda mensal, salvaria ao menos o aluguel do apartamento.


Achei melhor não usar pseudônimo e bolei uma seção que se intitulou "Tabela" que consistia em comentar os artigos publicados nos suplementos literários de outros jornais. Era interessante porque, desse modo, ofereceríamos aos nossos leitores o essencial dos demais suplementos. Assim, apresentava sínteses de artigos de Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, Willy Levin, os comentava, ora discordando, ora concordando com o que afirmavam.
Sucede que eu tinha que encher uma página inteira para justificar o meu pró-labore, mais alto que o dos demais colaboradores, e nem sempre encontrava, nos suplementos, artigos suficientemente interessantes para comentá-los. Foi então que apelei para a imaginação.


Passei a inventar artigos e articulistas que nunca existiram e comentava o conteúdo desses textos inventados. Como era eu quem os inventava, tratei de inventá-los interessantes tanto quanto possível, mais polêmicos que os artigos verdadeiros. Foi um sucesso, choviam cartas à Redação de leitores que desejavam participar das polêmicas que eu propiciava. Assim a "Tabela" tornou-se uma das seções mais lidas do SDJB.


E fui em frente. Certo dia inventei a história de um poeta negro, que escrevia em francês e estava sendo considerado um novo Rimbaud. Escrevi: "Na revista "A Revista", o crítico Forjaz Forjan comenta o livro do poeta Fulano de Tal (não me lembro o nome que pus no vate inexistente), que está sendo considerado pela crítica francesa um gênio da poesia. Nesse artigo, ele cita uma declaração do próprio poeta que diz o seguinte: "Meus poemas são, na verdade, plágios. Agora, que a crítica me consagrou, devo declarar que fiz isso para demonstrar que o que se chama poesia é mais uma sacanagem dos brancos'".

 

Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo / UOL

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publicado por ardotempo às 14:36 | Comentar | Adicionar

"Não misture as bebidas"

Retrato de Igor Symanski Rey Gil

 

 

 

Imagem junto a "Auto Retrato", pintura em óleo sobre tela de Sérgio GAG (Centro Cultural CEEE Erico Verissimo)

- Fotografia pela artista Carla Osorio

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O JANTAR

 

 

O Jantar


Naira Scavone


Um ensaio acadêmico de análise comportamental sobre o surgimento da alta gastronomia no Brasil.

Ensaio leve, delicioso, provocativo e instigante sobre os costumes, a aceitação e o desenvolvimento da alta gastronomia entre os brasileiros.

 

Fotografias de Mauro Holanda

!68 páginas 4 x 4 cores

Preço: 30,00

ISBN 78-85-62984-03-7

PRONAC nº 08 9391

Edições ARdoTEmpo

 

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A teologia do petróleo

 

Retóricas do 11 Setembro

 

João Ventura

 

 


 

Foi há nove anos que a queda das Torres Gémeas, em Nova Iorque, inaugurou de forma tragicamente espectacular o novo milénio, trazendo consigo o regresso da História depois do seu «fim» proclamado por Francis Fukuyama e de um período em que se assistiu a uma espécie de «greve dos acontecimentos» - segundo a fórmula de Baudrillard - numa Europa e América sem guerras desde 1945. O espectáculo de fogo mortal, visível em tempo real em todo o planeta, superaria todas as ficções, tornando-se na grande metáfora de um mundo com anemia moral e alimentado pela hipocrisia e pela felicidade engarrafada, mas irremediavelmente ferido a partir do 11de Setembro de 2001.


