Domingo, 25.04.10

Bola de cristal, em HD e 3D no seu computador

O que vai passar na TV amanhã?

                                                           

Roger Lerina

                                                          

Como será a televisão do futuro?

 

Previsão não é meu forte – não consigo antever sequer minhas próximas férias. Mas, mesmo que eu fosse um Nostradamus, palpites sobre o que está por vir em assuntos tecnológicos costumam ter um prazo de validade muito curto – e qualquer prognóstico que eu faça aqui pode caducar antes mesmo da publicação do livro OS TELEVISIONÁRIOS. No entanto, é possível especular a respeito da televisão de amanhã sem necessariamente posar de profeta.

 

Um dos caminhos, por exemplo, é imaginar como você gostaria que a TV fosse daqui a, digamos, 15 anos. Dando uma boa polida na sua bola de cristal, dá pra arriscar alguma antevisão – e com certa tranqüilidade, se você tiver o bom senso de se deixar guiar pelas tendências anunciadas hoje.

 

Então vamos lá: em 2025, boa parte dos 8 bilhões de habitantes do planeta vai estar conectada em bandas de alta velocidade. E, ao que tudo indica, o telefone celular será também o televisor, o computador e o aparelho de som das pessoas. Isso quer dizer que, se quiser, você poderá ver tevê a qualquer hora em praticamente qualquer lugar.

 

Mais: ninguém vai precisar esperar um determinado horário pra ver o programa desejado – toda a grade de atrações das emissoras poderá ser acessada a qualquer momento. Em casa também toda essa informação (TV, internet, som, vídeo) vai estar conectada no mesmo sistema – o que, além de trazer facilidades, provavelmente vai também amplificar um problema doméstico já clássico: cada membro da família deverá ter seu próprio aparelho, sob pena de alguém que fique de fora dessa “inclusão digital” achar-se no direito de armar uma revolução em casa contra os próprios irmãos ou pais na pela posse do controle do equipamento...

 

Acho que podemos dar como certo ainda, nos próximos anos, uma interatividade do telespectador mais participativa do que apenas escolher a programação a qualquer hora, ou ver seus próprios vídeos exibidos em atrações da TV como programas de auditório e noticiários. Com as rapidíssimas conexões via fibra ótica e satélite que não param de aumentar em número e velocidade – a Alemanha, por exemplo, já cobriu 98% do seu território com banda larga de ao menos 1 MB –, qualquer cidadão poderá entrar ao vivo em um canal de TV de onde estiver, mostrando imagens de casa, acidentes, eventos esportivos e artísticos, desastres, entrevistas e o que mais as emissoras tiverem interesse. Aliás, o próprio conceito de “emissora televisiva” deve mudar bastante: como ocorre hoje na internet com a coexistência de grandes portais com blogs, fotologs, páginas pessoais e redes sociais, os canais de TV como nós conhecemos, mantidos por empresas de comunicação, dividirão (ciber)espaço e audiência com canais cuja programação pode ser totalmente produzida por gente comum com suas câmeras e celulares – algo como o YouTube e assemelhados, mas com um perfil mais parecido com o dos canais comunitários. Ainda em termos tecnológicos, a televisão em 3D será outro atrativo a ser popularizado em breve.

 

Da mesma forma que a indústria do cinema anda investindo pesado na terceira dimensão a fim de recuperar seu público, a TV vai na mesma direção – a ambição parece ser levar para a sala dos lares a sensação de realidade quase tátil de filmes como “Avatar”, projetada por monitores cada vez mais finos e maiores, lembrando as telas de cinema.

 

O futuro da TV como eu imagino, portanto, será excitante: na parede de casa em telões imensos ou na palma da mão em telinha de pequenos celulares em qualquer lugar, exibindo superproduções hollywoodianas em 3D ou uma pegadinha registrada no casamento da cunhada, transmitida por fibra ótica ou satélite, a televisão continuará sempre nos fascinando com suas imagens virtuais tão reais.

