Terça-feira, 08.06.10

Poeta maior

 

Ferreira Gullar, poeta maior

 

A atribuição do Prémio Camões – no valor de cem mil euros (metade dos quais pagos por Portugal; metade pelo Brasil) – a um escritor cuja obra, no seu conjunto, contribua para o enriquecimento do património literário em português, gera todos os anos entusiasmos e incómodos na comunidade cultural lusófona. Independentemente dos méritos de quem ganha, há sempre a desconfiança de que os critérios do júri são mais da ordem da diplomacia – e do equilíbrio de forças dentro do espaço da língua comum – do que da literatura. A edição de 2010 não deverá ter escapado a esta tendência.

 

Na passada segunda-feira, antes do anúncio oficial feito pela ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, o júri – composto por dois brasileiros (António Carlos Secchin e Edla van Steen), dois portugueses (Helena Buescu e José Carlos Seabra Pereira), um moçambicano (Luís Carlos Patraquim) e uma são-tomense (Inocência Mata) – esteve reunido durante duas horas. À partida, era previsível que o vencedor fosse brasileiro ou português, uma vez que em 2009 o Camões foi para o poeta cabo-verdiano Arménio Vieira e a lógica rotativa (nunca admitida) do prémio implicava um regresso ao território das duas maiores potências da CPLP. Se os jurados brasileiros defenderam com empenho a causa de Ferreira Gullar, autor que Secchin, um dos “imortais” da Academia Brasileira de Letras, já tinha de resto proposto como candidato ao Nobel (em 2002), os representantes portugueses no júri tudo fizeram para que a distinguida fosse Hélia Correia. A decisão foi difícil e tomada por maioria, prevalecendo a ideia de uma maior urgência em premiar Gullar (n. 1930) do que a autora de Lillias Fraser, 19 anos mais nova. "Quase demos o prémio para a Hélia Correia e teria sido muito bom também, mas ela tem tempo", admitiu Edla van Steen no fim da conferência de imprensa em que foi lida a acta do júri, na qual se sublinha "a alta relevância estética da obra de Ferreira Gullar, em especial a poesia, incorporando com mestria tanto a nota pessoal do lirismo quanto a defesa de valores éticos universais".

 

 

 

 

Único editor de Ferreira Gullar em Portugal, Jorge Reis-Sá considera que a atribuição do prémio é “inteiramente justa”, até porque volta a distinguir a poesia brasileira, vinte anos exactos após o Camões atribuído a João Cabral de Melo Neto. Hoje a trabalhar no grupo Babel, Reis-Sá publicou em 2003, nas Edições Quasi (entretanto falidas), as mais de 500 páginas da Obra Poética completa de Gullar. Na altura, teve oportunidade de visitar o poeta na sua casa do Rio de Janeiro, na companhia de Eucanaã Ferraz, e recorda um homem “inteligentíssimo”, correcto e afável, “um gentleman”. Entretanto, a tiragem de mil exemplares da Obra Poética esgotou e Reis-Sá gostava muito de reeditá-la, embora não saiba se depois do prémio isso será possível. As Quasi publicaram ainda, em 2005, um outro livro de Gullar de que Reis-Sá se orgulha: Um Gato chamado Gatinho, volume de poemas infantis, “lindíssimos”, com ilustrações de Joana Quental. Alguns desses poemas foram cantados ao vivo por Adriana Calcanhotto, versão Partimpim, num concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

 

Além de poeta, Ferreira Gullar (pseudónimo de José Ribamar Ferreira) foi ou é também cronista, crítico de arte, dramaturgo, ensaísta, biógrafo, tradutor e guionista. Em 2008, o volume Poesia Completa, Teatro e Prosa (Nova Aguilar) reuniu uma produção literária de quase seis décadas em 1264 páginas – do seu livro de estreia (Um pouco acima do chão, 1949) às memórias do seu exílio (no tempo da ditadura militar), passando pelas várias fases da sua evolução como escritor, do experimentalismo ao neoconcretismo, da torrente visceral de Poema Sujo (1976), uma obra-prima que evoca a infância em São Luís do Maranhão, aos versos em que se comprometeu com as lutas sociais e políticas do seu tempo, nunca abdicando do rigor absoluto da linguagem.

No livro de ensaios Indagações de hoje (1989), Ferreira Gullar escreveu: «a palavra que forma o poema sempre foi, no meu entender, uma entidade viva, nascida do corpo, suja sabe-se lá de que insondáveis significados». E o ensaísta Ivan Junqueira, no prefácio à Obra Poética editada pelas Quasi, sintetizou: “Se examinarmos a poesia de Ferreira Gullar desde 1954 até agora à luz de sua tessitura estilística, chegaremos à conclusão de que poucos autores entre nós alcançaram tanta e tamanha coerência interna, tanta e tamanha fidelidade às suas origens de artista que se dispôs a transgredir as fronteiras do sistema da língua”.

 

A consagração do Prémio Camões foi precedida por outras distinções importantes no Brasil, como um Jabuti, em 2007, e o Prémio Machado de Assis, pelo conjunto da obra, em 2005. No próximo mês de Setembro, quando completar 80 anos, Ferreira Gullar lançará um livro de poemas inédito, Em Alguma Parte Alguma (José Olympio), o primeiro desde Muitas Vozes (1999), volume onde se podem ler estes três versos que de certa forma resumem a sua arte poética: “Meu poema / é um tumulto, um alarido: / basta apurar o ouvido.

 

Publicado no blog Bibliotecário de Babel

 

publicado por ardotempo às 02:21 | Comentar | Adicionar

A excelência usa cortiça

 

Franceses fazem campanha em defesa das rolhas de cortiça

 

Nos últimos 15 anos o uso de rolhas de cortiça em vinhos caiu consideravelmente. De sua posição dominante no mercado com 95% ela caiu para 70%, sendo agora substituída por tampas de plástico e de alumínio.

 

Reagindo a uma tendência do mercado, a Apcor - a maior produtora de cortiça do mundo - iniciou uma campanha internacional de 20 milhões de euros.

 

Uma das principais mensagens da campanha será a de que técnicas têm sido desenvolvidas para diminuir cada vez mais as chances de um vinho se tornar "arrolhado". Isso acontece quando a cortiça, por ter características maleáveis, contém imperfeições que podem alterar o aroma e até mesmo o gosto da bebida.

 

A Federação Francesa de Cortiça também tem feito a sua parte para que a tradição de séculos não seja abandonada. O órgão fez inúmeras pesquisas sobre a preferência do consumidor e chegou à conclusões animadoras. De acordo com os estudos, nove em cada dez franceses preferem a rolha de cortiça em seus vinhos e oito em cada dez associam a cortiça a bebidas de qualidade. 

 

A questão ambiental também é um importante fator a favor da rolha de cortiça. As pesquisas da federação mostraram que o material produz dez vezes menos emissões de carbono do que as tampas de plástico e 26 vezes menos do que tampa de rosca.

 

Em 2009, 11.300 milhões de rolhas foram vendidas no mundo, uma queda de 3,5 por cento em relação ao ano anterior. 

 

 

 


 

 

Publicado no Universo Online / UOL

publicado por ardotempo às 02:16 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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