A vida nova depois do 11-S, simultaneamente maculada e redentora, tem dado origem a uma repetição dos discursos sobre o acontecimento, visando a sua «legibilidade», à luz de interesses variados e, muitas vezes, antagónicos, legitimadores da resposta ocidental à «barbárie» de um Islão desfigurado, perseguida pelo «profeta electrónico» Bin Laden, cujas aparições acontecem na única realidade do nosso tempo, a televisão. Que caminhamos agora entre os vestígios de uma catástrofe cuja onda de choque continua a repercurtir-se no mundo já o sabemos. Só não sabemos é se a catástrofe ficará por ali, sepultada junto ao ground zero nova-iorquino, agora irremediavelmente ameaçado pelo novo skiline mercantil em construção no mesmo lugar ou se continuará, como uma onda de choque imparável, a desmoronar cidades e vidas longe daquele epicentro.


Haverá, ainda, redenção possível depois de tanta ruína? Se, num estado próximo do sonambulismo, W. G. Sebald caminhasse depois do 11-S sobre os mesmos tijolos calcinados, talvez voltasse a dizer: «Demasiados edifícios ruíram, amontoou-se demasiado entulho, são intransponíveis os sedimentos e as moreias» [Os Anéis de Saturno, Teorema, p. 172].


Mas será que o 11-S, nas suas causas e efeitos, constituiu uma cesura radical na narrativa moderna? Ou não terá sido antes mais um episódio de esbanjamento trágico do potencial redentor da humanidade? Foi, seguramente, um regresso ao fundamentalismo religioso incentivado pelo «choque das civilizações» (Samuel Huntington, O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial, Gradiva, 1999) ou «choque dos preconceitos» - como corrigiu Edward Said (Orientalismo, Cotovia, 2004] -, marcado pela tendência para a «teologização do político» e para a «instrumentalização política da religião» [Alain Badiou, Circunstances, Éditions Léo Scheer, 2004] tão presente nos discursos maniqueístas dos protagonistas desta tragédia global. Seja como for, cesura ou continuidade histórica, neste tempo de ebulição catastrófica, ganham adeptos as teorias salvícas que vão hipostasiando um «nós» ocidental contra um Islão desfigurado pela violência fundamentalista, fazendo-nos, assim, roçar um abismo cujo fundo negro desconhecemos. Multiplicam-se, por isso, os discursos que visam a «legibilidade» do 11-S à luz dessas mesmas teorias que conduzem a um perigoso resvalar para territórios de liberdade condicionada no mundo ocidental, refém, sempre, da maldição moderna do petróleo.


Eis a retórica dominante na efeméride negra do 11-S, como se o acontecimento apenas pudesse ter «legibilidade» através de um discurso legitimador da resposta americana enviesada, não tanto contra o terrorismo, mas contra um «inimigo providencial» [Carl Schmidt, Théologie politique, Gallimard, 1969] , em cujas fileiras se contam já milhares de vítimas inocentes, iraquianas sobretudo, mas também soldados das forças internacionais, enquanto deixa os sequazes de Bin Laden à solta no Afeganistão e no Paquistão. Ou, num sentido oposto, nos discursos negacionistas de uma certa esquerda, anacrónica, e também ela maniqueísta, só que invertendo os polos do bem e do mal.


E qual retórica da literatura sobre o 11-S? Tem sido ela capaz de retraçar o acontecimento dando conta da consternação do «mundo ocidental» pós 11-S? No epicentro da catástrofe, vários escritores americanos publicaram romances sobre a vida depois do 11-S. «Ela falou da torre […] claustrofobicamente, o fumo, os corpos desmembrados, e compreendeu que podiam falar daquelas coisas somente entre eles» - escreve Don DeLillo em Falling Man, um romance circular a várias vozes : a de um sobrevivente do atentado, a de sua mulher e de um terrorista. E Claire Messud, em The Emperor’s Children: «aquele imenso buraco parecia una extensão da sua própria dor». E Jay McInerney, em Good Life. E Jonathan Safran Foer, em Extremely Loud & Incredibly Close/Extremamente alto & incrivelmente perto (Quetzal, 2007).