                                                                                                                                

Roger Lerina – Especial sobre OS TELEVISIONÁRIOS (inédito) para o blog ARdoTEmpo

Imagem: Fotografia de Gilberto Perin, especial para ilustrar parte da capa de Os TeleVisionários, de Walmor Bergesch

 

publicado por ardotempo às 23:08 | Comentar | Adicionar

O tempo é o tesouro... para a reflexão, para criar, para viver

 

 

Elogio da preguiça

 

 

João Ventura

 

Saint-Germain-des-Près foi para mim, durante os dois anos que vivi em Paris, o meu bairro artúrico (como a rua imaginada e percorrida por Rimbaud que, no final do seu trajecto, dava para o fim do mundo:«só pode ser o fim do mundo se avançarmos»), onde se concentrava toda uma mitografia que levei comigo, sedimentada nos lugares imaginados da minha atracção parisiense. Neste bairro, que naquele tempo me foi oferecido como um pequeno território secreto, tracei com passos repetidos uma cartografia pessoal feita de ruas estreitas, passagens cobertas, pequenas livrarias, galerias de arte, estúdios de cinema, cafés, um mercado de rua, pequenos jardins…

 

Era ainda o tempo em que, por exemplo, ao virar de uma esquina, podíamos encontrar os filhos do mundo que sonharam viver em Paris. Nesse tempo, era possível, invariavelmente depois 14h 30, hora a que fechavam as agências de emprego, cruzarmo-nos com Albert Cossery, o escritor egípcio que nos anos quarenta aqui desembarcara com pouco dinheiro e tendo como única bagagem uma selecção de contos, Os homens esquecidos de Deus, que Henry Miller acabava de publicar nos Estados Unidos e que o editor Edmond Charlot pretendia publicar em França. Não trazia outra ambição que não fosse a de escrever um livro de oito em oito anos, à média de uma frase por semana.

 

Na rua de Seine, que começa perpendicular à rua de Saint Sulpice e desce até ao quai Malaquais, no quarto 58 do hotel La Louisiane cujas janelas davam sobre uma mercearia - frequentado na época por Gréco, Sartre, Beauvoir, Mouloudji… -, escolheu Cossery o seu único lugar de escrita, o espelho perfeito de alguém que apenas pretendeu gozar a vida, o reflexo de uma obra que elegeu o dandismo indolente como processo de reflexão permanente, povoada por mendigos filósofos, ladrões magníficos e preguiçosos impenitentes. Como Gohar, Gala ou Ossama, as suas personagens rebeldes que cultivam a pobreza para não ter nada a perder, Cossery baniu da sua existência os bens mundanos e elegeu a preguiça como arte de vida e instrumento de resistência contra a vanidade dos seus contemporâneos: «Se eu tivesse guardado tudo o que me ofereceram, seria milionário. Quando Giacometti me dava um quadro, ele sabia que eu o venderia no dia seguinte. Isso permitia-me viver durante algum tempo».

 

Porque um quarto de hotel não é uma casa, só ali, sem casa nem carro a atestar a sua presença sobre a terra – apenas alguns livros de Dostoievski, Nietzsche, Stendhal, Baudelaire, Rimbaud, Thomas Mann… - Cossery se sentia livre, praticando a indolência e a meditação que os seus livros celebram. «Não se trata, pois, de preguiça. É tempo de reflexão. E quanto mais preguiçoso fores, mais tempo tens para reflectir. E é por isso que, no Oriente, isso se designa por filosofia oriental… A maior parte das pessoas tem tempo. Quanto mais se desce para sul, mais encontramos profetas, magos, pessoas que reflectiram sobre o mundo». E foi aí, nesse pequeno quarto de hotel na rua de Seine, que Cossery, iluminado pela gaia ciência de Nietzsche, escreveu com toda a ternura do mundo sobre as misérias insondáveis das vielas do Cairo, nos anos quarenta, cinquenta. Embora nunca mais tenha regressado ao Egipto – «O Egipto nunca me deixou» -reinventou-o mais verdadeiro que o verdadeiro, com os seus mendigos e altivos, desesperadamente pobres, preguiçosos e indolentes.

 

Terá sido em Paris que, talvez, me tenha cruzado um dia com este elegante profeta da contemplação, transportado dos cafés árabes do Cairo, onde a vida corria livremente, temperada com um pouco de haxixe. Claro que nos meus dias de Paris, Saint Germain já não era o que fora nos anos brasa de Cossery, embora a brasserie Lipp e todos os outros locais frequentados por Cossery ainda lá estivessem. Mas estava menos Cossery e, sobretudo, já não estavam os seus amigos, Camus, Genet, Louis Guillouxx, Mastroianni, Ferreri. Imaginei-o aí instalado com a sua corte, em frente dos azulejos do pai de Paul Fargue. Ou, no outro lado do boulevard, no Café de Flore. Ou sentado numa cadeira no Jardim do Luxembourg, observando a única coisa de que a sua língua viperina não poderia dizer mal, as árvores: «Eu não gosto do campo. Não posso dizer mal das árvores». Mas foi no Café de Flore, onde o procurei algumas vezes e por ironia nunca o encontrei que melhor o imaginei.

