Sábado, 17.07.10

Carne vermelha, muita carne: esses animais não têm alma?

Cultura da carne

 

Leonardo Brant

 

Não pertenço a nenhuma tribo ou religião. Comecei a eliminar a carne do meu cardápio por questões de bem-estar pessoal. Simplesmente me sentia melhor sem carne. Mais leve, com maior vitalidade, sem o peso da digestão.

 

Isso não faz de mim um ativista, mas não me impede de refletir sobre os efeitos pessoais e sociais de uma vida sem (ou com menos) carne.

 

Apesar de ter passado um período mais radical, vivendo sem álcool, café, glúten e lácteos, a dieta mais adequada para mim é a do equilíbrio e do bom senso. Quando exagero, faço jejum, volto a essa dieta higienista e retomo o bom funcionamento do organismo. Assim como a cultura do automóvel, a cultura da carne é algo central em nosso sistema socioeconômico, símbolo de um processo civilizatório baseado na propriedade e na crença da superioridade humana sobre todas as outras formas de vida. E da nossa supremacia cultural sobre nós mesmos, justificando guerras, violências, descasos, abandonos.

 

Isso faz com a população de gado no Brasil, por exemplo, seja maior que a de humanos, e sirva única e exclusivamente para provê-lo de couro, derivados de leite, carne, além de outros alimentos e produtos, das vísceras ao mocotó. O mesmo se aplica aos frangos, patos, porcos, carneiros e ovelhas, que devem sua existência tão somente como fonte de alimento ao ser humano.

 

Cada vez mais o processamento da carne se dá modo industrializado, o que resulta em desequilíbrio ecológico, a ponto de se configurar como uma das principais causas do buraco na camada de ozônio e do aquecimento global. Mais água, mais pasto, mais produção de ração, mais desmatamento, mais gases metano.

 

Assim como a indústria do automóvel, a da carne tem uma relação de causa e efeito com o invetitável abismo entre pobres e ricos no mundo: se todos comerem carne e utilizarem automóvel diariamente, o planeta explode.

 

Recentemente o Brasil se tornou o maior produtor mundial de carne. Isso diz muito sobre o modelo de desenvolvimento que estamos construindo. E a nossa atitude diante disso diz mais ainda sobre o lugar que ocupamos no planeta.

 

Sustentabilidade não é algo para delegarmos às empresas e cobrarmos dos governos. É, antes de qualquer coisa, uma questão de cultura e cidadania. Como consumir, como votar e participar da construção das políticas públicas é a questão vital para a vida em sociedade e para a construção da democracia.

 

Leonardo Brant - Publicado em Cultura e Mercado

 

 

 

 

Experimente ler: A VIDA DOS ANIMAIS , de J. M. Coetzee - Companhia das Letras

tags:
publicado por ardotempo às 03:18 | Comentar | Adicionar

Mariana Ianelli e Treva Alvorada

Mariana Ianelli lança o livro de poemas 'Treva Alvorada'

 

Filipe Couto -  Jornal do Brasil

 

“Vazio de quanto amávamos,/ mais vasto é o céu. Povoações/ surgem do vácuo./ Habito alguma?”. Com estes versos de Carlos Drummond de Andrade, Mariana Ianelli abre o seu Treva Alvorada. Feliz referência que dá ao leitor atento uma das chaves necessárias para adentrar o universo – filosófico e lírico – dessa que é uma das mais belas vozes da poesia contemporânea.


Para aproveitar plenamente a leitura dos textos de Mariana, não basta conhecer os referentes míticos (explícitos e implícitos) que permeiam os 45 poemas do seu livro. Não basta, também, deter-se nas metáforas, tão sutis quanto impactantes, que surgem naturalmente no seu texto. É preciso perceber o cuidado com que ela tece cada verso, cuidando discretamente da cadência rítmica, mesmo adotando o verso livre. É preciso perceber o aproveitamento dos elementos mais prosaicos, que criam uma ponte entre o concreto e o inefável. É preciso, sobretudo, perceber que a poesia de Mariana Ianelli nasce do conflito, do contraste.


É no tal vácuo, anunciado por Drummond na epígrafe do livro, que se encontra a motivação lírica da autora (“Deixa-me te ouvir/ No pulso do silêncio/ E que eu não perca/ Em desavença/ O indício do teu passo”). É no desejo de refletir sobre o espaço entre o ser e o não-mais-ser que nasce a sua poesia. Uma poesia que, curiosamente, observa de perto a morte para, finalmente, encontrar a vida.


É por isso que, ao lermos cada página da coletânea Treva Alvorada, vivenciamos o paradoxo de tudo e nada saber: a irresistível vontade de buscar as entrelinhas, de buscar um sentido, um norte que, verdadeiramente, não há (“Eu, a quem faltava uma seta/ E sobravam direções”). Nesse processo de “escavação do ar”, estruturalmente reforçado por uma sintaxe fragmentada, realiza-se a fusão entre a perenidade e perecimento, o que possibilita múltiplas leituras e expande as possibilidades simbólicas da produção, incentivando releituras (“Procura as mãos/ Que te cavaram para fora,/ Inaugurando o teu passado,/ Imiscuindo-te entre a fome e o frio”).


Só quando chegamos à última das nove sequências (ou “povoações”) que compõem o livro, entendemos que o percurso produzido pelo eu-lírico não é linear, mas cíclico. Não se parte de um início para se chegar a um fim. Não se propõe uma reflexão que solucione as indagações filosóficas sugeridas ao longo de toda a obra. Pelo contrário, parece haver uma negação do aprendizado recolhido, o que incita o leitor a voltar à primeira página e repetir o caminho em busca de detalhes (“Como se de novo pairasse/ No mundo/ A solidão do primeiro homem”). É a morte que traz a vida; é a vida que traz a morte. Curiosa construção que revela, ainda mais, a capacidade da autora de sondar o íntimo do ser humano.


Isso é particularmente interessante porque a poesia contemporânea realmente carece de um teor mais humanístico. Preocupada em ser diferente, em escrever o que ainda não havia sido escrito, ela questionou a si mesma, abraçou conteúdos críticos e sociais, experimentou novas linguagens e, pelo que se vê, deixou de lado temas clássicos, fundamentais para que o homem entenda a si mesmo e, a partir disso, ao mundo que o cerca. O amor e a morte, Eros e Tânatos, tornaram-se referentes secundários, elementos adjuntos de uma poética distante de seus princípios básicos.


Treva alvorada faz parte de um conjunto de livros que, publicados por diferentes autores nos últimos anos, tentam resgatar, de forma consciente ou inconsciente, esses fundamentos líricos. Num mundo cada vez mais acelerado, maquínico e mercadológico, Mariana Ianelli nos oferece a contramão, a “Absurda leveza que te faz afundar/ e não é a morte”, para que nos tornemos todos “Náufragos do tempo” (versos do poema que dá título à coletânea). É a reflexão que ela quer e que seu livro nos exige.

 


Felipe Couto - Professor de literatura brasileira e portuguesa. Autor de Breves cantares de nós dois. Publicado no Jornal do Brasil RJ Brasil

tags: , ,
publicado por ardotempo às 02:31 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

Pesquisar

 

Julho 2010

D
S
T
Q
Q
S
S
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
15
16
28
31

Posts recentes

Arquivos

tags

Links