Claro que mesmo nesta literatura estamos, ainda, diante de visões hipostasiadas de um «nós» que exclui os outros, enraizadas na experiência ocidental do acontecimento, visões parciais, portanto, mas que nem por isso deixam de constituir outras formas de retraçar o acontecimento, preferindo a ficção à interpretação, a experiência individual do acontecimento à sua explicação alegórica, a sua subjectivação discursiva à sua «legibilidade» compulsiva, sem cair na tentação didáctica, mas, como cabe à literatura, expondo-nos destinos tiritantes que poderiam ser os nossos, num mundo caminhando alegremente para um «pôr-do-mundo» cada vez mais desvanecido e alheado [Peter Sloterdijk, Weltfremdheit / Alheamento do mundo (Relógio d´Água).

 

João Ventura - Publicada no blog O leitor sem qualidades

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publicado por ardotempo às 01:56 | Comentar | Adicionar
Sábado, 11.09.10

O jardim das azaléias

 

Setembro é quando rebentam o branco e o carmesim

 




Eu, que nunca antes tive um jardim de azaléias, descubro essa felicidade de casa nova como a abelha do poema de Emily Dickinson que entra na flor e se perde em bálsamo. A memória dos livros se mistura à memória das casas…

Ainda me lembro de penar com a leitura em letras miúdas de uma edição de bolso de Crime e Castigo e de ser esmagada pela cena daquele cavalo espancado até a morte. Na época, eu morava em um apartamento escuro ou foi esse livro que escureceu tudo em volta, perfeito catalisador de uma crise de adolescência. Anos depois, com o início de uma biblioteca, um mundo inteiro se abriu com o Quarteto de Alexandria, eu deitada no sol perto de uma cerca viva e Justine desaparecendo pelas ruas sombrias em torno do forte de Kom El Dick… Mais tarde, em um escritório com vista para uma torre de igreja, o sentimento de nuvem que foi atravessar as madrugadas raptada pelos anjos de Rafael Alberti… ¡Campanas! Gira más de prisa el aire./ El mundo, con ser el mundo, en la mano de una niña/ cabe… E não esqueço, não posso esquecer, um quarto de janelas fechadas e estantes completamente vazias, poucos dias antes de uma mudança, onde li sob uma lâmpada, estremecida, o desmesurado Kadosh, de Hilda Hilst…


Os espaços se interpenetram, é de repente uma vertigem que desperta em sonho físico. Agora chega setembro, numa explosão de azaléias, eu deixo minha biblioteca e vou lá fora sentir o cheiro fêmeo da terra, o mais sedutor dos livros…

 

Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

publicado por ardotempo às 22:45 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 10.09.10

Convite para O JANTAR

Lançamento de livro O JANTAR, de Naira Scavone

 

 

O Jantar

Naira Scavone

Um ensaio acadêmico de análise comportamental sobre o surgimento da alta gastronomia no Brasil.

Ensaio leve, delicioso, provocativo e instigante sobre os costumes, a aceitação e o desenvolvimento

da alta gastronomia entre os brasileiros.

Fotografias de Mauro Holanda

!68 páginas 4 x 4 cores

Preço: 30,00

ISBN 78-85-62984-03-7

PRONAC nº 08 9391

Edições ARdoTEmpo

 

ardotempo@gmail.com

 

Dia 17 de setembro de 2010

Studio Clio

Rua José do Patrocínio, 698

Cidade Baixa - Porto Alegre RS Brasil

CEP 90050-002

Fone: (51) 32 54 72 00

 

www.studioclio.com.br

 

 

 

 

publicado por ardotempo às 19:31 | Comentar | Adicionar

Tempo vencido

O tempo

 

 

 

Pierre Yves Refalo - Tempo vencido - Fotografia (Mercado de Pulgas/ Puces) (Paris França), 2010

publicado por ardotempo às 00:46 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 09.09.10

minasmaisminas

Fotografia

 

 

 

Mario Castello - minasmaisminas / Fazenda - Fotografia (Botelhos MG Brasil), 2010

publicado por ardotempo às 13:09 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 07.09.10

Segredos

Pintura de Siron Franco (detalhe) - Óleo sobre tela

 