 

 

 

 

Nos anos oitenta, o Flore já tinha sido colonizado por uma fauna de turistas literatos nostálgicos que perscrutavam ansiosamente a mesa onde Sartre escreveu A náusea ou o canto onde Roland Barthes se refugiava a ler o Le Monde. Poucos procuravam a sombra de Cossery cuja existência ignoravam, e muito menos o seu estatuto de escritor deslocado, marcado pela heráldica do desapego e da indolência, e tão fora da gesticulação literária e mundana. Mas a mim, fascinava-me imaginar, no meio da clientela extravagante alheia ao literário, a figura aristocrática de Cossery contemplando a rua através da esplanada envidraçada do café, talvez meditando sobre o seu último livro que publicaria em 1999, As cores da infâmia, em que continuaria a denunciar implacavelmente «a face ignóbil e grotesca dos poderosos da terra», o que levou Henry Miller a afirmar que a sua obra era «uma surpresa total. É o género de livros que precedem as revoluções e engendra a revolução, se é que as palavras possuem algum poder».

 

Para mim que, recentemente, li quase de seguida alguns dos livros de Cossery [Mendigos e altivos, Mandriões do vale fértil, A violência e o escárnio, Uma conjura de saltimbancos, Os homens esquecidos de Deus, Uma ambição no deserto, As cores da infâmia, todos editados pela Antígona], as suas palavras sobre a gesta dos anti-heróis das ruas do Cairo, continuam a sinalizar as paragens do meu itinerário de leitura. Isto porque, tal como Ahmed Safra, o condutor de eléctricos de A casa da morte certa, que só se detinha nas paragens que lhe apetecia, também eu só me detenho em livros embebidos na tinta da vida e, por isso, capazes de agitar o pensamento.

 

João Ventura - Publicada no blog O leitor sem qualidades

 

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publicado por ardotempo às 21:02 | Comentar | Adicionar

PAPÉISPOEMASDEMANABERNARDES

Poemas manuscritos sobre papéis artesanais - por Mana Bernardes

 

 


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publicado por ardotempo às 20:01 | Comentar | Adicionar

MANABERNARDESESCREVEUMPOEMA

Mana Bernardes

 

 

publicado por ardotempo às 15:00 | Comentar | Adicionar

Um poema

 

Josafá

 

 

Um trem some na noite,

Já não sabes 

O que nesta viagem 

Te aconteceu.

 

O olho cego de Deus

Ilumina os campos nevados,

A brancura de nada saber

Te faz bem.

 

Moves-te 

Num ventre de áspide,

Move-te a vontade de outrem.

Tua complacência viaja.

 

Tua complacência,

Uma fúria

Que o vagar das sombras

Enterneceu. 

 

Não há tua história,

Tua estrela no peito, teus bens.

Há um rosto fixo e mudo.

Teu nome é ninguém.

 

 

 

 

 

 

 

© Mariana Ianelli (Inédito) - Treva Alvorada - Iluminuras, 2010

 

publicado por ardotempo às 13:56 | Comentar | Adicionar

Toneladas de dióxido de carbono na atmosfera

Cultura do automóvel

 

Leonardo Brant

 

Desisti do carro há quase 3 anos. A decisão veio acompanhada do desligamento do serviço de telefonia celular, da TV por assinatura e de uma reforma alimentar que eliminou produtos industrializados, carne, café e bebida alcoólica dos meus hábitos. Um processo de desintoxicação, que visava, acima de tudo, expurgar os males da civilização. Queria me proteger da sociedade de consumo – e do espetáculo. 

 

Sob forte inspiração de Gandhi e influência direta de Lia Diskin, da Palas Athena, posso resumir minha busca numa palavra: práxis. O mal estar da pós-modernidade havia se materializado em mim de forma irreversível e concreta por meio da incoerência absurda entre o que penso e o que faço.

 

Weber já apontava para essa interdependência entre o nosso comportamento como gerador daquilo que nos aprisiona. “Somos assombrados pelos monstros que criamos”, reforça Edgar Morin referindo-se ao imaginário social construído pelas religiões e, sobretudo, pela mídia. Sair dessa lógica, no entanto, é bem mais difícil e complexo do que simplesmente abrir mão dos fetiches, dos instrumentos de representação – e de coerção – já arraigados nos modos de vida dessa sociedade.