 

 

 

 

 

Mostra Individual de SIRON FRANCO - Segredos

Pinturas e Esculturas

10 de setembro a 17 de outubro

Inauguração (sexta-feira) - 10 de setembro - 19 horas

Caixa Cultural São Paulo

Vitrine da Paulista

Conjunto Nacional - Av. Paulista nº 2083 - Térreo

São Paulo SP Brasil

Curadoria: Cláudia Ahimsa

publicado por ardotempo às 16:28 | Comentar | Adicionar

A aparência da abstração

El camino de Rothko a la oscuridad

 

 

 



El título y subtítulo dejan claros de qué trata este libro, sugieren su naturaleza y las condiciones en que hay que leerlo. Se trata de una aproximación filosófica a la dimensión estético-religiosa de la obra de Rothko (de 1939/1940 en adelante), privilegiado ejemplo de pintor expresamente religioso y filosófico. No son epígrafes rebuscados, como no lo es el libro, son objetivos, como el libro, que trata de muchas más cosas pero, efectivamente, del sacrificio -tanto del ritual de los mitos y religiones como del personal del yo- como comienzo de toda experiencia creadora; y de la emoción estética que, en ese supuesto, esta experiencia conlleva en el artista y que se transmite también al contemplador como emoción religiosa. "La gente que llora ante mis cuadros tiene la misma experiencia religiosa que yo tuve cuando los pinté".

 


¿Experiencia religiosa la estética? Expresión de "algún impulso religioso oculto y profundo", dice Rothko, para quien, de todos modos, el arte no representa nada ni proporciona idea alguna de cómo entender lo que se llama misterio o invisible. Es "expresión de una expresión", simplemente, una expresión casi imposible porque "la representación de la que proviene es inasible". Sólo expresa emociones básicas de la existencia en las que no aparece ni ha de aparecer el yo. Una especie de "teogonía de la conciencia elemental", a la que Rothko llamaba también "abstracción emocional". En ese sentido este libro insiste en destacar básicamente la vía emocional como centro de la experiencia artística.


La conjunción de lo visible e invisible, de luz y oscuridad, Perséfone misma diríamos, condujo a Rothko a una abstracción que fue eliminando cualquier mediación figurativa para ir aproximándose a una vía de representación - puro color y forma de color - de lo que queda más allá de toda apariencia. Lo que queda más allá de toda apariencia es la apariencia de la abstracción misma. No se puede decir de otro modo. Se trata de algo muy cercano a ciertas concepciones de la teología negativa. Abstracción de la abstracción misma, donde la imagen esencial (inasible) de esa originaria abstracción misma Rothko la denomina Dios. No es extraño entonces que continúe: "En caso de que llegáramos a conocer la apariencia de la abstracción misma estaríamos constantemente reproduciendo sólo su imagen".


Parece que Rothko lo consiguiera de algún modo y que sus sectionals fueran, por tanto, reproducciones insistentes del mismo rostro oscuro de Dios. En cualquier caso la repetición es el único camino posible en ese proceder contemplativo: rodadas del círculo de asimilación progresiva de la experiencia de lo tremendum et fascinans.


El libro va mostrando así cómo la experiencia estética y la religiosa van de la mano: ambas nacen de una misma actitud nihilista ante el mundo, que es la actitud mística. Ya desde su primer gran libro, Zen, mística y abstracción (Trotta, 2002), cuyo último capítulo continúa éste, el profesor Vega Esquerra intenta comprender el nihilismo a través de la meditación zen, la mística cristiana y el arte abstracto moderno. En este contexto hay que entender este ensayo, que, en busca de objetividad en lo oscuro, va haciendo una lectura paralela de la obra pictórica de Rothko y de su obra escrita, recientemente publicada: Philosophies of Art (2004) y Writings on Art (2006). Así, el camino de Rothko a la oscuridad, desde 1939/1940 hasta su oscurecimiento definitivo en 1970, se convierte en manos del profesor Vega en una experiencia lúcida. Para entender menos emocionalmente la abstracción emocional de Rothko, digamos, o para entender objetivamente las emociones que despierta.


Isidoro Reguera - Publicado em El País / Babelia

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publicado por ardotempo às 14:42 | Comentar | Adicionar

Misturadas

Expressões Misturadas

 

 

 

Carla Osorio, Sergio GAG e Geri Garcia.

 

Três artistas de trabalhos bastante peculiares e individualizados, três expressões distintas de seus olhares singulares sobre o mundo estético com suas respectivas interpretações.  O que fazem juntos nessa tríplice mostra de individuais a um mesmo período de tempo? Eles nos trazem um conjunto consistente de expressões que merecem e devem ser observados com atenção.

 

Três artistas de vertentes expressionistas e figurativas, de épocas diversas e contemporâneas. É importante salientar a convergência e o diálogo que se estabelece a partir desta comunhão expressionista. Temos aqui em nosso estado uma tradição de valorização dessa estética e desse olhar expressionista e figurativo, basta olhar atentamente para a obra integral de Iberê Camargo e Ruth Schneider, ou para os trabalhos que fizeram Vasco Prado e Xico Stockinger. Ali estão, em todos eles e em muitos outros, claramente identificados os valores que organizam e compreendem este universo bem definido da arte.

 

 

 

E a mistura das propostas de pintura? A arte espontânea e densa de Carla Osorio enseja ligações e referências à pintura de Sérgio GAG? O que autoriza este cão no meio da sala, ao correr das calçadas do confuso e arbitrário meio urbano?  É justamente dessa mistura e desse pouco dissimulado caos que se constrói a linguagem. A arte de Carla Osorio, bem realizada na fatura aprendida com sua mestre pintora Clara Pechansky e, portanto não estamos falando aqui de uma autodidata e sim de uma fina pintora que conhece as técnicas e os materiais desde o convívio sistemático com quem sabe fazer e ensinar; aponta-nos a direção da vertigem do indivíduo aos seus próprios abismos, às intensidades da solidão, às asperezas de suas ansiedades e angústias insolúveis confrontadas com o mundo externo, natural e injusto, desigual e catastrófico, exatamente como se conduzem as construções e os interesses humanos.

 

Um olhar para dentro e um grito, espectral e infinito, tão paradoxal e incomôdo que se tranforma em cor. Os azuis densos e profundos da noite final, os vermelhos vívidos como a lava da erupção incontrolável de um vulcão de emoções contrafeitas, a explosão de sangue dos seres desesperados na fronteira da vida e da morte. 

 

A cada dia, dia após dia. Nada está mais distanciado da obra de Carla Osorio do que a finalidade da decoração inofensiva dos ambientes. A sua densidade é refratária ao frívolo. Ela nos estimula a pensar como se lêssemos um livro, nessas suas histórias da cor valente.

 

Essa dinâmica expressionista dialoga com os gestos precisos e cirúrgicos de Sérgio GAG. Afirmo o cirúrgico no pincel do pintor paulista porque ele o sintetiza em golpes de urgência e já será o suficiente. Não será preciso voltar à tela para retocar ou para corrigir nada. Basta fechar os pontos e aguardar a cicatrização.  Sérgio pinta um cachorro que anda por uma cidade. Essa cidade pode ser São Paulo, Porto Alegre, Rio, Delhi ou o Cairo. Isso não importa. O que importa aqui é o cão e a identidade do cão. Um cão viralata de pêlo curto e eriçado, de muitas cores, pardo, preto, branco, sempre o mesmo cão. Um dia alguém olhando as suas telas na parede de seu bar-bistrô ateliê na Rua Santa Madalena, no bairro do Paraíso em São Paulo, perguntou-lhe se gostava muito de cachorros e se ele tinha algum cão em sua casa. O artista sorriu com simpatia e disse que nunca fora dono de nenhum cão. Apontou uma tela pintada a óleo em que aparece um cachorro com óculos escuros, fumando, sentado num balcão de bar, em frente a um copo e uma garrafa de cerveja e respondeu: “Auto-retrato”.