 

 

Há duas semanas fui convidado a abrir um seminário sobre educação para o trânsito e mobilidade urbana, na Unicamp. Ali, tentei fazer uma conexão direta entre a cultura do automóvel e a indústria cultural. Parti da minha experiência pessoal, das mudanças provocadas no meu dia-a-dia, mas sobretudo pelo imbricamento entre o tecnologismo capitalista, aqui representado pelo automóvel, como seu símbolo supremo, e a cultura de consumo, exarcebada pela “sociedade do espetáculo”.

 

Parti de um diálogo entre a ideia de cultura, sua origem etimológica, explorada em meu novo livro, O Poder da Cultura, e a contraposição entre cultura matrística e cultura patriarcal proposta por Humerto Maturana, em Amar e Brincar, editado, não por acaso, pela Palas Athena. E a cultura do automóvel como uma espécie de síntese imagética dessa cultura patriarcal, baseada na competição, no status, na busca do poder, da distinção, da privatização do espaço público, e o consequente modelo de desenvolvimento decorrente dessa cultura.

 

Mesmo sendo o meio menos eficaz de locomoção no espaço urbano, o automóvel representa um dos maiores itens no orçamento familiar do brasileiro médio e um dos maiores custos para a sociedade, pois exige grandes investimentos de infraestrutura. Isso sem contar a conta ambiental e no sistema de saúde, já que o acidente de automóvel é uma das maiores causas de morte no mundo.

 

Mesmo assim constitui a base do nosso projeto desenvolvimentista, símbolo do governo JK, de Itamar e até mesmo de Lula, que utilizou o incentivo ao consumo de automóveis como um dos principais agentes provocadores da resistência do país à crise financeira. Ao mesmo tempo que estimulava o endividamento da família brasileira, aumentava os impostos da atividade cultural, que segundo pesquisas do próprio governo, gera mais empregos que a indústria automobilística.

 

Mas há também uma interdependência entre indústria cultura e do automóvel. Adorno nos deixou a seguinte provocação em seu clássico texto sobre “A Indústria Cultural” (1947):

 

A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da sociedade alienada em si mesma. Os automóveis, as bombas e o cinema mantêm coeso o todo e chega o momento em que seu elemento nivelador mostra sua força na própria injustiça a qual servia. Por enquanto, a técnica da indústria cultural levou apenas à padronização e à produção em série, sacrificando o que fazia a diferença entre a lógica da obra e a do sistema social.

 

A competição, o individualismo, a busca de status, a opção pelos grandes amontoados urbanos e a consequente exclusão das vias de acesso àqueles que não possuem automóveis, são urgências do homem civilizado contemporâneo. A busca incessante por informação, o acúmulo do know-how, a via expressa. O carro potente, veloz, automático, seguro, confortável, tornou-se uma espécie armadura que protege o “homem de bem” das inseguranças do século XXI.

 

A via asfaltada, a velocidade, a pressa, são necessidades contemporâneas fabricadas por nosso modelo civilizacional. O automóvel torna-se o fetiche supremo, uma espécie de falos coletivo que move, como nenhum outro objeto, em direção ao abismo dos sentidos.

 

Vivemos num vácuo de significados. O ato do consumo nos conforta, nos dá a segurança e a autoconfiança para continuarmos em frente, fazendo aquilo tudo que já não acreditamos, mas já não temos força ou uma nova utopia que nos redirecione.

 

O único antídoto que eu conheço para esse vazio é preenchê-lo com arte e cultura. Da boa e também da ruim. Daquilo que eu gosto e do que eu duvido. Um pouco também daquilo que só os loucos, os sonhadores e atrevidos têm condição de nos mostrar.

 

Enquanto for presa fácil dos meios de comunicação, com sua publicidade e o seu marketing, e da cultura oficial, com demagogia e populismo crescentes, o cidadão, de bem ou do mal, só verá esse vazio aumentar. E gerar os desequilíbrios e distúrbios imaginários que vivemos atualmente.

 

Seis meses depois religuei o celular; hoje utilizo o automóvel da minha companheira em situações específicas, uma ou duas vezes por semana; bebo moderadamente e estou em busca de uma clínica de reabilitação para viciados em cultura e café. Se alguém aí souber, por favor me avisa!

 

Leonardo Brant

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publicado por ardotempo às 13:42 | Comentar | Adicionar

A cidade no pampa

Porto Alegre e seu rio

 

 

 

Gilberto Perin - Porto Alegre em abril - Fotografia (Porto Alegre RS Brasil), 2010

publicado por ardotempo às 13:24 | Comentar | Adicionar

Praça da Sé da China

São Paulo da China

 

 


 

 

Itaci Batista - Sé / São Paulo - Fotografia (São paulo SP Brasil), 2010

publicado por ardotempo às 13:20 | Comentar | Adicionar

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