 

 

 

 

O cachorro curioso e desvalido, que dorme na rua, que observa os prédios, que conversa, boquirroto e enfático, com os outros cães, que admira sua própria imagem no reflexo das poças d’água, esse cão, todos nós conhecemos bastante bem. Esse é o animal universal, o cão cinzento de Arthur Schopenhauer e de Jorge Luis Borges, o cão de Sérgio GAG.

 

Esse cachorro e esses artefatos boêmios de viver pintados por Sérgio GAG estabelecem os fios invisíveis com as figuras trágicas, de vida intensa de Carla Osorio. É necessário passear entre as telas, criar e estabelecer os vínculos possíveis, pois essa é proposta da mostra, essa ação elucidativa e reflexiva de quem as observa, de quem delas tira o melhor proveito e extrai as próprias conclusões. Expressões Misturadas é uma mostra de quem vê, porque a vê pela primeira vez como nem mesmo os próprios artistas a tinham previsto anteriormente, portanto é uma exposição de primeira leitura, de linguagem própria e autônoma.

 

Certa feita estando em Veneza, durante a Bienal, recebi um catálogo e a informação de que na Fondation Maeght, em Saint-Paul de Vence, no sul da França, estava acontecendo uma exposição de Lucian Freud e Francis Bacon. Fui até lá para ver a mostra e no percurso do caminho, imaginei que veria uma clássica mostra temporária, de um lado numa sala expositiva as obras de um dos grandes artistas e noutro salão, o conjunto do outro pintor consagrado. Não foi isso o que deparei: a mostra, audaciosa e surpreendente, misturava impunemente as obras dos dois artistas e criava múltiplas interpretações, estabelecia diálogos visuais, confrontos e desafios. Foi, sem nenhuma dúvida, um experiência instigante, inédita e provocadora. Uma corajosa proposta curatorial que estabelecia um curioso projeto de interpretação triangular entre os dois artistas e o público.

 

 

 

 

Carla Osorio e Sergio GAG, evidentemente são outros artistas que não aqueles consagrados pintores ingleses, monumentos da arte universal, porém são artistas originais e com linguagem própria, locais e brasileiros, amadurecidos em suas reflexões pictóricas, que têm algo essencial a nos dizer e que estabelecem esse rico diálogo visual, fonte potencial e generosa para nossas próprias reflexões.

publicado por ardotempo às 01:28 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 06.09.10

Um mundo diferente

Especiarias

 

 

 

Pierre Yves Refalo - La Cure Gourmande - Fotografia (Aix-en-Provence Provence França), 2010

publicado por ardotempo às 23:48 | Comentar | Adicionar

Memória secreta

El Padul

 

 

 

 

 

Geri Garcia é um grande artista, desenhista e pintor.

 

Com formação acadêmica na École de Beaux-Arts, de Paris e na Académie Julien, França, entre 1951 e 1953. Em 1953 seguiu para a Espanha, para habitar pelo período de três anos, o povoado de origem de sua família, El Padul, nos arredores de Granada, nos contrafortes da Sierra Nevada, abaixo da montanha El Manal.

 

Ali permaneceu desenhando e pintando as pessoas, os animais, a paisagem. Escutou atentamente a memória oral de seus parentes e dos habitantes do local acerca do terror franquista instalado na região, que dizimou grande número de republicanos.

 

Das viúvas, das crianças do povoado e dos poucos sobreviventes homens, ouviu os relatos das dificuldades, das esperanças e da miséria a que todos foram submetidos pela opressão e por uma guerra impiedosa de motivações políticas.

 

Guardou consigo na forma da arte, os relatos sombrios dos fuzilamentos nas madrugadas andaluzas, que todos tiveram que testemunhar ao serem obrigados a recolher os corpos nos dias seguintes, situação emblemática no legado da memória de um habitante da região (de Fuentevaqueros), o poeta Federico Garcia Lorca, igualmente vítima dessa inesquecível tragédia.

 

Desses relatos pungentes e graves, dos murmúrios de vozes ocultas e da delicadeza poética dessa memória preservada, extraiu um conjunto de desenhos e pinturas que jamais foi visto anteriormente. A mostra inédita de 1953, em aguadas, realizadas a pena caligráfica, em pincel a tinta china e a lápis, um tesouro que podemos apreciar hoje, com emoção.

 

Desenhos que permaneceram secretos e silenciosos por quase 60 anos e que são apresentados agora no conjunto desta mostra de pinturas e desenhos Expressões Misturadas. Geri produziu esses desenhos e pinturas durante aquele período de três anos, guardou-os até os dias de hoje e somente agora concordou em mostrá-los a um público apreciador de arte.

 

São memórias sutis, sussurradas como a névoa alaranjada do deserto que recobre e marca, vez por outra, o branco eterno dos picos da serra de El Padul; trabalhos delicados de viés expressionista, aqui e ali com um toque algo cubista, descompromissados com escolas ou modismos, um documento precioso deste recolhimento recatado de palavras que se tornaram perenes e emuladoras do sagrado, no traço do artista.

 

Alfredo Aquino - Artista plástico e curador da mostra Expressões Misturadas

 

 

 

 

 

 

 

Desenho de Geri Garcia - Tio Antonio colhendo batatas - Desenho a tinta china e aguadas, a pincel e pena caligráfica - El Padul, 1953

publicado por ardotempo às 15:24 | Comentar | Adicionar

Em estado de repouso

Meu sábado é o silêncio de um retrato


 

 


 


Sempre achei que toda crônica tem alguma coisa de sábado, algum prazer de sombra no meio de uma semana ensolarada. Quando penso no meu sábado, todos os dias, vejo na minha frente aquele quadro. Há tanto tempo o vejo que a primeira vez eu devia ter a mesma idade da menina do retrato.

Já vi muitos retratos, nenhum igual a esse. É uma menina de perfil, o cabelo cheio preso num laço, o rosto curvado para baixo. Tem uma sensualidade triste esse rosto, uma espécie de ar de esfinge ou de anjo em estado de repouso. A pálpebra se fecha esfumaçada sobre o olho, e isso me impressiona, essa fina membrana cobrindo um olho que mira a eternidade. A boca, feita de um pequeno rasgo, em tom de terra de Siena queimada, tem a mesma cor do laço. Não sorri. É uma criança que medita. Há uma pálida claridade no fundo do quadro, uma luz de três horas da tarde, talvez filtrada por uma cortina. Também isso me impressiona, que nada distraia essa criança, que seu rosto se esboce fora do tempo numa expressão instintivamente elevada. Ela tem seis anos de idade. É minha mãe.


Hoje não moro mais naquela casa, não posso ver o quadro na sala, mas o vejo em mim. Em algum momento do dia me vem essa infância intacta, não importa o quanto a vida tenha mudado, continua comigo esse olho de esfinge no silêncio de uma hora que não passa. Talvez minha mãe nem saiba que, nesse rosto que eu amo, vejo seu primeiro e último rosto, o de uma menina de avental azul sentada em uma cadeira, dentro de um ateliê, posando para um retrato.

 

Mariana Ianelli

Retrato de Katia - Pintura de Arcangelo Ianelli - Óleo sobre tela

publicado por ardotempo às 13:34 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 02.09.10

HOJE!

Exposição de Pinturas e Desenhos - 19 horas

 

CARLA OSORIO

GERI GARCIA

SÉRGIO GAG

 

Centro Cultural CEEE Erico Verissimo

Rua dos Andradas, 1223

Centro Histórico

Porto Alegre RS

Brasil

 

publicado por ardotempo às 11:32 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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